AO MESTRE, COM CARINHO

por Mateus Ribeiro

Existem duas coisas que amo na vida: futebol e Ramones. A diferença é que o futebol é mais presente na minha vida (e olha que ouço Ramones todo dia). Posso afirmar com toda a clareza que o esporte bretão é meu maior amor, sem sombra de dúvidas. Desde 1990, minha vida sempre foi vivida em função desse esporte que tanto amei (e hoje praticamente tolero).

Como sempre, fui apresentado ao futebol pelo maior ser humano que esse planeta já viu, o saudoso e imenso Carlos Ribeiro, também conhecido como meu Papai. Desde o que era uma bola até o que é um impedimento , aprendi quase tudo com ele. só não aprendi com ele o ódio que possuo de tudo o que o futebol virou, isso desenvolvi sozinho, e ele era só amor.

Sendo assim, resolvi escrever uma pequena carta de agradecimento aos dois maiores amores que tenho na vida: o futebol e Papai. ambos imortais.

“Caros amigos, gostaria de agradecer, relembrando alguns bons momentos que vocês me proporcionaram. Desde 1990, até o dia de hoje, sempre evoluindo, muito por culpa de vocês dois. Desde meu primeiro jogo até os de ontem, sabe se lá Deus quantas lágrimas derramei por (e com) vocês. Dia após dia, sempre na minha memória.

O tempo foi passando, eu ia me aperfeiçoando na arte de falar borracha (e Papai me corrigia a todo momento) e de ser um torcedor xiita. Inclusive, vale lembrar que o senhor tentou me fazer torcer para o Santos. No início da década de 90, torcer para o time da Baixada não parecia ser um negócio muito atraente para quem estava começando a acompanhar peladas pela TV. Soma-se isso ao fato de eu ser do contra. Me identifiquei bastante com o time que o senhor mais odiou na vida. Desculpas. Se soubesse que o Brasil todo odeia o Corinthians, teria escolhido antes, aliás.

Gostaria de declarar que os melhores momentos que a vida me proporcionou sempre, SEMPRE, foram na companhia de Seu Carlos e do futebol. Desde o golzinho de madeira que o senhor fez, e depois ficou chutando a bola para “testar” (foi a primeira e única vez que o vi chutando uma bola), passando pelo dia que ouvi que o senhor “gostava de assistir futebol comigo pelo fato de um dia ter me ensinado, e naquelas alturas, estar aprendendo”. Vocês não fazem ideia de como me senti, ao saber que o Criador estava feliz com a Criatura. Foi o maior momento da minha vida, e creio que isso orgulhou muito quem me ensinou com todo o amor e paciência que o bandeirinha não fica correndo na beira do campo apenas por correr.

Ah, estava esquecendo do dia que o Corinthians venceu o Chelsea, na conquista do Mundial de Clubes. Estava trabalhando, nervoso, pelo fato do jogo, e pelo Senhor estar saindo do período que ficou próximo da morte no hospital. Assisti ao jogo em uma tela de GPS, fumei um maço de cigarro em 90 minutos, e fiquei feliz. Muito feliz mesmo. Tanto que saí do trabalho, fui até o hospital para lhe visitar, e ouvir sua voz pela primeira vez após semanas de tensão e nervosismo. Ao chegar e pedir a “bença”, ouço do senhor que “até que enfim ganharam um Mundial de verdade”. Eu até pensei em relembrar o senhor que naquele 14 de janeiro de 2000, o senhor comemorou quando o Edmundo mandou a bola na Lua, e foi o primeiro a me dar um abraço. Mas preferi apenas dar risada.

Também me lembrei das manhãs de sábado, quando eu acordava cedinho para ficar com o senhor, assistindo ao máximo de jogos possíveis. Borussia, Bayern, Napoli, Milan, Balotelli, Robben, e a velha corneta pautava aqueles sábados alegres, e repletos de risos e sorrisos. Quando algum acabava, ouvia “O teu, não tem um joguinho não?”. Essa frase sempre foi, e sempre será, uma das coisas que mais gostei de ouvir na vida. Tanto que sempre me pego imaginando ouvir isso novamente. Bons momentos, bons momentos.

Eu sinceramente não sei o que seria da minha vida sem vocês. Nem gosto de pensar nessa possibilidade.

Agora, preciso confessar uma coisa, Seu Carlos. Recentemente, o Corinthians teve um pênalti marcado contra sua meta. O senhor sabe que fico nervoso demais nessas situações. Saí de onde estava para acender um cigarro, e apenas ouvir os barulhos. Assim que acendi, olhei para os céus, e me lembrei de todas as vezes que passei por essas situações ao lado do Senhor. Olhei para os céus, e vi o seu rosto sorrindo. Relembrei de inúmeros pênaltis que foram pra fora, ou que algum goleiro alvinegro defendia, e o senhor me falava “não disse que pegaria?”, além de me dar aquele sorriso. Depois disso, tinha certeza que a bola não entraria. Não entrou. Só posso agradecer. Bom, já fiz isso inúmeras vezes desde 1 de outubro de 2015. Continuarei fazendo.

Tantas e tantas outras vezes, quando assisto, quando escrevo sobre, quando respiro futebol, sinto sua presença, e isso me enche de alegria, orgulho, e até mesmo determinação. Determinação essa que está fazendo o futebol ser parte do meu ganha pão. Isso mesmo, Papai, em breve o teu amado filho voltará para a mídia, como comentarista. A cada palavra, a cada lance, estarei colocando meu coração e fazendo meu melhor, que foi o que mais aprendi com o Senhor.

Seu Carlos e futebol, vocês se confundem na minha memória, e se dividem no meu coração. Fica aqui meu pequeno agradecimento para quem tanto me fez viver. Obrigado por existirem.

Obrigado, Papai, por ter me apresentado o futebol.

Obrigado, Papai, por me ajudar a ser um lutador.

Obrigado futebol, por fazer eu ter descoberto quem foi Papai, e por nos aproximar.”