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JORGE CURI, DÁ-LHE GAROTO!

13 / abril / 2022

por Elso Venâncio


Não trabalhei com esse gigante da Comunicação, que foi Jorge Curi. Mas foi por pouco. Muito pouco.

No segundo semestre de 1984, a Rádio Globo resolveu fazer uma mudança radical na sua equipe de Esportes. Eu estava havia poucos meses na Rádio Nacional do Rio quando, em agosto daquele ano, Washington Rodrigues me chamou para uma conversa em sua cobertura, no Alto Leblon.

“Assinei com a Globo e vou te levar.”

Aquilo era uma bomba – afinal, vivíamos a ‘Era de Ouro’ do rádio. Em cada esquina, em cada canto, fosse um bar, uma banca de jornal, restaurante, portaria de qualquer edifício, quiosques, nos carros, enfim, em todo e qualquer lugar tinha sempre um radinho ligado. Principalmente quando era dia de jogo.

A Globo apostava em José Carlos Araújo, o ‘Garotinho’, outro fenômeno das transmissões. Ele comandava uma equipe jovem e revolucionária na Rádio Nacional, que se hospedava no histórico edifício que abrigara o jornal ‘A Noite’, na Praça Mauá. Nomes como Luiz Mendes, Deni Menezes, Eraldo Leite, dentre outros, faziam parte daquele timaço.

De repente, Jorge Curi assina com a Tupi. Waldir Amaral e João Saldanha seguem para a Rádio Jornal do Brasil. Chego à Globo já sem este trio na casa.

Durante a minha adolescência, saía de Campos dos Goytacazes para assistir a alguns clássicos no Rio, sempre com o radinho de pilhas colado no ouvido. O sinal da Rádio Globo ricocheteava pelo Maracanã. Na geral, era comum aparecer alguém com um rádio enorme ligado a todo volume. Curi, rubro-negro fanático, revezava com Waldir Amaral, que com sua categoria, anunciava:

“No segundo tempo, o narrador ‘padrão’ do rádio brasileiro…” – nisso, a vinheta entrava forte:  “Jorge Curi!”

Gol do Flamengo era com ele mesmo. Especialmente os de Zico:

“Falta na entrada da área. Zico ajeita a pelota. Dá-lhe garooooooootooooo!!!!!” – com direito a eco. “Corre pra bola. E é gol. Goooooooooooooooolllll” – incrível como não parava! Que fôlego!

“Zico! Zicaço, aço, aço! Gooooooooooo!!! Zicãããããão. Camisa número 10. Quando eram decorridos…”

A torcida deixava o estádio e eram tantos os rádios ligados que dava a impressão de terem espalhado alto-falantes pelas ruas do entorno do Maracanã.

João Saldanha era o comentarista realmente técnico. Ele avisava:

“Jorge Curi assim narrava o gol do Zico. A multidão parava e alguns torcedores exigiam silêncio: ‘Vamos ouvir o Curi! Olha o Curi!’ Zicaço, aço, aço! Goooooooo! Zico, camisa número 10. A galera vibrava nas ruas como se fosse um novo gol. Que festa!!!”

Mas, voltemos ao Curi:

“Anooooteeeeemmm. Tempo e placar, no Maior do Mundo…”

“Passa de passagem…”

“Ultrapassa a linha divisória do gramado…”

“É a última volta do ponteiro….”

“Fim de papo. Loureiro/Kleber…” – frase que anunciava o fim do jogo e as entrevistas no campo, de Loureiro Neto e Kleber Leite, os repórteres trepidantes da época.

Quando a televisão começou a passar os jogos ao vivo, a paixão pelo rádio ainda era tão grande que o torcedor tirava o som da TV e ouvia pelo rádio.

Curi tinha verdadeira adoração pelo ex-lateral Leandro, do Flamengo. O histórico gol do jogador, no Fla-Flu que acabou 1 a 1 em 1985, foi um dos últimos narrados por ele (o último foi o de Paulinho, que rendeu o tricampeonato carioca ao Tricolor). No sepultamento, em Caxambu, às vésperas do Natal daquele mesmo ano, o locutor vestia a camisa rubro-negra de número 2, enviada por seu ídolo.

Saudades do vozeirão e dos gritos de gol que ecoavam pela cidade e pelo país.

Jorge Curi, eterno ‘Monstro Sagrado’ do rádio esportivo brasileiro.

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