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Paulo Souto Cultura

FRANGALHO, O GÊNIO ESQUECIDO

por Paulo Souto Cultura


(Foto: Milton Montenegro)

Sou da terra de craques. Com alguns convivi e outros ouvi dizer. Sou da terra do Mestre Ziza, Altair, Roberto Miranda, Kleber, Lulinha, Alex, Jucileie, Eduardo, Bismarck, Edmundo, mesmo que insista dizer que é de Niterói e não de São Gonçalo. Sou da terra de tantos outros, que até esqueci de Vinícius Jr.. 

Sou da terra dos craques anônimos, que fariam sucesso em clubes do Brasil e do mundo. Se não fizeram, atribuo a eles a culpa pela falta de interesse, uso do álcool, drogas e as más companhias. Lembro de Airton Rachid, Muruna, Quincas (pai), Zé Carlos (irmão), Cacique, Zequinha, Potoca, Luiz, Venâncio, Dailton, Tintin, Dionizio, Mauro, Gorge e tantos gênios vitimados pelos vícios e a falta de oportunidades. 

Em meio a tantos atletas conhecidos e desconhecidos, havia um que habitava o imaginário da cidade, tornando-se uma lenda urbana por sua genialidade e feitos. Falo de Frangalho, monstro dos anos 40 e 50, que elevou o jogar futebol a um patamar acima da média, fez da bola amiga íntima, encantando Zizinho um dos maiores craques do mundo, pois eram da mesma geração. 

Seu talento não saiu dos limites do município, pelo que lhe aconteceu na juventude. Ouvi certo dia de minha mãe, o motivo que o levou a não se notabilizar no esporte bretão. Revelou-me, quando jovem e com o casamento marcado, nosso craque ao chegar na casa da noiva para o enlace, não encontrou o bolo em cima da mesa, e sim a amada sem vida. Isso liberou nele o pior, fazendo do álcool sua companhia até o fim da vida. Durante duas décadas continuou jogando seu esporte favorito, fazendo o inimaginável dentro das quatros linhas. Era impossível entender o que aquele corpo fazia, pois a lei da gravidade não permitia transformar uma simples jogada numa obra de arte. Ele conseguia. 

Foi com certeza o mágico que o país não conheceu, vítima do vício e decepção ainda menino. Mesmo com os obstáculos de um corpo sem forças, o gênio continuou fazendo milagres nos gramados da região, encantando os amantes do futebol. Os feitos do craque, fez vítimas em outras canchas e uma delas, foi o Bangu, que tinha Zizinho como destaque. 

No ano de 1957, o Tamoio recebeu os cariocas para uma partida e o time banguense foi alertado sobre o jogador. O deboche do time não foi evitado, onde o seu nome virou piada. Estádio cheio, Zizinho machucado, assistiu ao show de Frangalho. Tamoio 3×0 Bangu, com 3 gols do gênio. Esse fato levou o mestre comentar: “Eu avisei e vocês não acreditaram. Esse é Frangalho, o melhor jogador de São Gonçalo”. 

A outra vítima foi a Seleção de Paracambi numa partida memorável de Frangalho, calando o estádio lotado. Era o ano de 1959, a Seleção de São Gonçalo jogaria uma partida decisiva. No embarque, faltou o craque e sem ele era difícil ganhar. Seguiu a seleção, o médico ficou a procurar Frangalho, o achou embriagado, o socorreu, o colocou no carro em direção a cidade onde aconteceria a partida. Segundo testemunho, injetaram glicose e colocaram a fera em condição de jogo. Chegaram e souberam do pior. A seleção perdia por 1×0 e estava no intervalo. A seleção entrou com 10, enquanto banhavam e vestiam Frangalho, que nada entendia. 

Depois de um tempo, o herói improvável entrou no gramado e o estádio veio abaixo em risos, pois estava ainda embriagado e mal se mantinha de pé. Durante a partida, fez uma jogada genial e empatou. O gol calou o estádio, temendo o pior e o pior aconteceu. No fim do jogo, Frangalho cobrou uma falta com maestria e desempatou a partida. Dizem que após o gol, desmaiou e entrou em coma. Nesse mesmo ano, foi encontrado morto, numa vala fétida. Morreu Frangalho o gênio das quatros linhas, que o mundo não conheceu.