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O NOVO PULO DE UM GATO

por Zé Roberto Padilha


Desde cedo me falaram que seria goleiro. Era regra no futebol da minha rua: quem é ruim de bola, vai catar no gol.

Não estavam errados. O esporte é foot, não é hand!

Por ter funções opostas a 92% do elenco, vivemos muitos anos sem um treinador específico.

Nos deixavam tanto tempo pulando de um lado para o outro em caixas de areia emprestadas pelo atletismo, que tivemos sérias luxações e lesões nos braços, pernas e bacias.

Porém, o problema maior sempre foi acertar com o patrocinador. Porque o Fred faz um gol e mostra o logomarca da empresa na camisa para levar um extra. Como não fazemos gol, só nos tornamos heróis nas raríssimas decisões por pênaltis, como atraí-los?

Sendo assim, como atrairíamos os holofotes das jogadas já que na era Guardiola poucos chutam a gol preferindo tocar a bola à exaustão em prol do quesito maior posse de bola?

Até que uma velha raposa guardiã do patrimônio, que se tornou treinador de goleiros, achou o pulo do gato. E virou moda. E as partidas ficaram ainda mais interrompidas do que nas revisões do VAR, no show do intervalo, e muito pouca gente percebeu o ardil.

“Quando vocês fizerem uma grande defesa, caiam machucados. De preferência, se contorcendo. Se levantar rápido o corner é batido e não dá tempo do replay. Se continuarem caídos, o lance vai ser reprisado. Uma grande defesa precisa ser admirada em meio a Brahma na jogada”.

“Mas se falharem, levantem rápido, o corner vai ser logo batido e a falha esquecida!”

Simples assim. Grotesco assim. Mas não fomos nós, goleiros, que nos dirigimos às rádios e televisões para propagar, com um maço de Vila Rica nas mãos, uma frase que marcou geracões: “Nós gostamos de levar vantagem em tudo, certo?”

Quem disse jogou muita bola. E na linha.

São coisas do futebol. E do futebol brasileiro. Daqui a pouco um de nós, goleiros, vai mostrar nas muitas competições como aprendemos a simular, ludibriar, até gemer se for preciso.

Médicos? Coitados, dispensados nos treinamentos, nunca entraram tanto em campo.

Se tocarem na gente, a ordem é fazer de conta que batemos de frente com um caminhão. Ou com o Manoel ou Lucas Claro, que é a mesma coisa.

Certo?

Errado.