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Luis Vargas

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por Luis Vargas


Criei-me na Tijuca e, felizmente, sempre fui boleiro. Lá pelo início dos anos 70 – não me recordo a data exata -, éramos um grupo de peladeiros que “descobriu” um campinho numa das entradas na subida do Alto da Boavista que era perfeito: grama ótima e duas “balizas” devidamente instaladas. Sem pensar duas vezes, nosso grupo passou a utilizar o campinho aos sábados à tarde (seis pra cada lado mais o goleiro) para jogar peladas.

Um belo dia, aparece um carro que não conhecíamos. O motorista estacionou e, quando desceu, a cabeleira loura já chamou a atenção – embora nós todos também cultivássemos as melenas tradicionais da época e da nossa geração. Não demorou muito para identificarmos a figura do Marinho, que estava numa ótima fase da carreira. Ele se aproximou do grupo, cumprimentou geral e, com a simplicidade dos grandes, perguntou se poderia “brincar” conosco. Claro que a alegria foi geral pela possibilidade de jogar uma pelada com um craque daquele naipe.

Divididos novamente os times – com a preocupação de equilibrar por causa do “reforço” do Marinho – e a pelada rolou tranquila, com ele jogando naquele ritmo que os craques usam quando jogam com amadores: só acelerava quando precisava “equilibrar” o jogo. Bola vai, bola vem, o Marinho subiu para o ataque e minha defesa rebateu uma bola – mal – que veio à feição para o jogador adversário que vinha de frente “encher o pé”. Para meu azar, o cara que vinha de frente, na corrida, era o Marinho. E o adversário que saiu para cortar o chute era eu! O craque largou o pé e só tive tempo de virar de costas. A porrada – felizmente! – veio baixa e pegou na coxa. Ardeu pra cacete e o Marinho, imediatamente, correu para mim com um pedido sincero de desculpas, estampado também no olhar. Fitei-o e respondi, sorrindo:

– Tudo bem, mas você largou o pé só porque eu sou flamenguista!

Ele riu, pediu desculpas, me deu um abraço e, claro, eu ri também e mandei o jogo seguir. Acabada a pelada, ele agradeceu e disse que não poderia ficar pois tinha um compromisso.

Cumprimentou um a um, entrou no carro, deu um tchau e foi embora. Passei a admirá-lo como pessoa depois desse dia, pois como jogador ele era excelente. Que Deus o tenha!