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Mário Vianna

MARIO VIANNA FALOU? TÁ FALADO!

por Elso Venâncio


Mario Vianna, “com 2 enes”, como pedia para ser anunciado, era um showman na Cabine 10, a “Cabine Pelé”, da Rádio Globo no Maracanã. Figura querida e popular, seus gritos no microfone ecoavam pelo estádio na época em que o torcedor não desgrudava o rádio do ouvido. Acompanhava os jogos atentamente e com um enorme binóculo:

– Errrrrrrrooouuuu!!!

– Gooooollll Leeeegal!!!

– Goool Iiiiilegal! Iiiiilegal!!!

– Lamano, Lamano, Lamano!!!

– Pênalti mal marcado não entra!!! Não ennnntraaa!!!

– Saiu da figura A para a figura B, Arnaldooo!!! (para o ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho)

– Eu vou descer, Armandinho! Armandinhoooo!!! (para o ex-juiz Armando Marques)

O rádio, até os anos 90, era o veículo pelo qual o torcedor ouvia futebol. Jorge Curi, Waldir Amaral, Doalcei Camargo e o ‘Garotinho’ José Carlos Araújo, que continua no auge, agora pela Rádio Tupi, eram os grandes nomes das transmissões esportivas no Rio de Janeiro.

Fui contratado pela Rádio Globo em 1985, pouco depois do José Carlos Araújo e do ‘Apolinho’ Washington Rodrigues. Viemos da Rádio Nacional, com Jorge Cury indo de imediato para a Rádio Tupi; e Waldir Amaral, para a Rádio Jornal do Brasil.

Mario Vianna foi mantido como comentarista de arbitragem. Chegava cedo aos estádios. Kardecista convicto, às vezes se concentrava e fazia previsões dos jogos. No México, em 1970, certa vez acordou Luiz Mendes pedindo para ele ligar para o Brasil, porque um irmão tinha falecido. Espantado, Mendes ligou e a notícia foi confirmada. Tinha, na época, mais de 80 anos, mas com um porte físico que chamava a atenção. Sempre foi bom de briga, desde os tempos em que integrava a Polícia Especial do ‘Estado Novo’. Aliás, ele e o ex-preparador físico – e técnico – Paulo Amaral policiavam a cidade, pilotando potentes Harley Davidson. Eram os temidos “boinas vermelhas” do Presidente Getúlio Vargas.

Nas minhas caminhadas pela Urca, eu o encontrava na Praia, em frente ao antigo Cassino. Chegava cedo, colocava sua barraca e se exercitava na areia. Era o ‘fiscal’ do balneário. Se alguém acendia um cigarro, imediatamente era repreendido:

– Aqui é lugar de saúde. Apague isso aí.

E quem se atrevia a contrariá-lo? Se chegava um criança, Vianna se transformava. Sorria, feliz. Queria brincar e virava criança junto. Falava que foi o primeiro a denunciar esquemas de corrupção na FIFA. Apitou a Copa de 1950 no Brasil e, em 1954, fez o jogo Suíça 2 X Inglaterra 1 – até ser expulso da entidade.

– Me excluíram porque denunciei a roubalheira.

No Natal, vestia-se de Papai Noel e rodava por seu bairro distribuindo presentes. Reza a lenda que estava em um trenó e contornou a Avenida Portugal, onde há hoje uma cabine da PM, entrando na Marechal Cantuária. Dentro de um bar, alguém gritou:

–Papai Noel é viado! Viado!

Na mesma hora, ele contornou o quarteirão, passou novamente pelo local e ouviu:

– Papai Noel é Viado!

Gargalhas surgiram…

Mario Vianna desceu correndo, agrediu quem lhe aparecesse pela frente e os provocadores, alguns bêbados, saíram correndo. A garotada comentou:

– Xiiii… O Papai Noel tá zangado.

Waldir Amaral, vibrando com o sucesso comercial e com a audiência da Rádio Globo na época de ouro do Rádio Esportivo, reuniu a equipe e parabenizou todo mundo:

– Vocês são extraordinários! São famosos! O Brasil inteiro nos ouve! Agora, preciso de uma frase para definir essa fase sensacional. Pensem! Pensem nela, por favor.

Titio Mario Vianna, como era carinhosamente chamado, cochilava. De repente, abriu os olhos e decretou:

– Waldir, Waldir, Waldir…. “Veja o jogo ouvindo a Rádio Globo!”

Verdade! Era como se o ouvinte estivesse à beira do gramado.

Waldir levantou os braços, levou as mãos à cabeça e se derreteu:

– Mario… você é um gênio!

Mario Vianna foi o mais corajoso e verdadeiro árbitro brasileiro. Ainda era o próprio VAR – cabia a ele decidir o que estava certo ou errado, de acordo com as regras do jogo. Os locutores repetiam sempre a frase:

– Mario Viana falou? Tá falado!

Saudades de personagens como ele no mundo do nosso futebol.

BAIXINHO TINHOSO

por Victor Kingma


Mario Vianna apitando a final do Campeonato Pernambucano de 1954, entre Nautico e Sport.

Nos anos cinquenta, Mario Vianna, com dois “enes”, como sempre frisava, era um dos melhores e mais severos árbitros do Brasil.

Certa vez, escolhido a dedo para apitar uma problemática decisão no interior mineiro, levava o jogo com a costumeira autoridade. Entretanto, após marcar uma falta perigosa para os visitantes, foi cercado por vários jogadores locais que ameaçavam agredi-lo.  

Destemido, e forte como um touro, Mário Vianna encara todo mundo e, de peito estufado, esparrama o bolo de jogadores que se formava.

Todos acabam afinando perante à enérgica reação do truculento árbitro e vão se afastando do local da cobrança. Porém, Tampinha, o veloz ponta direita do time, de apenas 1,55 m de altura, o mais revoltado com a marcação, parte ferozmente em sua direção.

Mário Vianna, então, o recebe com uma tremenda peitada que o joga lá no alambrado do pequeno estádio.


Mario Vianna, Evaristo e Puskas antes da partida Flamengo x Honved da Hungria, em 1957.

Enquanto Tampinha, atordoado, era socorrido na lateral do campo, o experiente juiz ordena que a partida fosse reiniciada e a cobrança da falta realizada.

Cinco minutos depois, ao ver o jogador recuperado do knockdown, Mário Vianna se dirige à beira do campo e, como se fosse um juiz de boxe, faz sinal para ele voltar à luta, ou melhor, ao jogo.

– Não vai expulsa-lo seu Mário, tentou agredí-lo? – pergunta o bandeirinha.

–  Vou não! Este pontinha é dos meus. Provou que é valente. É baixinho, mas é tinhoso!

E conclui:

–  Além do mais, não fiz grande esforço para acalma-lo. Com certeza ele não vai me perturbar mais. Pode deixar ele voltar pro jogo.