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A GERAL DO MARACANÃ

6 / maio / 2024

por Elso Venâncio

O setor representava a paixão do brasileiro pelo futebol

Por mais de meio século, a Geral do Maracanã reunia, de forma democrática, torcedores rivais que se aglomeravam e se confraternizavam, sem brigas, a cada partida. No local surgiam caricaturas de Papas, Padres, Santos, Anjos, Mister M, Batman e Homem-Aranha, além de personagens marcantes, como o rubro-negro ‘Gerdal’, que gritava de forma única e repetida:

“Pra frente, pra frente!”

Gerdal era, sintetizando, o símbolo do geraldino.

Atrás ficavam as cadeiras azuis. Acima, as cabines de televisão e de rádios. Depois, a Arquibancada. Todos viam o jogo de pé, expostos ao tempo. Um fosso estreito separava o torcedor do campo. Chegou a ter 30 mil lugares, os preços eram populares e, apesar do pouco conforto, a visão do jogo era boa.

Nos anos 70 e 80, com o Brasil sendo protagonista do futebol e mantendo seus ídolos, a galera via os craques bem de pertinho. Nos escanteios, então, ficavam lado a lado com Zico, Gerson, Doval, Rivellino, Marinho Chagas, Paulo Cézar Caju, Roberto Dinamite.

O artilheiro ia em direção a este lugar sagrado para comemorar seus gols. Zico disse que tinha vontade de mergulhar naquele mar de gente formado atrás dos gols.

Quando a bola caía na Geral iniciava-se uma pra lá de animada pelada. O setor representava a paixão do brasileiro pelo futebol.

O torcedor colava o radinho de pilha no ouvido. Outros levavam aparelhos enormes de rádio, verdadeiros autofalantes.

Mario Vianna, ‘com dois enes’, comentarista de arbitragem da Rádio Globo, valia-se de binóculos. A cada erro do juiz ele colocava a famosa careca raspada à navalha para fora da cabine e gritava:

“Errou!!! Eu vou descer!!”

Sua potente voz ecoava pelo estádio.

Armandinho, referia-se a Armando Marques, que apitava:

“Eu vou descer!!!”

A Geral interagia, com vaias e gritos de apoio.

“Arnaldo, Arnaldo!!!” – gritava, como se Arnaldo Cézar Coelho fosse ouvi-lo:

“Você errou, Arnaldo!”

“Pênalti mal marcado não entra”, sentenciavam, “Não entra!!!”

Mario Viana era o VAR da época. Decidia o que estava certo ou errado.

Em 24 de abril de 2005, vitória do Fluminense por 2 a 1, com dois gols de Tuta, contra o São Paulo, que descontou com Souza, marcou o fim da Geral. Logo chegaram os grandes eventos, como o Pan-Americano de 2007, a Copa das Confederações de 2013), a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

A FIFA proibiu torcedores de pé e o Maracanã se transformou numa arena esportiva tão semelhante como centenas de outras mundo afora.

Sem a Geral, perdemos muito da alegria, da festa e da confraternização que acontecia no mais importante e famoso estádio de futebol do mundo.

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