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FLAMENGO DESPREZOU JAIRZINHO

14 / junho / 2022

por Elso Venâncio

Faz pouco tempo, tive a chance de rever Jairzinho, único jogador brasileiro a marcar gol em todos os jogos de uma Copa do Mundo. O papo foi na tradicional feijoada, regada a pagode, do ‘Cariocando’, que está de volta no Catete. Este evento é organizado pelo misto de jornalista e promoter Paulo Marinho.

Foram 7 gols em 6 jogos, e usando a camisa 7, número místico. Deus criou o mundo em 7 dias, 7 são os dias da semana, 7 são as notas musicais, 7 são as maravilhas do mundo, 7 era a camisa do Garrincha, do Túlio Maravilha, do Cristiano Ronaldo… e com a 7 às costas Jair Ventura Filho brilhou no México, marcando 7 gols e popularizando o sinal do crucifixo nas comemorações.

O ídolo botafoguense me falou de seu início de carreira. Estava tão à vontade que, ao ser aplaudido, subiu no palco e cantou ‘Jair da Bola’, música do compacto simples que ele próprio gravou nos anos 70:

“Todo jogador quer ser cantor e todo cantor quer ser jogador”, lembrou.

Nascido em Caxias, Jairzinho foi treinar no Flamengo. Walter Miraglia, técnico dos juvenis na época, o observou durante quatro coletivos.

“Eu não vou ficar, seu Walter? Faço gol em todo treino…”

“Depende da diretoria…”, despistava Miraglia.

Isso foi em 1960. O feiticeiro Fleitas Solich tinha voltado ao clube e, a certa altura, chamou Jair ao lado do campo, na Gávea:

“Garoto, você tem quantos anos?”

“15…”

“Leva jeito, hein…”

Dona Dolores, a mãe do atacante, decidiu se mudar para a rua General Severiano. Jair atuava pelo Paulistano, time amador do bairro. Em um dos jogos, para sua surpresa, seria marcado pelo Nilton Santos. Isso mesmo, o consagrado lateral, mesmo tendo jogos profissionais aos fins de semana, também jogava as suas peladas.

Nilton teve trabalho e, ao final, perguntou se o jovem queria treinar no Botafogo. Jair parecia relutar:

“Só tem craque lá. E tem o Garrincha…”

Em outro jogo, marcado por Rildo, viu que o lateral se irritava ao ver tanta força e correria:

“Vai para o outro lado, sai daqui, menino! Senão te meto a porrada.”

Desprezado pelo Flamengo, virou gandula e resolveu treinar mesmo no Glorioso:

“Me destaquei no juvenil, onde fui tricampeão carioca no início dos anos 60. Logo passei a treinar com os profissionais.”

Foi o próprio Rildo, que se tornou um dos seus melhores amigos, quem insistiu com os treinadores e a diretoria, alertando que Jair, aos 17 anos, tinha mais é que subir.

Nos primeiros treinos, sempre se destacava, marcando gols. Depois, corria para casa, feliz da vida:

“Mamãe, mamãe… meti dois gols!”

Órfão de pai aos 2 anos, ele só tinha Dona Dolores, que não compreendia a empolgação do filho único. Sempre no dia seguinte após os treinos, acordava cedo e comprava o ‘Jornal dos Sports’. Certa vez, leu a manchete do ‘Cor de Rosa’:

“SURGE UM NOVO GARRINCHA”

Dona Dolores começou a se dar conta de que a relação entre Jair e a bola era um caso sério.

O Botafogo de Garrincha, Nilton Santos, Didi, Amarildo, Manga, Quarentinha, Zagallo & Cia. treinava sempre à tarde. De repente, Mestre Didi falou:

“O bagaço, o bagaceiro…”

Meio sem jeito, o garoto olhou de lado, como quem perguntava a si próprio, “Será que ele está falando comigo?”

“Você mesmo! Você vai treinar entre os titulares. Quando eu estiver com a bola, se mexe que te coloco na cara do gol.”

Jairzinho barrou Quarentinha. O ataque titular do Alvinegro virou Garrincha, Didi, Jairzinho, Amarildo e Zagallo.

No período em que jogou três Copas, entre 1966 e 1974, chegou a ser considerado por muitos, em algumas temporadas, como o maior atacante do planeta.

Jair Ventura Filho, 77 anos, é um ídolo eterno do futebol brasileiro!

TAGS: Jairzinho

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