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SAUDADE SEM FIM

7 / maio / 2021

por Marco Antonio Rocha


Da varanda eu vejo o cantinho do quintal onde jogávamos bola. Era apenas um gol a gol, mas pra mim era meu Maracanã. E, ele, meu Acácio, meu Roberto Dinamite. Em uma contramão da vida, foi o filho que fez o amor pelo Vasco ficar mais forte no pai. O Chevette marrom ainda corta a Avenida Brasil com a bandeira para fora, ligando a Ilha a São Januário. É como se o barulho do tecido estivesse para sempre dentro de mim, como as vitórias e até o primeiro pênalti que Geovani perdeu na carreira, na Rua Bariri.

Ele sempre foi muito mais São Cristóvão, Olaria e Quinta da Boavista do que Leblon, Ipanema e Barra. Era na simplicidade que habitava. Na simplicidade do Fusca verde clarinho que dirigia para ganhar a vida como taxista, ainda na Guanabara – sim, a escolha do Yoda seguiu um rigoroso critério, o sentimental, ainda que eu tenha visto aquele carro apenas por fotos. Os caminhos o levaram para a simplicidade de um balcão de botequim, de onde tirou o sustento para formar dois filhos, mesmo que jamais (e talvez até por isso) tenha tido condições de estudar. Ali, na rotina do dia a dia, vendia fiado a quem precisava, na certeza de que jamais receberia.

A infância em Portugal dos anos 30 e 40 não foi fácil. A juventude na década de 60 parecia ainda pior: a Guerra pela Libertação de Angola havia explodido e portugueses eram enviados em massa à África. Ele fugiu para o Brasil, porque heróis são os que evitam a morte: “Ir para o país dos outros para matar? Eu não…”.

Voltou pouco tempo depois à terrinha, para aí sim ter sua maior conquista: o coração da mulher que o acompanharia para além do sempre. Juntos, transformaram-se quase em uma só pessoa. Para ser feliz, poucas coisas bastavam: a alegria dos seus, um copo de vinho e uma tigela de azeitona ou tremoços. Foi na simplicidade do seu quarto, ao lado da mulher que amou por mais de 56 anos, que morreu de surpresa nesta manhã.

É na simplicidade das pequenas lembranças que seguirá vivo, como os jogos de botão enquanto o rádio transmitia alguma partida; os passeios ao zoológico ou ao Museu Nacional; as manhãs no Tivoli; as idas a Portugal e São Lourenço; as sardinhas na brasa; os almoços cheios de abraços aos domingos; as visitas tortas, a distância no quintal, nesta pandemia; o vasinho de pimenta que ainda ontem separou para mim.

Como nos despedíamos a cada vitória do Vasco: saudações vascaínas!

Te amo, pai.

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