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ARREPENDIMENTOS

13 / setembro / 2022

por Claudio Lovato Filho

Ontem o filho lhe perguntou:

– Pai, se você pudesse voltar no tempo, o que você não faria de novo?

– No futebol?

– É.

Ele não precisou pensar muito.

A cotovelada.

Até hoje, para tentar atenuar a culpa e o arrependimento, ele costuma dizer para si mesmo que foi uma ação instintiva, que ele na verdade estava apenas se protegendo de uma perseguição insistente, pelas costas, a perseguição de um jogador que todo mundo sabia que não economizava nas entradas violentas.

O cotovelaço deixou o adversário sem sentidos por vários minutos. Ele achou que tinha matado o colega de profissão. Desesperou-se, botou as mãos na cabeça enquanto era empurrado por jogadores do time rival e protegido por seus companheiros. Foram minutos em que ele não queria estar ali, em que não queria ser jogador de futebol.

Quando o jogador atingido começou a se mexer no gramado e recobrou os sentidos, ele, o agressor, já estava sentado no banco de reservas, encoberto (escondido) por alguns membros da comissão técnica, depois de ter sido expulso.

Passou algumas noites com dificuldade de pegar no sono, foi duramente criticado pela imprensa, e a situação só não ficou pior nos dias seguintes por causa da camaradagem que ligava os integrantes daquele grupo ao qual pertencia.

– E aí, pai, tem alguma coisa que você não faria de novo?

– Tem, sim, filho. Senta aqui que eu vou te contar.

O filho se sentou na cadeira ao lado, pronto para ouvir uma história que ele já conhecia. Mas ele queria ouvi-la do pai. Precisava ouvi-la do pai. E agora conseguiria isso, depois de passar muito tempo reunindo coragem para fazer a pergunta que fez.

#

Dos arrependimentos que ele carrega pela vida, existe um que o tem perturbado muito nos últimos dias.

A discussão com o velho.

Aconteceu durante um jogo, à vista de todos.

Estádio cheio, o time perdendo, a torcida vaiando. Então, numa possibilidade de ligar um contra-ataque, ele errou o passe. O velho não era de dar show na área técnica, não era do tipo que tinha chilique, mas naquele momento algum fio deve ter encostado no outro dentro da cabeça dele. O velho esbravejou e ele retrucou. O velho rebateu e ele então xingou, ofendeu, dedo em riste. O velho se calou.

Hoje, muitos anos depois, as palavras que saíram de sua boca naquela briga têm voltado com frequência e ele sabe por quê: a doença do velho, a proximidade da morte do veterano treinador que o puxou da base e lhe deu todas as chances de que ele precisava para encontrar um lugar ao sol.

Ele ainda não sabe exatamente o que vai fazer. Pensa em visitá-lo no hospital, mas não sabe como seria recebido pelos familiares e amigos do velho. Aquele episódio envolveu humilhação. Ele sabe que terá que fazer alguma coisa enquanto ainda é tempo, porque esse arrependimento o está angustiando cada vez mais e ameaçando se tornar algo muito maior do que ele um dia imaginou que poderia ser.

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A esposa acha que foi um erro ter voltado.

– Nossa vida era tão boa lá.

Ela começou a falar essas coisas no dia em que os torcedores invadiram o Centro de Treinamento.

Mais tarde, com as ameaças pelas redes sociais, o discurso dela se acirrou.

– Não quero isso para as crianças. Não quero isso para nós.

Há alguns dias, quando chutaram o carro dele na saída do treino, ela deu o ultimato.

– Chega, né? Não tem dinheiro que pague isso!

Ele ainda tentou argumentar:

– Isso vai passar. É só a gente voltar a vencer.
Ao que ela respondeu:

– E depois, quando começar a perder de novo, vai voltar tudo? Vai voltar do mesmo jeito? Pior?

Ele sabia que não tinha como vencer aquele embate. Quando se tratava de argumentar com a mulher, a coisa costumava ser complicada. Ela tinha o hábito de estar sempre certa, ou quase sempre, como era o caso agora.

Uma pena, ele pensou. Uma pena ter que admitir que foi um erro ter voltado. Seu país não era mais seu, sua cidade não era mais sua, e a saudade que ele sentia era mais de um tempo do que de um lugar. Sim, foi um erro. Mas foi um erro que ele cometeu por ouvir o coração. Sendo assim, um erro que não tinha por que gerar arrependimento.

Honestamente, ele não se arrepende. Não deu certo, mas ele não se arrepende. A realidade sempre se impõe ao sonho. O bom é quando os dois convergem, mas isso não acontece toda hora.

É a vida.

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4 Comentários

  1. Andre R. Junior

    Excelente Textos. Como de Hábito. Parabéns.

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    • Cláudio Lovato Filho

      Obrigado, André. Um abraço.

      Responder
  2. RICARDO MANCHESTER

    Gostei muito os pontos de vista e farias lembranças surem com cada texto ..

    Responder
    • Cláudio Lovato Filho

      Valeu, Ricardo. Abraço!

      Responder

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