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MEU PAI, A AGULHA E A BOLA

9 / julho / 2020

por Simone Magalhães


Oswaldo José de Souza, filho da Rua Oliveira Fausto, pertinho da sede de General Severiano, era botafoguense doente. Daqueles que dava instruções aos jogadores pela televisão, assistia às partidas com radinho de pilha grudado no ouvido e às mesas redondas na extinta TVE, hoje TV Brasil. Sofria a cada partida. Quando o Botafogo perdia, nervoso, ele jurava: “Troco meu nome se continuar torcendo pra esse time!”. Que nada! Nunca abandonou o “Botinha”, como chamava seu time, carinhosamente.

Vavá, para quase todos, e Vavado para a família, nasceu em 27 de julho de 1929. Perdeu a mãe aos 4 anos, mal fez o curso primário. Seu pai não o queria pelas ruas do bairro gazeteando e tratou de arranjar trabalho para o menino. Aos 9 anos, foi entregador de pães. Não deu certo. Largava a cesta num canto da Oliveira Fausto para participar das peladas com os meninos na rua. Aos 13, seu pai o obrigou a ser aprendiz de alfaiate. O garoto nem tinha interesse pela profissão, mas não desacatava o pai que amava.


Como o sonho de ser craque de bola foi frustrado, aos 20 anos ele remava pelo Botafogo. Em barcos com ou sem “patrão”. Se dava bem – ganhou a medalha de bronze na prova clássica Riachuelo, da Federação Metropolitana de Remo ­-, mas não era aquilo o que ele queria. Entrou para o time de futebol amadores do clube do coração. Durou pouco. Tinha que trabalhar muito para ter sua própria alfaiataria. Em 1962, arranjou um sócio para, aí, sim, comprar um conjunto de salas, na Rua da Passagem. Nascia a Oswaldo & Barros Alfaiataria. E os atletas do Botafogo começaram a querer se vestir na estica…

Minhas lembranças mais antigas são de 1969. Tinha jogador que ia buscar os ternos lá em casa – muitas vezes, à noite. Meu pai costurava para o escrete que foi a base da Copa de 70. Jairzinho, PC Caju, Clodoaldo, Gérson…  Eu achava estranha a cabeleira pintada de louro do Marinho Chagas e a barba do Afonsinho – um gentleman. Lembro-me de acordar uma noite e ver um rapaz que me arrebatou – imagina isso, aos 6 anos de idade! – moreno, alto, cabelos cacheados… Quando ele saiu lá de casa, pegou um Dodge Dart vinho, e nunca mais o vi. “Quem era, pai?”, perguntei. “O Wendel, goleiro do Botafogo”. 

Foi um ano tenso. Véspera da ida à Copa do México. Além dos ternos que os jogadores e outros clientes do meu pai pediram, ele ainda fez uniformes da Seleção para Jairzinho e Gérson. Rivellino, aos 45 do segundo tempo, não tinha alfaiate. Por indicação do Canhotinha, ligou para o meu pai. Não dava, estava em cima da hora. Riva demonstrou que não ficou nem um pouco feliz e bateu o telefone.


Mesmo com vida atribulada, Vavá foi campeão, nas peladas do Aterro, como treinador do Doca, um time de amigos de Botafogo. Lembro do Alfredinho, nosso vizinho, que quase se profissionalizou, mas não seguiu a carreira; do Ivan Gonçalves, pai do ex-jogador Robertinho; do canhoto João Carlos; do Carlinhos, da General Polidoro; dos irmãos Ney e Nédio – duas figuras simpaticíssimas.  E do seu Manuel, uma espécie de assistente, caso alguém se machucasse. Estão todos e mais alguns que não reconheço na única foto que meu pai mandou colorizar e enquadrar. Com muito orgulho.

Além do Aterro, papai supervisionava ou era técnico (eu nunca soube bem a diferença…) de futebol de areia. Foi bicampeão invicto dirigindo o São Conrado Praia Club (1968/69), com direito à faixa e placa de agradecimento. Ainda em 1968, foi vice-campeão no Torneio de Pelada Jorge Miranda. No IV Campeonato de Pelada Jornal dos Sports, em 1970, e no VIII, em 1975, vice duas vezes. Na Praia de Botafogo, amigo, das antigas, do Ivo da Rocha Gomes, fundador do São Clemente Futebol Clube, ele participava dando seus palpites. Numa conversa com Lurnel (filho de LURdinha Bittencourt com NELson Gonçalves), Vavá soube da necessidade de um reforço nas estratégias de jogo na praia da Urca. Lá foi ele. Lembro-me do time Guaíba e do falecido ator João Carlos Pedroso, que, nas areias, tinha o apelido de “Dedinho”. E também de outros times, como Radar, Milionários, Dínamo.


Nos anos 1980, meu pai foi chamado pelo Maestro Júnior para reger temporariamente o Juventus, em Copacabana. Ele conhecia Júnior das areias; e Zico, do Aterro, ainda na luta para se desenvolver fisicamente. Vavá era muito introspectivo, mas quando o assunto era futebol falava pelos cotovelos. Acho que uma das últimas informações futebolísticas que tive foi sobre um grande amigo, Garrincha. Ele o encontrou bêbado, sentado no chão, no Tabuleiro da Baiana. Mané insistiu no pedido de um trocado pra “mais uma, só mais uma”. Papai não deu. Chamou um táxi, deixou o dinheiro na mão do motorista e o encaminhou para a casa. Logo depois, num encontro com Nilton Santos, papai profetizou emocionado: “Assim, ele vai morrer logo”. Não deu outra.   

Vavá se aposentou, a lombar dele suplicava por isso. E passou a ir muito eventualmente à praia para ver um jogo. Com a morte da minha mãe, por erro médico, em 2003, ele ficou apático. Confuso, foi constatado que tinha Alzheimer. Contou várias vezes as histórias do passado, como a do calote que PC Caju deu nele, encomendando um terno de tecido caríssimo, que nunca foi buscar. Não tive tempo de registrar tudo. Adoraria dedicar um livro a ele, que foi reencontrar seu grande amor, exatamente dez anos depois, em 17 de fevereiro de 2013.

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