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Pé na areia

VAI ENCARAR?

texto: Sergio Pugliese | fotos: Marcelo Tabach | vídeo: Daniel Perpétuo


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Em nossas andanças pelos campos e resenhas da vida alguns nomes se repetem como um mantra. São jogadores que atingiram um teto e ganharam o status de lendas, craques lembrados por seus feitos anos e anos depois, ídolos que cravaram sua marca no paredão dos melhores de todos os tempos. Um desses mantras é “Pellicano e Canolongo formaram a zaga mais respeitada da praia”, “Pellicano e Canolongo formaram a zaga mais respeitada da praia”, “Pellicano e Canolongo formaram a zaga mais respeitada da praia”. Quem os enfrentou sabe bem, se não entrou pelo cano com um, certamente entrou pelo cano com o outro, sempre na sobra. Dois canos de precisão, que, em 1965, formaram a muralha do Copaleme e levaram o troféu de campeão carioca.

– Jogávamos na bola! – garantiu Pellicano.


Um brinde à Pelicano e Canolongo! | Foto: Marcelo Tabach

Um brinde à Pelicano e Canolongo! | Foto: Marcelo Tabach

– Minha canela não confirma isso – brincou Filé, adversário de peladas, que brilhou nos campeonatos do Aterro, pelo Ordem e Progresso, do Flamengo.

O Museu da Pelada reuniu velhos amigos, no Leme Tênis Clube, para homenagear os zagueiros camaradas, entre eles o chefe da torcida Caiuby, Luisinho, do Embalo do Catete, e Dr Paulo, ponta do Copaleme. Pedro Pellicano abriu o baú da saudade e exibiu, orgulhoso, faixa de campeão e uma antiga camisa, a tradicional amarela e azul. Fotos, aos montes!!! Uma delas mostrava o timaço Jomar, Vitor, Foguete, Camilo, Pará, Tide, Fernando Canolongo, Fernando Francês, Pellicano, Celinho e Pavão. Dava medo!!! 

– E ainda tinha João Santa Rita, o Tubarão, maior craque da praia!!!! – lembrou Leozinho, ex-presidente do Copaleme e excelente contador de histórias.

Mas ele tem razão. “O Tubarão fazia chover!”, “O Tubarão fazia chover!” é um desses mantras ouvidos exaustivamente em nossas resenhas. E fazia mesmo! Fez tanto sucesso, que foi para Santos e, depois, África. O Copaleme era respeitadíssimo! A zaga, nem se fala! Em 66, Pellicano e Canolongo foram convocados para defenderem o time da Caixa Econômica Federal (RJ) contra a agência de Niterói, na preliminar de Brasil x Tchecoslováquia, no Maracanã, em amistoso preparatório para a Copa de 1966. Do Copaleme ainda foram o goleiro Gerson, que jogou na lateral e Osório, único funcionário da CEF. Ganharam de 1 x 0, gol de Tuca, do Tatuís, adversário das areias. O Brasil venceu de 1 x 0, gol de Pelé, que num jogo, em Santos, vestiu a camisa do Copaleme ao lado do saudoso Vitinho. 

– Tá vendo, não fizeram gol neles nem no Maracanã – brincou Luisinho, do Embalo.

Realmente passar pela dupla não era tarefa das mais fáceis. Mas, humildes, elegeram alguns atacantes que davam canseira: Lauro, canhotinho do Columbia e, depois, Velho Pescador, Gugu, do Lagoa, Jorginho, Ivan e César, ponta esquerda, todos do Lá Vai Bola. Na torcida, sempre alguém de peso, como Chico Anysio, Miéle, Milton Gonçalves e os jornalistas José Trajano e Fernando Calazans, que ia ver seu primo Calazans, no aspirante.

– Abre logo essa champa!!! – pediu Filé.

Pellicano e Canolongo estavam posando com cara de mau para Marcelo Tabach, fotógrafo do Museu da Pelada. Filé pediu licença e entregou as taças aos dois que, sorrindo, brindaram aos bons tempos e a alegria de estarem ali, entre amigos, celebrando a vida.    

RAFAEL BOQUINHA. VOCÊS AINDA VÃO OUVIR MUITO FALAR DELE

Rafael Antônio, de 24 anos, o Boquinha, cria do Morro dos Tabajaras, joga futebol de praia desde molequinho. Começou com Junior Capacete, no Juventus, e, hoje, exibe sua técnica pelo Paula Freitas. Hoje à tarde, inclusive, disputa as quartas de final do Carioca, às 16h, contra o Racing, de Copacabana. Jogaço-aço-aço!!!!! Mas ele é disputadíssimo e também joga pelo Vasco e seleção pelo beach soccer. Vocês ainda vão ouvir muito falar dele!!!!!

Meninos do Rio

:::: PÉ NA AREIA, por Sergio Pugliese

Se algum pesquisador recorrer ao Google para conhecer a Ipanema dos anos dourados encontrará referências a Tom Jobim, Vinicius de Mores, Helô Pinheiro, Bar Veloso, Píer e Nascimento Silva. Também descobrirá que o bairro, conhecido mundialmente por ditar as tendências da cidade, lançou o Cinema Novo, a Bossa Nova e o fio-dental. Tudo muito bem, tudo muito bom, mas cadê Gugu, Paulinho, Jonas, Dadica, Marcelo e Fernando citados entre os maiores garotos-propaganda de Ipanema, de todos os tempos? Os seis irmãos boleiros, campeões de futebol de praia, em 1964, pelo Lagoa, e em 1975, pelo Montenegro, continuam na ativa, agora no futevôlei, e ainda atraem olhares admirados dos fãs e provocam aglomerações para vê-los em ação. 

– Essa família é a história do futebol de praia da cidade – atestou Nielsen, ex-goleiro do Fluminense e da seleção brasileira olímpica, que acompanhava os amigos, na rede do Tio Marcelo, no Posto 9, quando nossa equipe chegou.


Os seis irmãos boleiros, campeões de futebol de praia, em 1964, pelo Lagoa, e em 1975, pelo Montenegro, continuam na ativa, agora no futevôlei, e ainda atraem olhares dos fãs e provocam aglomerações para vê-los em ação. Foto: Guillermo Planel

Os seis irmãos boleiros, campeões de futebol de praia, em 1964, pelo Lagoa, e em 1975, pelo Montenegro, continuam na ativa, agora no futevôlei, e ainda atraem olhares dos fãs e provocam aglomerações para vê-los em ação. Foto: Guillermo Planel

Gugu, de 72 anos, o irmão mais velho, nos recebeu no calçadão. Sol de quarenta graus!!! Guillermo Planel, nosso fotógrafo, tostava, pedia cerveja e logo abrigou-se na barraca, onde a família Carvalho nos aguardava. Estavam lá, além dos seis peladeiros, as irmãs Tereza Cristina e Margarida “Caipivodka” Maria, e Ângela e Cristina, esposas de Paulinho e Marcelo, e torcedoras fanáticas. Faltaram os irmãos Rogério, que, jovem, optou pela carreira de seminarista, e Ana Josefina.

– Já fiquei muito rouca gritando por esses irmãos – garantiu Cristina.

 Muita gente ficou! Os irmãos arrastavam multidões e transformaram o Lagoa, fundado por Théo Sodré, em atração turística. Na época, década de 60 e 70, os campeonatos lotavam as praias, reuniam cerca de 20 timaços, como Copaleme, Maravilha, do Armando Monteiro, Juventus e Guaíra, e durava um ano. Em 64, o Lagoa papou o título: 1 x 0 sobre o Lá Vai Bola, do goleiro Renato, gol de Gugu. O técnico era Armando Marques, que consagrou-se como árbitro profissional.

– Era um timaço! Tinha Capelli, Paulo Cesar, Kolynos, Tatinha, Zé Luiz, Canário, Sérgio Corrente, Lula e Ronaldo – escalou Gugu, considerado um dos melhores jogadores de praia e futevôlei de todos os tempos, com Dadica, Marcelo e Jonas.

 Fernando pediu licença e fez questão de escalar o time do Montenegro, campeão de 75.

– Celso, Boreu, Jorge Barros, Marcelo Dentista, Anchieta, Marcelo, Dadica, eu, Niemeyer e Betinho. Imbatível!!!

E Paulinho? Hoje com 71 anos, o cracaço começou a trabalhar cedo e as viagens o impediam de jogar tanto. Fernando, o poeta da família, conseguiu dividir o prazer da bola com a música e ajudou a criar a lendária banda Terra Molhada. Música, sol e futebol!!!

– Sempre fui o mais talentoso, alto, novo e bonito! – gabou-se, no alto de seus 1,70m e 62 anos.


Foto: Guillermo Planel

Foto: Guillermo Planel

Os irmãos, um centímetro a menos, riram acostumados com a irreverência do consagrado violonista e emendaram em saborosas lembranças, como o golaço de Dadica após tabela de cabeça com Marcelo, o petardo no ângulo de Fernando, que lhe rendeu o apelido de Búfalo Gil, o gol de Niemeyer no segundo título, contra o Juventus, os duelos entre Dadica e Pinduca, e o lençol cinematográfico de Jonas no zagueiro brucutu que aplicou-lhe uma gravata. 

– O futebol ficou violento e partimos para o futevôlei – explicou Jonas, de 67 anos.

E com o parceiro Crioulo foram os pioneiros do esporte e transformaram-se nos melhores do mundo na modalidade. Em duas finais, Gugu, Marcelo, Jonas e Dadica chegaram a se enfrentar. Titãs!!!! Margarida pediu uma vodka e Marcelo abraçou uma bola. Mais uma resenha, um sábado ensolarado! Os paizões Jonas e Maria Cristina, lá do alto, orgulhosos, caprichavam no sol e no céu azul para manter as crias bronzeadas, unidas e felizes. 

(publicada em janeiro de 2015, na coluna A Pelada Como Ela É)



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Sergio Pugliese tem mestrado em chutes de trivela, doutorado em resenhas e é pós-graduado em gols no ângulo. Por quatro anos e meio assinou a coluna A Pelada Como Ela É nas páginas de O Globo, mas, agora, é o ponta arisco do Museu da Pelada.



Guillermo Planel é documentarista com pós graduação-etílica em cerveja guerrilheira, mestrado em domesticar formigas andinas no deserto do Atacama e tem doutorado em contar com quantos grãos de areia se enche uma ampulheta boliviana.

O rei da cocada

:::: PÉ NA AREIA ::::
por Sergio Pugliese


Cocada reuniu uma legião de amigos, que vão de estrelas profissionais a peladeiros geniais, para os 60 anos de praia.

Cocada reuniu uma legião de amigos, que vão de estrelas profissionais a peladeiros geniais, para os 60 anos de praia.

Olha que já rodei por aí, hein!!!! Olha que já conheci campinho escondido por aí, hein!!! Olha que já ouvi histórias que mais parecem de pescador, hein!!!! Olha que já participei de resenhas hilárias, hein!!! Olha que já conheci gente bacana, divertida e com o espírito boleiro que sempre buscamos, hein!!!! Mas, olha, o Cocada é demais!!! Demais porque consegue reunir uma legião de amigos, que vão das estrelas profissionais Jayme de Almeida, Fred, PC Caju e Junior Capacete aos peladeiros geniais, como Tonico, do Xavier, Wilson Itália e Sheinberg, do Caiçaras, e Luiz Fernando Pessoa, do Clube 17. Também tinha o Sylvinho Blau Blau e quem mais vocês imaginarem, no condomínio Novo Leblon, na Barra da Tijuca. Todos queriam pelo menos alguns segundos para abraçá-lo e falar algumas palavras, curtas que fossem, mas que transmitissem o respeito, a admiração e o carinho que sentiam por ele.

– O Cocada é um ícone, um exemplo para quem ama futebol e preza a amizade – resumiu Blau Blau, na festa de 60 anos do parceirão.

Cocada jogou com os amigos, mas estava aceleradíssimo. Abraçava um por um, mas circulou com mais frequência entre a churrasqueira e a chopeira.

Estava difícil fotografá-lo. De repente, alguém me segura pelo braço e faz um pedido especial.

– Você tem que falar sobre o time principal do Caiçaras, o que jogava das oito às dez, e fez história!!!

Era Wilson Itália, um desses craques diferenciados. Quem sou eu para negar. Pedi a escalação.

– Marcinho, Sheinberg, eu, claro, Luiz Landau, Ricardo Peixoto, Ricardo Hardman Roliço, Joaquim Hardman, Fernando Martinez, Sergio Reis, Hisan Mattos, Sérgio Landau, Demétrio Dimões, Mozó, Miguel, Hugo Celso e os saudosos Paulo Reco e Fábio Roliz – responde, na ponta da língua.

Adoro isso, afinal a saudável rivalidade não morre nunca. Isso porque Zé Brito, outro cracaço-aço-aço, também do Caiçaras, já apareceu várias vezes na coluna destacando o seu time, que jogava em outro horário. Enquanto esperava Cocada abraçar mais um amigo, ouvia ao lado uma deliciosa historinha do dia em que Joaquim, do Naval, foi expulso _ mais uma vez _ na decisão do Campeonato do Aterro, contra o Embalo do Catete, arrancou o apito da mão do árbitro e o pisoteou até esmigalhá-lo. Johnson, o organizador da pelada do Novo Leblon, circulava orgulhoso. Tudo estava dando certo no evento!

– Tudo será pouco para o Cocada – comentou Fred, irmão de PC Caju.

Na tevê, anunciaram o cancelamento de Brasil e Argentina por conta do temporal. Ninguém prestou atenção porque, naquele momento, nada, nada, mas nada, era mais especial do que prestigiar Cocada.        

PS: A festa cocadense continua hoje à noite, no Novo Leblon!!! Às 21h, a Banana Banda, com Ivan Mundim, na batera, vai fazer os peladeiros suarem a camisa!!!! Parabéns, Cocada!!!!!



SERGIO PUGLIESE tem mestrado em chutes de trivela, doutorado em resenhas e é pós-graduado em gols no ângulo. Por quatro anos e meio assinou a coluna A Pelada Como Ela É nas páginas de O Globo, mas, agora, é o ponta arisco do Museu da Pelada.


FOTO E VÍDEO

FOTO E VÍDEO

DANIEL PERPÉTUO, jornalista, embrenhado na câmeras DSLR desde a Copa do Mundo de 2014, vive pescando uma imagem para contar uma história. Eterno camisa 1 das terras de Araribóia.