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CANAL 100: CEMITÉRIO DA MEMÓRIA?

17 / julho / 2020

por Paulo Marcelo Sampaio


 Quem tem a minha idade ou é um pouco mais velho sabe da emoção que a música “Na cadência do samba”, a popular “Que bonito é…”, consagrada pelas lentes do Canal 100, despertava. Imagens por ângulos jamais captados, closes de jogadores em pé de guerra, craques sendo caçados por chuteiras viris, deuses aplicando seus concertos em câmera lenta; nada disso era perdido pelos cinegrafistas do canal. E assim, gols que eram o delírio de torcedores – tão genialmente retratados também – eram a desgraça de outros, se transformavam com o tempo em patrimônio cultural de um povo.

Pode ter sido em 1993. Quem sintonizava a TV Manchete naquela época tinha chance de assistir um miniprograma que mostrava as pérolas do Canal 100. Como uns times triunfavam sobre outros, criou-se ali, na correria da redação, no meio do ‘fechamento’ do jornal, um clima de concentração de estátua de Bellini.

Num desses dias, perguntei ao apresentador do miniprograma, herdeiro das imagens do Canal 100, quando passaria os 6 a 0 do Botafogo sobre o Flamengo, em 1972. Até porque tinham exibido a revanche, conquistada pelos rubro-negros nove anos depois.  O rapaz flamenguista, sorridente e simpático, desconversava. Até que disse que as imagens estavam guardadas às sete chaves. mas que nunca mais seriam exibidas. Eu até entendi. Dor de torcedor só quem sente sabe o quanto dói.


Soube hoje da revelação dada ao Museu da Pelada. As ditas imagens daqueles 6 a 0 – o baile de Jairzinho e companhia – foram apagadas logo depois da goleada. Para sempre. Eram imagens únicas, exclusivas. Fiquei chocado, não por eu ser botafoguense, mas pelo descaso com a memória. Um gesto tão sem piedade, com a maior desfaçatez, narrado com deboche deselegante, sem o mínimo de arrependimento. Esse crime prova que os documentaristas não eram documentaristas. Eram torcedores travestidos de documentaristas.

Nada mais sintomático que a entrevista do rapaz fosse dada ao Museu da Pelada. Afinal, entrevistador e entrevistado com facetas tão antagônicas. Se o rapaz tivesse trabalhado no Museu da Pelada, nada disso tinha acontecido. Esse gesto – desculpem-me – nada tem de nobre. Nobreza é para poucos.

 

Paulo Marcelo Sampaio é jornalista. Autor de “Os 10 Dez do Botafogo” e de “21 depois de 21”, em parceria com Rafael Casé

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