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Marluci Martins

DE CRAQUE PARA CRAQUE: A VIRADA

texto: Marluci Martins | edição de vídeo: Daniel Planel

Até o futebol, uma aglomeração necessária na vida, ficou para escanteio, na dividida cruel entre a vida e a morte. Vivemos assim nesses tempos de pandemia, com mais derrotas do que vitórias, mas acreditando na virada que há de vir.

A bola está com os profissionais da saúde. O gol é deles.  Quem se acostumou a ser aclamado agora aplaude e torce. Por eles.

Quando Zico, o primeiro a ser acionado por WhatsApp, enviou seus aplausos em vídeo como quem corre decidido para a bola, bateu aquela certeza de que um verdadeiro escrete entraria no campo do Museu da Pelada para reverenciar quem pode fazer, hoje, a diferença nesse jogo, o time de profissionais da saúde. Deu no que deu. Craques aplaudem craques. 

Vamos virar.

JORNALISTA MODERNO

por Marluci Martins


Jornalista moderno não manda parar as máquinas. Vira o site todo.

Jornalista moderno não faz ronda por telefone. Faz busca na internet.

Jornalista moderno não passa fax. Manda zap.

Jornalista moderno não tem agenda de papel. Salva o número no celular.

Jornalista moderno não imprime. Printa.

Jornalista moderno não usa liquid paper. Dá backspace.

Jornalista moderno não tira licença. Faz home office.

Jornalista moderno não grita pra dar esporro. Manda e-mail.

Jornalista moderno não tem hora extra. Tem banco de horas.

Jornalista moderno não quer só audiência. Quer seguidor.

Jornalista moderno não faz pescoção. Faz adiantamento.

Jornalista moderno não usa carbono. Dá Ctrl C Ctrl V.

Jornalista moderno não diagrama. Risca a página.

Jornalista moderno não usa lauda. Usa tela.

Jornalista moderno não erra. Bota a culpa no estagiário.

Jornalista moderno não fura. Analisa.

Jornalista moderno não copidesca. Dá um tapa no texto.

Jornalista moderno não usa dedo-duro. Bota link.

Jornalista moderno não recebe o jornal na porta de casa. Baixa no aplicativo.

Jornalista moderno não usa bloquinho. Usa tablet.

Jornalista moderno não tem deadline. Tem a vida inteira para olhar o passado e aprender com as mudanças que pintaram de 21 de junho de 1989 pra cá. Naquele dia, Maurício deu um toque nas costas de Leonardo, pegou de primeira e entrou para a história do título estadual do Botafogo, diante de um Flamengo sem Zico, substituído por lesão. Eu estava lá no Maracanã, fora da cobertura, apenas como espectadora, toda prosa com a carteira de trabalho recém-carimbada pelo RH da empresa. Tinha sido contratada horas antes, após um ano de estágio. O Dia era o primeiro passo de uma caminhada repleta de gols, contusões, vitórias e, sim, algumas poucas derrotas.

Jornalista moderno não fala de derrota. Nem o antigo. Nenhum fala. Jornalista nenhum vai narrar o furo que tomou, a bronca que levou, a humilhação que sofreu. Não serei a primeira, acalmem-se os poucos fãs e desafetos. Pouparei todos nós e a história de uma carreira longa – 30 anos e mais um de estágio; 1.000 plantões dominicais sustentados principalmente por uma época em que no jornalismo esportivo trabalhava-se três domingos seguidos e folgava-se um; cinco parafusos no mindinho da mão direita após um tombo durante os Jogos de 2016, e furos, muitos furos, mais dados do que tomados, graças a Deus.

Não cabe citar nomes de coleguinhas aqui. Jornalista moderno não tem memória boa. Ainda mais no meu caso, uma moderna de 51 anos que não lembra quem marcou o gol do último título do seu time. Mas, nesse caso, a culpa é mais do Vasco do que minha.

Jornalista moderno não esconde o time. Jornalista antigo também não. Se não fala, é porque tem vergonha do 15º lugar na tabela e da marca ridícula de duas vitórias em nove jogos disputados no Brasileirão. Mas vamos mudar de assunto e tomar um café.

Jornalista moderno não toma café. Se toma, não toma tanto assim. Também não queima a beirada da mesa com a guimba do cigarro porque é proibido fumar na redação. Também é proibido tomar café na redação. Também é proibido comer na redação. Também é proibido jogar bola na redação. Sério. Eu não tomei café nem fumei na redação. Mas já joguei altinha. Isso foi na virada dos anos 80 pros 90, e eu nunca chamei aquele jogo de altinha. Mas com o tempo aprendi que era esse o nome.

Era proibido tomar cerveja na redação. Então, a gente descia pro bar do Rocha, na Rua do Riachuelo, por volta das quatro da tarde. Era um catalisador de inspiração aquele lugar, com provolone, salaminho, azeitona e pão francês no cardápio em lousa e giz. A redação ficava em frente, de onde do nada surgia na janela o editor bigodudo abrindo os braços, nervoso, impaciente, acabando com a sesta etílica. “Sujou! Vamos subir”.

Jornalista moderno sobe. Vamos subir esse texto no site. Agora, rápido, tá lá, já foi…

PARA QUE A SOLIDARIEDADE NÃO VIRE HIPOCRISIA

por Marluci Martins


Ninguém mais vai fazer campanha nas redes sociais contra jogador e jornalista. Ninguém vai zombar do torcedor desesperado que ameaçou se jogar do alto da marquise de São Januário. Ninguém vai dizer pro Zico que ele perdeu um pênalti em Copa do Mundo. Ninguém vai gritar “assassino” pro Edmundo se ele der o pontapé inicial num Flamengo x Vasco. Ninguém vai xingar a mãe do árbitro. Ninguém vai bater em ninguém a caminho do Maraca.

Sidão, quem diria, uniu os torcedores na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias, até que a morte os separe.

Será?

Cobra-se da emissora de televisão sensibilidade. Cobra-se respeito. São críticas pertinentes, mas tão relevante foi a convicção do pessoal da TV, que fez o mea-culpa em cadeia nacional ainda na noite do fatídico prêmio concedido ao goleiro do Vasco. Quem mais, além da emissora, pediu perdão ao goleiro?

Os que lideraram a campanha nas redes sociais pela votação em Sidão, um dos piores homens em campo no domingo, já se desculparam ou sentem orgulho do feito? Não duvido que, covardes, estejam vociferando contra a empresa de comunicação.

A transferência de responsabilidades é o jeitinho dos comodistas enganadores das redes sociais. São hipócritas demais, uma ameaça ao sistema, como o hater que fere a índole de alguém e culpa o primo safado, contumaz ladrão de senhas.

Toda solidariedade do mundo ao Sidão. Ele merece. Mas, antes, vale dar uma olhada para o umbigo e ver se não existe um hater escondido ali. Para que a solidariedade não vire hipocrisia, oportunismo barato.