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Valdir Espinosa

OBRIGADO, ESPINOSA!

por Claudio Lovato Filho


Quando comecei a frequentar o Olímpico, em 1972, aos 6 anos de idade, recém chegado de Santa Maria, onde nasci, ele já estava lá: era o nosso lateral direito. Tinha 24 anos, era cabeludo e costumava usar uma touca peruana que combinava bem com sua pinta de jovem rebelde e com seu nome completo: Valdir Atahualpa Ramírez Espinosa.

No Grêmio ele jogou de 1970 a 1973, e quis a vida que, exatos 10 anos depois de sua despedida do clube como jogador, conduzisse o Tricolor, como técnico, àquela que é até hoje sua conquista mais importante, o campeonato mundial interclubes, comandando um elenco que tinha Renato Portaluppi, Hugo de León, Tarciso, Mário Sérgio, Paulo Cezar Caju e outros heróis de quem a nação azul-preta-e-branca jamais se esquecerá e a quem será eternamente grata.

Há quem diga que o acaso é um dos disfarces de Deus. Espinosa e Renato chegaram a treinar juntos no Esportivo de Bento Gonçalves, cidade da Serra gaúcha. Renato havia começado nos (à época) juvenis (hoje juniores) do clube em 1978. No ano seguinte, Espinosa era o técnico e promoveu Renato, então com 17 anos, ao time principal. Em 1980, quando de uma curta passagem como técnico do Grêmio, Espinosa mandou buscar Renato em Bento Gonçalves. Renato se tornaria profissional do Grêmio em 1982, com Ênio Andrade, mas foi pela mão de Espinosa que o guri endiabrado nascido em Guaporé chegou ao Olímpico, para se tornar, algum tempo depois, uma lenda viva.  

Foi com o Esportivo de Bento o primeiro título de Espinosa como técnico: campeão do interior gaúcho, em 1979. No ano seguinte, depois da já mencionada breve (mas histórica) temporada no Grêmio, foi campeão cearense com o Ceará, e, em 1981, campeão paranaense com o Londrina. Então vieram a Libertadores e o Mundial com o Tricolor de Porto Alegre, em 1983, e, na sequência, a carreira no exterior: foi campeão saudita em 1985, com o Al-Hilal, e campeão paraguaio com o Cerro Porteño em 1987 (repetindo o feito em 1992).

Em 1989 ele daria à torcida do Botafogo um presente havia muito desejado e, por isso, para sempre inesquecível: o campeonato carioca de 1989, depois de 21 anos de fila. Gaúcho de Porto Alegre, foi então adotado pelo Rio de Janeiro. Gremista, passou a dedicar seu amor também ao clube da estrela solitária. Gaúcho e carioca, gremista e botafoguense, como João Saldanha. Gaudérios cariocas. Ambos sem medo de defender suas convicções e de ir em busca de seus sonhos.


No Rio, depois do Botafogo, Espinosa foi auxiliar de Renato no Vasco da Gama, de 2005 a 2007, regressando ao clube da cruz de malta no mesmo ano, como treinador principal. Em 2009 foi novamente auxiliar de Renato, dessa vez no Fluminense, clube do qual também viria a ser técnico. Treinou ainda o Duque de Caxias.

Entre um clube e outro, trabalhou na imprensa esportiva. Foi comentarista dos canais SporTV e PFC, da Rádio Manchete e da Rádio Globo. Sem conseguir ficar longe da “casamata” (como alguns no Rio Grande do Sul ainda denominam o reservado destinado aos reservas e à comissão técnica na beira do campo), Espinosa atendeu em 2016, o chamado de Renato, que voltava a ser treinador do Grêmio, para ser coordenador técnico. Ficou até 2017 e deu uma contribuição decisiva para a sequência de títulos que o clube viria a conquistar, entre os quais o de uma Libertadores da América. Era a segunda vez que Espinosa e Renato conquistavam juntos o título mais importante do continente. Em dezembro de 2019, Espinosa assumiu o cargo de gerente de futebol do Botafogo, seu último trabalho.

Valdir Espinosa morreu na manhã desta quinta-feira, 27 de fevereiro, no Rio de Janeiro, aos 72 anos, por complicações decorrentes de uma cirurgia realizada três dias antes. Seu legado para o futebol deve ser medido não apenas por seus títulos, que foram muitos. Valdir Espinosa deixou para todos nós, amantes do futebol, a mensagem essencial de que sem respeito e apreço pelos companheiros de jornada e sem paixão verdadeira pelo que se faz nenhuma vitória é possível. Pelo menos nenhuma vitória que realmente valha a pena.