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Luis Pereira

UMA FORTALEZA CHAMADA LUÍS ‘CHEVROLET’ PEREIRA

por André Felipe de Lima


 Pisada para dentro, joelhos próximos um do outro. Olhando-o correr, temíamos que caísse a qualquer passo mais largo. Mas isso não acontecia. Permanecia firme, sem tropeços.  Quem imaginaria que um camarada assim, digamos, desengonçado, tornar-se-ia um dos melhores zagueiros de todos os tempos do Palmeiras e do Atlético de Madrid? Falamos do grande Luís Pereira, que comemora nesta segunda-feira (21) mais um aniversário.

O ídolo alviverde nasceu em 1949, em Juazeiro (BA), e começou a carreira no São Bento de Sorocaba. No clube paulista, passou a ser chamado de Luís “Chevrolet”, apelido que perduraria ao longo da carreira. Em 1968, seguiu para o Palmeiras. Foi para o Parque Antarctica, porém contrariado. Não queria deixar a namorada, a Marilu, em Sorocaba. Levou-a junto e com ela se casou. Não demorou muito, no entanto, para ocupar o lugar de Baldocchi, então tricampeão na Copa de 70.

Luisão deixava os treinadores com o cabelo arrepiado. Era um contumaz zagueiro-atacante. Partia desembestado para o ataque, sem mandar recado. E fazia até mesmo uns golzinhos. “Eu ataco porque gosto de ficar perto da bola. É que nunca tive brinquedos quando criança”, dizia o espirituoso Luís Pereira.

O ídolo sempre demonstrou essa bem-humorada característica de sua personalidade. Entre os amigos, companheiros e torcedores. Luís Pereira sempre teve vocação para ídolo. Mas essa nota carismática que sempre o moldou pode ter sido também o bálsamo para os momentos mais difíceis pelos quais passou na vida.


Em março de 1973, Luís Pereira se preparava para estrear pela seleção brasileira. Era um momento especial na vida dele e de Marilu, que esperava um filho do casal. Mas, poucos dias antes do zagueiro se apresentar ao escrete, a esposa perdera o filho durante o parto. O trauma foi intenso e devastador na família. O zagueiro não queria sair do lado da abalada esposa. Marilu, mesmo deprimida, convenceu Luís Pereira a seguir com a seleção. “Você deve ir. Vá e jogue por mim. Jogue muito”, pediu a esposa.

“Eu fui, mas ainda tinha vontade de ver o mundo se desintegrar. Eu queria que tudo sumisse num segundo. Depois de algum tempo fui entendendo melhor a vontade de Deus. Eu tinha que ser duro por fora e mole por dentro. Se eu desmoronasse, levaria tudo comigo. Um médico me ajudou muito a entender as coisas. Ele me mostrou um bebê de 18 meses, morto, e me fez entender que seus pais deviam estar sofrendo mais do que eu. Eles tiveram dezoito meses de convivência e nós tivemos nove meses de expectativa. A gente não esquece, mas tem de se conformar”, recordou o zagueiro, em entrevista concedida ao repórter José Maria de Aquino, um ano após o drama familiar.

Após uma passagem inebriante e recheada de conquistas pelo Verdão — três campeonatos nacionais e dois paulistas —, Luís Pereira rumou, em 1975, para o Atlético de Madrid, onde ficou famoso (e ídolo, claro!) de uma apaixonada torcida que o chamava carinhosamente de “El mago”.

Chevrolet, que foi o zagueiro da seleção na Copa de 74, voltaria o Palmeiras em 1981 sem, contudo, o brilho técnico de outrora, mas com o mesmo ímpeto e determinação marcantes na carreira daquele craque que, quando menino, era muito pobre, mas que jamais se abateu com os dissabores com os quais a vida às vezes nos surpreende. “Eu fui um menino feliz sem ter nada”.  Por ser essa fortaleza, o bravo Luís Edmundo Pereira tornou-se o maior zagueiro da história do Palmeiras, e um dos melhores exemplos de como deve ser um ídolo do futebol.

VEJA ALGUNS GOLS DE LUÍS PEREIRA PELO VERDÃO

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O SOTAQUE DE LUIS PEREIRA

por Joel Prado


Revendo a resenha do Museu da Pelada, sobre o grande Luis Pereira, lembrei quando ele pegava a bola na defesa do Palmeiras e seguia em linha reta, trocando passes, passadas largas, em direção ao gol adversário, pela mesma avenida usada habitualmente pelo maestro Ademir da Guia. Nasceu com o talento de ótimo defensor, mas se realizava com os gols que fazia. Pernas voltadas para dentro, como a se prevenir por natureza de levar uma caneta de um atacante atrevido.

Após a Copa de 1974, ele e Leivinha, para nossa tristeza, foram contratados pelo Atlético de Madrid, conseguindo por lá o mesmo sucesso que tinham por aqui. Um capitulo à parte, para o Mundial de 1974, Zagallo levou seis jogadores do Palmeiras, mas se não fosse pra usar, pra que levar a espinha dorsal do maior time da época?

O que me trouxe à lembrança, foi uma entrevista dada por Luis Pereira pouco tempo depois em visita ao Brasil, em que falava com um sotaque tão acentuado, como se fosse nativo da Espanha, para quem no tempo na Capital Paulista pouco sotaque o remetia à sua Bahia, já se vislumbrava o futuro em terras espanholas, onde fixou residência.