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RENNER: O “PAPÃO” QUE DESBANCOU A DUPLA GRE-NAL EM 54

por André Luiz Pereira Nunes


Apenas 28 anos de vida foram suficientes para deixar saudades. O Grêmio Esportivo Renner, fundado a 27 de julho de 1931, em um bairro proletário de Porto Alegre, foi responsável por um feito histórico: ao desbancar os favoritos Grêmio e Internacional, conquistou o campeonato gaúcho em 1954. 

É importante frisar que o sistema de disputa desde quando foi realizada a primeira edição, em 1919, era bastante diferente. O certame era dividido em torneios regionalizados, os quais apontavam seus campeões para uma competição final. É por isso que até 1960, último ano dessa fórmula, não havia dois times da capital ou de qualquer região fazendo dobradinha. Até 1940, também era comum os times do interior ganharem com certa frequência o estadual. Brasil de Pelotas, Guarany de Bagé, Rio Grande e Pelotas tiveram o gosto de vencer o campeonato gaúcho. Até mesmo o modesto, porém tradicional, Cruzeiro de Porto Alegre conquistara, em 1929, o caneco. Portanto, o último campeão do interior nessa era fora o Riograndense, em 1939. A partir de 1940, com o hexacampeonato do Internacional e o crescimento da rivalidade com o Grêmio, ambos passaram a dominar inteiramente as disputas. Em 1954, contudo, a história foi bem diferente. O Renner, então mantido pelo empresariado da cidade, conseguiu romper com a tradição de títulos dos dois grandes da capital e venceu o Metropolitano, habilitando-se para a fase final do estadual.

Os adversários do Papão seriam o Brasil de Pelotas, vencedor da região Sul e Litoral, o Ferro Carril de Uruguaiana, da Fronteira, e o Gabrielense de São Gabriel, este proveniente da região da Serra. Porém, este último abdicou da disputa. Somente três times iriam se habilitar ao título máximo do Rio Grande do Sul, em 1954. O Renner estreou atuando em seu estádio, o Tiradentes, diante do Ferro Carril. Breno Melo e Joelcy fizeram os gols da vitória por 2 a 0. Na segunda partida, em Pelotas, houve um empate em 1 a 1 contra o Brasil, no Bento de Freitas. A igualdade colocou o time em boa condição, já que faria o último jogo em casa contra o Xavante. Porém, o Renner ainda teria que jogar em Uruguaiana, contra o Ferro Carril. A partida foi difícil, mas o magro 1 a 0 forneceu a vantagem a qual com uma simples vitória, o Papão conquistaria o título de 1954, já que o Xavante também havia vencido o Ferro Carril por duas vezes.

O estádio Tiradentes ficou totalmente lotado para a peleja decisiva. Breno Melo, com dois gols, e Pedrinho assinalaram os gols da vitória no segundo tempo. Não havia mais jeito. O Papão era incontestavelmente o campeão gaúcho de 1954. Essa hegemonia só voltaria a ser quebrada muito depois e, curiosamente, por dois representantes de Caxias do Sul. Em 1998, o Juventude, na época patrocinado pela Parmalat, ganhou  a competição. E, em 2000, o Caxias, então treinado pelo novato e promissor Tite, também veio a se sagrar campeão gaúcho.


O Renner mandava seus jogos nas esquinas das Avenidas Farrapos e Sertório, no bairro de Navegantes, onde atualmente resta apenas um pequeno campo ao lado de muitos prédios, que ocuparam o antigo estádio Tiradentes. O caldeirão ganhara o apelido de Waterloo, em referência à batalha perdida por Napoleão Bonaparte na Revolução Francesa.

Ênio Andrade, que mais tarde se consagraria como treinador ao se tornar campeão brasileiro por três clubes diferentes: Coritiba, Grêmio e Internacional, foi um habilidoso meia do Renner que fez parte do elenco campeão gaúcho. O atacante Breno Melo, também destaque, veio a protagonizar como ator Orfeu Negro, uma produção ítalo-franco-brasileira, de 1959, dirigida por Marcel Camus, baseada na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes.

Infelizmente o final da década de 1950 marcou um período de crise derradeira para o Papão. Como ao fim de cada temporada a empresa A. J. Renner tinha de cobrir o rombo financeiro, após o campeonato de 1957 decidiu-se extinguir o clube. Os executivos acharam mais produtivo as verbas destinadas ao futebol serem repassadas para a publicidade.

O Renner, mesmo tendo uma trajetória de 28 anos, foi um clube diferenciado de acordo com o jornalista Rui Carlos Ostermann: “O Grêmio Esportivo Renner é a quebra de todos os paradigmas do futebol gaúcho”. De fato alcançou um feito que permanece na memória dos “órfãos da arquibancada”,  os torcedores que, mesmo após quase 50 anos de extinção, continuam ativos. Alguns, inclusive, ainda carregam consigo a carteirinha de sócio da agremiação.

Essa fantástica história está devidamente retratada no documentário “Papão de 1954”, de Alexandre Derlam, lançado em 2005, e disponível no YouTube.