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Zico II

20 / fevereiro / 2022

O GALO CANTA ALTO

texto: Mauro Ferreira | vídeo: Daniel Planel

É necessário recorrer aos mestres. Para escrever ou falar sobre Zico, não se pode usar qualquer ajuntamento de palavras ou frases; não se pode simplesmente obedecer regras básicas de pontuação. Uma história de superlativos não permite o trivial, o comum, o corriqueiro. Embora para ele suas obras de arte sejam de simples execução, para os pobres mortais é algo impossível de realizar.

“Eu vi dois zagueiros me marcando. A bola deu uma quicadinha, passou um pouco de mim e eu trouxe ela de volta com a lateral do pé. Passou na altura da cintura dos dois e eles não podiam fazer nada. Depois, foi só tirar do goleiro”. Diria mestre Armando Nogueira: “E a bola, coladinha no pé, parecia amarrada no cadarço da chuteira. Um gol de enciclopédia”. É necessário recorrer aos mestres!

Mesmo que sejam invejosos.

Luís Fernando Veríssimo, torcedor do Internacional, para fugir do reconhecimento, elevou o craque à categoria de “entidade abstrata criada pelo inconsciente coletivo do Maracanã”. Mero distanciamento de quem queria fingir não ver o que estava estampado em vermelho e preto. Melhor seria, Veríssimo, acompanhar Fernando Calazans: “Se Zico não ganhou uma Copa do Mundo, azar da Copa do Mundo”.

Pois é. Faz tempo que as tardes de domingo ficaram mais pobres em sorrisos. Faz tempo. Mesmo assim, a tal entidade do Veríssimo flana entre o abstrato e o concreto. O tempo não lacra a caixinha do imaginário, crianças de pouca idade, ainda com menos de 10, envolvem o 10 mais famoso do Flamengo pra pedir um rabisco em papéis, camisas, bonés, seja lá o que for. É a impressão, um carimbo eterno em algum objeto que ocupe espaço de honra em alguma parte da casa. Um “eu consegui”.

Quando Zico parou de jogar, Sergio Cabral sentenciou: “Adeus, Zico. Nós vascaínos, tricolores, botafoguenses etc., dormiremos mais tranquilos sabendo que uma falta cometida nas proximidades de nossa área não será tão perigosa assim. Que não teremos de enfrentar os seus dribles, seus lançamentos, suas soluções inteligentíssimas para as jogadas mais difíceis, a sua movimentação que o levava, em frações de segundo, da intermediária à porta do gol e aos gritos de “Zico!Zico!Zico!” quando você fazia uma das suas e chutava aquelas bolas que tocavam na rede e batiam em cheio em nossos corações. Em compensação , nós, que tanto amamos nossos clubes quanto o futebol, estaremos com as nossas tardes de domingo mais pobres. E, aí, veja que ironia, teremos saudades de você.”

E põe saudade nisso!
 

 

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