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ESTÁ FALTANDO O UUUUUUUUHHHHH

12 / setembro / 2021

Paulo-Roberto Andel


Das coisas que fazem muita falta daquele Maracanã dos tempos de glória, uma delas era um verdadeiro termômetro do que era assistir a uma partida no palco sagrado do futebol brasileiro.

Ironicamente, ela só aparecia em grandes jogadas que não terminavam em gol. Mesmo assim, servia como uma espécie de atestado de qualidade da partida.

Não podia ser vista, mas muito ouvida, assim como os sinalzões das transmissões dos jogos pelas rádios.

E deixava para sempre suas marcas nas crianças de todas as idades, até mesmo as que há muito deixaram de ser crianças.

Era uma simples onomatopeia, gritada coletivamente e que marcou gerações de torcedores até 2010.

UUUUUUHHHHHHHHHHHHHHH!

O desabafo da torcida a cada grande lance: um defesaço do goleiro, a bola que tocava levemente ou explodia na trave, o chute que passava a centímetros do gol, o zagueiro que tirava a bola em cima da linha, a cobrança de falta perigosíssima.

Tempos de clássicos abarrotados no Maraca, corações a mil, a multidão ensandecida e UUUUHHHH para todo lado. Eram muitos por partida, até mesmo num zero a zero. Como as grandes equipes cariocas eram recheadas de craques, não faltavam lances emocionantes que faziam a torcida pular na arquibancada e na geral. Excelentes chutadores disparavam de fora da área. Para culminar, a saudosa e querida marquise de concreto do Maracanã fazia o som ecoar com força. O UUUUUHHHH era algo tão mágico que era bonito até vê-lo no outro lado, na torcida rival – só não podia se transformar no AAAAAHHHH de alegria após o gol, é claro.

Quantos jogadores foram responsáveis pelo UHHHHHH do Maracanã? É impossível contar, mas a onomatopeia era uma realidade a cada clássico, a cada grande jogo quando os artistas passavam muito perto de fazer suas torcidas explodirem de alegria. O quase gol fazia parte do espetáculo, como se fosse um recado de que a emoção maior estava a caminho.

Em 2010, o Maracanã fechou suas portas por longos três anos, sendo reconstruído para a Copa do Mundo de 2014. Foi modernizado, mas completamente modificado. Ele voltou, mas sua nova capacidade já não permitia as multidões de antigamente. Recebeu importantes decisões e a festa de campeões, mas mudou para sempre. E depois veio a pandemia, silenciando a torcida ausente por necessidade. Mas o que faltou no estádio até 2020 para o UUUUHHHH se tornar raro?

Um pouco de tudo, a começar por gente humilde que fazia do Maracanã a sua vida aos domingos, o público popular que se esgoelava com a beleza do nosso futebol.

Pelo jeito de se jogar, cada vez mais mergulhado em teoremas e carente das nossas melhores qualidades: o drible, o improviso, o inesperado e improvável. Arriscar, chutar, tentar.

Pelo coro imortal da geral, que desapareceu, e da arquibancada – que encolheu.

Pela escassez de grandes artistas da bola. Se pensarmos só na segunda metade dos anos 1970 e começo dos 1980, com muitos UUUUUHHHHS no Maracanã, eis uma breve lista: Roberto Dinamite, Edinho, Pintinho, Rivellino, Paulo Cézar, Carlos Alberto Torres, Júnior, Adílio, Zico, Tita, Lico, Leandro, Marcelo, Mendonça, Reinaldo, Palhinha, Éder, Zé Sérgio, Amaral, Nelinho, Pita, Renato, Marinho Chagas, Marinho, Arturzinho, Cláudio Adão.

E dos goleiros voando para grandes defesas ou mesmo fazendo golpe de vista? Leão, Wendell, Renato, Raul, Paulo Sérgio, Paulo Victor, Zé Carlos, Borrachinha.

A marquise de concreto ajudou a fixar grandes memórias na cabeça de centenas de milhares de torcedores, com aquele som incrível reverberando. É triste saber que ela não mais existe e que jamais voltará.

Resta esperar o fim desta pandemia e, aos poucos, voltar para o Maracanã para reconstruir a festa das torcidas. Ele agora é outro, mas novas histórias precisam ser escritas pela cobertura de acrílico. A memória do UUUUUUHHHHHHH é oxigênio para este esporte que tanto amamos.

@pauloandel

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