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Alberto Lazzaroni

NASCIDO PARA BRILHAR

por Alberto Lazzaroni


Equipe do Bahia campeão brasileiro de 1959. Léo é o terceiro agachado (esq. p/ dir.)

Vamos viajar para a Bahia, mais precisamente para a cidade de Itabuna, bem no meio da cultura do cacau. Se Itabuna é famosa por ser a terra natal de Jorge Amado, falaremos de um outro grande personagem nascido por lá: Léo Briglia. Imaginem vocês nascer numa família rica, filho de um coronel do cacau, em plena Itabuna, no início do século passado. Conseguiram imaginar? Pois bem, isso aconteceu com ele. Filho do lendário coronel Chico Briglia que, no contexto histórico da época, mandava “soltar e prender” quem quisesse, ele ousou desafiá-lo e, contra a vontade do pai, deixou de lado os estudos e foi ser jogador de futebol.

Léo era daquelas pessoas que sonham com algo e, para realizá-lo, vão em frente contra tudo e contra todos. Observado jogando numa preliminar de Bahia x América-RJ, não pestanejou: veio fugido para a capital federal jogar pela equipe rubra. Após dois anos no Rio de Janeiro, aconteceu algo inusitado. O América foi disputar um amistoso em Ilhéus e Léo decidiu visitar os irmãos. Moral da história: foi preso pelo próprio irmão, que era delegado, com a anuência do pai.


Léo recebendo a faixa de Campeão Brasileiro

Após alguns anos trabalhando “obrigado” na fazenda do pai, Léo não desistiu do futebol.  Continuou jogando por equipes de menor expressão da região e consegue retornar ao Rio de Janeiro em 1956 para jogar no Fluminense. No tricolor carioca sofreu com a concorrência de Waldo (simplesmente o maior artilheiro da história do clube) mas conseguiu mostrar seu valor a ponto de ser convocado para a Copa do Mundo de 1958 realizada na Suécia. No entanto, lesionado, acabou cortado, sendo substituído por Dida. Sobre esse episódio, Léo falava resignado que, apesar de ruim, foi graças à sua contusão que Pelé foi para a Copa e o resto todo mundo sabe.

Tinha fama de boêmio e mulherengo. Dizem as más línguas que era companheiro de boemia de Garrincha. Por conta desse histórico, ao retornar à Bahia, ninguém queria saber dele. Tentou sem sucesso jogar no Vitória. Investiu então no Bahia e a resposta também foi negativa e enfática: velho e boêmio. Foi aí que surgiu a figura do treinador Geninho que, à exemplo do que fizera Gentil Cardoso no ano de 1946 no Fluminense no episódio Ademir Menezes, disse: deem-me Léo Briglia e seremos campeões brasileiros. O ano? 1959. O resto, a história registrou. O tricolor da Boa Terra tornou-se o primeiro campeão brasileiro e Léo o artilheiro da competição com oito gols.


Casamento com Selma

Léo faleceu na sua Itabuna querida em fevereiro de 2016. Passou os últimos anos da sua vida na Ponta da Tulha, uma colônia de pescadores, junto aos amigos que considerava verdadeiros. Modernizou o local, levou energia elétrica e mandou construir uma igreja na comunidade. Léo não foi santo mas, em vida, mostrou toda a sua alegria e empatia. Como bem lembra a filha Fátima: “meu pai era um homem muito amoroso. Por onde passava, ninguém ficava triste”. Morreu feliz.

COM O DESTINO NAS MÃOS

por Alberto Lazzaroni


Rio de Janeiro, anos 50. A então capital da República era uma cidade bem diferente da que conhecemos hoje. Eram os anos subsequentes ao fim da Segunda Guerra Mundial e vivia-se a esperança de novos tempos. Tempos de paz e prosperidade.

Desde a sua fundação, a cidade sempre teve como característica marcante o fato de ser aberta ao mundo, de receber pessoas das mais variadas origens. E foi ali, no então aprazível bairro do Rio Comprido, que se estabeleceu um filho de imigrantes sírios. Seu nome? João Elias. Ou simplesmente Elias. Ou ainda Cachimbo, por conta do amigo inseparável.

Elias era uma figura ímpar. Sujeito alto, forte e decidido, não gostava de ficar esperando as coisas acontecerem. Ele ia literalmente à luta para realizar os seus objetivos. Era chofer de táxi. Ou melhor, era “O” chofer tamanha a seriedade com que encarava o seu ofício, o que inspirava todos à sua volta. Aqui vale lembrar um detalhe inusitado: à época os taxistas tinham que usar um uniforme, que era camisa branca e calça e gravata pretas. A camisa dele vivia furada por conta das brasas do cachimbo.


Apaixonado por futebol e com tamanha liderança, não tardou a buscar novos voos. O América FC, tradicional clube tijucano, abriu suas portas para ele e, com a mesma maestria com a qual guiava seu táxi, conduziu o time de veteranos a grandes conquistas. Mas Elias queria mais. Não deixava de pensar na família. Criou então um time de futebol de salão (hoje futsal) do qual faziam parte os três filhos. Os dois mais velhos eram realmente bons de bola mas o caçula não jogava nada. O que fazer? Deixar de fora? Nem pensar. Não titubeou: vai virar goleiro.

E aí o destino se encarregou do restante. Os dois mais velhos não deram sequência na carreira de jogador de futebol. Já o caçula é ninguém menos que o grande Nielsen Elias. As mãos que seguravam o volante inspiraram as mãos que seguravam a bola. Dois homens fortes. Dois homens de bem.

O destino estava literalmente em suas mãos.

Bate-pronto: essa coluna é uma declaração de amor de um filho para o seu pai. Serve para nos mostrar o quanto podemos ser inspiradores fazendo o simples, o básico, qual seja fazer sempre com amor. Obrigado Nielsen Elias por me dar essa oportunidade.