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Romário

ROMÁRIO: “MEU NEGÓCIO É FAZER GOL”

por Elso Venâncio

Elso Venâncio entrevista Romário antes de um jogo na Gávea

Fui setorista do Vasco, na Rádio Globo, durante o bicampeonato carioca de 1987/88. O senador, hoje com poucos cabelos, a maioria brancos, tinha na época uma cabeleira encaracolada e o apelido de Toddynho.

A imprensa, com acesso direto aos jogadores, ficava ao lado do campo nos treinos e com facilidade escutava o promissor talento cruzmaltino:

– Meu negócio é fazer gol! – repetia sempre.

Foi o único atacante que acompanhei que era verdadeiramente obcecado em marcar gols.

O coletivo começava e era comum os titulares entrarem com somente 10 em campo. O “Baixinho”, aos 22 anos, preferia ficar atrás do gol, onde hoje está a estátua do artilheiro Roberto Dinamite, treinando e se aperfeiçoando nas finalizações. Ademar Braga, o preparador físico, era quem o auxiliava. Trave móvel, sem goleiro, o atacante dominava de costas, virava e batia. Pelo menos, por 30 minutos. Mas diariamente.

Chutes frontais e laterais, cabeceios, piques em diagonal sempre com a bola aos pés. Batia fraco, às vezes forte, vez ou outra colocado, dava fintas com gingas de corpo, enfim, a gente percebia sua satisfação pessoal. Treinamento físico? Arrumava um jeito de escapulir, sair dessa para ficar na sua, apenas batendo para o gol.

O garoto que havia saído do Jacarezinho e morava na Vila da Penha já era folgado. Em um coletivo, o lateral-esquerdo Lira reclamou aos gritos do treinador Sebastião Lazaroni e deu um bico na bola para a arquibancada. O técnico expulsou de imediato o lateral. Romário, amigo de Lira – e que já liderava a artilharia do Carioca –, pegou outra e igualmente a isolou com força:

– Me tira também!

Lazaroni levou todos os jogadores para uma longa conversa no vestiário.

O humorista Tom Cavalcante, logo após o “Tetra” conquistado na Copa dos Estados Unidos, em 1994, lançou uma música que viralizou. O nome, ‘Treinar pra quê?’:

“Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer…”

Nos times em que atuou desde que retornou ao Brasil, Romário sempre deixou claro aos presidentes dos clubes:

– Não bebo, mas gosto da noite. Por isso, só treino à tarde.

Os técnicos, porém, não sabiam do combinado:

– Onde está o Romário?

À tarde, assim que o craque surgia era imediatamente abordado pelo supervisor. De bate-pronto, respondia:

– Pergunta ao presidente…

Muitas vezes, nem à tarde o goleador aparecia. Júlio Leitão, diretor de futebol do Flamengo, cansou de ir até o quiosque Viajandão, na Barra da Tijuca, implorar para que ele voltasse para a Gávea:

– Estou treinando! – argumentava, bem-humorado. Na verdade, jogava futevôlei com alegria, e a cada ponto marcado parecia se lembrar das finalizações que matava todo e qualquer goleiro na área adversária.

Ah… falei sobre o tema porque ainda tento apagar da memória o chute na trave do Gabigol, após passe de Pedro, diante do Athletico Paranaense. Gol enorme! Escancarado! Se praticasse forte esse fundamento, não teria como errar…

*Elso Venancio foi setorista do Flamengo por 11 anos seguidos (de outubro de 1988 a dezembro de 1999) e cobriu a seleção brasileira em 3 Copas do Mundo (1990, 1994 e 1998)

A CONTURBADA DEMISSÃO DE ROMÁRIO

por Elso Venâncio

Uma dos maiores crises que o Flamengo viveu aconteceu depois da derrota de 3 a 1 para o rebaixado Juventude, no Alfredo Jacomi – partida que eliminou o Rubro-Negro do Brasileirão de 1999. Após o jogo, Romário teve seu contrato rescindido.

O ambiente andava carregado. Gilmar Rinaldi, dublê de dirigente e empresário, não mais aceitava as mil e umas regalias do Baixinho. A ida do craque junto a alguns companheiros à Festa da Uva, em Caxias do Sul, não passou de pretexto para a demissão. Todos sabiam que, ao retornar da Copa dos Estados Unidos com status de melhor jogador do mundo, o camisa 11 sempre fez questão de deixar claro a todos os presidentes dos clubes nos quais jogava que, treino para ele, só se fosse à tarde.

A confusão no Sul propiciou que o maior fã que conheci do atacante entrasse em ação. Presidente do Vasco, Eurico Miranda fez uma boa proposta, aceita pelo atacante mesmo sendo inferior ao que vinha recebendo no Flamengo.

Jorge Rodrigues, Grande Benemérito Rubro-Negro e muito querido por todos, chefiava a delegação do clube naquelas duas partidas a serem jogadas no Sul – contra o Juventude, em Caxias; e diante do Internacional, em Porto Alegre. Na volta ao Rio, ainda tentou um acordo entre os diretores e o ídolo. Alugou, inclusive, uma sala no edifício Rio Branco-1, no Centro, para uma reunião.

A confusão era generalizada. Romário tinha batido boca com Gilmar, desafeto de Eugenio Onça, um dos “dirigentes” da Gávea. A demissão do craque, anunciada pelo presidente Edmundo Santos Silva, teve o aval do vice Rodrigo Dunshee de Abranches. Naquele portentoso prédio da Praça Mauá, participaram da reunião Edmundo Santos Silva, Romário, Luizinho Moraes, o representante do jogador, e os dirigentes Júlio Leitão, Betinho e Capitão Léo.

No início da conversa, gritos altos ecoavam do lado de fora da sala. Partiam do diretor Júlio Lopes, que entrou no peito e na raça após ser barrado e ter que encarar e brigar com seguranças. Edmundo Santos Silva foi duro, mas Romário reagiu. Disse que era sujeito homem, mas no fim das contas tudo caminhava para um acordo, apesar do ambiente tenso. Combinaram, contudo, uma coisa: ninguém iria falar com a imprensa. Melhor deixar a poeira baixar. Tudo certo, o Baixinho voltaria a treinar na semana seguinte.

O curioso é que três participantes da reunião não saíram pela porta da frente. Da garagem subterrânea surgiu um carro com Júlio Leitão ao volante. O veículo foi imediatamente cercado pela imprensa. Ao lado dele estava o agente de Romário, mas… cadê o artilheiro? Sumiu! O maior ídolo brasileiro da época, hoje Senador da República, saiu – acredite se quiser – no porta-malas daquele carro. Para evitar contato com os jornalistas.

A novela, porém, não teve final feliz. O presidente do Vasco, informado da possível reconciliação, não perdeu tempo e contra-atacou. Foi direto encontrar Romário:

– Eu honro a minha palavra…

A resposta do goleador foi a seguinte:

– Quero dois milhões de dólares por ano!

Eurico deu uma baforada no charuto e sentenciou:

– Te dou dois milhões e meio. Melhor, três milhões.

Fim de papo, estava pra lá de selado o acordo. Romário esqueceu o Flamengo e voltou a São Januário 11 anos após sua ida à Europa. No começo do ano seguinte, durante o Mundial de Clubes que o Corinthians ganhou em pleno Maracanã, reviveu com o “animal” Edmundo a dupla de ataque de cinco anos antes. Assim como os mesmos problemas que tiveram quando no Flamengo.

Aliás, mesmos problemas que seguem tendo até hoje. Mesmo longe dos gramados.

DOIS ÍDOLOS, DUAS ESTÁTUAS E QUASE 2 MIL GOLS

por Elso Venâncio


Romário me disse, quando deixou o Barcelona para jogar no Flamengo, que era muito grato a Roberto Dinamite:

– Esse cara me ajudou muito. Quando subi para os profissionais, ganhei confiança para marcar gols graças aos lançamentos dele.

O ex-zagueiro rubro-negro Mozer gosta de lembrar:

– Eu marcava duramente o Roberto, não dava espaços para ele, até que certa vez ele me provocou: ‘Tá metendo a porrada, né? Vai ver agora… Olha bem pra esse garoto” – disse Roberto, apontando para o Baixinho com o dedo indicador.

Na lateral do campo estava Romário, que tinha acabado de assinar a súmula e se aquecia para entrar, aos 20 minutos do segundo tempo.

Romário foi para o campo a mil. Em pouco tempo, recebeu ótimo passe de Roberto e marcou o gol da vitória.

Quando jogou com Romário, o ídolo Roberto já tinha mais de 30 anos. Passou a atuar mais recuado, metendo toda hora na cara do gol o garoto que surgia feito um furacão, saindo como um raio em diagonal da esquerda para o meio.

Acompanhei os dois de perto durante o bicampeonato carioca que o Vasco conquistou entre 1987 e 1988. O time que levou o primeiro dos dois títulos era surreal: Acácio, Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Dunga, Geovani e Tita; Mauricinho, Roberto e Romário. A equipe que entrou em campo no jogo do bi também deixa saudades: Acácio, Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Zé do Carmo, Henrique e Geovani; Vivinho (Cocada), Bismarck e Romário.

Nessa final, o treinador Sebastião Lazaroni resolveu colocar Cocada no lugar de Vivinho. O lateral entrou aos 41 minutos do segundo tempo, fez o golaço da vitória por 1 a 0 aos 44 e, logo em seguida, foi expulso, aos 45, por debochar do treinador rubro-negro Carlinhos, que o preteriu na Gávea. O Vasco tinha vencido o Flamengo por 2 a 1 no primeiro jogo e precisava apenas empatar. Acabou ganhando, sendo que o Flamengo era o atual campeão brasileiro. O gol que consagrou Cocada é um dos mais marcantes da história do clube.

Na comemoração do título, numa boate em Copacabana – naquela época, os craques e a imprensa conviviam bem de perto –, o “Tremendão” Erasmo Carlos pegou o microfone e, no meio de jogadores, dirigentes e torcedores, cantou com entusiasmo e repetidas vezes, o hino vascaíno.

Essa viagem no tempo, que não espera ninguém e corre cada vez mais veloz, me leva à cidade capixaba de Nova Venécia. Foi lá, no estádio Zenor Pedrosa Rocha, que testemunhei, do gramado, a estreia de Romário pelos profissionais.

Isso faz quase 37 anos. Era agosto de 1985 e a delegação carioca se hospedou no Hotel Hádria, de apenas dois andares e cuja arquitetura era colonial. Pela Rádio Globo, do Rio de Janeiro, eu, como repórter, e os saudosos Antônio Porto – locutor que criou o bordão “Bola pro mato que o jogo é de Campeonato” – e Alberto Rodrigues nos comentários. A população, imagino, não chegava a 40 mil habitantes, sendo que pelo menos metade era formada por gente simples da zona rural.

Foi o técnico Antônio Lopes quem lançou Romário. Ex-delegado, ele tinha moral e coragem para colocar jovens e mudar a equipe na hora que bem entendesse. Maior exemplo disso é o título estadual de 1982, conquistado em cima do Flamengo campeão do mundo. Lopes fez cinco alterações às vésperas da final e faturou o caneco graças a um gol de Marquinhos, um dos titulares barrados, que só entrou no segundo tempo.

Romário, por sua vez, fez logo dois, em sua estreia. O primeiro, aos 38 do segundo tempo – ou seja, com 18 minutos em campo. Outro, dois minutos mais tarde. O Vasco goleou: 6 a 0 no acanhado estádio de gramado irregular. Surgia ali um gênio da bola, um baixinho gigante que se tornaria o melhor jogador do mundo após o tetra que a seleção buscou em gramados norte-americanos, na Copa de 1994.

Curiosamente, Roberto, contundido, não jogou nem a final de 1988, nem a estreia de Romário. Mas isso é o de menos. O que vale é que Roberto Dinamite enfim terá sua estátua inaugurada, atrás do gol à esquerda da tribuna de honra de São Januário. Do outro lado, no gol da capela, eternizado pelo gol 1.000, marcado sobre o Sport em 2007, no mesmo estádio, já está a de Romário.

Os dois ídolos somam a impressionante marca de quase 2 mil gols marcados em suas carreiras. E agora, para a felicidade de toda a imensa torcida bem feliz, ambos os craques estarão novamente juntos, imortalizados na Colina histórica.

EVARISTO DE MACEDO, O TÉCNICO QUE ENQUADROU ROMÁRIO

por Elso Venâncio


“Você tem essa marra toda… Quer saber? Eu joguei mais que você. Muito mais.”

Evaristo arrancava gargalhadas de Romário ao apontar para ele, nas preleções.

“Pelé só surgiu porque eu fui vendido. Eu seria o titular na Copa de 58.”

Na época, só eram convocados jogadores que atuavam no Brasil – e, basicamente, atletas do eixo Rio-São Paulo. Evaristo de Macedo era um dos destaques do Barcelona.

As colocações de Evaristo visavam descontrair o grupo antes dos treinamentos e jogos. Principalmente após ter acontecido uma séria discussão entre ele e Romário no início do seu trabalho como treinador do Flamengo.

Jogo com o Atlético Mineiro, no Maracanã. Intervalo e o Galo vence por 1 a 0. Romário entra possesso no vestiário:

“Vocês não jogam merda nenhuma… Maracanã tá cheio por minha causa, salários só estão em dia porque estou aqui, e essa merda de time não faz por onde.”

Não era a primeira e nem segunda vez que o artilheiro agia assim.

Antes, com Joel Santana no comando, o zagueiro Jorge Luiz não gostou das colocações e partiu para o confronto:

“Ah, tá bom… Você não marca ninguém, fica paradão, chupando sangue lá na frente. Não f…!”

A turma do deixa-disso teve de entrar em ação. Vale lembrar que brigas acontecem no vestiário sem que a imprensa sequer fique sabendo. Na volta para o segundo tempo, presenciei as últimas orientações do treinador. Naquele tempo, repórter tinha acesso direto aos ídolos e aos vestiários. Papai Joel terminou assim:

“E você, Baixinho, marca só um pouquinho…”

“Vai pra p…”, reagiu Romário. “Não f…!”

“Não se pode nem brincar um pouquinho?” – sorriu, sarcástico, Joel. A risada foi geral e o time entrou em campo mais leve.

Voltando ao entrevero com Evaristo, o treinador esperou Romário falar de forma áspera, aos gritos e com respiração ofegante.

“Terminou?” – o técnico perguntou, com uma calma de deixar qualquer um se roendo de raiva.

Romário olha sério para todos os cantos do vestiário, ao passo que Evaristo retoma a palavra:

“Foi a última vez que você fez preleção. No vestiário, só eu falo. Mais ninguém.”

“Eu vou falar, sim.”

“Não vai, tá entendido? Isso vale pra todos.”

Silêncio sepulcral…

Segundo tempo começa. O Flamengo vira o jogo com dois de Romário. A cada gol marcado, o artilheiro corre até o túnel e aponta para Evaristo:

“Você jogou mesmo? Já fez gol assim? E aí, já fez?”

Washington Rodrigues, diretor técnico, chama Evaristo:

“O Baixinho não quer briga, ele quer falar contigo.”

O Velho Apolo, meu padrinho no rádio esportivo, com habilidade contornou o impasse. Evaristo de Macedo e Romário viraram amigos e se dão bem até hoje.

A partir de então, a cada preleção o jogo virou:

“Você tem essa marra toda… Eu joguei mais que você” – mandava o técnico. Romário ria, feito criança.

Primeiro brasileiro a ser ídolo no Barcelona e no Real Madrid, Evaristo tinha currículo para falar de igual para igual com o melhor jogador do mundo da última Copa. ‘Dom Evaristo’ me disse que, antes da pandemia, participava com certa regularidade de homenagens nestes dois clubes. Falava que, lá fora, o ídolo é reverenciado sempre, jamais é esquecido.

Um dos destaques no segundo tricampeonato estadual do Flamengo (1953,54 e 55), o centroavante não demorou a ser vendido para a Europa. Onde jogaria com Di Stéfano, Puskas, Gento, craques de outro gabarito. Todos do seu nível.

Único jogador na História a marcar cinco gols em um único jogo com a camisa da seleção, fez também a mesma quantidade contra o São Cristóvão, pelo Flamengo, numa tarde mágica do Maracanã.

Anos mais tarde, na década de 70, abriu caminho para os técnicos brasileiros se aventurarem no mundo árabe, onde, por sinal, enriqueceu com petrodólares.

Treinou vários clubes e também a Seleção Brasileira. Só um ‘peso pesado’ desse porte para bater de frente e chamar o ‘Homem do Tetra’, na época o número 1 do planeta bola, para uma ríspida mas equilibrada e crucial queda de braço.

No fim, final feliz. Hoje, um respeita o outro. Ambos se uniram, para o bem do futebol.

INTERVENÇÃO GARANTE O TETRA

Parreira e Zagallo não queriam Romário em 1994

por Elso Venâncio


Romário fez o jogo de sua vida contra o Uruguai, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo dos Estados Unidos, em 19 de setembro de 1993. Uma das maiores atuações individuais de um jogador em toda a história da seleção brasileira.

O atacante só foi chamado por duas razões: absurda pressão nacional e intervenção do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que obrigou a comissão técnica a convocá-lo.

Parreira e Zagallo não o queriam, já que no ano anterior, em 16 de dezembro de 1992, o Baixinho reclamou por ficar na reserva. Careca e Bebeto foram titulares contra a Alemanha, em Porto Alegre. Romário sentou no banco ao lado de Renato Gaúcho e só entrou no fim do jogo. “Nunca fui reserva e sou melhor que os dois juntos”, extravasou o artilheiro que assombrava a Europa. A frase deixou os técnicos de olhos arregalados. Ambos procuraram o craque em seu quarto no hotel, após o jogo, para um puxão de orelhas.

Naquele momento, Romário foi riscado das Eliminatórias e, consequentemente, da própria Copa.

Zagallo era enfático:

“Desagregador. Temos que cortar o mal pela raiz.”

Parreira, mais diplomático:

“Vamos aguardar. Só o tempo dirá se ele volta.”

Ninguém esperava tamanha crise. O Brasil tinha sido eliminado da Copa América do Equador, ao perder nos pênaltis para a Argentina, e capengava nas Eliminatórias. Chegou a ser derrotado pela Bolívia em La Paz, fato inédito. Na penúltima rodada, Brasil, Bolívia e Uruguai se encontravam empatados, com 10 pontos ganhos. A seleção corria riscos, podendo ficar fora de um Mundial pela primeira vez na História.

Romário, no PSV-Eindhoven, da Holanda, era uma máquina de fazer gols. No começo de 1993, foi comprado a peso de ouro pelo Barcelona, que era dirigido pelo genial Johan Cruyff. No novo clube, mal chegou o Baixinho desandou a fazer o que mais sabia: gols. Era um atrás do outro. Um mais belo do que o outro.

Em sua estreia, na abertura do Campeonato Espanhol, os campeões da Champions League venceram o Real Sociedad por 3 a 0. Três de Romário. Parreira e Zagallo, a contra gosto, recuaram, baixando a guarda em relação à rixa estabelecida entre eles meses antes.

Romário desembarcou na semana do jogo contra o Uruguai, após estranho corte de Müller, e mudou o astral na Granja Comary. A confiança estava de volta e o otimismo em Teresópolis só foi quebrado devido à humilhação sofrida por Barbosa, 43 anos após o “Maracanazo”.

O ex-goleiro recebeu um cachê para ser levado pela BBC, de Londres, a Teresópolis com a finalidade de fazer um registro dele ao lado de Taffarel. Eu acompanhava tudo de perto e vi o constrangimento de Barbosa. Aos 72 anos de idade, ele foi impedido por Parreira de falar com o então titular da camisa 1 da seleção.

Zagallo se comportou de forma mais humana. Não era de agradar ninguém, mas foi ao encontro de Barbosa. Os dois conversaram por certo tempo. Barbosa sempre lembrava que, no Brasil, a pena máxima por qualquer delito era de 30 anos, mas ele pagava a dele havia mais de 40 por um crime que jamais cometeu. Apenas levou um gol que impediu o país de comemorar, em casa, o seu primeiro título mundial.

Veio o tão esperado jogo! O placar eletrônico anunciava: 101.670 pagantes, fora os eternos penetras. Maracanã lindo, entupido de gente. Clima tenso, com muita gente da imprensa trazendo à tona os fantasmas de 1950.

Em campo, Romário mostrou toda a sua genialidade. Marcou os dois gols da partida. O primeiro, de cabeça. O segundo, driblando o gigante goleiro Siboldi. Ainda chutou na trave, deu lençol, passou a bola por entre as pernas de um marcador. O normalmente contido Sérgio Noronha, “Seu Nonô”, me puxou pelo braço e sussurrou:

“Esse baixinho é foda! Foda!!!”

Sem sombra de dúvidas, foi um momento histórico que abriu caminho para que a seleção conquistasse, no ano seguinte, mesmo a duras penas, o seu quarto título mundial. Uma conquista entalada na garganta do povo nacional havia 24 anos.

O Brasil tinha à época os dois maiores atacantes do mundo e isso fez toda a diferença: Bebeto e Romário. Os dois já haviam arrebentado na Copa América de 1989. Pena que não continuaram brilhando juntos após o Tetra.

Em 1995, Parreira se afastou do comando. Zagallo assumiu, mas a rixa não teve fim. Romário, mesmo sendo o melhor do mundo, padeceu meses sem ser convocado. No ano seguinte, Olimpíadas de Atlanta. Zagallo descartou Romário para levar Aldair, Rivaldo e Bebeto como os três jogadores acima de 23 anos, o que a Fifa ainda permitia. Bebeto foi o artilheiro da competição, junto com o argentino Hernán Crespo, mas o Brasil, eliminado pela Nigéria, ganhou apenas a medalha de bronze.

Em 1997, Zagallo acusou Romário de simular contusão e o barrou na decisão da Copa América, contra a Bolívia, escalando Edmundo em seu lugar. Um ano depois, cortou o Baixinho da Copa do Mundo da França após o atacante realmente se contundir durante um jogo do Flamengo em Friburgo. Romário chorou. Garantia que se recuperaria a tempo de jogar o Mundial. Não o ouviram. O craque voltou às pressas ao Brasil e, provando que tinha razão, jogou pelo Flamengo durante o Mundial, inclusive marcando gol. A seleção perdeu a Copa para a anfitriã do torneio.

Após a derrota acachapante – França 3×0 –, Romário abriu uma boate na Barra da Tijuca colocando na porta dos banheiros caricaturas de Zagallo e Zico, então coordenador técnico da seleção no Mundial e responsável direto por lhe noticiar seu corte. Os desenhos? Zagallo sentado na privada – como quem quer dizer que fez merda – e Zico segurando o rolo de papel higiênico – dando a ideia de que coube ao Galinho limpar aquela “cagada”. O caso parou na Justiça.

Romário ainda poderia ter ido à Copa do Mundo da Coréia e do Japão, mas Felipão o preteriu após longa conversa com Ricardo Teixeira, depois de o Baixinho ter se recusado a disputar um amistoso. Ronaldo, às voltas com graves contusões, mesmo sendo uma incógnita, teve seu nome confirmado na competição. E menos mal que voltou ao Brasil com a taça na mão e a artilharia da Copa, sagrando-se pela terceira vez o melhor jogador do mundo.

Mas que o país queria ver em campo a dupla Ro-Ro, ah, isso todo mundo queria. O Brasil foi penta, mas a conquista teria sido bem mais bonita com os dois juntos no ataque.