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Mauricio Marzano

ATANÁSIO E CABO-FRIO, UMA DUPLA INFERNAL

por Mauricio Marzano


Princípios dos anos 60. O Santos, ou melhor, o Brasil tinha uma dupla de área da pesada, Pelé e Coutinho. O Meridional, ou melhor, a cidade de Lafaiete também tinha uma dupla igualmente pesada, Atanásio e Cabo-Frio. Só que para os lafaietenses e torcedores mais radicais, Atanásio e Cabo-Frio deixavam Pelé e Coutinho no chinelo. Eles eram muito, mas muito melhores, diziam em alto e bom som.

Soube da existência deles pelo entusiasmo do Tio Décio em visita a Belo Horizonte. São dois craques totais, dizia-nos ele, e vou levá-los para vê-los jogar amanhã contra o Sete de Setembro lá no Estádio da Colina de Lourdes. E naquele dia, lá fomos nós – tio Décio, o primo Chico Penna e eu – para vermos Atanásio e Cabo-Frio e acabamos vendo o Meridional ser derrotado pelo Sete de Setembro por 2 a 1, com fraquíssimas atuações da dupla infernal, assim apelidada pela Rádio Carijós de Lafaiete em suas transmissões esportivas. O desastre foi tão grande que culminou com Atanásio perdendo o pênalti que daria o empate para o Meridional e cair ajoelhado na grande área a gritar, desesperado, um chorado e sonoro “puta-que-o-pariu” que atravessou toda a Colina de Lourdes e ecoou por metade de Belo Horizonte. Neste jogo, definitivamente, Atanásio e Cabo-Frio não me pareceram os craques de ouro tão elogiados e descantados pelo Tio Décio. Isto tudo para alegria do primo Chico Penna, torcedor fanático do Guarany e inimigo jurado do Meridional.

Nunca mais soube dos dois craques. Mas os nomes eu não podia esquecer. Porque um nome tão estranho como Cabo-Frio? Diziam que ele tinha vindo daquela cidade a beira-mar para Lafaiete. Será? Quem o teria trazido? Se for verdade, deve ter levado umas duas semanas viajando não sei por que rotas para sair das dunas de Cabo Frio e chegar às montanhas de Lafaiete. Coisa de um quase-bandeirante. O nome, ou melhor, o apelido soava um pouco exótico. Mas não mais exótico do que Kafunga, Garrincha, Tostão, entre outros. 

Mas minha dificuldade maior era com o Atanásio. Jogador de futebol quando não tem um apelido imponente, tem que ter um nome adequado. Dario podia ser o Peito-de-Aço ou o rei persa. Leônidas podia ser o Diamante-Negro ou o general grego que preferia lutar à sombra. Mas Atanásio não. Atanásio não é e nem nunca foi nome de jogador de futebol, de rei ou de general. É nome de muitos dos primeiros padres da Igreja, de teólogos renomados, de bispos, patriarcas, santos, etc. Hoje com o Google é só digitar Atanásio e ver a quantidade de homens de Deus que vão aparecer, começando por Santo Atanásio de Alexandria, o homem que apresentou à cristandade o Credo de Nicéia. Embora Nelson Rodrigues, sempre o grande Nelson, tenha comparado Garrincha a São Francisco de Assis, quando de sua expulsão no jogo Brasil e Chile de 62, jogador de futebol, no calor da disputa, é tudo, menos um santo. Um Atanásio, qualquer um que fosse ele, no comando do ataque do Meridional ou de qualquer outro time, sempre me pareceu algo meio herético, meio sacrílego, quase blasfemo. Como um Atanásio, qualquer um, pode por a mão na cabeça, após errar uma jogada, como no caso do pênalti perdido que presenciei, e gritar um “puta-que-o-pariu” do fundo de sua alma? Ou após uma botinada de um beque adversário xingar o adversário com toda a ênfase futebolística chamando-o de um alto e clamoroso “filho-da-puta”. Atanásios são, segundo o Google, pessoas preocupadas em entender as nuances bíblicas, discutir a estrutura do Credo, especular sobre as naturezas de Jesus Cristo e as pessoas da Trindade Santa, conceituar heresias, definir ortodoxias, mas jamais ficar gritando palavrões em público, pois são antes de tudo homens santos e preocupados com a transcendência divina. Mas o Atanásio do Meridional, na sua luta dentro das quatro linhas do tapete verde, parecia querer desfazer esta fama dos bem-aventurados Atanásios que o precederam. 

Esta dúvida e o incômodo dela derivado, felizmente, acabaram. Leio no Facebook que alguém viu outro dia o Atanásio, já velhinho, muito compenetrado, assistindo a uma missa na Matriz de Nossa Senhora da Conceição. A mesma fonte atestou que ele estava rezando com o fervor superlativo e a fé inquebrantável normalmente associada aos Atanásios, a qualquer Atanásio, e suas orações vinham carregadas de fé, esperança e amor. A mesma fé e a mesma esperança que o então jovem Atanásio tinha sempre na vitória do Meridional. E o mesmo amor que tinha pela bola e pelo esporte ao qual deu muito de seu suor. 

Ou seja, depois de passar pelos gramados, de forma meio heterodoxa para um Atanásio, o nosso Atanásio voltou para a sua vocação natural: compreender a presença de Deus entre as gentes. E rogar por nós, pecadores, na presença divina tão familiar aos Atanásios, pedindo a compreensão dos Céus pelos nossos desvios nos gramados, nas arquibancadas e, principalmente, fora delas, nas ruas e na vida. Este sim, é o grande Atanásio da dupla com Cabo-Frio. E não é mais uma dupla infernal. É uma dupla celestial. Amém.

O FEITICEIRO DO BOQUEIRÃO

por Maurício Marzano

O Feiticeiro Antônio Carmindo Genesaré


Igreja de São Sebastião

Ninguém sabia ao certo quem era e de onde viera Antônio Carmindo Genesaré. Mais conhecido como “seu” Carmindo do Boqueirão, era tido como um pássaro agourento, daqueles cujo pio no beiral da casa de um infeliz devia ser considerado o último aviso para ele reunir a família para as despedidas e para a partilha dos bens porque a Ceifadora em breve viria bater em suas portas para levar o pobre desta para a melhor. Dele diziam, à boca pequena, coisas do arco da velha, coisas difíceis de acreditar e de apavorar o mais piedoso cristão. Corria que ele era rezador de reza brava, encantador de criança, benzedor de cobra, e possuidor de outras artimanhas que só um filho do Cão poderia ter. Diziam ainda que seu poder vinha dos tratos conversados e acertados pessoalmente com o Coisa Ruim nas noites de São João, quando o próprio Cão em pessoa saia de sua toca enfumaçada e fedorenta para se divertir no festim armado atrás das bananeiras de seu quintal.

O certo e o comentado é que “seu” Carmindo não era daquele lugar. Na verdade, chegara uns tempos antes, vindo, segundo alguns, lá das bandas de Catas Altas, depois de arruinar o conhecido Coronel Ezequiel Melanias, um fazendeirão rico, homem de muitas terras, muitos empregados, muitos bois e muitas mulheres. Bastaram algumas pragas e malefícios com filtros feitos com ervas nascidas em cemitério, pedaços de osso de defunto e alguns poucos cabelos das ventas do citado Melanias para a desgraça se abater sobre ele: a peste acabou com o gado, a chuva sumiu, o milho morreu, o capim secou, os empregados foram embora, as terras foram tomadas pelos bancos, o Coronel perdeu a força e as mulheres sumiram. Depois de arrasado, Ezequiel ainda encontrou um rastilho de vida e vontade para tentar a vingança: pegou um velho parabélum disposto a mandar Carmindo para as profundas do inferno. Apesar de ter o corpo fechado pelo Pé de Cabra em pessoa, Carmindo achou mais prudente não enfrentar diretamente o Coronel arruinado e seu parabélum, preferindo desaparecer do mapa e reaparecer em outro lugar, a uma distância segura do Coronel e mais ainda das balas de seu parabélum.

Outros mais desconfiados ou menos crédulos não acreditavam muito nestas e em outras histórias de “seu” Carmindo. A versão que este grupo tinha para a chegada de Carmindo era mais simples e sem mistérios: Carmindo se metera com uma mulher casada lá pelas bandas de São Brás do Suaçuí e acossado pelo marido com os cornos em brasa prudentemente sumiu até que as coisas esfriassem…

Quem apenas ficasse parado ouvindo os casos, as histórias e mais histórias contadas, inventadas, imaginadas e reinventadas pelo povo, ficaria com uma impressão falsa de “seu” Carmindo do Boqueirão. Quem o visse, sem conhecer as histórias que o acompanhavam, poderia imaginar estar à frente de um destes capiaus, que volta e meia apareciam em Queluz, vindos ou fugidos das fazendas perdidas lá pelo Alto do Rio Doce, nos distantes caminhos de Piranga, Viçosa e Ponte Nova. De estatura baixa, nem velho nem moço, amulatado, barba rala, calça de brim cáqui, camisa xadrez, botina de reúna com marca da espora e chapéu de palha, trazia sempre à mão uma faquinha de picar fumo e um isqueiro de pedra. Na cintura carregava um punhal de matar porco que usava mais como uma herança dos tempos da roça do que como arma. Era um sujeito caladão, educado. de voz baixa, macia e calma. Cumprimentava a vizinhança do Boqueirão com um ar tímido e não se prendia a nenhuma prosa:

– Bom dia. Como tem passado, “seu ” Carmindo?

– Bom dia. Vou pelejando…


E a prosa terminava no pelejando. Até na venda do Miguel Turco no Areal do outro lado da linha do trem, onde todo santo dia ele tomava um copo de cachaça e ficava uma meia hora cismando enquanto pitava o seu cigarrinho de palha, era reservado e quase nada falava com os habituais fregueses, os bêbados de plantão e os jogadores de sinuca. Não tinha família, nem amigos e nem mulher. Uma vez foi visto passeando pela zona boêmia da Boeira, mas dizem que não entrou em nenhuma das casas mal afamadas da região…

Se quase tudo na vida de “seu” Carmindo era um mistério, pelo menos, uma coisa era certa: foi o Major Herondine, farmacêutico graduado em Ouro Preto, dono da Pharmácia Flor de Queluz, vereador e ex-presidente da Câmara Municipal, fundador, diretor e principal incentivador do Queluziano Futebol Clube, o responsável pela descoberta de Antônio Carmindo Genesaré em Catas Altas, ou em São Brás, ou ainda onde o diabo achou que devesse ser, e que o trouxe para Queluz para um importante trabalho com as forças do além, dando-lhe como moradia um barraco afastado no Boqueirão, muito atrás do prédio da Casa de Oração.

Nos primeiros tempos de Queluz, “seu” Carmindo nada fez que pudesse justificar a fama de rezador bravo e feiticeiro impenitente, devidamente apregoada e espalhada pelo Major Herondine e seus seguidores pelos quatro cantos da cidade. Mas conforme a ele prometera o próprio Major, chegaria em breve o dia da ação, quando “seu” Carmindo deveria acionar todas as forças do mal para alcançar um objetivo há muito perseguido e nunca alcançado pelo Major…

O Major Herondine e o Queluziano Futebol Clube


O farmacêutico Herondini de Almeida Gonçalves comprou a patente de major da Guarda Nacional na década de vinte. Apesar de posteriormente se falar que a patente comprada era falsa, Herondine fez questão absoluta do titulo, uma vez que, ao contrário do médico Geraldo Correia, não era doutor, ao contrário do juiz Joaquim Ramos, não era meritíssimo, e ao contrário do Monsenhor Domênico, não era reverendíssimo. Assim sendo seria Major Herondine, de modo que o título acabou se incorporando ao seu nome e à sua personalidade de tal forma, que até a sua mulher, D. Artêmis, o tratava por Major.

De fato, o titulo de Major e a prática farmacêutica abriram-lhe os caminhos da política. Cada criança que precisasse de uma injeção altas horas da noite significava, no mínimo, dois votos a mais na próxima eleição. De certo modo, o Major passou a ser o terror das crianças, pois sua presença era sempre associada ao risco quase certo de se tomar injeção. Mas as injeções, se para as crianças eram um estorvo, para o Major eram votos, e por isto ele dificilmente cobrava as aplicações, esperando pelo pagamento certo nas eleições seguintes. E o pagamento se repetia religiosamente de quatro em quatro anos, quando o Major se reelegia sempre com a maior votação do município.

A Pharmácia Flor de Queluz era mais um centro político que de fato uma farmácia. Muitas vezes era um transtorno para o Major suspender uma importante reunião política ou uma simples conversa com um correligionário ou um adversário para aviar uma receita, principalmente aquelas do Dr. Geraldo Correia, na época em partido contrário, que prescrevia sempre medicamentos de formulações complexas que exigiam manipulação de drogas no laboratório da farmácia.

O Major era de fato uma boa pessoa, bom marido, bom pai e bom cidadão, até que um dia, para a sua desgraça, surgiu na vida dele o Queluziano Futebol Club. A paixão do Major pelo futebol não era nova: muitas vezes viajava até o Rio de Janeiro no trem de luxo para ver uma partida importante do Vasco da Gama em São Januário. Mas seu espírito empreendedor não se satisfazia em ser mero espectador com presença passiva em jogos distantes na corte federal, ele queria mais e desde uma reunião acalorada na Pharmácia Flor de Queluz durante um dos recessos políticos no intervalo de duas eleições, ele encasquetou de criar um time de futebol na cidade. Foi assim que nasceu o Queluz Football Club, logo logo rebatizado de Queluziano Futebol Club, destinado a ser um clube de grandes vitórias e grandes glórias, como só o Major sonharia.


Por exigência do Major, seu primeiro presidente e eterno benfeitor, o alvinegro Queluziano tinha um uniforme parecido com o do Vasco da Gama, porém sem a cruz de malta. Em pouco tempo, o Queluziano ganhou corpo, adeptos e torcedores entre o pessoal da parte alta da cidade, pequenos comerciantes, funcionários públicos, professores e profissionais liberais. Torciam ostensivamente pelo Queluziano o Juiz de Direito, o Promotor de Justiça, o Diretor do Colégio Estadual e o Diretor do Hospital Municipal. O Capitão Lucas, delegado de policia, também era torcedor do Queluziano, mas de forma discreta, porque a ele cabia a segurança dos jogos e de todas as torcidas. O mesmo acontecia com Monsenhor Domênico que também torcia pelo Queluziano, mas sua torcida era meio envergonhada, meio escondida, porque entre as ovelhas do rebanho que ele apascentava havia também muitos, talvez mesmo uma grande maioria, que eram fiéis e dedicados torcedores da Sociedade Esportiva Minas Futebol Clube, o Minas do Campo Alegre.

A Maldição do Queluziano e o Vôo dos Abutres

O sucesso do Queluziano e o apoio recebido dos bens pensantes e endinheirados infelizmente não o transformaram na esquadra imbatível sonhada pelo Major. Pelo contrário, nos seus primeiros anos de existência amargou diversas derrotas, principalmente para o seu principal adversário, o tricolor do Campo Alegre, o Minas. Com o tempo, por melhor que estivesse o Queluziano, com os melhores jogadores e com os maiores recursos, mais certa era a derrota contra o Minas, qualquer que fosse a sua situação. O que a princípio parecia ao Major uma azarada coincidência, transformou-se com o passar dos anos em uma certeza, o Queluziano poderia conseguir qualquer coisa, menos vencer o Minas. A certeza transformou-se em tabu, e o tabu em maldição: jamais o Queluziano venceria o Minas!

O Major nunca aceitou tamanho despropósito do destino. Quando se convenceu de que por métodos normais jamais venceria o Minas, passou a considerar outras hipóteses e avaliá-las com seriedade preocupante. Sempre avesso a qualquer coisa que pudesse cheirar a tramoia na sua vida particular e pública, mudou seu pensar em relação ao Queluziano e começou a achar normal ações, digamos, menos ortodoxas. Aproximou-se assim de dois conselheiros do Queluziano, dois abutres, dois répteis rastejantes e peçonhentos, capazes de qualquer coisa para se atingir os objetivos menos confessáveis e mais sórdidos: Jorge Arouca, estelionatário, agiota e gerente do Banco Mineiro da Lavoura do qual viria a receber depois um merecido pontapé no traseiro após várias falcatruas, roubalheiras e safadezas diversas e Paolo Pulcro Fermentatti, imigrante italiano, comerciante de pedras preciosas à luz do dia e falsário, contrabandista e receptador de joias roubadas na calada da noite!


O estelionatário Arouca

Os frutos desta união abjeta logo se fizeram sentir. A primeira ação deletéria partiu de Arouca, armado com um punhado de promissórias assinadas por Marcial Jurandir, jovem professor de ginástica e matemática do Colégio Estadual e nos fins de semana rígido e inflexível juiz da Liga de Futebol de Queluz. Para honrar compromissos em um negócio mal conduzido, Marcial Jurandir viu-se na difícil contingência de pegar algum dinheiro emprestado no banco de Arouca e, consequentemente, sofrer as extorsões costumeiras por parte daquele argentário. Mas como uma pessoa de respeito e ciosa de suas obrigações, Marcial vinha resgatando seus compromissos com pontualidade religiosa e estava loucamente ansioso para se ver livre das garras de Arouca. Qual não foi então a surpresa de Marcial ao ver um dia aparecer em sua casa um Arouca cheio de sorrisos e salameques para devolver-lhe as promissórias ainda não resgatadas e se justificar com uma conversa mole mais ou menos nestes termos:

– Pois é, Professor, estive fazendo as contas e vi que estas letras do Banco já foram pagas pelo meu prezado amigo. Houve uma diferença nos juros que o amigo não notou e que eu por um descuido deixei passar, quase prejudicando o meu caro professor.

Marcial agarrou o punhado de letras promissórias e, julgando-se um escolhido dos azares da sorte, ia destruí-las para com isto alcançar a tão sonhada alforria, quando Arouca, com o mesmo sorriso cínico, continuou com a lenga-lenga, agora em tom severo porém ainda cordial:

– Meu caro Professor, domingo que vem o Queluziano vai enfrentar de novo o Minas, não é? Eu já disse para quem quiser ouvir: juiz com peito para este jogo só tem um aqui em Queluz, o grande Marcial Jurandir.

Encabulado, Marcial ainda fez menção de agradecer o elogio fora de hora, mas o gesto foi interrompido pela continuação da conversa fiada de Arouca:

– Olha, Professor, eu e meus amigos do Queluziano ficaríamos muito satisfeitos com uma vitória no próximo jogo. O senhor sabe, não é, tem um tabu de anos e o Minas vem ganhando todas. Quem sabe que o prezado amigo não pode dar uma mãozinha, nada muito ostensivo, um pênalti duvidoso a favor, um gol mais ou menos na banheira, sabe como é que é…

Marcial ficou vermelho de raiva e de constrangimento. Devolveu as promissórias e encerrou secamente a conversa:

– “Seu “Arouca, eu sou um professor e o que melhor ensino vem do meu exemplo. No dia do vencimento estarei no banco para saldar estes papéis. Espero sinceramente não vê-lo nesta ocasião. Passar bem!


No domingo seguinte, o juiz Marcial Jurandir teve a pior performance de sua vida e acabou, por ironia, prejudicando o Queluziano ao tentar ser mais realista do que o rei e anular um gol legítimo e propiciar uma vitória do Minas ao apitar um pênalti inexistente. Para justificar a sua desastrada atuação acabou por revelar a tentativa de suborno, dando o nome aos bois. Estava montado um grande escândalo. O jornal a “Folha de Queluz” deu um destaque enorme ao quase suborno, citando nominalmente Arouca e o Major. Esta notícia repercutiu na capital e acabou por sair como uma notinha no pé da página no caderno de esportes do “Estado de Minas”. Com a confusão armada, o Capitão Lucas viu-se obrigado a abrir um inquérito na policia para apurar o sucedido, convocando para prestar depoimento os principais envolvidos. Mas a maior vergonha ficou reservada ao Major Herondine na missa do domingo seguinte quando, sem citar nomes, Monsenhor Domênico desancou durante a homilia, com citações cheias de latinórios, a tentativa de suborno com palavras candentes tiradas do Velho e do Novo Testamento e dos ensinamentos de São Tomás de Aquino, que ressoaram na consciência do Major como uma maldição, principalmente quando, com voz trêmula, Domênico dizia que estas ovelhas desgarradas eram, desgraçadamente, do seu rebanho e que a ele cabia apascentá-las, guiá-las e protegê-las. O Major naquele dia sentiu-se sinceramente arrependido e sua vontade era sumir de Queluz para nunca mais voltar, tamanha era sua vergonha pelo acontecido. Assim, após o “Ite missa est” e mesmo antes do “Deo Gratias”, ele saiu da igreja e desapareceu da cidade ficando sumido por uns tempos, enquanto fugia de si mesmo e de sua vergonha, acoitando-se em uma fazenda perdida nos confins do Cocoruto.

Passada a repercussão do incidente e arquivado o inquérito policial por falta de provas, o Major voltou à sua farmácia e à militância política e futebolística, ainda desejoso de dar um fim à supremacia eterna do Minas sobre o Queluziano. A segunda tentativa, tão desastrada quanto a anterior, coube a Paolo Pulcro. O Minas tinha Juca Socó, um crioulão que jogava infernalmente bem como goleiro, agarrando até pensamento e não deixando passar nem sombra do adversário pelo gol. Socó, arrimo da velha mãe viúva, jogava futebol por gosto e vivia de biscates junto ao comércio, enquanto esperava por um emprego prometido de foguista da Central do Brasil. Paolo Pulcro, às vésperas de um novo jogo, aproximou-se de Socó no Bar Galo Carijó – ponto de encontro dos torcedores e jogadores dos diversos times de futebol da cidade – e propôs, como era de seu estilo, sem meias palavras, que Socó amolecesse o jogo e engolisse um frango:

– Afinal, Juquinha Socó, qual é o goleiro que nunca comeu o seu franguinho, não é?

Em contrapartida, Paolo arranjaria rapidamente o emprego da Central com um deputado de Barbacena e ainda daria algum para ajudar a velha mãe viúva, enquanto o deputado estivesse arrumando a papelada lá no Rio de Janeiro. O que Paolo Pulcro não sabia é que Socó, um negão bravo com cabelo nas ventas, já tinha tomado umas e outras, estava meio alto e sem nenhuma vontade de prosseguir com aquela conversa fiada. Sua resposta soou incompreensível a Paolo Pulcro, mais parecendo um grunhido de animal ferido do que falação de bicho gente. Mas pelos grunhidos e pela carranca de Socó, Paolo sabia que a resposta era algum tipo de ofensa que o álcool e a raiva não permitiam que fosse mais clara. Ainda um pouco antes de receber um sopapo no meio da cara, Paolo pode compreender alguma coisa de todo aquele xingamento e que lhe soou muito agressivo tal como “carcamano safado”, “sua mãe, aquela italiana”, “cadela vadia”, e outras de mesmo quilate. O murro nos cornos de Paolo desencadeou uma briga como poucas já vistas no Galo Carijó e que só acabou lá em cima na Delegacia. Paolo foi imediatamente solto, mas Socó ficou preso até a manhã do dia seguinte, quando Zequinha Nascimento, presidente do Minas, conseguiu com o juiz o habeas-corpus.

No jogo seguinte Socó fechou o gol e até pênalti agarrou. Ao final da partida – com nova e esperada derrota do Queluziano – houve mais um grande sururu envolvendo os jogadores e simpatizante das duas equipes, confusão esta iniciada quando Socó correu até Paolo e o Major em um dos lados do campo e jogou a camisa suja e suada do grande goleiro que ele era na cara deles. Desta vez não houve prisões, mas apenas ferimentos leves e escoriações generalizadas entre os beligerantes…

O Major e seus dois aliados não desistiram e continuaram na sua política de inventar novos desatinos, cometendo com isto burradas e mais burradas, em vãs tentativas de comprar, chantagear, subornar, achacar, ou fazer qualquer outra coisa que prejudicasse o Minas em beneficio do Queluziano. Para se ter ideia da baixeza que os três se dispunham a patrocinar, chegaram a inventar uma sórdida calúnia, de todo infundada, envolvendo D. Jamila Jorge Azzi, virtuosa esposa do comerciante de secos e molhados Fuad Azziz, principal financiador e mecenas do Minas, com ninguém menos do que o igualmente virtuoso Monsenhor Domênico. A infâmia soez chegou aos ouvidos do arcebispo de Mariana que por pouco não transferiu o querido e injustiçado monsenhor para outras paragens mais remotas da arquidiocese, só não o fazendo por um pedido direto do prefeito que sabia da total inveracidade da onda infamante irresponsavelmente levantada pela trinca diabólica.

O caso do Monsenhor Domênico foi decisivo para mudar a atitude do Major. Em sua defesa apaixonada, Domênico usou do púlpito nas homilias dominicais, para denunciar de viva voz a calhordice de seus detratores. De grande orador sacro que era, capaz de emocionar toda a cidade nos sermões da Semana Santa, com imagens dramaticamente fortes e belas, transmutou-se em advogado de si próprio, igualmente grande e majestoso, e conseguiu alcançar a sua absolvição no tribunal em que sua igreja se transformara e obteve, embora como pastor de almas não desejasse este resultado, uma condenação formal do Major e de seus asseclas.


Time do Minas

Este último escândalo foi um divisor de águas. A imagem do Major estava irremediavelmente maculada e, embora não desistisse de tentar alguma coisa nova para destruir o Minas, decidiu mudar os meios para alcançar o fim que ele desesperadamente procurava, fim este que aos poucos se transformou numa obsessão doentia, destas que só se curam, se é que se curam, se o pobre coitado ficar internado por uns tempos em Barbacena. Apesar da mania, o Major não perdeu de todo o bom senso e, ao medir os prejuízos que seus desatinos causaram nos seus negócios e na sua atuação política, decidiu mudar de tática, ser mais sutil ser mais esperto, para com isto destruir definitivamente a hegemonia da Sociedade Esportiva Minas Football Club.

A situação estava neste pé quando, por pura coincidência, o Major Herondine ouviu no Bar Wanda uma conversa de pessoas que esperavam a jardineira para Catas Altas sobre um tal de “seu” Carmindo que arruinara com umas rezas bravas um fazendeirão lá por aquelas bandas. No dia seguinte, para surpresa de muitos, o Major foi visto embarcando na jardineira de Catas Altas, dizendo que ia resolver uns negócios de família…

A Arma Fatal

Já fazia mais de ano que “seu” Carmindo estava na cidade. O furor inicial causado pela chegada de um feiticeiro de verdade no Boqueirão diminuiu muito quando sua presença discreta, educada e humilde começou a ser vista nas ruas e reconhecida, não como um perigoso servo de Belzebu, mas antes como mais um pobre roceiro em tudo e por tudo parecido com o Jeca Tatuzinho do Biotônico Fontoura. Para compensar a inatividade de Carmindo durante este tempo e o consequente anticlímax causado, coube ao Major e ao pessoal a ele vinculado inventar, espalhar e recontar histórias e mais histórias sobre a prodigiosa relação dele Carmindo com as entidades sobrenaturais que povoavam o além e o serviam para as maquinações do aquém.

Na verdade, o poder maléfico de Carmindo, por não ter sido até então exercido de fato, não parecia estar atemorizando a mais ninguém. Assim, não causou surpresa a reação bem humorada do pessoal do Minas quando soube diretamente pelo Major que Carmindo havia sido contratado pelo Queluziano com o objetivo explícito de prejudicar a campanha do Minas no próximo campeonato municipal, que estava para se iniciar na semana seguinte. O Major fez esta revelação ou esta ameaça diretamente a Zequinha Nascimento e a outros membros da diretoria do Minas em uma das mesas do Bar Galo Carijó. Zequinha Nascimento, acostumado às armações do Major e desconfiado dos reais poderes de Carmindo, reagiu com uma ironia ferina:

– É, “seu” Major, se eu fosse você eu não contratava o Carmindo para o Queluziano. Ele me parece muito baixo para jogar no gol, muito fraco para ser beque e um pouco velho para jogar na linha. Acho que em qualquer uma destas posições ele vai acabar ajudando o Minas a ganhar mais um campeonato…

As pessoas envolvidas tanto com o Minas quanto com o Queluziano tinham se aproximado para melhor ouvir a discussão, porque sabiam que quando o Major e Zequinha se encontravam no Galo Carijó, embora mantivessem a linha e a educação, trocavam farpas e provocações irreverentes com um brilhantismo e uma inteligência invulgares. A resposta de Zequinha desconcertou o Major e arrancou gargalhadas estridentes dos jogadores e torcedores do Minas e, principalmente, até de Chiquinho, dono do Galo Carijó, que com isto contrariou sua tática comercial de não tomar partido e nem se envolver nas infinitas discussões futebolísticas que animavam o seu botequim e recheavam a sua conta bancária.

As gargalhadas e o tom de chacota irritaram o Major que estava falando sério, muito sério mesmo. Levantando-se e fazendo menção de sair, encerrou a discussão de dedo em riste e em tom ameaçador:

– O serviço de seu Carmindo já começou. No campo de vocês já está enterrado um sapo com a boca costurada. Desistam do campeonato deste ano.

Zequinha, ainda divertido com o inusitado, maliciou ainda uma resposta irônica, quase grosseira:

– Gozado, “seu” Major, depois de velho começa a gostar de sapos. Quando você era mais moço gostava mesmo era de brincar com outras coisas, é… nosso caro Major deve estar é perdendo aquele gás!

Novas gargalhadas e assovios, enquanto o Major se afastava pisando duro. A noite continuou animadíssima no Galo Carijó e o prato servido de mil maneiras foi a inacreditável história do reforço contratado pelo Queluziano para acabar com o Minas: o feiticeiro Carmindo do Boqueirão. Nunca se riu tanto quanto naquela noite, não apenas os torcedores do Minas, mas todos os assíduos frequentadores do Galo Carijó que se divertiam com a pinimba entre as duas agremiações e seus lideres.

Não foi bem verdade que todos os frequentadores do Galo Carijó passaram o resto da noite rindo e se divertindo com a ideia maluca do Major. Na realidade dois jogadores do Minas levaram a sério a ameaça do Major e mais sérios ficaram enquanto a algazarra tomava conta do boteco. Numa mesa do fundo do bar, Sinvalzinho e Véio Sarará, dois dos principais atacantes do Minas, tomavam, com cara de velório, suas cervejinhas silenciosamente. Os dois saíram do Galo mais cedo que o habitual e ao se despedirem de Zequinha Nascimento, um deles ainda falou:

– Com estas coisas não se brinca, “seu ” Zequinha. Não gostei nada desta conversa…

Zequinha fez que não entendeu, deu de ombros, mas alguém notou que seu ar de alegria debochada sumiu por um instante e as sobrancelhas franzidas traíram uma certa preocupação, que logo a seguir se desvaneceu no ambiente carregado de fumaça do Galo Carijó…

As Sete Pragas de Carmindo

Na estreia daquele campeonato, Sinvalzinho e Véio Sarará, dois importantes craques do Minas, não participaram da partida contra o fraco time do Flamenguinho. E, por isto, pela primeira vez na vida, o Minas foi derrotado de forma vergonhosa e humilhante pela fraca agremiação da Cachoeira. No entanto, a derrota não foi, de forma alguma, a principal preocupação do Minas e seus dirigentes durante a semana seguinte. Na verdade, preocupava-se o Minas única e exclusivamente com os motivos que obrigaram os dois craques tricolores a não participarem do jogo: dois acidentes, aparentemente sem gravidade e ocorridos quase que simultaneamente, que feriram com alguma gravidade os dois jogadores . De fato, no sábado anterior à fatídica partida, por volta das onze horas da manhã, com uma diferença de talvez cinco minutos entre um e outro, Sinvalzinho deu entrada no Hospital Municipal com o braço esquerdo quebrado e Sarará com um corte profundo na cabeça e completamente grogue.

O acidente de Sarará foi visto por Chiquinho do Galo Carijó lá de dentro de seu botequim: ele descia correndo de bicicleta a rampa da travessia da Central em direção ao Areal quando derrapou numa poça de água e caiu com a cabeça na beirada do meio­ fio. O corte produzido, embora sangrasse muito, não assustou a Chiquinho e a outros que vieram acudi-lo. Mas, quando Sarará tentou se levantar e voltou a cair totalmente sem sentidos, o pessoal apavorou-se e pensou no pior. Levado imediatamente ao Hospital por Cebola, chauffer de carro de praça com ponto no Bar Wanda, foi logo medicado, mas ficou ainda muito tempo tonto, falando enrolado e sem reconhecer os amigos que logo chegaram para assisti-lo e ajudá-lo. Quando Zequinha Nascimento já estava pensando em transferir Sarará para Belo Horizonte, o homem começou a melhorar e lá pelas nove horas da noite já estava inteiro, mas proibido, é claro, de jogar no dia seguinte.

O acidente com Sinvalzinho não teve testemunhas. Segundo a versão oficial, ele despencou de uma mangueira quando tentava apanhar uma bonita e quase inalcançável manga, caindo de mau jeito sobre o braço esquerdo e quebrando-o em dois lugares. Esta versão não foi bem aceita por alguns de seus mais chegados amigos, principalmente porque não era ainda tempo de mangas. A verdade verdadeira, e que Sinvalzinho jamais confirmaria por motivos mais do que óbvios, era que ele estava querendo mesmo não era comer manga, mas sim uma das frutas proibidas da árvore do bem e do mal, quando o marido da moça chegou e ele foi obrigado a pular de qualquer jeito um muro de dois metros, quebrando, felizmente, apenas o braço esquerdo…

Zequinha Nascimento tinha se esquecido completamente da ameaça do Major e, ainda no sábado, não fazia qualquer ligação entre o azar do ocorrido com interferências sobrenaturais de Carmindo e das forças do além. Porém, já no domingo de manhã, um zum-zum-zum, meio verdade meio boato, começou a correr toda a cidade: tinha sido visto, ao amanhecer de sábado, em uma encruzilhada próxima às casas de Sarará e de Sinvalzinho, um despacho bravo com galinha preta, farofa, vela, cachaça e duas camisas rasgadas do Minas, as de números 8 e 11, os números de Sinvalzinho e Sarará no ataque do Minas! Ninguém dizia quem tinha visto e ninguém apareceu dizendo que realmente vira o tal despacho. Zequinha se deu ao trabalho de na segunda­-feira procurar nas encruzilhadas próximas ao local indicado por sinais do despacho, mas nada encontrou…

Embora com a pulga atrás da orelha, Zequinha Nascimento, ao fazer a avaliação final do incidente, culpou a coincidência e o azar pelos dois acidentes, querendo com isto encerrar um assunto que poderia ficar perigoso e, talvez, até fora de controle. O tesoureiro do Minas, Tião da Norita não ficou muito satisfeito com a conclusão de Zequinha. Para ele, aquilo era coisa do diacho mesmo…

No próximo domingo, o Minas enfrentaria outro timeco, o Olímpico de Casa de Pedra, e, mesmo sem Sinvalzinho, mas com o retorno de Sarará, o tricolor estaria muito próximo de sua formação ideal e conseguiria tranquilamente uma vitória para compensar a derrota da semana anterior.

Pouco antes de começar o jogo, com as duas equipes já uniformizadas e se aquecendo, um moleque chega com um recado urgente para o becão Tonho Paulada, a principal garantia da defesa do Minas:

– Tonho, ô Tonho, corre até lá em casa, D. Sebastiana ‘tá passando muito mal!

Quando Tonho chegou em casa, Sebastiana sua mãe já tinha morrido. Com a velocidade que a noticia veio ela voltou ao campo, e o juiz houve por bem interromper a partida aos dez minutos do primeiro tempo para o minuto de silêncio em homenagem da falecida. Naquele minuto de silêncio, todos do Minas ligaram entre si os fatos azarentos daqueles dois domingos seguidos e a pergunta de todos era:

– E se D. Sebastiana foi mais uma vitima de Carmindo?

O certo é que sem Tonho na Iinha de beques e com os nervos apavorados pelas pragas de Carmindo, o Minas foi novamente derrotado pelos cabeças-de bagre de Casa de Pedra.

Zequinha Nascimento, como era de seu estilo, procurou saber durante o velório a real causa-mortis de D. Sebastiana e soube por um parente da falecida que um médico do IAPC havia informado que a velha senhora, embora aparentasse boa saúde, tinha uns males no coração, daqueles que matam a pessoa de uma hora para outra. Zequinha teria ficado satisfeito com a informação se uma das comadres carpideiras não espalhasse para quem quisesse ouvir que, pouco antes de D. Sebastiana começar a passar mal, ela tinha conversado com um tipo esquisito, assim meio capiau, meio caladão, amulatado com uma barba rala, carregando um isqueiro de pedra e um punhal de matar porco no correão. A partir da conversa da comadre carpideira até a hora do sepultamento, a inocente versão inicial cresceu, foi realimentada, criou contornos mágicos e se cristalizou numa versão final e definitiva, com ares de verdade verdadeira: D. Sebastiana, mãe de Tonho Paulada, beque do Minas, morreu porque Carmindo do Boqueirão foi procurá-la para lançar-lhe alguma praga letal e avisá-la da morte iminente, provocada pelas forças do Mal por ele convocadas com objetivo único de prejudicar o Minas no campeonato municipal.

Não precisa dizer que, mesmo tendo Zequinha Nascimento procurado ser o mais racional possível para não aumentar o pânico, todo o Minas, com Tião da Norita à frente, já acreditava que por trás das desgraças que vinham afligindo o tricolor do Campo Alegre estava a mão sórdida de Carmindo do Boqueirão. Com isto as defecções não tardariam a começar: muitos jogadores já não queriam mais defender as três cores gloriosas do Minas com medo de alguma coisa imponderável, que respondia pelo nome maldito de “seu” Carmindo do Boqueirão.

Com dificuldades cada vez maiores para se montar o time, esta sequência de azares continuou por mais cinco jogos, mais cinco derrotas, que colocaram o Minas segurando a lanterninha do campeonato, como sempre quisera o Major. Para cada partida acontecia uma coisa diferente de alguma forma vinculada a Carmindo – não necessariamente violenta ou trágica, podia até ser engraçada – mas que sempre prejudicava o Minas. E, após cada partida. Tião da Norita exigia uma providência de Zequinha, que não sabia o que fazer, a não ser contemporizar e dizer que não havia provas contra Carmindo, que eram superstições, coincidências e azares.

Assim no terceiro jogo aconteceu até um caso interessante. O bravo Juca Socó, que há algum tempo atrás quebrara as fuças de Paolo Pulcro, vinha vindo para o campo quando, por pura coincidência, cruzou com “Seu” Carmindo. Não dando para desviar, fingiu que não via o feiticeiro, mas, tinhoso como o Cão, o filho da peste dirigiu-lhe um sorriso e um cumprimento cordial:

– Bom dia, Juquinha Socó…


Foi o suficiente. Socó só pensou numa coisa: o filho da mãe cruzou com ele na rua, conhecia o seu nome, assim ele era o próximo, logo ele que era arrimo da mãe viúva… Naquele jogo e nos próximos o Minas perdeu seu grande goleiro titular porque ele não conseguia mais jogar tomado que foi de um pânico mortal, refletindo-se em uma diarreia crônica que se manifestava toda vez que se falasse perto dele no nome maldito de Carmindo do Boqueirão.

E assim continuou o azar do Minas até que se completasse a sétima praga de Carmindo com a sétima derrota do tricolor do Campo Alegre. Nestes jogos ocorria de tudo. Juiz brigou com bandeirinha durante o jogo, e o restante da partida foi apitada por um desconhecido qualquer que não sabia a diferença de lateral para escanteio. A mulher do treinador, desconfiada de suas demoras na farra, deu-lhe uma surra de rolo de macarrão, deixando-o fora de dois jogos. Uma parte da arquibancada de madeira do campo do Minas desabou, sem que ninguém se machucasse, quando estava para ser decidida uma partida com a cobrança de um pênalti.

Na sétima partida não ocorreu nada especifico, além do já acontecido. Ou melhor, houve dois fatos interligados e definitivos que convenceram até Zequinha Nascimento de que a situação estava totalmente fora de controle. Não se precisa dizer que, ao longo daqueles longos dois meses, o único assunto nas diversas reuniões do pessoal do Minas era como enfrentar Carmindo e restaurar a força do grêmio tricolor do Campo Alegre.

Nestas reuniões muitas sugestões surgiram e, em muitos casos, foram seguidas, porém com resultados infrutíferos. A primeira ideia foi procurar o Capitão Lucas da policia para pedir providências contra o feiticeiro. O delegado, que também tinha lá seus medos de mexer com as coisas do além, saiu-se pela tangente dizendo que a Constituição da República garantia a liberdade religiosa. Alguém tentou argumentar que feitiçaria não era religião e que a Constituição não podia garantir a liberdade de se fazer o mal. Para que que se falou isto? O delegado virou bicho e respondeu mais ou menos no grito:

– Olha aqui, gente, o delegado sou eu. Aqui quem manda sou eu. Eu sei o que está certo e o que está errado. A Constituição e as leis do país garantem a liberdade religiosa que este tal de Carmindo está exercendo legitimamente. Assim, quem for mexer com este cara está comprando briga comigo. Entendido?

– Mas, Capitão, “seu ” Carmindo…

– Não tem nem mais nem menos. Enquanto Carmindo estiver rezando, qualquer que seja a reza que ele reze, a Constituição assegura-lhe este direito e eu vou defendê-lo contra o obscurantismo de vocês. E estamos conversados.

Em outra reunião, Tião da Norita se desesperou e passou a procurar as soluções mais exóticas:

– Vou mandar espalhar sal grosso e plantar arruda em volta de todo o campo para ver se conseguimos afastar este mal­ olhado, esta praga de urubu.

Foi aí que alguém se lembrou do sapo enterrado, ameaça constante da primeira fala do Major lá no Galo Carijó, e até então totalmente esquecido por todos. Nos três dias seguintes, dirigentes, jogadores e simpatizantes vasculharam cada milímetro do campo atrás de sinal do sapo enterrado, mas nada encontraram. Foi então que Tião da Norita procurou o prefeito para que ele emprestasse ao Minas um trator da prefeitura para retirar um metro de fundura da terra do campo para ver se achavam e destruíam o maldito sapo que Carmindo enterrara no campo. É claro que o prefeito, com medo do Tribunal de Contas do Estado e com medo de perder eleitores torcedores do Minas, deu uma resposta evasiva, dando tempo ao tempo, para ver se a maré de azar passava sem necessidade da intervenção das forças municipais para enfrentar as forças do além.

Não satisfeito com a protelação do prefeito, Tião da Norita, no afã de resolver o problema, quase que acabou por destruir inteiramente o Minas na semana que antecedeu à sétima partida. Com autorização dos demais membros da Diretoria, convidou Monsenhor Domênico para benzer a sede e o campo do Minas. De bom grado o velho pastor aceitou a missão, principalmente para explicar a todos durante as bênçãos que as histórias sobre Carmindo eram falsas, principalmente porque o próprio Jesus Cristo havia dito a São Pedro que “as portas do inferno não prevaleceriam sobre a Igreja” construída sobre a Pedra que era Pedro. A chegada de Monsenhor Domênico na sede do tricolor do Campo Alegre foi festiva, quase apoteótica. Até os mais temerosos que haviam se afastado do clube estavam de volta. Uma banda de música, assim que chegou o monsenhor, tocou “Estão Voltando as Flores” e logo depois “Queremos Deus”. Foguetes explodiram no ar. Finalmente, com as bênçãos de Deus, o sapo enterrado pelo filho do Cão e o azar seriam definitivamente banidos do Campo Alegre para sempre e a vitória voltaria a sorrir para as três cores do Minas. Ao entrar na sede do clube, Monsenhor Domênico foi abraçado por Zequinha, que respeitosamente lhe tomou a bênção e beijou a sua mão direita. Depois, antes do início da cerimônia religiosa… Zequinha fez um pequeno discurso dizendo da importância daquele dia na história do Minas e das esperanças depositadas pelo povo tricolor que acreditava no poder de Deus para exorcizar e derrotar as forças do mal, que insistiam em abalar a querida esquadra do Campo Alegre. Ao final do discurso, Monsenhor Domênico daria início à bênção. Um coroinha trouxe-lhe os paramentos solenes e, enquanto ele colocava a estola sobre os ombros, Zequinha passava-lhe o missal e o hissope para a aspersão do ambiente com água benta. Foi aí que o inesperado aconteceu, colorindo com cores de uma quase tragédia aquilo que começara tão festivo. Paramentado e pronto para iniciar as suas orações, Monsenhor Domênico fez o sinal da cruz e em voz alta e firme começou:

– ln nomine Patris et Filii…

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu logo depois de iniciada a oração. Parece que ao caminhar para começar a aspersão de água benta, Monsenhor Domênico escorregou, tropeçou ou pisou em falso, mas conseguiu equilibrar-se antes de cair no chão, porém ao custo de uma violenta torção no tornozelo esquerdo que o impediu de continuar com a bênção, tamanha a dor que sentia. Pode-se imaginar o efeito para os que aquilo presenciavam, quando interrompeu-se a cerimônia religiosa e Monsenhor Domênico saiu carregado e gemendo de dor. Para todos os presentes, o pequeno incidente, sem maiores consequências para o próprio Monsenhor Domênico, era um sinal claro de que Carmindo, um homem do Cão, vencera Domênico, um homem de Deus. Isto significava que o Minas estava irremediavelmente condenado a desaparecer. Naquele momento, tivesse o mestre da banda de música tido uma inspiração poderia tocar a Marcha Fúnebre, tal era o espírito que tomou conta de todo o pessoal do Minas.

Mas Tião da Norita ainda tinha um trunfo escondido na manga da camisa. Ele tinha um primo distante que era pai de santo no Rio de Janeiro. Sem autorização de ninguém, embarcou no Noturno para a capital e dois dias depois, véspera do sétimo jogo, estava com Norival da Lyra pronto para desfazer o trabalho de Carmindo contra o Minas. Norival era um boa praça. Alegre, brincalhão, conversador, era aquele tipo de carioca que puxava e chiava nos esses e que aparecia com muita frequência nos quadros dos programas humorísticos da Rádio Nacional . Muito tranquilo durante o almoço, com a presença de Zequinha e outros dirigentes do Minas, brincou à vontade com a história de Carmindo enquanto se empaturrava com o frango a molho pardo preparado pela prima Norita, mulher de Tião. Enquanto atacava a cerveja e o frango, Norival prometia desfazer qualquer artimanha do Demo preparado por Carmindo para atrasar a vida do Minas:

– Comigo não tem chabu. Esse tal de Carmindo vai voltar de marcha-a-ré pros quintos de onde ele veio…

Por volta das três horas da tarde, após um rápido cochilo, Norival foi para o campo para achar e desfazer a coisa que o Carmindo deixara, acompanhado de um pequeno séquito dos novos amigos que rapidamente conquistara naquela manhã de prosa com o pessoal do Minas. Porém, ao chegar ao campo, a sua fisionomia mudou. Seus olhos traiam uma grande pertubação. Olhou para um lado e para o outro, balançou a cabeça e desanimado falou:

– Não dá não. É coisa muito ruim, muito brava. É trabalho pesado. Não tenho poder para resolver isto. Deve ser reza brava de São Marcos Manso e São Marcos Bravo. Primo, vou sair rápido daqui. Que horas passa o primeiro trem para o Rio?

Uma bomba teria um efeito menor. Zequinha que ouviu tudo falou:

– É… o jeito é desistir. O Minas tá acabado.

O sétimo jogo foi contra o Belenense do Morro da Mina. O Minas só conseguiu colocar dez em campo e sofreu a sétima derrota. O próximo jogo seria dentro de duas semanas e o adversário era agora o Queluziano, a esquadra do Major, de Arouca, de Paolo Pulcro e, principalmente, de “ seu” Carmindo do Boqueirão.

A Reação do Minas

Quando tudo parecia perdido, há apenas duas semanas de um embate definitivo contra o seu maior inimigo – o Queluziano, Zequinha teve uma ideia desesperada. Convocou uma reunião extraordinária do Conselho Diretor da Sociedade Esportiva Minas Football Club, com edital publicado na imprensa, para tratar da seguinte ordem do dia:

DISSOLUÇÃO DA SOCIEDADE ESPORTIVA MINAS FOOTBALL CLUB E ESTABELECIMENTO DE DIRETRIZES PARA PROVIDÊNCIAS COMPLEMENTARES.

A convocação abalou a cidade. Não era possível que uma agremiação com aquela tradição e aquele poder de sedução pudesse em um curto espaço de dois meses optar pelo suicídio com medo de alguma coisa vaga, suspeitada e não provada. O golpe de Zequinha deu certo. Compareceram à reunião todos os Conselheiros, todos os ex-Conselheiros, todos os notáveis e benfeitores diversos do tricolor do Campo Alegre. Era uma reunião tensa, mas caras novas que não estavam envolvidas no dia a dia daquela confusão infernal estavam presentes para questionar a validade da decisão de fechar para sempre o Minas. Assim que Zequinha e Tião expuseram toda a história, a reunião se dividiu em dois blocos distintos: aqueles que acreditavam na maldição e temiam pelas suas consequências e aqueles que achavam tudo isto uma grande besteira As ideias do primeiro bloco para a solução da crise eram totalmente fora de esquadro. Houve até um conselheiro mais espiroqueta que propôs contratarem um pistoleiro do sertão, lá dos lados de Curvelo, para acabar com a carreira maldita de Carmindo nesta terra. No entanto, para surpresa de Zequinha, o último grupo era muito maior e muito mais racional, pois era composto de pessoas afastadas do cotidiano do clube e que, apesar de conhecerem toda a história, não estavam emocionalmente envolvidos com a sequência de pragas que vinha abalando a agremiação

.Depois de mais de três horas de discussão, tomou a palavra com uma autoridade inquestionável o Dr. Jaime Brunei. Com mais de oitenta anos, advogado aposentado e fundador do Minas, com uma linguagem às vezes meio rococó, meio rebuscada, ele apresentou uma síntese brilhante do problema que a todos afligia, encaminhando-o para uma solução:

– Meus amigos. O problema apresentado não existe. Não houvesse este tal de “seu” Carmindo aparecido por aqui e estivesse o Minas sendo submetido a esta mesma onda de azares, nós estaríamos procurando as causas aqui mesmo, dentro de cada um de nós, dentro de cada um de nossos defeitos e vícios. O que existe como fato inconteste é que falam, e falam muito, sem uma prova definitiva. Será que Sinvalzinho não abusou da sorte ao subir na mangueira tão alta, se é que a tal mangueira existia de fato? Será que Sarará não fez a curva correndo muito com a bicicleta? Será que o coração da D. Sebastiana não parou de bater por cansaço puro e simples? Será que não estamos procurando chifre em cabeça de cavalo? Ora, ora, meus amigos. Eu, com os meus oitenta e poucos anos, devo morrer em qualquer dia destes. Suponhamos que eu venha a morrer dentro de, digamos, vinte minutos, antes mesmo do encerramento desta assembleia. Eu estou certo de que morrerei devido apenas a uma contingência do tempo passado e da idade provecta. Mas, alguém aqui poderá dizer que minha morte seria mais um malefício deste ubíquo, onisciente e onipotente Carmindo que, para acabar de vez com o Minas, matou o único fundador ainda vivo do tricolor do Campo Alegre. E o que é pior, vocês todos acreditariam e espalhariam mais esta mentira no meu velório. Assim, quero deixar bem claro que se eu morrer hoje, amanhã ou depois, não interessa quando, eu quero isentar o terrível feiticeiro Carmindo do Boqueirão de qualquer culpa neste possível e próximo infausto acontecimento. Senhor secretário, registre em ata, por favor…

A cara do Dr. Brunei tinha um ar divertido, irônico e que causava risos, desanuviando aos poucos o ambiente com a sabedoria de suas palavras. Neste momento, Tião cochichou com Zequinha:

– Compadre, o que que é mesmo ubíquo e ônis não sei o quê?

Jaime Brunei, após os risinhos e a descontração do momento, retomou a palavra :


– “Seu” Carmindo só é forte porque vocês acreditam nele. A força dele é a credulidade de vocês. Vejam só, ele apenas cumprimentou o nosso querido Socó e o que aconteceu? Nosso excepcional “goal-keeper” está tomado até hoje de uma diarreia permanente. Até o nosso pai de santo, aquele simpático Norival, primo do meu querido Tião, se assustou com a onipotência de Carmindo. É claro, mais do que qualquer um de nós, Norival da Lyra tinha de acreditar nos poderes ocultos, porque ele mesmo é um crédulo, que acredita que pode manipular o destino através da magia. Mas a verdade é que nem Carmindo, nem Norival, nem ninguém pode alterar o que está escrito nas páginas do livro da vida de cada um de nós, ninguém, a não ser cada um de nós de per si, pode alterar o destino por artes do demônio ou de quem quer que seja.

Como conclusão, Dr. Jaime Brunei, velho Conselheiro e fundador do Minas, deu o conselho final para destruir Carmindo:

– Falaram aqui em matar o homem. Mas, que pobreza! Carmindo é um primitivo que acredita nos poderes que ele pensa ter. Mais do que Socó, do que Tião, do que Norival ou Zequinha, Carmindo acredita no seu feitiço e no seu poder. Esta é a sua força e pode ser a sua fraqueza. Se o fizermos crer que, como dizia o Poeta, “cessa tudo que a antiga musa canta, que um novo valor se alevanta”, ele fraquejará perante um novo valor, um novo poder que se alevantará para destruí-lo. Creio, assim, que se nos opusermos contra ele com as mesmas armas da magia, ele não resistirá e será derrotado. Mas, principalmente, todos aqui, então, estaremos livres e cientes de que não há, nem nunca houve, feitiço, nem despacho, reza brava ou magia atrapalhando o Minas, mas apenas o medo irracional que abastarda e destrói o homem.

Zequinha, muito atento, procurava entender no meio daquele palavrório difícil a proposta de Jaime Brunei :

– Dr. Brunei, o senhor acha que a gente deve trazer também um outro feiticeiro para lutar contra ele?

– Não. Não precisa disto. Basta que tragam alguém que o primitivo Carmindo julgue ser um perigoso e poderoso feiticeiro. O terror que tomará conta dele será de tal monta, que o nosso Carmindo do Boqueirão fugirá para os confins da Terra como um cachorrinho assustado. Não, não precisa ser um feiticeiro de verdade que, de fato, só existe no medo covardizante que há dentro da cabeça das pessoas. Basta ser uma pessoa convincente. Talvez um bom ator…

As pessoas se entreolharam. O caminho parecia estar certo. Talvez um bom ator… Foi aí que, simultaneamente, três ou quatro dentre os presentes falaram um único nome:

– Don Francesco Sarmanto!

Sarmanto, o Mágico de Queluz ou Rajiv, o Grande


Victorio Marzano, que inspirou o personagem Chico Italiano

Francesco Sarmanto, mais conhecido como Chico Italiano, era uma destas personalidades invulgares. Filho de italianos, muito irreverente, sempre de bom humor, mulherengo, inteligente, era um artista nato. Nunca teve e nem quis ter um emprego fixo, o que não seria problema conseguir com a sua inteligência privilegiada se a tal se aplicasse. Na verdade, ele queria a liberdade de um pássaro, queria voar de cidade a cidade para arranjar um amor em cada porto como um marinheiro que navegasse pelas montanhas de Minas Gerais. Ser artista foi para ele um destino. Aprendeu a tocar meia dúzia de instrumentos, era escultor, fotógrafo, mágico, ventríloquo e ator. Criou um circo mambembe e com ele percorria aquele interior de Minas, deixando em cada cidade um novo amor e a promessa de um próximo retomo. E naquele circo, razão de sua vida, o Chico Italiano desaparecia e, em seu lugar, de fraque e cartola, surgia a sedutora e cativante figura de Don Francesco Sarmanto, o maior mágico do Brasil.

A escolha de Chico para o plano fora perfeita, salvo por uma pequena objeção:

– Mas, Zequinha, o Chico não é nem torcedor de nosso time e, além disto, é muito amigo do Major.

Zequinha não se perturbava com esta argumentação:

– Ô gente, o Chico é amigo do Major, é meu amigo, é amigo de todo o mundo. Agora ele de jeito nenhum vai deixar de participar deste plano. É um plano muito bom e muito divertido para ele recusar.

De fato, Chico aceitou de cara participar do plano, antevendo o divertimento e a nova história que teria para contar. O problema agora era o prazo, pois tudo tinha de ser posto em prática em menos de duas semanas, antes do encontro fatal do Minas com o Queluziano.

A idéia do Dr. Brunei foi materializada em sigilo por Zequinha, Tião e Chico Italiano. Em resumo o plano era atrair Carmindo do Boqueirão para um embate com um grande feiticeiro indiano de passagem por Queluz, contratado pelo Minas para acabar com Carmindo. Rajiv, o feiticeiro indiano, era versado nos mais antigos e secretos protocolos da magia e dizia que o poder de Carmindo era muito pequeno se comparado a seu próprio poder. Quando Carmindo foi convidado para o embate, ele empalideceu e o interlocutor sentiu medo nas suas palavras, corroborando a tese apresentada pelo Dr. Brunei na memorável reunião do Conselho:

– Indiano? Mas que mal lhe pergunte o que este moço quer comigo? ‘Tou aqui quieto sem mexer com ninguém. Não ‘tou entendendo nada…

O interlocutor foi suficientemente hábil para conseguir trazer Carmindo para um rápido encontro com Rajiv, em um território neutro: a casa de Miguel Turco, agora já velho conhecido de Carmindo do Boqueirão. Lá estava o indiano Rajiv, ou melhor, Chico Italiano travestido de marajá indu, traje que usava em um dos sketches apresentados em seu circo. O turbante, as sedas e as pedrarias faziam um efeito colossal, juntamente com a maquiagem do rosto e mãos que transformava em bronze a cor quase loura de Chico. Neste primeiro encontro, Carmindo se aparvalhou, enquanto Chico – ou Rajiv – destilava uma série de ameaças para o pobre capiau, falando um português claro, porém com um sotaque estrangeiro bem carregado. A tática estava dando certo. O objetivo deste encontro era atemorizar Carmindo, mas também desafiar o seu orgulho e amor próprio para o embate final. O Feiticeiro do Boqueirão caiu na armadilha e, a contra gosto, topou medir forças com Rajiv dentro de dois dias num quarto do Hotel Avenida.

O encontro do Hotel Avenida foi definitivo. O cenário montado no quarto foi perfeito, os figurinos idem, tudo digno de uma grande produção de Don Francesco Sarmanto. Cortinas vermelhas e negras, quadros com inscrições exóticas na parede, cheiros de ervas e incensos, velas e defumadores, um crânio ao lado de um grande livro negro, uma estranha escultura de um pássaro com uma cruz de avis presa pelo bico e outras coisas do gênero, a maioria trazida às pressas de um antiquário de Belo Horizonte sem muito critério. Rajiv, o grande e terrível indiano, trajava uma túnica vermelha e um turbante negro, ficando, à meia-luz do ambiente, com um aspecto realmente assustador. Tião e Zequinha eram os outros dois participantes coadjuvantes da trama, estando porém discretamente vestidos com roupas normais.

Ao entrar no quarto de Rajiv, Carmindo sentiu as pernas tremerem. Ele não era um feiticeiro suficientemente poderoso para enfrentar aquele monstro do ocultismo. Rajiv evitou propositalmente qualquer atitude simpática em relação a Carmindo. Usando de seus recursos de prestidigitador e ventríloquo fez alguns truques com cartas e outras mágicas que deixaram o velho capiau atônito e apavorado. Num certo momento, todos pareceram ouvir uma voz pedindo socorro saindo do crânio que repousava ao lado do livro negro. Em outro momento, Rajiv conseguiu materializar no ar uma pomba negra morta, além de fazer Tião levitar vinte centímetros acima do chão. Tudo aquilo eram truques que Chico apresentava em seu circo por todas as bibocas das redondezas, mas para o espírito primitivo de Carmindo eram coisas inacreditavelmente poderosas, inatingíveis e perigosas.

Quando todos sentiram que Carmindo estava perdido, Rajiv deu o golpe de misericórdia:

– Eu ressuscito qualquer morto e o retiro das trevas da morte para a volta à vida.

Para comprovar este poder, da mesma forma que a pomba negra se materializara ele a fez desaparecer e em seu lugar apareceu uma outra pomba igualmente negra, porém viva que saiu voando pelo quarto. Agora começava a parte mais perigosa do plano. Com voz forte e autoritária, Rajiv ordenou a Carmindo:

– Crave o seu punhal de matar porco no meu coração, deixando-o sangrar até a morte. Não se preocupe, pouco após a minha morte eu ressuscitarei e, após voltar à vida, eu o matarei miseravelmente como a um cão raivoso.

Após a ordem, rasgou parte da túnica vermelha na altura do coração e ordenou aos gritos:

– Agora, “seu” Carmindo. Mate-me com o punhal de porco .

Carmindo estava paralisado pelo terror. Ele sabia que se matasse Rajiv ele voltaria à vida para matá-lo em vingança e, se não o fizesse, estaria desmoralizado como feiticeiro. Por outro lado, Zequínha, Tião e o próprio Rajiv-Chico estavam preparados para segurar Carmindo se ele resolvesse seguir ao pé da letra a ordem e tentasse de fato matar Rajiv, porque todos sabiam que, neste caso, a ressurreição de Chico só aconteceria mesmo depois do Juízo Final…

Carmindo titubeou, pôs a mão no punhal, e finalmente entregou os pontos:

– Não posso, “seu” Rajiv. Eu quero é aprender os seus poderes com o Senhor. Por favor, eu não posso…

A batalha estava ganha. Faltava apenas o golpe de misericórdia:

– Carmindo, você não passa de um feiticeirozinho de segunda classe. Jamais vou te ensinar os meus poderes, porque você é de matéria fraca e fracos não podem nunca serem fortes.

– Mas o que é que eu posso fazer pelo Senhor, “seu “Rajiv?

– Vá lá no Campo Alegre e desfaça toda a coisa feita que você aprontou contra o Minas e, amanhã mesmo, desapareça de Queluz e não volte mais aqui, nunca mais, porque, se pisar de novo neste chão, você será fulminado por um raio e será transformado em um monte de cinzas.

– Sim, senhor. Eu vou fazer isto. Mais alguma coisa?

Não. Não tinha mais nada para falar. Mas Chico não resistiu e fez uma molecagem adicional não prevista na trama original:

– “Seu” Carmindo, você não passa de um benzedor de chuva. Domingo, o Minas deverá ganhar do Queluziano, mas durante o jogo cairá uma tempestade infernal em toda a cidade. O Rio Bananeiras vai fugir do seu leito e inundar a parte baixa da cidade. Os trens da Central vão parar porque o pontilhão do Areal vai ser tragado pelas águas. Uma correnteza de água barrenta vai correr desde a Capela de Santo António como se fosse um rio até a Rua Floriano Peixoto do outro lado da linha, inundando casas, bares, botecos, lojas, etc. Eu não quero que esta chuva atrapalhe o jogo no Estádio dos Barrancos. Faça­ me o favor de benzer a chuva e evitar que chova no interior do estádio e junto à arquibancada. Só isto que eu te peço.

– Sim, senhor, “seu” Rajiv.

E Carmindo sumiu correndo do quarto do Hotel Avenida.

Tião e Zequinha não gostaram daquela conversa de benzer chuva:

– Olha, Chico, estamos em julho. Nesta época não chove, o Carmindo pode desconfiar … Não sei não…

Chico, divertido, não se preocupava :

– No domingo, este Carmindo estará a uns duzentos quilômetros daqui. Nunca vai saber se terá chovido ou não no jogo de domingo.

E soltou uma risada alegre e debochada enquanto tirava a fantasia de Rajiv, o Grande.

Epílogo: O Benzedor de Chuva

Foi com alivio que Zequinha, Tião e todo o povo do Minas receberam a notícia no dia seguinte de que Antônio Carmindo Genesaré, antigamente conhecido como o Feiticeiro do Boqueirão, havia embarcado na segunda classe do Shangai da Central do Brasil na direção de Belo Horizonte, carregando uma velha mala de papelão estufada de roupas e outras coisas. A noticia foi confirmada por pessoas do Boqueirão que disseram ter visto Carmindo fazendo umas rezas e fechado o barraco, dizendo que estava de mudança de vez para outros ares. Miguel Turco também confirmou a partida de Carmindo.


O Minas se preparou para a volta por cima. No domingo, com o time completo, ele derrotou o Queluziano por 5 a 2 em uma exibição de gala conquistando a sua primeira vitória após sete derrotas seguidas, para desespero do Major e de toda a sua camarilha.

Um fato, no entanto, chamou a atenção de todos os presentes no Estádio dos Barrancos. O domingo estava um dia bonito, com aquele sol gostoso de inverno. Pouco antes do jogo começar, o céu se fechou e armou-se uma extemporânea tempestade de verão no meio daquele inverno frio. A tempestade desabou de forma catastrófica. O Rio Bananeiras encheu e invadiu casas e lojas na parte baixa da cidade. O movimento ferroviário foi interrompido pela queda do pontilhão do Areal. Houve até desabamentos na parte alta da cidade, com um rio de água barrenta correndo por toda a cidade de alto a baixo. Mas, por um encanto qualquer, a chuva não atingiu o campo dos Barrancos e nem a sua arquibancada. Torcida e jogadores ouviam o barulho da água que desabava em torrentes do céu, viam a enxurrada, e recebiam no rosto a aragem úmida da chuva que caia nas ruas de acesso ao estádio e em toda a vizinhança do campo, mas não molhava de forma alguma o campo.


Chuva causou estragos na região

Foi somente na saída do estádio, com a alegria da vitória contrastando com a violência da tragédia das águas revoltas, que todos, Tião, Zequinha e demais envolvidos na história compreenderam com clareza a situação, sintetizada em uma única frase por Tião:

–   É…, Zequinha. o tal do Carmindo podia não ser o terrlvel feiticeiro que a gente pensava que era, mas ele é certamente um grande Benzedor de Chuva, a maior que já vi….


Estádio sendo demolido

O Guarany, verdadeiro nome do Minas, conseguiu derrotar o feiticeiro, mas seu estádio foi demolido recentemente e hoje é um terreno abandonado. Depois de 106 anos de existência, o clube fechou as portas.

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É um conto com o qual concorri e fiquei apenas na menção honrosa no Concurso de Contos de Lafaiete no distante ano de 1994. Normalmente, nos concursos de Lafaiete fico sempre melhor classificado do que nos concursos do Rio o que comprova o bom gosto de nossos conterrâneos sobre seus congêneres cariocas. Esta história é, obviamente, falsa. O pai, a partir de uma historieta simples sem pé e sem cabeça, inventou o núcleo dramático, matizou-o, incrementou-o  e, depois de muitos anos,  eu aprofundei a mentirada. Ficou assim uma ampla mentira dupla, mentira sobre mentira. Um causo de botequim viria a tomar contornos épicos. Isto não é, simplesmente, mentira. É ficção.

Como era para um concurso público, eu tive cuidados para não ter problemas. A história era uma briga entre o Guarany e o Meridional, que tiveram os nomes mudados para Minas e Queluziano. Mas poucos personagens reais, como Umberto Eco costumava fazer (vejam a minha modéstia), aparecem aqui e acolá, devidamente disfarçados. Alguns nem tanto, como o Zequinha Nascimento, que seria meu pai, e Chiquinho do Bar Galo Carijó, meu tio.  E, outro personagem verídico, vilão também, era o estelionatário Arouca, que na minha ficção era gerente do Banco Mineiro da Lavoura, quando o verdadeiro Arouca, o estelionatário de verdade, era gerente do Banco da Lavoura de Minas Gerais. Este eu fiz questão de manter o nome e a profissão para opróbrio dos pósteros.  Inventei um personagem que não fazia parte da mentira original de meu pai, o Chico Italiano, integralmente baseado no tio Victório Marzano. Se fosse reescrever o conto, eu mudaria seu papel na trama. Seria um mago poderoso, mas jamais um indiano. Soa assaz inverossímil. (Desculpem meu estilo atual, tenho ouvido muito discursos do Temer e do pessoal do STF). O Padre não se baseou nem no Padre Antonio e nem no Cônego Moreira. É um padre descido de paraquedas em Lafaiete. Um achado que eu exploraria mais profundamente foi o Pai de Santo carioca, em que me baseei no contexto histórico da supremacia da capital sobre os aspectos culturais de Lafaiete. O Carmindo, o feiticeiro, tinha o nome inventado pelo pai. Os sobrenomes, inventei-os eu (Obrigado, Temer!).

O problema com os nomes em contos é crítico na minha opinião. Ninguém acreditaria em Darth Vader se ele se chamasse, por exemplo, Mauricio José ou  Ronaldo Tadeu. Ele só é o líder do lado escuro da Força por que se chama Darth Vader. Assim, o vilão da história teria que ser um Major da Guarda Nacional e escolhi o nome Herondini, pois ouvia muitas coisas do verdadeiro Herondini, nem sempre elogiosas. E com isto achei o meu Darth Vader, ou seja, o Major Herondini. Ele não podia ser Major Zé Antônio, não teria credibilidade. Por isto, surge também um jogador chamado Véio Sarará. É um nome com a força de Odete Roitman. Mas este Véio nada tem em comum com o verdadeiro Véio Sarará, a não ser o apelido genial.

O texto estava perdido há uns dez, quinze anos. Encontrei-o há uns dois anos. Achei-o melhor do que julgava e o reli com atenção. Fica uma crítica com o final. Eu queria um final multi-esplendoroso. Achei que não  houve a apoteose que eu previra. E tem uma trama subjacente: o conflito entre a razão e os medos ancestrais. Os medos dominam todo o conto. A razão prevalece já quase no final, mas os medos acabam vencendo ao término da história. Esta era a essência do conto.

Estou fazendo toda esta propaganda para ver se alguém vai ler o conto, pois acho que nem os juízes tiveram saco de lê-lo. Quem disser que leu, vai ter que responder às perguntas, como se fosse no prova. É melhor dizerem que não tiveram saco. Não vou ficar com raiva.

DEFENSORES DA COLINA DO ALTO DA VISTA ALEGRE: O VELHO JOGADOR

por Mauricio Marzano

O texto “Adeus às Armas”, publicado na coluna “A Pelada como ela é” em março de 2012 no O Globo, em que Chiquinho do Galo Branco era personagem de destaque, ganha agora uma sequência emocionada. Maurício Marzano nos informou sobre o falecimento de seu tio em 12/6/15 e enviou esse texto em sua homenagem.

Era meu tio. O mais novo entre oito irmãos e o único que ainda vivia. Já passara dos oitenta e as vicissitudes da idade já lhe pesavam sobre o corpo e a saúde, mas não sobre a mente, sempre lúcida e dotada de uma inteligência afiada e um senso crítico incomum.

Mal havia iniciado o ano de 1928 e as comadres já diziam para a minha avó que o bebê nasceria lá pelo final do mês de fevereiro. Talvez não esperasse o Carnaval, diziam umas. Talvez nascesse na Quaresma, replicavam outras. Se fosse homem, dizia ela, seria Francisco igual ao pai. Melhor, Francisco José idêntico ao pai. Este desejo de ter um filho chamado Francisco vinha desde sempre. Por uma circunstância ou outra, não conseguia realizar aquela vontade. Ou porque um filho nasceu no dia de um santo importante. Ou porque um fato maior a obrigou a escolher outro nome.  E os filhos mais velhos vieram a se chamar Benedito, Cosme, Sebastião e Antônio. E nenhum era Francisco. Como Francisco de Assis, o santo, ou como Francisco José, o pai, conhecido nas redondezas como o Chico do Jota de Itaverava.

Carnaval passou, chegou a Quaresma e, exatamente na primeira quarta-feira depois das Cinzas, Francisco José veio ao mundo enquanto a folhinha de Mariana dependurada na parede da Casa Grande do Prado em Lafaiete, ou melhor, Queluz de Minas indicava o dia 29 de fevereiro. O inusitado da data causou uma mal explicada angústia em Chico do Jota, mas minha avó, mulher de uma fé inquebrantável em Deus, via aquela coincidência como um bom augúrio, um sinal da Divina Providência sobre o menino Chiquinho, como veio a ser conhecido para se diferenciar do outro Francisco, o pai Chico do Jota .

A angústia de Chico do Jota provou ter fundamento. Meu avô era um homem de ação e acreditava na força e no valor do trabalho. Ele via o trabalho com o fervor de um calvinista, se calvinistas houvesse no interior das Minas Gerais. E os frutos do seu trabalho já apareciam e lhe mostravam um rumo seguro e promissor para o futuro. Mas a fatalidade o atingiu antes dos quarenta anos, interrompendo sua luta e seus sonhos. Uma reles infecção, um tempo sem antibióticos e uma medicina empírica com médicos semi-curandeiros se juntaram e conspiraram para tirar-lhe a vida em poucos dias. Mal seu corpo baixou à terra, minha avó compreendeu que era dela a missão de criar os oito filhos, o maior com treze anos e o menor com dois meses, e que só contaria com o seu trabalho e esforço próprio para esta tarefa quase inimaginável. Não que não houvesse recebido apoio dos familiares, todos lá do distante distrito de Itaverava, todos homens do campo, acostumados à dura faina de cuidar do gado e da terra para produzir o pão nosso de cada dia. Mas a ideia de todos eles era levar os meninos para as fazendas para se instruírem na lida bruta de tratar a terra. Minha avó, com a firmeza bíblica da mulher forte, recusou: “Eu não quero que meus filhos vivam para candiar boi dos outros”. E minha avó, viúva de um empresário bem sucedido, viu-se, da noite para o dia, transformada em costureira, profissão que abraçou com o mesmo fervor, crendo firmemente na força e no valor do trabalho.

Os próximos dez anos seriam de luta incansável. As meninas ajudavam nos afazeres domésticos e os meninos, à medida que cresciam, começavam a trabalhar. Um foi ser caixeiro num armazém. Outro foi ser chauffeur. Um terceiro fez concurso para a Central do Brasil. Chiquinho só viria a compreender as dificuldades daqueles anos já na idade da razão, quando o esforço conjunto já começava a atingir os resultados esperados. Mas carregou por toda a vida a sina e a tristeza de não ter conhecido, de fato, o outro Francisco, o Chico do Jota, seu pai.


Festa de aniversário do Guarany

Festa de aniversário do Guarany

Queluz na época era uma típica cidade mineira que orbitava entre algumas instituições. A principal era a Igreja de São Sebastião. Não falei Igreja Católica, prestem atenção, falei Igreja de São Sebastião. Isto porque não havia lá maior autoridade eclesiástica e nem mais devoto seguidor dos ensinamentos de Jesus Cristo do que o Padre Antônio, o seu pároco. Nem Suas Santidades, Pio IX e depois Pio XII, em suas cátedras na distante Roma, foram mais respeitados, amados ou, eventualmente, temidos do que o querido cura.  Outra instituição era a Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurada no Século XIX, por ninguém menos que Sua Majestade Imperial D. Pedro II. Todos queriam ser ferroviários e todos lutavam por um lugar ao sol, ou melhor, um lugar ao lado dos trilhos. A terceira instituição, talvez, exagerando um pouco, em igualdade com as outras duas, era o Guarany Sport Club. Isto mesmo, um time de futebol, aquele estranhíssimo esporte trazido pelos igualmente estranhos ingleses da ferrovia no princípio do Século XX e que, por um destes mistérios imponderáveis e insondáveis da natureza, foi aceito pela comunidade local com direito a todos aqueles nomes exóticos: back, half, foul, corner, penalty, referee…

E o Guarany, time dos ferroviários da Central do Brasil, era o time de toda a família. Dos irmãos, é claro. Mas também das irmãs e da mãe, como fora o time de um de seus fundadores no distante 7 de setembro de 1910, o pai Chico do Jota. E eram todos torcedores, jogadores, dirigentes do time do coração. Criança ainda, Chiquinho se candidatou a uma vaga no infantil. Era fácil conseguir a vaga. Os irmãos mandavam no clube. Um era secretário, outro era jogador, outro era isto, outro era aquilo. Embora haja desmentidos inflamados dos primos, os outros quatro irmãos mais velhos eram ruins de bola. Se não chegavam a ser pernas-de-pau, estavam bem perto. O dirigente de plantão, quando via um dos irmãos furando uma bola ou deixando passar um atacante adversário, ia com muito tato e convidava o perna-de-pau a virar cartola. Começava dando-lhe uma representação qualquer. Podia ser uma cerimônia na prefeitura, podia ser um casamento, um enterro, qualquer coisa. Depois era eleito segundo secretário ou segundo tesoureiro e, para alívio de todos torcedores, este irmão deixava o gramado, pendurava as chuteiras e passava a usar uma reluzente cartola. Quando deixaram Chiquinho entrar no infantil, pensava-se que ele seguiria o caminho dos irmãos, todos grandalhões fortes e meio – ou muito – grossos. Mas Chiquinho tinha um amor pela bola e sabia tratá-la bem. Estava muito distante dos irmãos. Era um craque. Alçou-se às divisões superiores e chegou à equipe principal ainda quase adolescente.

É importante ressaltar que estas atividades esportivas eram todas amadorísticas e que isto tudo era feito mantendo-se o trabalho regular para o sustento do dia-a-dia. Chiquinho não podia ser jogador de futebol em tempo integral. Tinha que ganhar o pão de cada dia, como na sentença bíblica, com o suor do rosto. Ganho o pão, o suor remanescente molharia com um esforço adicional a camisa tricolor do Guarany no Alto da Vista Alegre, poético nome do campo e, depois, do estádio do nosso time amado por todos. Entre uma partida e outra, um campeonato e outro, uma grande vitória e uma triste derrota, Chiquinho trabalhou na mineração de ferro da Siderúrgica Nacional quando de sua implantação na Segunda Guerra, foi motorista da mineração de manganês da subsidiária local da US Steel – que, por uma destas ironias da vida, dava o nome e patrocinava o Meridional,  o grande, o maior adversário do Guarany –   e foi comerciante, sendo proprietário e gerente do famoso e inolvidável Bar Galo Branco que, ao longo dos anos, dia após dia, era o foro especializado, era a arena, e algumas vezes até o ringue,  para as mais acaloradas discussões sobre futebol, entre churrasquinhos no espeto, sanduíches de “bauru” e cervejas, muitas cervejas,  entrecortadas sempre por algumas – ou muitas – palavras de calão, naturalmente impublicáveis.  O trânsito não era intenso naqueles anos, mas a multidão que lá comparecia ao anoitecer ocupava grande parte da Rua Marechal Floriano quase fechando a travessia da Central do Brasil, obrigando um outro carro desavisado a abrir caminho cuidadosamente entre os grupos em discussão.

A carreira de Chiquinho no Guarany foi brilhante. Infantil, juvenil, equipe principal, equipe de veteranos.  Já veterano, com a calvície acentuada, herança direta dos Costa Carvalho, família de Vó Miquita, e marca indelével dos tios e primos, jogava ao lado de sobrinhos. Mesmo assim, nunca aceitou a cartola, por mais honorífica que fosse. No dia em que alguém lhe pediu para representar o Guarany em uma solenidade, ele, irônico, respondeu: “Represento sempre o Guarany. Mas só dentro das quatrolinhas.”

Finalmente, chegou a hora de pendurar as chuteiras. Já era um senhor maduro e sabia que a hora de sair tinha chegado. Mas não abandonou o esporte. Jogava suas peladas em timinhos amadores. Iniciou-se no vôlei, futsal, basquete, etc. Era o técnico que parecia entender tudo de futebol. Era o comentarista com opiniões duras e firmes. Uma vez, num time de sobrinhos, ele decidiu entrar. Foi uma decisão unilateral.  Comunicou à irmã, mãe dos líderes do time, que queria ser parte da equipe e pronto. O sobrinho técnico anuiu – como contrariar a mãe e magoar o tio bom de bola? –  mudou seus esquemas estratégicos e sugeriu, cuidadosamente, que o Tio Chiquinho ficasse no banco para ser substituído segundo planos táticos deste primo-professor. Ele na mosca: “Não fico no banco. Começo jogando. Se cansar vou embora.” E citando Nelson Rodrigues finalizou: “Craque e mulher bonita não tem idade. Júlio César nunca quis saber a idade de Cleópatra e nem Salomão a idade da Rainha de Sabá”.  Em outra ocasião, o técnico era ele e barrou dois sobrinhos ruinzinhos de bola, com a desculpa que eram muito jovens. Os meninos reclamaram: “Mas, tio, o Feola convocou o Pelé com 17 anos”. Resposta fulminante: “Eu não sou o Feola. E vocês não são o Pelé”. Não preciso dizer que os dois primos ruins de bola não abandonaram o futebol, é claro, mas aceitaram de bom grado a cartola honorária e acabaram ambos assentando-se na diretoria do Guarany, tendo ambos, posteriormente, presidido em grandes momentos o clube do coração da família..


Chiquinho e o goleiro Véio Sarará

Chiquinho e o goleiro Véio Sarará

Chiquinho, com seu amor ao esporte, adquiriu um notável conhecimento de futebol. Sabia tudo e tinha uma opinião forte sobre tudo, muitas vezes, ou na maioria das vezes, uma opinião heterodoxa: “Em 50, o Campeão do Mundo tinha nome, sobrenome e endereço conhecido, Obdúlio Varela. Os outros dez foram meros coadjuvantes para tirar a foto da vitória”, ou então, “Pelé é bom, mas em certos jogos ele se parece mais com o Pão Velho, jogador lá de Gagé”, e sobre um goleiro que ele admirava pouco, “Se tivessem levado um goleiro, um goleiro qualquer, por exemplo, o Véio Sarará da Cachoeira, o Brasil teria sido campeão.”

Para ser justo com Chiquinho, estas opiniões heterodoxas não eram exclusividade dele. Meu pai, Zé Cosme, irmão dele, levou um sobrinho, o Tonho da Lica, para treinar no Cruzeiro de BH. Voltou decepcionado: “Tonho jogou muito mal. Parecia o Gerson no meio do campo”. Um primo não entendeu: “Que Gerson, padrinho?”. A resposta: “o Gerson da seleção.” Meu pai comparava o sobrinho que tinha jogado “mal” ao tricampeão Gerson, o canhotinha de ouro. Vá lá entender estes Nascimentos…

O tempo passou. O Brasil deixou de ser o país do futebol. Não havia mais Gersons e nem Pelés, por pior que pudesse ser o conceito que faziam deles os irmãos de opiniões heterodoxas e axiomáticas. O Guarany, pouco a pouco, foi sendo abandonado. Os dois sobrinhos, aqueles mesmos meninos que tinham sido barrados pelo técnico Chiquinho e que tinham presidido o time até pouco tempo antes, ambos médicos conceituados em Lafaiete, partiram precocemente para a eternidade, deixando órfãos, além de seus filhos, parentes, amigos e pacientes,  o Guarany Sport Club, clube que julgavam, erroneamente, imortal…

No centenário do clube, em 2010, Chiquinho, convidado de honra, chegou a ir ao Alto da Vista Alegre. Por fora dava para ver que o tempo corroía as estruturas do estádio que, de relance, parecia uma ruína de tempos pretéritos. Recusou-se, definitivamente, a entrar. Não disse, mas nós subtendemos que ele não queria ver o Guarany agonizando. Não queria ver o Guarany morrer aos poucos de inanição.

Veio o golpe final para Chiquinho. Um grupo de financistas, negocistas, arrivistas, oportunistas e outros istas conseguiu tomar de assalto a direção do clube, àquela altura a deriva, e, com isto, controlar seu patrimônio para poder demolir, antes do Natal de 2013, o estádio do time fundado pelo pai Chico do Jota, presidido pelo irmão Zé Cosme e pelos sobrinhos Altair e Dimas e em cujo gramado brilhou a sua estrela de craque, a estrela de Chiquinho do Nascimento. Por que isto? Perguntavam todos. Ora, porque é hoje uma área nobre. Pode ser um supermercado, pode ser um shopping, pode ser isto, pode ser aquilo, pode ser aquilo outro. Pode ser o que for, mas jamais será de novo o campo do Guarany Sport Club. Jamais voltarão a se ouvir os aplausos e vaias imortais. Jamais voltará a se ouvir a torcida em coro aos gritos contra o juiz, os bandeirinhas e os atacantes adversários. Um silêncio sepulcral se abateu para sempre no Alto da Vista Alegre, que visivelmente perdera a alegria de sua vista.

Chiquinho sabia que a história do futebol brasileiro tinha começado com milhares de Guaranys espalhados, como se dizia antigamente, do Oiapoque ao Chuí. De suas várzeas e campos de terra, nasciam os craques. Chiquinho intuiu também que a destruição do Guarany de Lafaiete e de milhares de outros Guaranys espalhados por aí era também a destruição do futebol brasileiro. Por isto ficou silente. Silente e triste. “Brasil, dizia ele, não será campeão. Quem ganha jogo é amador. Profissional ganha dinheiro”. Frase de efeito? Talvez. Ou quem sabe um pressentimento? Nunca saberemos.

Copa do Mundo de 2014. A saúde fortemente abalada, mas a lucidez ainda presente. Um neto aproxima-se de seu leito. “Vô, a Copa começa o mês que vem. No Brasil!” O velho jogador esboça um sorriso, faltam-lhe forças. “Vô, quem vai ser o Campeão do Mundo?”. Faz um esforço e diz com voz baixa mas audível:“Alemanha”.

No dia 11 de junho, Chiquinho despede-se de uma longa e fecunda existência, fecha os olhos e muda-se para as etéreas plagas onde, segundo Castro Alves, vivem os heróis do Novo Mundo. Não esperou a abertura da Copa no dia seguinte, quando o Brasil, contrariando talvez seus prognósticos, derrotou a Croácia por 3 x 1. Escutei o jogo no rádio do carro, voltando de seu sepultamento em Lafaiete e pensando em suas expectativas: Alemanha, campeã do mundo.

Hoje ao rememorar aqueles fatos, acho que Deus foi generoso com Tio Chiquinho, poupando-lhe o dia 8 de julho de 2014 e os 7 x 1 no Mineirão, estádio tantas vezes frequentado por ele. A sua profecia, infelizmente, se cumpria. E de forma dramática. Mas ele não estava mais aqui para presenciá-la. E, neste dia, o silêncio sepulcral reinante no Alto da Vista Alegre parecia mais intenso do que nunca… Não era só o Guarany que morria, era o futebol brasileiro.