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Levir Culpi

Ô, TORCEDOR CHATO!

por Valdir Appel 


No estádio Durival de Brito e Silva, do Paraná Clube, nada é diferente dos demais estádios de futebol brasileiros. Por exemplo: atrás do banco de reservas do time da Vila Capanema, sempre se posicionam os torcedores mais chatos, são os famosos cornetas que, na falta do que fazer, preferem passar as suas tardes e noites esportivas, xingando o técnico. 

O Levir Culpi até que fazia uma boa campanha, dirigindo o Paraná no campeonato estadual, o que não impedia um torcedor de azucriná-lo em todas as partidas disputadas em casa. O cara nem olhava pros lados e pro jogo. Ficava ali, coladinho no alambrado, bem atrás do Levir, repetindo o tempo inteiro:

– Buuuurro! Buuurro! Buuurro!

Levir, equilibradíssimo, fazia de conta que não era com ele. 

Outro domingo: mesmo campo, mesmo corneta, mesmo técnico…

O jogo empatado, complicado e chegando ao final. Levir, na dele; o torcedor, também:

– Buuurro! Buuurro!

Aos 40 minutos, Levir ousa uma última cartada, buscando a vitória. Saca um zagueiro e coloca mais um atacante. Aos 46 minutos, já nos acréscimos, uma bola alçada na área encontra a cabeça do centroavante que acabara de entrar.

Golaço!

Vitória suada e de alívio pro Levir, que se vira para trás, buscando o olho do torcedor, seu desafeto. 

Antes que Levir possa desabafar, o torcedor emenda:

– Burro!… E com sorte!

OS DEUSES DO FUTEBOL NÃO DORMEM

por Zé Roberto Padilha


Além de torcer pelo Fluminense, que não tem sido fácil, passei a acompanhar, pelo prazer de assistir futebol, dois times do Brasileirão: Atlético Paranaense e Atlético Mineiro. Do primeiro, quase imbatível em sua Arena, ouso lançar o nome do melhor jogador do campeonato: Pablo. Técnico, escorregadio e goleador, já merecia há tempos um reconhecimento da mídia. E uma oportunidade na seleção. Do Mineiro, aprecio seus contra-ataques. Em torno de um pivô, Ricardo Oliveira, há triangulações pelos lados e penetrações mortais pelo meio. Um bando de baixinhos habilidosos e velozes circulam à sua volta com os laterais chegando. Nada de toques para o lado. A busca do gol incessante do começo ao fim. Um futebol moderno e diferente dos outros..

Daí vendem seu melhor jogador, Roger Guedes, então goleador da competição. E mesmo assim continuavam a nos dar este prazer pelo futebol ofensivo, pouco importando quem ocupava o seu lugar. Não conhecia o técnico, Ricardo Larghi, mesmo ele sendo nosso vizinho aqui de Paraíba do Sul. Mas seu trabalho era admirável e merecia ser considerado o técnico revelação do Campeonato Brasileiro. Daí, vocês sabem, eles estão lá para isso, chega aquele cartola que não conhece nada e põe a culpa no treinador. E o demite na reta final e ainda traz para o seu lugar um treinador que anda a cumprir tabela : Levir Culpi.

Ontem, contra o Fluminense, o repórter de campo perguntou ao Levir se pretendia realizar mudanças durante a partida. Ele, para espanto geral, declarou “por não conhecer as características dos jogadores reservas, se mudasse seria por contusão”. Foi sincero, disse o repórter. Não foi. Foi desleal com seu currículo, injusto com o Atlético Mineiro e com os colegas de profissão. Se não conhece o elenco, fica em casa como Abel Braga, estudando propostas para o ano que vem. Ou estude os jogadores em atividade para não dizer uma abobrinha dessas.

E quando Fábio Santos foi bater o pênalti, os Deuses do Futebol estavam atentos. E fizeram a sua parte. Cobrança desperdiçada e gol do Fluminense no contra-ataque. Bem feito. Mas as loucuras dos nossos cartolas não ficaram por aí. A Chapecoense, penúltima colocada, demitiu o seu treinador e trouxe outro para o seu lugar. Acreditem, do Paraná Clube, que já está rebaixado. Procurava explicações, algo parecido, mas de minha esposa veio a sábia definição: deve ser o mais barato. É, pode ser…..

LEVIRDADE, LEVIRDADE, ABRE AS ASAS SOBRE NÓS

Zé Roberto


Foto: Divulgação/Fluminense F.C.

Foto: Divulgação/Fluminense F.C.

Não pela campanha do seu time no estadual e na Liga, porque não acredito em magias de quem pega um esquema montado na pré-temporada por outro treinador. Muito menos, pela sua coragem de enfrentar os desmandos do “dono do time”, o Fred. A melhor contribuição de Levir Culpi ao Fluminense, e ao futebol brasileiro, foi retornar ao banco de reservas. Permanecer ali sentado, quietinho, deixando o talento aflorar dos pés e da imaginação dos seus comandados.

Nossos grandes treinadores, entre eles Zagalo, Pinheiro, Parreira, Coutinho e Evaristo de Macedo jamais levantaram do seu banco de reservas para inibir seus artistas. Eram diretores de uma peça teatral ensaiada durante a semana que domingo precisava da liberdade de improviso. Da inovação. Neste palco outrora sem gritos, com respeito à criação, sem os berros do Jorginho, os assobios do Tite, gestos teatrais do Muricy, passarela para os lançamentos da grife da filha do Dunga, fluía a capacidade inesgotável dos nossos gênios da bola. Não tiques, manias, toques expostos dos seus comandantes.

Certa vez, num Fla-Flu, Carlos Alberto Torres, lateral tricolor, levou uma pancada e saiu de campo. Jogando pelo Flamengo por aquele setor, corri em direção ao Luizinho pedindo que ocupasse aquele vazio. Certamente Miguel iria sair para a cobertura e poderia abrir espaços para as arrancadas do Zico. Quando levantei a cabeça, Dirceuzinho, ponta-esquerda tricolor, já ocupara aquele lugar. Atravessara o campo na velocidade da sua inteligência em pensar o futebol como um todo. Embora rara, aquela atitude, quando emergia por puro instinto, deixava ali exposta a vocação daqueles que se tornariam grandes treinadores. Quem fazia apenas o seu e cumpria à risca sua função, poderia até ser auxiliar técnico. Como o Murtosa, o Marcão e o Dunga.

Quando o Édson entrou e recebeu a bola do jogo, aos 23 minutos do segundo tempo, percebeu um zagueiro do Voltaço vindo em sua direção. E o Osvaldo, livre, penetrando às suas costas. Neste milésimo de segundo o jogador, o ator, o cantor, precisa de todos os recursos que os conduziram até ali. A capacidade com que superaram peneiras, barreiras, concorrências para, sem nepotismo, fisiologismo ou o auxílio de cotas, estar honrando aquela camisa. Um berro ali no momento da decisão estragaria tudo. E do banco veio, felizmente, o silêncio. E na liberdade concedida de expressão, ele avançou e decidiu por si mesmo a partida.

Obrigado, Levir Culpi, por voltar ao banco e assistir o seu trabalho ser coroado pelo improviso. Sua consagração, ou o retorno aos tablados para novos ensaios, dependerá da iluminação de cada Antonio Fagundes, cada Magno Alves que você devolveu a liberdade para voar.