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Jorge Eduardo Antunes

A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS CRAQUE DA SÉRIE “THE ENGLISH GAME”

por Jorge Eduardo Antunes


Febre entre os amantes do futebol, que estão em crise de abstinência por falta de bola rolando, a minissérie “The English Game”, produção da Netflix, romanceia a história dos escoceses Fergus Suter e James Love, provavelmente os dois primeiros profissionais do esporte. Mas é o historiador Andy Mitchell que joga luz sobre a verdadeira história da dupla, que trocou o Partick pelo Darwen em 1878 para começar uma revolução mundial no esporte. 

Em seu excelente site Scottish Sport History, em duas diferentes postagens, ele conta que a conexão entre Partick e Darwen começou antes da chegada da dupla, mais precisamente com William Kirkham, jogador nascido em Darwen (Inglaterra), em 1854, e que foi trabalhar em Partick (Escócia), como misturador de cores na indústria têxtil. Lá se tornou também fundador do Partick em 1875. Anos depois, ao retornar à cidade natal, juntou-se ao Darwen, iniciando um relacionamento entre os dois clubes.

Por conta disso, entre 1876 e 1880, o Partick enfrentou o Darwen cinco vezes, com três vitórias – duas por 7 x 0 –  e duas derrotas. No mesmo condado, jogou com o Blackburn Rovers (duas vitórias e uma derrota), o Bolton & District (um empate) e o Turton (uma vitória). Entre esses anos, Love e Suter aportaram por lá. Mas, diferentemente do que mostra a minissérie, os dois não saíram juntos do time escocês para jogar em Darwen, cidade no condado de Lancashire, a 320 quilômetros de distância de Glasgow. 

Jimmy Love foi o pioneiro. Dono de um negócio de limpeza de ruas em Partick, distrito de Glasgow, ele também jogava no ataque do time. Em outubro de 1878, sua empresa quebrou. Love foi citado em ação de falência e teve a prisão decretada por não comparecer às audiências. Mas nunca foi preso. Na mesma época, já estava em Darwen, como jogador. Tinha feito amigos lá no encontro Darwen 3 x 2 Partick, em 1° de janeiro de 1878. 

Na época, Fergus Suter, pedreiro como seu pai, era um dos grandes jogadores do Partick, onde atuava desde 1876. Mas no mesmo outubro de 1878, a quebra do City of Glasgow Bank levou o construtor Peter McKissock a demitir seus empregados. Suter, aos 21 anos, provavelmente era um deles. Sem perspectivas de trabalho, teria escrito para Love, em busca de uma vaga no Darwen. Chegou na cidade e atuou como pedreiro por breve tempo, logo passando a sustentar-se apenas com o futebol, antes mesmo de o profissionalismo ser admitido.

Suter só estreou pelo Darwen em 30 de novembro de 1878. Uma semana depois, ele e Love fizeram seu début na tradicional FA Cup (para nós, Copa da Inglaterra), no 0 x 0 com o Eagley, em 7 de dezembro– time eliminado no jogo-desempate de 21 de dezembro de 1878, após Love, Suter e cia aplicarem um sonoro 4 x 1. A campanha da equipe de Lancashire foi longe naquela competição. Em 30 de janeiro de 1879, o Darwen venceria o Remnnants por 3 x 2 e venderia caro a eliminação nas quartas de final para o tradicional Old Etonians, time formado por ex-alunos do Eton College. Foram três encontros: o 5 x 5 retratado na minissérie, seguido de um 2 x 2 e da vitória por 6 x 2 do Old Etonians – que também é mostrada.


Ao contrário do que mostra a minissérie, a dupla seria desfeita em 1879. Love jogou algumas vezes pelo Darwen, mas deixou o clube em outubro, após a derrota para o Haslingden, pela Lancashire Cup. Em 10 de janeiro de 1880, atuou pelo Blackburn Rovers contra o mesmo adversário, naquela que foi, provavelmente, sua última partida de futebol. A minuciosa pesquisa de Andy Mitchell descobriu a trajetória de Love depois disso. Ele se alistou no corpo de fuzileiros navais em Liverpool, no dia 24 de fevereiro de 1880. Como cabo, embarcou para o Egito, em 1882, para controlar uma revolta nacionalista em Alexandria. Ali ele contraiu febre tifóide e morreu aos 24 anos, em um hospital militar de Ismaília. Foi enterrado no cemitério de Tel-el-Kebir.

Consultor da série, apaixonado pela história do esporte e autor de vários artigos, Mitchell afirma que “Jimmy Love foi pioneiro no futebol e, embora Fergie Suter seja frequentemente descrito como o primeiro profissional, devemos reconhecer que Jimmy esteve lá primeiro”. Se não foi o pioneiro, Suter teve mais sucesso e se tornou o capitão do Darwen, a rigor quem definia o estilo de jogo e a formação tática das equipes, a partir da temporada 1879/80. 

No meio de 1880, trocou o time pelo Blackburn Rovers. A equipe de Darwen acusou os rivais de aliciarem seu craque, mas não havia provas disse e nenhuma vontade da Football Association (a federação inglesa) para averiguar o caso, pois o mesmo clube era suspeito de pagar a Suter – que, segundo a pesquisa de Mitchell, também tinha outro motivo para mudar de ares: a gravidez de uma criada na mesma época. No Blackburn Rovers, ele teve destacada carreira como jogador profissional. Foi finalista da FA Cup em 1882 e acabou por vencer a competição em 1884, 1885 e 1886. Também atuou no primeiro campeonato da Liga Inglesa, em 1888. Suter parou um ano mais tarde. Morreu em 1916, aos 58 anos.

 

Não deixe de ler os posts de Mitchell, que também foi, por dez anos, chefe de comunicação da Federação Escocesa e consultor do Museu Mundial de Futebol da FIFA:

 http://www.scottishsporthistory.com/sports-history-news-and-blog/from-partick-with-love-the-story-of-jimmy-love-and-fergie-suter-the-first-professional-footballers

http://www.scottishsporthistory.com/sports-history-news-and-blog/the-true-story-of-jimmy-love-the-very-first-scotch-professor

 

PASSANDO O TRATOR NO EXTERIOR

por Jorge Eduardo Antunes


Para chegar na Copa de 1970, a maior seleção brasileira de todos os tempos precisava passar por três adversários nas eliminatórias. Alinhado no Grupo B da seletiva sul-americana, ficou na única chave com quatro seleções, ao lado de Colômbia, Paraguai e Venezuela. A estreia estava marcada para 6 de agosto de 1969, contra os colombianos, em Bogotá, a 2.640m de altitude.

As eliminatórias sul-americanas começariam um mês antes da estreia brasileira. Pelo Grupo C, o Uruguai aplicou 2 x 0 no Equador, em Guayaquil, em 6 de julho. Uma semana depois, arrancou um empate sem gols com o Chile, em Santiago. Em 20 de julho, nova vitória sobre os equatorianos, em Montevidéu, por 1 x 0, deixando a vaga bem encaminhada – até porque o Chile, após golear o Equador, em casa, por 4 x 1, tropeçou fora, ficando no 1 x 1. Bastava empatar em casa, com os chilenos, na última rodada, em 10 de agosto de 1969. Mas, com gols de Julio Cortez e do inesquecível Pedro Rocha, craque uruguaio que brilhou no São Paulo, o Uruguai foi o primeiro país a se garantir no México-70.

Pelo Grupo A, a Argentina viveu um drama. Os portenhos estrearam com derrota para a Bolívia (2 x 1), em 27 de julho de 1969. Antes mesmo da estreia do Brasil veriam a situação se agravar, ao serem batidos pelo forte time peruano de Chumpitaz, Cubillas e Mifflin por 1 x 0, em 3 de agosto, partida realizada em Lima e apitada pelo popular Sansão, apelido do brasileiro Ayrton Vieira de Moraes. A Bolívia venceu o Peru (2 x 1) em casa, mas perdeu fora, por 3 x 0. Então, bastava a Argentina vencer as duas seleções em Buenos Aires para se classificar. Fez 1 x 0 nos bolivianos, mas não passou de um 2 x 2 com os peruanos, mesmo com um homem a mais. Melhor para o mestre Didi, técnico que levou a seleção peruana à segunda Copa do Mundo.

Parte da seleção brasileira que ia encarar as eliminatórias se apresentou na manhã de 26 de junho, uma quinta-feira, na concentração do Flamengo, em São Conrado. Era composta pelos botafoguenses Jairzinho, Paulo Cézar e Gérson (que estava no meio da transferência para o São Paulo); pelos cruzeirenses Tostão, Dirceu Lopes e Piazza; pelos corintianos Rivellino, Paulo Borges e Zé Maria; e por Brito (Vasco); Félix (Fluminense); Everaldo (Grêmio) e Scala (Internacional). Voltando de uma excursão à Europa, os santistas Cláudio, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel Camargo, Rildo, Clodoaldo, Toninho, Pelé e Edu só chegaram à tarde. Dos 22 convocados, 15 foram ao México, entre eles, os 11 titulares do time tricampeão.

A responsabilidade de levar o grupo do Mundial era de Saldanha e de uma comissão de peso. Chefiada por Antônio do Passo, era integrada por Tarso Herédia (administrador), Agathyrno da Silva Gomes (secretário e futuro presidente do Vasco), Sebastião Alonso (tesoureiro), Jose Bonetti (assessor), Russo (Adolpho Milman, supervisor), Admildo Chirol (preparador físico), Lídio Toledo (médico) e os massagistas Nocaute Jack e Mário Américo.

A preparação em julho, como lembramos no primeiro episódio, teve apenas times e seleções estaduais, com três goleadas – 4 x 0 no Bahia; 8 x 2 na seleção de Sergipe e 6 x 1 na seleção de Pernambuco. Logo após o jogo no Arruda, em 13 de julho, a seleção afivelou as malas e voou para Bogotá, para uma longa rotina de 20 dias de treinos na altitude, obedecendo a um criterioso plano de preparação física de elaborado por Chirol – algo impensável no futebol atual. Assim, até enfrentar a Colômbia, a seleção fez apenas um jogo na altitude, vencendo o Millonarios por 2 x 0. Neste jogo, Brito apareceu como titular e Scala, do Internacional, foi testado no segundo tempo.

Com o time entrosado, preparado para a altitude e definido, em 6 de agosto de 1969 o Brasil estreou nas eliminatórias da Copa alinhando Félix, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo e Rildo; Piazza e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. Até ali, o grupo da seleção nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970 já havia registrado dois jogos, com a Colômbia vencendo a Venezuela por 3 x 0 em Bogotá e empatando por 1 x 1 em Caracas.

Não foi um baile, mas o Brasil jogou o suficiente para fazer 2 x 0 no primeiro tempo. Com Gerson e Pelé marcados por García e Agudelo, a seleção tinha dificuldade em criar. Aos poucos, foi tomando conta do jogo e, aos 36, Tostão balançou a rede, mas o gol foi anulado por impedimento. Um minuto depois, não teve jeito. Carlos Alberto cobrou lateral nos pés de Jairzinho, que foi à linha de fundo e cruzou para o mesmo Tostão antecipar-se ao goleiro Lagarcha e abrir o marcador. Aos 44, Jairzinho foi derrubado no bico da grande área. Pelé cobrou forte e Lagarcha deu rebote, que Tostão novamente não perdoou, fazendo 2 x 0.

Com o placar favorável, o Brasil voltou para o segundo tempo controlando a partida. Pelé voltou a ameaçar em duas cobranças de falta, bem defendidas pelo goleiro colombiano. A seleção levou um susto no gol bem anulado de Ortiz, aos 16, mas foi sempre mais efetiva e poderia ter feito mais um ou dois gols, esbarrando na boa atuação de Lagarcha. Como o Paraguai venceu a Venezuela também por 2 x 0, as duas equipes estavam empatadas em segundo lugar, com dois pontos, um atrás da Colômbia e um à frente da Venezuela, que seria o adversário do Brasil na segunda partida das eliminatórias, quatro dias depois.


Mesmo ainda insatisfeito com o desempenho do time, Saldanha manteve o seu 11 titular (com Félix, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo e Rildo; Piazza e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu) para enfrentar os venezuelanos, quatro dias depois, em Caracas. Na época a pior seleção do continente, a Venezuela não era um adversário à altura do esquadrão brasileiro. Mas, diante de um Estádio Olímpico lotado, no primeiro tempo a seleção esbarrou na retranca dos adversários. Correndo como nunca, o escrete vinotinto segurou o 0 x 0 com o Brasil na primeira etapa. E foi ovacionado pelo público.

O segundo tempo começou na mesma toada – o Brasil atacando, a Venezuela se defendendo e correndo. Mas quem tem Tostão, tem milhões. Aos 14, após quase uma hora de correria, o adversário cansou. E Jairzinho deu um passe açucarado para Tostão abrir o placar. O mineiro não perdoou e fuzilou Garcia, fazendo 1 x 0. Treze minutos mais tarde, Pelé dominou na área, driblou dois e meteu no canto de Garcia, fazendo 2 x 0. Aos 30, Gérson chutou da entrada da área e Garcia, que pegou tudo, soltou no pé de Tostão, que sacramentou o 3 x 0.

Jogo liquidado, mas com espaço para espetáculo. Aos 33, Jairzinho cruzou da direita e a bola passou por toda a defesa, para encontrar Tostão, que mandou no canto direito, fazendo seu hat-trick. A festa foi completada aos 35, com Pelé enfileirando a defesa venezuelana com uma série de dribles, selando os 5 x 0, sob aplausos dos torcedores adversários, que, se tinham vibrado com o 0 x 0, agora iam ao delírio com o espetáculo dado em apenas 21 minutos. O time titular só seria alterado com a entrada de Everaldo no lugar de Rildo, na segunda etapa.

Podia ser mais, tamanha a diferença técnica entre os dois times. Mas a seleção se poupou a partir dali, pois uma semana depois iria enfrentar o Paraguai, que também vencera naquele domingo, 10 de agosto, marcando 1 x 0 na Colômbia, em Bogotá. Com quatro pontos, brasileiros e paraguaios assumiam a liderança do grupo, com quatro pontos, contra três dos colombianos e um dos venezuelanos.

O Brasil chegou a Assunção na noite de segunda-feira. E encontrou um clima de guerra. O mais importante jornal paraguaio, o ABC Color, viu um complô brasileiro no jogo entre Paraguai e Colômbia. O frio intenso e contusões em Djalma Dias e Félix também atrapalhavam a preparação para o jogo do dia 17, que seria a primeira grande decisão – afinal, a seleção paraguaia era a maior ameaça à classificação do Brasil.  O clima de guerra foi ampliado durante a semana, com discussões e provocações entre torcedores dos dois países.

Para piorar, na véspera da partida, houve confronto de dirigentes e jogadores do time canarinho com paraguaios que foram perturbar a concentração, chamando os brasileiros de “animais e macacos” e agredindo o dirigente Silvio Pacheco. A pancadaria foi forte, com Félix, Carlos Alberto, Joel, Brito, Rildo, Toninho, Jairzinho e Rivellino encarando o grupo de quase cem pessoas. Brito chegou a desarmar um dos brigões, depois de desferir um “telefone” no ouvido do valentão… A confusão só acabou com um telefonema (de verdade) da missão militar do Brasil para o ministro da Justiça paraguaio, que determinou a interdição da rua do Residencial Bonanza, onde a seleção brasileira estava hospedada…

Como os lesionados se recuperaram e Saldanha levou a campo, no dia 17 de agosto de 1969, seu time titular. Com o estádio lotado e com os dois times com os nervos à flor da pele, o primeiro tempo foi caracterizado pela pancadaria parte a parte. Se o Paraguai batia, o Brasil não ficava atrás – Pelé, Carlos Alberto e Gérson nunca deixaram adversários crescerem na base da intimidação. O jogo virou uma guerra, tolerada pelo chileno Arturo Massaro, o árbitro que dirigiu o encontro. Não foram poucas as vezes que ele teve de separar os jogadores dos times, após lances violentos.

Com isso, a primeira etapa acabou com um previsível 0 x 0 que, se era ruim para o Paraguai, por jogar em casa, parecia ainda pior para o Brasil, dada a diferença técnica entre os selecionados. Embora a segunda etapa tenha começado com ânimos mais serenados, a seleção não conseguia vencer o forte bloqueio paraguaio, rondando sem sucesso a meta de Aguilera – que defenderia Portuguesa de Desportos e Botafogo de Ribeirão Preto anos depois. Animado, o Paraguai se lançou mais e abriu espaços. Um erro fatal.


Aos 25, depois de 70 minutos de resistência, a defesa paraguaia ajudou o ataque brasileiro. Após um recuo errado, Edu entrou na área driblando e chapelando Rojas e Bobadilla e cruzou para Pelé. Afobado, Valentin Mendoza meteu de cabeça, no ângulo da meta de Aguilera. Brasil 1 x 0.  O caminho estava aberto. O segundo viria de uma sensacional jogada de Pelé e Jairzinho, aos 36 minutos. O maior camisa 10 da história pegou a bola na intermediária ofensiva e enganou três paraguaios de uma só vez, tocando para Jair, que devolveu rápido. Pelé avançou em direção ao bico da área, enquanto o craque botafoguense vinha como uma bala. Recebeu (ou tomou a bola, nunca se sabe) de Pelé, entrou na área pela direita e acertou o canto oposto de Aguilera, ampliando o marcador.

Com o 2 x 0, a partida estava definida. No último minuto, Edu pegou a bola pela esquerda, invadiu a área, cortou o lateral Molina duas vezes e, antes que a cobertura chegasse, bateu seco, sem defesa. Placar fechado em 3 x 0. Três vitórias, dez gols marcados, nenhum sofrido e a liderança das eliminatórias. Campanha perfeita das feras de Saldanha. Bastava não errar nos três encontros em casa e a vaga estaria garantida.

Mas os jogos eliminatórios realizados no Brasil ficam para o próximo capítulo.

O NASCIMENTO DE UMA LENDA

por Jorge Eduardo Antunes


A caminhada épica da maior seleção brasileira de todos os tempos completa meio século em 2020. O tricampeonato mundial valeu a posse definitiva da Taça Jules Rimet – roubada no dia 19 de dezembro de 1983 da antiga sede da CBF, no Centro, e posteriormente derretida. Mas a trajetória daquele time fantástico rumo ao topo do planeta futebol foi acidentada, com percalços e injunções políticas. E é isso que esta série especialmente preparada para o Museu da Pelada pretende mostrar, meio século depois.

Até chegar ao dia 21 de junho de 1970 e aplicar os 4 x 1 na Itália, a seleção passou por tudo – da campanha fulminante nas eliminatórias à queda de João Saldanha, treinador que formou sua base, para chegar ao ápice na Cidade do México. Em capítulos, vamos contar como o imbatível esquadrão tricampeão do mundo tomou forma definitiva. Até hoje na nossa memória, nem todos os 11 titulares – Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivellino –, ocupavam uma vaga antes da campanha no México.

Como o primeiro jogo da seleção em 1970 só foi disputado em 4 de março de 1970, contra a Argentina, em Porto Alegre, a série começa com uma retrospectiva da chegada de Saldanha ao comando. Para isso, é preciso recuar até 1969, mais precisamente para 4 de fevereiro daquele ano. Naquele dia, João Alves Jobim Saldanha, o gaúcho de Alegrete mais carioca de que se tem notícia, foi anunciado oficialmente como o novo treinador. Uma escolha que pegou muita gente de surpresa.

Saldanha havia sido jogador por breve tempo e treinara o vitorioso Botafogo de 1957, que atropelou o Fluminense com um sonoro 6 x 2 na partida final do Carioca. Jornalista dos bons, entedia de técnica e tática como poucos. E, desde o fiasco na Copa de 1966, quando a seleção brasileira foi eliminada na fase de grupos, reclamava que o torcedor não sabia o time-base canarinho. 


E estava certíssimo. Na Copa da Inglaterra, o Brasil experimentara três escalações distintas. Na estreia com vitória (2 x 0) contra a Bulgária jogou com Gylmar, Djalma Santos, Bellini, Altair e Paulo Henrique; Denilson e Lima; Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Na derrota para os húngaros (1 x 3), Tostão entrou no lugar do contundido Pelé e Gerson fez o meio com Lima. Já no jogo do desespero, contra Portugal (outro 1 x 3), a mexida feita por Vicente Feola, campeão mundial em 1958, fora completa: Manga, Fidélis, Britto, Orlando Peçanha e Rildo; Denílson e Lima; Jairzinho, Silva, Pelé e Paraná.

Mesmo sendo um celeiro de bons jogadores, essa indefinição do 11 titular perturbava Saldanha e o torcedor brasileiro. Em 1967 e 1968, com a seleção nas mãos de Aymoré Moreira o panorama seguiu inalterado. O ciclo do técnico campeão mundial em 1962, no Chile, chegou ao final após um 3 x 3 com a Iugoslávia, no Maracanã, em 17 de dezembro de 1968. No jogo seguinte, dois dias depois, a seleção já estava sob o comando de Yustrich, que a dirigiu apenas naquela partida.

A chegada de Saldanha acabou com a indefinição. Já na coletiva que confirmou sua contratação, anunciou que tinha um time-base que só seria alterado em caso de contusão – e não o revelou no mesmo dia pois preferiu conversar primeiro com os jogadores. Em 7 de abril daquele ano, o Brasil veria o 11 em ação contra o Peru, com Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Djalma Dias e Rildo; Piazza e Gérson; Jairzinho, Dirceu Lopes, Pelé (Edu) e Tostão. Vitória por 2 x 1 no antigo Beira-Rio, com gols de Jairzinho e Gerson. 

Dois dias depois, já no Maracanã, outra vitória sobre os peruanos, desta vez por 3 x 2, gols de Pelé, Tostão e Edu, com o Brasil alinhando Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Djalma Dias e Rildo; Piazza e Gérson; Jairzinho, Dirceu Lopes, Pelé e Tostão. Saldanha apenas mexeu diferente no time durante o jogo, colocando Joel Camargo no lugar de Piazza, Edu no de Dirceu Lopes e Paulo Cézar Caju na vaga de Tostão. 

Em 12 de junho, contra a campeã mundial Inglaterra, Saldanha mexeu pela primeira vez no seu 11. Escalou Gylmar para sua despedida da seleção ao lado de Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel Camargo e Rildo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu, com Paulo Cézar Caju substituindo o ponteiro esquerdo. Vitória por 2 x 1 sobre os ingleses, com gols de Jairzinho e Gerson.  Do meio para frente, quase todos seriam titulares do time campeão do mundo um ano depois.

Julho de 1969 foi usado por Saldanha para dar polimento ao selecionado. Vitórias tranquilas sobre o Bahia (4 x 0) e sobre as seleções de Sergipe (8 x 2) e Pernambuco (6 x 1). Félix voltou ao gol e Clodoaldo só não jogou contra os pernambucanos, cedendo a vaga a Piazza. Entre os reservas, Saldanha testou o goleiro Cláudio, os laterais Zé Maria (direita) e Everaldo (esquerda), Rivellino como meia e Paulo Borges no ataque, além de Caju, o 12° jogador do time.

O 11 de Saldanha estava na ponta dos cascos para as eliminatórias. Mas isso é assunto para outro texto.