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Ubirajara Alcântara

O ‘BOA PINTA’ DO CHACRINHA

por André Felipe de Lima


O técnico Yustrich tinha fama de durão, mas houve um goleiro que o peitou. Foi o Ubirajara da Silva Alcântara, que no auge da carreira (e da beleza) foi cotado para o escrete nacional e favoritíssimo ao título de “negro mais bonito do Brasil”, um disputadíssimo concurso promovido por Abelardo Barbosa, o Chacrinha.

Mas Yustrich não queria papo. Barrou Ubirajara no Flamengo e o proibiu de participar do concurso. Mas o arqueiro boa pinta não estava nem aí para a fama de durão do Yustrich. Foi ao Chacrinha e ganhou o concurso de beleza.

Hoje, dia 27, Ubirajara Alcântara faz anos. Aquele menino que nasceu no Centro do Rio, ainda pequeno integrava o grupo de teatro infantil do Colégio Eurico Dutra. Tinha vocação cênica, mas na veia prevalece o sangue de futebolista.

Com 13 anos, Ubirajara começou a levar o futebol a sério. Iniciou no time de futebol de salão do Greip (Grêmio Recreativo dos Industriários da Penha), da Penha, subúrbio carioca. Foi para o antigo Marvilis e dali para as divisões de base do Flamengo. Aos 20 anos assinou seu primeiro contrato. Em 1967, emprestaram seu passe ao Olaria. Voltou à Gávea e foi vice-campeão carioca e da Taça Guanabara. Em 1969, teve o passe novamente emprestado. O clube da vez foi o Fluminense de Feira de Santana, com o qual foi campeão baiano e talvez o melhor goleiro da história do clube. Voltou para o Flamengo e depois passou por América e Avaí.

Em 1970, quando brilhava intensamente embaixo das traves, Ubirajara fugia ao senso comum entre os jogadores de seu tempo. Estudava inglês e espanhol e preparava-se para estudar Educação Física. Mas, anos depois, acabou formando-se em Direito e se tornando juiz de paz.


“Foram os melhores que me consagraram. O Pelé nunca fez gol em mim. Não tinha Roberto Dinamite, Dé, Jairzinho, Rivelino, Paulo César (Caju), não tinha Pelé. Eu queria que tivessem dez Pelés em uma equipe”, disse em entrevista ao SporTV.

Ubirajara foi realmente um goleiro excepcional. Entrou para a história (e para o Guinness Book, o livro dos recordes) por ser o primeiro goleiro a marcar um gol. O feito memorável aconteceu no Estádio Luso Brasileiro na Ilha do Governador, durante partida do Flamengo contra o Madureira, no dia 19 de setembro de 1970. Ubirajara chutou a bola de sua área e ela cruzou todo o campo até o gol adversário.

Ficou famoso pelo gol inédito, mas também pela beleza. Após sair do programa do Chacrinha com o título de o negro mais lindo do Brasil, Ubirajara posou de modelo e foi assediado por figuras do cinema. A mais proeminente foi Carlos Imperial. Em anos de chumbo no país sob uma impiedosa ditadura, o cinema nacional amargou um bocado. Nas salas prevaleciam as pornochanchadas. Imperial, que era um dos figurões do gênero, convidou Ubirajara para participar de um deles. O goleiro topou.

Quando o quase mítico goleiro russo Lev Yashin, o “Aranha negra”, esteve no Brasil, em 1965, visitou o clube do Flamengo, na Gávea. Reparou, durante um treino do time de aspirantes, em um goleiro alto e ágil. Impressionou-se. Como Ubirajara contou à repórter Márcia Vieira, terminando o treino, antes de ir embora, Yashin virou-se para o rapaz e, naturalmente com a ajuda de um tradutor, disse: “Vai ser o futuro goleiro do Brasil”.

Por muito pouco Ubirajara realmente não foi o melhor. Mas, com absoluta certeza, está no rol dos ídolos imortais do arco rubro-negro.