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DANILO, 100 ANOS: SÃO JANUÁRIO RECEBE SUA ALTEZA

1 / dezembro / 2020

por André Felipe de Lima

No gramado, o repórter Jaime Moreira Filho aproximou-se, com um BTP, da RCA, sem fio, para ouvir Danilo, que tivera uma crise de choro. Não conseguiu. Chorou, também.” — Teixeira Heizer, jornalista, em depoimento do livro O jogo bruto das Copas do Mundo, de sua autoria


Campeão Sul-americano 1948 (Acervo Mário Américo)

Em 1945, Zizinho e Danilo Alvim estavam juntos na seleção brasileira que disputaria o campeonato sul-americano. Danilo, porém, na reserva de Rui Campos. Só entrou contra os chilenos quando a possibilidade de título já havia ido para o brejo. O rapaz regressou ao Brasil na esperança de o clube da rua Campos Sales sacudir o elenco e brigar palmo a palmo pelo título estadual. Mas nada disso aconteceu. No final do ano, o treinador uruguaio Ondino Vieira apareceu na sede do América para contratá-lo. Os cartolas americanos botaram a plaquinha de venda: o passe do Danilo valia 300 contos, quantia que dava para comprar casa, carro e até garagem, regozijava-se Danilo. Domingos da Guia estava no Corinthians[1] e tentava a todo custo convencer os cartolas a levar Danilo para o clube paulista. O Botafogo idem, também queira Danilo, e para tê-lo em General Severiano oferecera 90 mil cruzeiros mais o passe de dois jogadores. Os argentinos Papetti e Spinelli estavam na jogada. Danilo gostou da ideia de ir para o Botafogo, os cartolas do América ficaram de pensar na oferta alvinegra. Mas — após um pagamento de 250 mil cruzeiros — sua nova casa seria o Clube de Regatas Vasco da Gama, então campeão estadual de 1945, e invicto! Mas Danilo não era, formalmente, daquele time campeão. Na posição dele figurava como titular o uruguaio Berascochea, o “Bera”, simplesmente. Mas os cartolas estavam eufóricos com a chegada do jovem craque egresso do Américo. Colocaram-no até mesmo na fila para a entrega das faixas de campeão. “Eles estavam na deles, eu estava na minha, e a hora era de soltar foguetes. Aí, não me acanhei: entrei de cabeça. Que fazer? Já estava na fila, recebi [a faixa de campeão]. O pior foi que apanhei justamente a faixa de um titular que não faltara a um único jogo, o pobre Berascochea. Berascochea era um crioulo [sic] fosco, meio índio, meio negrão, cabelo e traços de branco, boa gente, boa pinta, bom apoiador. Quando Bera percebeu que eu estava armando o bote para levar comigo a faixa dele, pulou na frente e gritou não. ‘Pega outra, compadre, que esta é minha!’. Não dava mais para recuar. Meti a faixa dele no meu corpo e toquei pra frente. Assim, escamoteando uma faixa de campeão que não me pertencia, comecei a percorrer a minha longa e frutificante carreira de oito anos no Vasco da Gama.”[2]

A estreia formal de Danilo no Vasco aconteceu no dia 5 de junho de 1946, em um jogo amistoso com o América para levantar fundos que pudessem ajudar ao Vasco a pagar pelo passe do jovem talento. Na época, especulava-se na imprensa que o centromédio Dino, que também brilhara como médio esquerdo, sobretudo no Corinthians, onde formou a célebre linha média “Jango, Brandão e Dino”, teve o passe emprestado ao alvirrubro para facilitar a ida de Danilo para o Vasco. O jogo, realizado em São Januário, terminou 4 a 0 para os americanos, com Dino já vestindo vermelho. Mas a forra viria no dia 12 daquele mesmo mês, e novamente em uma partida amistosa em São Januário. No placar, 5 a 2 para os vascaínos. Com estes dois jogos, o Vasco conseguiu, presume-se, juntar a quantia necessária que atendesse aos anseios dos cartolas do América. Deveria haver um terceiro jogo entre os dois times, mas ele não foi realizado.


Acervo Vasco

Sobre a estreia de Danilo no Vasco, o Museu da Pelada conversou com o escritor e jornalista João Máximo, o biógrafo de Danilo, que narrou a história do craque no livro Gigantes do futebol brasileiro, cuja primeira edição foi lançada em novembro de 1965:

“Na ocasião em que eu o entrevistei para o livro, ele era técnico do São Cristóvão. Eu fui ao campo do São Cristóvão, e entrevistei ele depois de um treino. Foi muito legal, até. Agora, deixe eu te falar uma coisa interessante em relação à minha vida. A primeira partida de futebol que eu assisti na minha vida, o Danilo foi um dos personagens principais dessa partida. Foi um Vasco e América, amistoso, em 1946, eu tinha meus 10 anos de idade. Tive a sorte de ter um tio que me levava para todos os jogos de futebol. Na época não era o Maracanã, você tinha que ter um adulto para levar uma criança a um estádio de futebol. Era tudo muito apertado, muito sem conforto. E esse meu tio era torcedor do América. Ele foi lá, todo feliz da vida — para ver como as coisas foram enganosas para ele como torcedor e para muitos torcedores na época —, porque o América, naquele amistoso, trocava o Danilo pelo Dino, que, como se dizia, era um centromédio, center-half do Vasco. Então, o Dino foi para o América e o Danilo foi para o Vasco. Nessa troca, pelo o que eu vi ali, eu entendia muito pouco das coisas, mas sabia qual era o objetivo desse jogo, porque meu tio me falou, as pessoas achavam que o América tinha feito um grande negócio, porque o Danilo tinha quebrado a perna. Ele era um garoto, que jogava pelo América e era torcedor do América, e fraturou uma perna após ser atropelado na Praça da Bandeira. Ele ficou com uma perna mais curta que a outra, mas que a gente não notava bem vendo ele jogar. E houve essa troca. Só que quem ganhou, na verdade, embora o Dino fosse um bom jogador, foi o Vasco. Ele continuou jogando no América, mas some com o que o Danilo vai fazer no Vasco. O Danilo marcou muito a minha vida, embora eu seja torcedor do Fluminense, e cresci com admiração pelo time do Vasco, numa época em que comecei a acompanhar, ainda muito menino, o futebol.”


Os valores que envolviam a ida de Danilo para o Vasco eram altos para a época: 90 contos de réis de luvas e 2 contos por mês ao atleta. O América levou 400 contos mais a bilheteria daqueles dois jogos contra o Vasco. Investimento que valeu a pena porque deslocaram Ely do Amparo para a lateral-direita e Danilo manteve-se como centromédio [volante] e, posteriormente, grande líder da meia cancha vascaína até 1953. Teve, contudo, de cumprir espinhosa missão no início: ocupar a lacuna deixada por Fausto, a “Maravilha Negra”, centromédio ídolo da torcida nos anos de 1920 e 30. Danilo não decepcionou. Disputou pouco mais de 300 jogos com a camisa vascaína. Seus passes milimétricamente precisos alimentavam um ataque onde sobravam craques. Na primeira leva, Danilo jogou com Isaías, Jair Rosa Pinto e Lelé. Na segunda, com Tesourinha, Ademir de Menezes, Ipojucan, Maneca, Dimas, Chico e Friaça. Um Vasco impiedoso com os adversários, entre os quais o badalado River Plate de Di Stéfano, Labruna e Lostau. A turma da fuzarca não tomou conhecimento dos argentinos e fez do Vasco o primeiro clube campeão sul-americano, em 1948, em Santiago do Chile. Um ano depois da estupenda campanha, Danilo e o Vasco enfrentaram o Arsenal e impuseram aos ingleses a primeira derrota por estas paragens.

Show de bola no gramado e no altar, mas escondido. Contrariando os pais, Danilo casou-se com a ex-bailarina de cabaré Zelinda Tojal, exatamente dez anos mais velha que ele, que incorporou “Alvim” ao sobrenome. O casório na encolha — sacramentado pelo juiz Luciano Álvares Ferreira da Silva — e a lua de mel foram em Vassouras, em junho de 1948. Dias de sumiço que preocuparam a família de Danilo. Até a polícia foi acionada para tentar localizá-lo após queixa do pai ao delegado, pedindo garantias de vida para o filho. Quando o craque reapareceu, já usava no dedo anelar da mão esquerda uma reluzente aliança de ouro. Alcídio e Edite tiveram de aceitar Zelinda como novo membro dos Alvim. Mas muito a contragosto. O casamento estava marcado para o dia 25 de maio, mas Alcídio, na última hora, reteve Danilo em seu escritório. Com isso, o craque não compareceu à pretoria, deixando a noiva esperando-o. Danilo estava “dividido”, segundo reportagem de Jean Manzon[3]. Chegara a cogitar desfazer o casamento para atenuar a rusga com os pais. Mas foi o disfarce que encontrou para ludibriá-los e foi aí que escapou para o casamento às escondidas semanas depois.


Ficha no Vasco

O pai de Danilo abominava a ideia de ver o filho casado com Zelinda. No começo, tentou anular o casamento. Foram tumultos os primeiros momentos de casado do Danilo. “Meu filho, você não é um homem, é um covarde!”, chegou a ouvir do próprio pai impropérios como esse. Ramiro Simões e Seltímio Gavio, amigos de Danilo, foram testemunhas do casamento. Mas para o pai do jogador os amigos do filho não passavam de raptores. Amigas de Zenilda foram à delegacia para desfazer a tese de Alcídio. Danilo casara por livre e espontânea vontade. Após o quiproquó diante dos policiais, Danilo e Zenilda procuraram uma igreja em Olaria. No altar, acenderam velas. Era o primeiro momento de paz do casal.

VASCO E SELEÇÃO; GLÓRIA E TRISTEZA

Danilo exibiu toda a elegância no trato da bola que lhe valeu a alcunha de “Príncipe Danilo”, que viraria até nome para o corte de cabelo que usava, verdadeira febre nas barbearias cariocas. O apelido partiu do locutor Oduvaldo Cozzi, que se encantara com o desempenho de Danilo no campeonato sul-americano de clubes, em 1948, no Chile, armando jogadas para a linha de ataque ou mesmo paralisando os avanços do River Plate, especialmente os que partiam do armador Nestor Rossi e do ponta-de-lança Di Stéfano. Cozzi se inspirara[4] na personagem Príncipe Danilo, da opereta Viúva Alegre, de Franz Lehar, que teve um roteiro adaptado para o cinema, em 1934, tendo o ator Maurice Chevalier como protagonista no papel não de um conde Danilo, mas sim de um “Príncipe Danilo”. Apenas dois repórteres acompanharam Cozzi, a quem coube a cobertura radiofônica da inesquecível e pioneira competição continental: Hélio Fernandes, então repórter da revista O Cruzeiro, e Ricardo Serran, na época editor de esportes de O Globo. “De fato fiquei devendo a existência de meu apelido de ‘Príncipe’ à bondade do amigo Cozzi.”[5]

Pelo clube de São Januário, Danilo foi também campeão estadual em 1947, 49, 50 e 52, comandando o meio de campo do “Expresso da Vitória”, como era chamado o time vascaíno. Mas a conquista mais emblemática foi mesmo aquele campeonato sul-americano de clubes de 1948, o primeiro do gênero no continente, considerado hoje o preâmbulo da Taça Libertadores da América implantada doze anos depois, em 1960. Para Danilo, o “Expresso” vascaíno foi incomparável e seu comandante, o técnico Flávio Costa, um gigante inigualável naquele torneio e em toda a trajetória daquela geração de craques do cruz-maltino:

“Foi um torneio tão importante que transformou nosso time em base da seleção brasileira. A vantagem de ser campeão, numa briga dessas, é que para botar a faixa tinha-se, também, que enfrentar autênticas seleções: a Argentina, representada pelo River Plate de Alfredo Di Stéfano e outros cobras famosos; o Uruguai puxado pelo Nacional; o Chile, pelo Colo-Colo; o Peru, pelo Alianza, de Lima, e o Equador, pelo Emelec, de menor potência, naturalmente, mas defendido por jogadores vibrantes e de fôlego inesgotável. Nessa época, posso garantir, sem nenhum ranço de saudosismo e despeito, que nada foi mais importante no grande futebol brasileiro desse tempo, nem capaz de produzir maior atração onde quer que aparecesse, inclusive no estrangeiro, do que esse time mitológico. Era time demais. Para o que desse e viesse. Apesar de imbatível e do apelido envolvente que ganhou, jamais perdeu a humildade, a consciência da força de que dispunha para triunfar. Sabia, ao mesmo tempo, ser modesto e agressivo, imponente e discreto, brilhante e pau puro. Pronto para dançar conforme a música. Mas sem rebolar. Flávio [Costa] não consentia. E quando Flávio dava bronca, as paredes tremiam de medo. Apesar de sábio e justo, Flávio não perdoava insensatez. Fosse de quem fosse. Aí endurecia. Somente ele mandava e desmandava nos jogadores. Tinha que ser assim. Se quisessem. Se não quisessem, ia embora, de cabeça erguida. Não faltava clube para trabalhar. Foi o melhor, sempre, e por muitos e muitos anos continuará sendo o melhor de todos que eu conheci […] a autoridade de Flávio Costa não se apoiava no poder de aconselhar, apenas aconselhar, mas impor sua vontade acima de conveniências e das intuições pessoais. O admirável dom de Flávio estava em detestar defeitos, e não pessoas […] como o homem não gostava de rebolado, ninguém rebolava.”[6]


Danilo (Revista Goal 1950)

O título internacional de 1948 foi, sem dúvida, o marco mais expressivo de Danilo com a camisa do Vasco, porém, foi em um jogo contra o Flamengo, em 1949, que Danilo talvez tenha feito seu melhor jogo pelo cruz-maltino. Para João Máximo, não há dúvida quanto a isso:

“Houve um jogo fundamental para o campeonato de 1949. Esse jogo foi um Vasco e Flamengo. Para o Vasco era questão só de manter a invencibilidade. E se o Flamengo perdesse aquela partida, ficava mais ou menos fora da luta pelo título, que ficou mais ou menos no final com o Vasco e o Fluminense, mas o Vasco bem na frente do Fluminense. Ary Barrozo, nosso grande compositor, mas também locutor esportivo, e um torcedor do Flamengo mais do que conhecido, foi visitar a concentração do Flamengo na véspera do jogo. Os jogadores estavam lá, jogando dominó, aqueles negócios todos que faziam na concentração. O Ary foi cumprimentando um a um. Ele tinha acesso à concentração do Flamengo na hora que quisesse pela importância que tinha como compositor e torcedor do Flamengo. Ary vai para o Jair Rosa Pinto e diz: ‘Olha, eu apostei uma grande nesse jogo’. Jair, com aquele jeito debochado, irônico, que ele tinha, de gozador, diz: ‘Mas você apostou em quem, Ary?’. O Ary Barrozo ficou uma fera com aquilo, porque, em quem ele apostaria? Era Vasco e Flamengo e, claro, ele apostaria no Flamengo. O Jair não tinha a menor confiança no Flamengo naquele dia. Por quê? Durante a semana o Flamengo fez um treinamento todo pensando no Danilo, que era o seguinte: o centroavante do Flamengo chamado Gringo cairia mais para a esquerda, quase como um meia-esquerda, atraindo o Danilo. No famoso jogo com o Vasco, conhecido como o ‘jogo da camisa do Jair’, o Togo Renan Soares, o Kanela, que também era treinador de basquete e tio do Jô Soares, fez uma tática — segundo o Jair me contou — que era de jogar o Gringo bem para o lado esquerdo para tirar o Danilo daquele meio onde ele ficava. O Danilo estava de olho no Zizinho, de quem era grande rival e amigo pessoal. Como o Gringo era um jogador que marcava gol, um centroavante esperto, o Kanela achou que o Gringo indo para o lado do Jair, o Danilo teria dois caras ali para tentar anular, tentar marcar, e isso, na cabeça do Kanela, ia abrir um buraco no meio para o Zizinho entrar. Nenhum deles acreditou que daria certo. O Danilo não caiu nessa conversa. Foi uma das melhores partidas dele, aliás, e o Vasco goleou de 5 a 2.”

A seleção brasileira também treinada por Flávio Costa foi outro capítulo especial na vida de Danilo, que disputou 27 jogos e marcou dois gols pelo escrete, e sempre treinado por Costa, que tinha no craque o seu homem de confiança em campo. Danilo despontou como peça essencial do meio-campo da seleção campeã sul-americana em 1949. Um indício indelével de que o Brasil caminhava célere rumo ao título mundial que seria disputado no ano seguinte. Danilo tinha todas as credenciais para isso. Era calmo, tinha a dose certa de malandragem — Danilo era um contumaz jogador de sinuca nas concentrações e fora delas — para acalmar ânimos mais exaltados. Jamais se compreendeu porque Flávio Costa não o escolheu para capitão e sim Augusto. Situação que o treinador levara do Vasco para o escrete.


Acervo da Família

Danilo e todos os que fizeram daquela seleção de 50 uma das melhores de todos os tempos viveram, porém, uma tragédia: o maracanazo do dia 16 de julho. Uma derrota de 2 a 1 para o Uruguai na final da Copa do Mundo, de virada, com o Brasil jogando pelo empate. Um Maracanã com 200 mil pessoas chorou copiosamente. Quantos não enfartaram com o ouvido colado ao rádio? Muitos. É de Danilo uma das mais marcantes imagens da dor que marcou o país naquela tarde, sendo consolado por repórteres. Assim, como tantos que estavam em campo, Danilo jamais se recuperaria da derrota, embora sempre negasse isso em entrevistas. Naquela Copa, só não permaneceu durante um jogo inteiro contra a Suíça, partida realizada no Pacaembu. Flávio Costa decidira acalmar os ânimos dos paulistas exaltados por Cláudio, craque corintiano, ter sido preterido da lista de convocados. Nem mesmo Baltazar, que por sua vez era reserva de Ademir, servia de consolo aos corintianos. Queriam Cláudio, que para Danilo era o craque da época. Então Costa escalou Rui Campos, que formava a linha média do São Paulo com Bauer e Noronha, no lugar do “Príncipe”, que fez um comentário conciso, porém preciso, sobre a euforia que embalou a delegação brasileira e os equívocos que destruíram o sonho de um título conquistado dentro de casa: “O maior erro de 50 foi a transferência da concentração para o estádio do Vasco, em São Januário. Estávamos tranquilos na Barra da Tijuca, então um lugar de difícil acesso para o público. De repente os cartolas mudaram tudo, e no campo do Vasco foi aquele inferno. A época era de campanha eleitoral, e não pararam as fotos, as entrevistas, as reuniões com figurões que disputavam cargos […] Na manhã do jogo com o Uruguai a coisa piorou: todo mundo era campeão do mundo, amigo e protetor de jogador A ou B. E tome de fotografia, de discurso, de um movimento digno de feira-livre. Nós, a mercadoria, estávamos apodrecendo e não sabíamos […] Eu já disse que a gente devia colocar uma pedra sobre tudo isso. Mas é preciso falar, transmitir a lição. A questão dos erros técnicos, por exemplo. É claro que Flávio Costa não foi o culpado direto, mas ele teve pecados, como a dispensa de Cláudio, do Corinthians. Depois de Tesourinha. Cláudio era o melhor da época. Aí Tesourinha se machucou e nós ficamos com o Maneca na ponta. Maneca era craque, mas não era ponta. E sua índole não se coadunava com o espírito de uma decisão como Brasil e Uruguai. Na reta final sentiu dores nas pernas. Aí entrou o Friaça […] E o Cláudio acompanhando a Copa como um torcedor qualquer.”[7]


(O Cruzeiro 1948)

A jogatina no banheiro da concentração era o único “lazer” dos jogadores, e isso com a conivência do próprio Flávio Costa. Afinal, estavam todos sufocados por políticos, jornalistas e celebridades apinhados dia a dia na concentração impedindo os craques até de comerem sossegados. Isso tudo teria contribuído para a que a seleção caísse na final. Mas Danilo sempre afirmou o contrário. Nada daquilo prejudicou a seleção. Nem mesmo a história de que no caminho para o estádio o ônibus enguiçou e todos teriam descido para empurrá-lo. “Não é verdade”. Quando o jogo contra os uruguaios acabou, o choro copioso de Danilo era um misto de vergonha e tristeza. Ele estava errado. As horas intermináveis de carteado e o assédio impertinente dos políticos influenciaram na alma dos jogadores. Do Maracanã, junto com a delegação, seguiram para a concentração, em São Januário. Chegaram sob vaias de parte da multidão. Dali, Danilo foi para casa, na Praça João Pessoa, num edifício de esquina, na Lapa, Centro do Rio. Uns vizinhos o vaiavam, outros o apoiavam. Não conseguiu permanecer muito em casa, e na segunda-feira arrumou as malas e refugiou-se no interior. “Quando consegui chegar em casa, foi um problema descer do carro. Quando saltei, parecia que tinha chegado o presidente da República. Vaias. Era eu. Tive que sair do Rio. Fui para Miguel Pereira.”[8]

Para o “Príncipe”, a pouca experiência em decisões foi outro fator que pesou. Ao contrário, os uruguaios — defendia-se sempre Danilo — eram mais cascudos, mais traquejados em finais. “No dia do jogo, já no vestiário, sentindo que deveria advertir o técnico, corri para Flávio e falei: ‘Professor, precisamos tomar cuidado. O pessoal anda meio contagiado com facilidades criadas pela imaginação da imprensa e da torcida, Tenho medo de nos estreparmos.”[9]


(Esporte Ilustrado 1950)

O jornalista João Máximo narrou ao Museu da Pelada o que ouvira de um comentarista já falecido e de quem era amigo que Danilo não deveria ter sido titular na Copa de 50. “E esse comentarista achou que o Ruy deveria ser o titular na Copa do Mundo porque o Danilo era “lento”. Ora, o futebol, na época, era mais lento. O Danilo tinha um jogo compassado. Lembra o do Carlinhos, do Flamengo. Tinha seu próprio estilo, naturalmente, muito bom jogador também, mas acontece que ele lembrava um pouco o Danilo, com aquele jogo de muita elegância e de precisão no passe. O Danilo foi um cracaço. Lembrando esse amigo comentarista, se houve algum erro que o Flávio Costa cometeu na Copa de 50, e é possível até que tenha cometido, esse ‘erro’ não foi barrar o Danilo. Na cabeça dele jamais passaria a ideia de barrar o Danilo.”

O Príncipe garantiu ao repórter Geraldo Romualdo da Silva que Flávio Costa ouviu atentamente o alerta e que exigiu dos jogadores sacrifício extremo em campo. Nada de firula: “No fim, foi o eu se viu. Nada adiantou. Nem havia de adiantar. Estava marcado. Foi um equívoco universal… deplorável.”[10]

O amargurado jogador deixou o gramado sob um choro intenso, que perdurou no vestiário, do estádio à concentração e da concentração a sua casa, um pequeno apartamento na Praça João Pessoa, encravada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Chorava sem parar. Ficou dois dias trancado em sua residência. Sentia-se culpado pela derrota. Tinha a sensação de que o olhavam com raiva na rua. Mas Danilo tinha de recomeçar. O Brasil e o seu futebol tinham também de recomeçar. Um mês após a derrota para os uruguaios, o craque voltava ao Maracanã para disputar um clássico do Vasco com o Botafogo. “Aí é que eu sofri mesmo. Quando saí do túnel, olhei o campo, as arquibancadas, palavra de honra que me arrepiei todo. Ninguém viu e eu estou contando isso pela primeira vez, mas naquela hora eu chorei de novo. Um companheiro, não me lembro quem, aproximou-se e perguntou se eu tinha alguma coisa. Continuei passando a gola da camisa nos olhos e respondi que era só um cisco no olho.”[11]


Danilo Alvim sendo consolado

Danilo estava mal em campo. Era como se só visse pela frente jogadores vestidos de azul celeste e não de preto e branco do Botafogo. Mas reagiria no momento em que um adversário, cujo nome jamais revelara, virou-se para ele e disse: “Vocês entregaram a Copa e ainda querem cantar de galo?”

“Juro que suei frio. Aquilo era demais. Depois fui me acostumando, de tanto ouvir gracejos. Há tanta gente inconsequente e má no mundo que o homem acaba endurecendo, quase virando pedra. Mal sabem que uma desgraça daquelas é capaz de arrasar uma pessoa para o resto da vida. Se a gente vencesse, eu e o resto daquela geração de jogadores estaríamos em outra situação, inclusive financeiramente. Más nós perdemos, e tivemos de recomeçar a vida como verdadeiros principiantes. Caímos do penúltimo degrau, e ninguém apareceu para amparar nossa queda. O destino é cruel. Por que eu não fui campeão do mundo?”[12]

Vinte anos após aquele dia fatídico, Danilo comparou a seleção de 50 com a campeã de 58. Ao repórter Márcio Guedes[13], ele narrou o seguinte: “Você vê. Tanto na seleção de 58 como na de 50, havia uns quatro ou cinco craques e o resto constituído de jogadores de um nível técnico razoável. Creio que o amadurecimento do jogador brasileiro, a experiência anterior de nomes como Didi e Nilton Santos, a liderança de um Zito e o aparecimento de revelações como Pelé e Garrincha foram as razões simples do sucesso de 58, assim como a falta de personalidade, de ímpeto na decisão, as causas do fracasso de 50.”


(O Globo Sportivo)

Ainda abatido pela decepção de 1950, Danilo obteve outros títulos com o Vasco, mas não era a mesma coisa. Não era mais o garoto prodígio dos tempos de América e também lhe faltava fôlego. Reconhecia esse estágio físico, mas acreditava que permaneceria no Vasco ou até mesmo encerrasse a carreira no clube. “Acreditei demais nos homens do Vasco e eles falharam incrivelmente comigo. Eu podia esperar tudo do Vasco; menos que o Vasco fizesse o que fez comigo; menos me deixar de mãos abanando, sem emprego, e o que é pior, sem recursos, sem meios para me empregar. Pedi meu ‘passe’ e não quiseram de dar. Reiterei, formulei apelos constantes, disseram que me responderiam depois. Os dias ia passando. As dificuldades aumentando. Até que o campeonato chegou e não houve mais jeito. Fiquei desesperado, mas resignei-me. Supunha que os diretores voltassem atrás. Uma prova é que não recorri a ninguém, não disse uma palavra de mágoa a quem quer que seja. Sofri em silêncio, calado, sem perceber que estava sendo ludibriado. Sempre supus que o Vasco não me largasse na rua. Sempre pensei que o Vasco também me ajudaria, como ajudou a outros, que o defenderam com carinho e sacrifício. Comigo, entretanto, o Vasco procedeu diferente.”[14]


Com Zelinda e Carlos (Manchete Esportiva, 1950)

Danilo estava profundamente magoado com o Vasco. Dizia que merecia ter recebido o mesmo tratamento dado a jogadores como o lateral-esquerdo Jorge e o ponta-direita Friaça, que receberam o passe livre. Danilo pedia o mesmo, não recebia. Com o impasse, a as regras da federação carioca de futebol o impediam de jogar pelo Vasco ou mesmo outro clube. Seu pai, que era advogado, acompanhava-o frequentemente à sede da federação para tentar liberá-lo do Vasco. Havia clubes interessados. Dentre eles, o Botafogo. Danilo alegava ter defendido o clube por nove anos e que por conta disso mereceria um tratamento mais generoso. Alegava não ter disputado apenas cinco jogos. Ficou fora de três jogos seguidos devido a uma suspensão e os outros dois por contusão e por uma substituição de última hora do treinador. A glória, a fama, os elogios e os sucessivos retratos em jornais e revistas de nada valiam quando os cartolas do clube decidem que o ídolo, o craque, está em fim de carreira. Danilo queixava-se que jamais assinara um contrato vantajoso com o cruz-maltino. O primeiro contrato durou de 1946 a 1948 e rendeu ao jogador 90 mil cruzeiros da época; o segundo, de 1948 a 1950, 120 mil cruzeiros e o terceiro e derradeiro, de 1950 a 1952, 200 mil cruzeiros, com os quais, confessara Danilo, conseguiu comprar sua primeira casa, alguns terrenos — em Niterói, Miguel Pereira e Nova Iguaçu — e um carro. Além de todo esse dinheiro ao longo da carreira no Vasco, Danilo recebia “bichos” por vitórias e salários fixos mensais, que giravam entre dois mil e quatro mil cruzeiros. No dia 26 de setembro de 1954, o Vasco liberava Danilo em definitivo. Era o fim do glorioso ciclo em São Januário.

***

Na quarta reportagem da série DANILO, 100 ANOS, o fim da carreira de jogador e começo auspicioso da trajetória como treinador, inclusive com um inédito título de campeão sul-americano com os bolivianos, maior façanha da Seleção da Bolívia no futebol até hoje.

 

 

[1] A.D.. “Com um pé no Vasco e outro no América”. O Globo Sportivo: Rio de Janeiro, 3 de maio de 1945, p.15.

[2] SILVA, Geraldo Romualdo da. “O príncipe Danilo [I]: Jogou futebol-arte, agora ensina futebol total”. Jornal dos Sports: Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1974, p.12.

[3] MANZON, Jean. “O rapto do campeão”. O Cruzeiro: Rio de Janeiro, 26 de junho de 1948, pp. 28-33 e 90.

[4] ANDRADE, Aristélio. “O príncipe perfeito”. Placar/ Ed.Abril: São Paulo, 26 de janeiro de 1979, pp.30-3.

[5] SILVA, Geraldo Romualdo da. “O príncipe Danilo [III]: Também está de acordo com Cruyff: — Derrota não se chora”. Jornal dos Sports: Rio de Janeiro, 27 de setembro de 1974, p.12.

[6] SILVA, Geraldo Romualdo da. “O príncipe Danilo [II]: Com Flávio, beque tinha que dar chutão. Ninguém rebolava”. Jornal dos Sports: Rio de Janeiro, 26 de setembro de 1974, p.12.

[7] A.D.. “Lições do passado”. In “O drama do príncipe de 50”. Placar/Ed.Abril: São Paulo,  26 de novembro de 1971, pp.26-7.

[8] MORAES NETO, Geneton. Dossiê 50. Ed.Objetiva, Rio, 2000, pp. 83-4.

[9] SILVA, Geraldo Romualdo da. “O príncipe Danilo [III]: Também está de acordo com Cruyff: — Derrota não se chora”. Jornal dos Sports: Rio de Janeiro, 27 de setembro de 1974, p.12.

[10] Idem.

[11] A.D.. “O drama do príncipe de 50”. Placar/Ed.Abril: São Paulo, 26 de novembro de 1971, pp.26-7.

[12] Idem.

[13] GUEDES, Márcio. “A Copa só se ganha com catimba”. Correio da Manhã: Rio de Janeiro, 3 de janeiro de 1970, p.8.

[14] A.D.. “‘O Vasco me faltou na hora mais difícil’”. O Globo: Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1954, p.12.

Saiba mais:

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