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Aldir Blanc

ARTISTAS DA RUA FUTEBOL E REGATAS

Contar, cantar, dizer, escrever, lutar, resistir, Aldir. Aldir Blanc era um verbo, sim senhor. Verbo do cotidiano. E no cotidiano do Rio de Janeiro, da sua Vila Isabel querida, da sua Rua dos Artistas (coincidências não existem), não haveria de faltar a pelada, não haveria de faltar o time da rua. A crônica a seguir é… é o que vocês quiserem que ela seja, assim como a pelada é o que se quer que ela seja.

Aldir era – era, vírgula – É CRAQUE!

 

Uma crônica de ALDIR BLANC


Foi num domingo desses em que a gente fica na porta do buteco encarnando no alheio, fazendo psiu pra mulher boa, soprando que ela era a nora que mamãe sonhou, se verde é assim que dirá madura, qual o telefone do au-au, lembrando samba na caixa de fósforos, disputando batida no palitinho… Foi num domingo assim.

– Rua sem time não é rua de respeito.

Pronto. Penteado falou, tá falado. No segundo seguinte, tinha gente escolhendo o nome da agremiação, bolando as cores da camisa, o desenho da bandeira, pensando nas coxas da futura madrinha “do onze“, e a Sede? Vamos correr a lista pela vizinhança, a maior atividade. Bom, despontou, de Vila Isabel para o mundo, o Artista da Rua Futebol e Regatas, ARFR, embora nego ali só remasse em dia de enchente ou porre total. Vai ver foi esse o motivo da Sede ficar no buteco mesmo. A camisa era rubro-negra-tricolor-anil-amarela, com uma cruz de malta roxa no peito, porque a maioria, modéstia à parte, era Vasco. Pramadrinha, Isolda, a da saia justa, musa pra Parnaso nenhum botar defeito. E, escolhidos a dedo os que levavam jeito, a ADEG informa: no gol, osso duro prointernacional Daniel da Ponte Nova, o Ceceu Rico, que não gostava de festa, atuando de boina basca, óculos raibam, suéter carinhosamente tricotado pela vovó Odete, bermudas cáqui, meias soquete e sapatos sociais, numa das mãos um programa de corridas de cavalo e na outra um taco de sinuca, esportes que, no sábio dizer do Ceceu, estão sempre presentes. Atrás da baliza, uma garrafa da famosa Não pode ser 1 x 1.

Passemos à zaga, estilo antigo: Esmeraldo Simpatia é Quase Amor e Pelópidas, a tranquilidade em pessoa, que a posição exige isso. No meio-campo, coisa de deixar o grande Danilo boquiaberto, atuavam Bimbas, Penteado de centeralfe – a mais ilustre posição que o futebol conheceu – e o Mudinho. Pra finalizar, o tenebroso ataque: WaldyrIapetec, Tuninho Sorvete, Laindauro, Ambrósio Gogó de Ouro e…

Pois é. Não tinha ponta-esquerda. Por incrível que pareça, ninguém na Rua dos Artistas pegava firme com a canhota. A discussão foi uma zona. Parecia a Câmara, o Senado, por aí. Até que lembraram de um cara da Gonzaga Bastos que calçava 44 e se intitulava Canhoteiro I, mistura de canhoto e canhão, cheio de banca.

– Canhoteiro I porque lá no São Paulo tem outro. É apenas o II.

Trouxemos a fera. Contrato fabuloso pra época: ele cumpria o dever na ponta, e a gente pagava a despesa de bar depois do jogo.

E assim, com uma senhora camisa de sete cores e uma bandeira onde se destacavam duas garrafas cruzadas sob o bonde 74 bordado à mão, estreamos, ARFR, em Cachambi. O time dos hôme tinha uma retranca bem armada: canivete, peixeira, garrucha… madeira de dar em doido. A menina-dos-olhos da torcida local era o Chanca, lateral-direito.


Um 0 x 0 desses de arrepiar. Com uns trinta minutos do segundo tempo, sem ainda ter encostado o pé na bola, Canhoteiro I gritou dá e foi lançado por nosso fabuloso centeralfe. O ponta e seu marcador lutaram pela bola – a socos e pontapés – mas nosso atleta conseguiu centrar.

Lindauro entrou de cabeça e faturou. Devido ao calor da luta, Chanca e Canhoteiro caíram num buraco, no meio de um capim alto tipo estupro e só regressaram dez minutos depois.

Chanca apareceu meio sem graça, cheio de marcas roxas no pescoço e, atrás, com um rebolado estranhíssimo e uma flor na boca, vinha o Canhoteiro I, que, ao entrar em campo, todo rasgado, deu vários passos de balé. Pra vergonha do Artistas da Rua Futebol e Regatas, nosso craque foi expulso em seguida por ter tacado um beijo de língua no goleiro adversário. Passando pelo bandeirinha, o tresloucado ciciou:

– Sai Canhoteiro I, nasce uma estrela.

Apesar do vexame, e com um homem a menos, CeceuRico e a caninha seguraram, com defesas milagrosas, a vitória. E, no finalzinho, quase que o Penteado enfia outro de patinete, jogada de sua criação que iludia totalmente os adversários, troço de circo.

A vitória foi muito comemorada na sede. Nada empanou o brilho da festa. Nem mesmo a chegada de Canhoteiro I de braço dado com o Chanca.

Ainda levamos bem uns cinco jogos com a boneca na ponta, antes dela viajar pra Europa com o espetáculo de travestis “Brazil Salvaguardas Follies”.

Não tínhamos adversários. Inacreditável o rendimento daquele ataque. Que, por exigência do próprio ex-Canhoteiro I, era anunciado assim: Waldyr Iapetec, Tuninho Sorvete, Lindauro, Ambrósio Gogó de Ouro e Viveca Lindfors. 

A natureza humana é um mistério

 

  

Crônica extraída originalmente do livro Rua dos Artistas e arredores, editado e lançado pela editora CODECRI em 1978

 

ALDIR BLANC, ETERNO CRUZMALTINO

por Wesley Machado


“A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”! Assim termina a letra de “O Bêbado e o Equilibrista”, música de Aldir Blanc, da sua frutífera parceria com João Bosco. A canção, do LP “Essa Mulher”, de Elis Regina, lançado em 1979, se tornaria o hino da Anistia da Ditadura Militar no Brasil naquele ano.

Mas como continuar o show agora sem Aldir Blanc? Ainda mais que ele não era afeito a shows. Lembro de tê-lo encontrado uma vez na Cantareira de Niterói quando lá eram realizados shows culturais às terças-feiras no início dos anos 2000. Eu estudava Cinema na UFF e tive a oportunidade de assistir a muitas destas apresentações, uma delas de Aldir Blanc, uma raridade.

Criado na casa dos avós em Vila Isabel, bairro boêmio do Rio de Janeiro, Aldir Blanc resolveu colocar o nome de uma das filhas de Isabel. Ironia do destino foi num hospital de Vila Isabel, o Pedro Ernesto, que Aldir Blanc veio a falecer na madrugada desta segunda-feira (04/05) aos 73 anos por complicações da Covid-19. Ele havia dado entrada e sido internado no dia 10 de abril na Coordenação de Emergência Regional (CER) do Leblon com infecção urinária e problemas respiratórios e o quadro se agravou levando-o ao óbito.

Além da clássica “O Bêbado e o Equilibrista” com Elis Regina, outros sucessos foram “Mestre Sala dos Mares” e “Dois prá lá, dois prá cá”, ambas também na voz de Elis; entre outras, a linda “Resposta ao Tempo”, gravada por Nana Caymmi e que foi tema de abertura da minissérie “Hilda Furacão”, que inclusive foi mulher de Paulo Valentim, ex-jogador do Botafogo, do Atlético-MG e do Boca Juniors da Argentina.

Como o tema aqui é futebol, passamos então à relação de Aldir Blanc com o futebol, mais especificamente com seu Vasco, o time do coração dele. Aldir Blanc escreveu, em parceria com o jornalista e historiador José Reinaldo Marques, o livro “A Cruz do Bacalhau”, da Coleção “Camisa 13”, da Editora Companhia das Letras. O Vasco foi tema de várias crônicas que escreveu para diversos jornais. Suas crônicas foram tema de uma dissertação de mestrado em Letras, obtido em 2013 por Luis Eduardo Veloso Garcia.

Chegou a afirmar em 2007 em entrevista ao Jornal O Globo: “Se o Vasco for para a Segunda Divisão, serei Vasco. Se for para a Terceira Divisão, serei Vasco. Se o Vasco acabar, serei Vasco”. Aldir Blanc é autor ainda da música “Coração Verde e Amarelo”, composta para a Copa de 94 e que se tornou o jingle oficial da Rede Globo e é veiculado a cada Copa do Mundo.

Da sua música “De frente pro crime”, mais uma parceria com João Bosco, do disco “Caça à Raposa”, de 1975, a frase “Tá lá um corpo estendido no chão” ficou famosa nas narrações de Januário de Oliveira. 

“Nada sei de eterno” é o título de uma música composta em parceria com Sílvio da Silva Júnior e defendida por Taiguara no Festival Universitário da Música Popular Brasileira. Uma coisa, eu sei e posso dizer, Aldir Blanc: Você é eterno, como o Vasco da Gama!

71 ANOS DE POESIA


No dia em que o vascaíno Aldir Blanc completa 71 anos, recordamos uma historinha bem legal que o rubro-negro Moacyr Luz nos enviou: 

“Quem mora na a Tijuca sabe. Se o sujeito mora na Muda, na Usina, costuma dizer pro condutor:

– Depois da Rua Uruguai. E foi assim que o Aldir aceitou minha carona…

Eu, emocionado com a sua presença na minha Variant, balbuciei:

– Eu também!

Tinha acabado de me mudar pro bairro.

Alta madrugada, cruzo a rua de referência, e o gênio-poeta acena:

–  Moro ali, terceira à direita, Rua Garibaldi.

Tremi:

– Eu também!

Nos olhamos com riso de trama:

– Qual o prédio? O de grades em volta?

Eram seis da manhã. Entramos na garagem, fumamos um maço de cigarros, guimbas pela janela do carro, e assim ficamos, vizinhos por 23 anos.”

 

Nascido e criado no Estácio, bairro do Rio de Janeiro, Aldir se mudou para a Tijuca e começou a compor aos 16 anos. Após abandonar a faculdade de Medicina, em 1973, voltou toda sua atenção para a música, sobretudo MPB, e o sucesso foi quase imediato.

 A parceria com João Bosco rendeu lindas canções como “A Nível De”, “O Bêbado e a Equilibistra”, “Nação”, entre outras. O talento não demorou a ser reconhecido e o craque participou de dois Festivais Internacional da Canção e do Festival Universitário da Música Popular Brasileira, sempre bem colocado.

No seu 50º aniversário, lançou o disco comemorativo “Aldir – 50 anos”, com a participação de Betinho, Edu Lobo, Paulinho da Viola, Danilo Caymmi e Nana Caymmi.

Se já não fosse o bastante, em 2006, publicou um livro de crônicas chamado “Rua dos Artistas e Transversais”. Sempre retratando o Rio e o Brasil, Aldir é, sem dúvidas, um dos maiores letristas da música popular brasileira.