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Geraldo

VOLTAS DE DESPEDIDA

por Zé Roberto Padilha


Geraldo foi uma das maiores promessas do futebol brasileiro. Tinha a classe de Ademir da Guia e a plasticidade e a irreverência de Carlos Alberto Pintinho. Tão amigos que muitos passavam os anos imaginando o dia em que jogariam juntos. Que covardia! Melhor era esperar o duelo de cada Fla x Flu.

Geraldo não era um artista para ser treinado em quartéis. Seu improviso não combinava com ordem unida, muito menos havia Sentido! que podasse sua liberdade de expressão e circulação.

Nosso treinador, Carlos Froner, oriundo das casernas, não aceitava que não voltasse para marcar e guardar posição. Assobiando, procurava espaços vazios onde respirava para puxar contra ataques. E o fazia com rara beleza.

Aí o Flamengo foi jogar em Sergipe e Geraldo não foi relacionado. Na Gávea, ficamos os dois, eu por contusão, ele por insubordinação, dando voltas na pistas. Voltas que mal sabia serem de despedida.

Dr. Celio há muito precisava dessa brecha para retirar suas amígdalas, e essa parte triste da sua história não vamos rememorar.

É uma crônica de saudades de um grande amigo e um jogador acima da média.

Moral da História: nunca obrigue um talento a correr atrás de alguém. Zé Roberto, Merica e Tadeu são escalados para isso.

E deixe a arte livre para dar ao seu time o toque de qualidade que perdemos quando Geraldos são perdidos.

GERALDO: O TRÁGICO CESSAR DE UM ASSOVIO

por André Luiz Pereira Nunes


A geração que forneceu ao Flamengo os maiores títulos da história começou a florescer durante a década de 70. Foi justamente nesse período que o super elenco que veio a conquistar o mundo começou a ser erigido, obviamente em torno de Zico, um dos maiores craques de todos os tempos do futebol brasileiro. Naquele tempo todos depositavam as fichas no mineiro Geraldo Cleofas Dias Alves, nascido em Barão de Cocais, no interior do estado. Diziam que seria o parceiro ideal do Galinho de Quintino, de quem inclusive tinha apenas um ano a menos. O entrosamento era tal que muitos acreditavam que seria mais uma grande dupla, a exemplo de Coutinho e Pelé.

A breve, mas inesquecível carreira teve início nas divisões de base do Flamengo no fim dos anos sessenta. O craque morava nas dependências do clube, no “Morro da Viúva”. Em um belo dia, o olho clínico de Zagallo apontou para Geraldo durante um dos treinos da equipe juvenil. Percebendo que estava diante de uma promessa, o treinador não titubeou e ordenou que o garoto “assoviador” fosse logo integrado ao elenco principal. Se sagraria campeão da Taça Guanabara de 1973 e campeão estadual de 1974.

Quis infelizmente o destino que a vida, a carreira e o futuro de Geraldo acabassem prematura e repentinamente de forma trágica numa cadeira de dentista. O habilidoso e promissor camisa 8 faleceu de chinelos, calça jeans e sem camisa, aos 22 anos, em agosto de 76, após sofrer uma reação à anestesia, o chamado choque anafilático, por conta de uma simples cirurgia de extração de amígdalas recomendada pelo departamento médico do Flamengo.

A consternação abalou todo o Brasil. Semanas após o incidente foi organizada uma partida beneficente, no Maracanã, com a presença de Pelé com o fim de arrecadar fundos para a família daquele que era nome considerado certo para o Mundial da Argentina.


Convocado por Oswaldo Brandão, estreara na Seleção Brasileira na Copa América de 1975, tendo disputado 7 jogos com a camisa canarinho. Pelo Flamengo atuou em 168 jogos (94 vitórias, 40 empates, 34 derrotas), marcando 13 gols, de acordo com o almanaque de Clóvis Martins e Roberto Assaf.

Para Zico, a precoce partida do amigo e parceiro de meio-campo foi a primeira grande perda de sua vida. De acordo com a sua avaliação, o companheiro de time só pecava em um aspecto. Não gostava de finalizar. 

– Ele (Geraldo) não gostava muito de chutar para o gol. Sempre preferiu fazer as jogadas e tocar para alguém. Teve um dia que ele fez uma fileira de adversários e saiu na cara do gol. O jogo era contra o Olaria. A partida estava empatada, já nos minutos finais. Então, eu tomei a bola dele e fiz o gol! – relatou durante entrevista à série “Encontros para Sempre”, do canal pago SporTV. 

Porém foi ressaltado que possuía um talento acima da média. Uma espécie de requinte tão em falta no futebol brasileiro.

– O Geraldo jogava com a cabeça sempre em pé. Não olhava para a bola. Aliás, parecia até que tinha nojo dela. Era engraçado. Tinha muita habilidade – declara o Galinho.

Carlos Alberto Pintinho, um dos integrantes da inesquecível Máquina Tricolor, até hoje chora a sua perda. Ele ressalta que o principal motivo de ter saído do Brasil para atuar na Espanha foi o de não aceitar a morte do companheiro.

– O relacionamento que nós tínhamos era muito forte. Então, com a perda dele, eu quis ir embora – disse o ex-jogador, antes de interromper uma entrevista emocionado.

Segundo familiares e amigos, Geraldo era tranquilo e agradável com todos. Além da habilidade em campo, tinha um hábito bastante peculiar. Vivia assoviando o tempo todo, inclusive nos jogos, daí a óbvia alcunha de assoviador.


Tudo parecia normal na manhã do dia 26 de agosto de 1976. Geraldo guiou o próprio carro até a clínica Rio Cor, em Ipanema, acompanhado do amigo Serginho, então massagista do Flamengo. O meia adiou o quanto pode o procedimento. Parecia pressentir algo de ruim. A decisão ocorrera por insistência da direção rubro-negra. Naquela época era fato costumeiro a extração das amígdalas para evitar infecções persistentes. Júnior, entre outros atletas do elenco, já haviam se submetido com sucesso à operação. O meia foi internado às 7h da quinta-feira. É relatado que ainda fez questão que o médico do clube, o ortopedista Célio Cotecchia, estivesse presente, mas a cirurgia seria realizada pelo otorrinolaringologista Wilson Junqueira, já falecido. Foi ele quem aplicou a anestesia local

Menos de meia hora após a extração, o jogador começou a se sentir mal e teve uma parada cardíaca. Apesar de algumas tentativas infrutíferas de reanimação, a sua morte foi decretada por volta das 10 horas. O jovem craque veio a falecer em decorrência do choque anafilático causado pela anestesia. Serginho, o massagista que o acompanhava, nunca se recuperou do episódio. É relatado em um vídeo que tentou o suicídio após a morte do amigo.

Chegou a ser aventada a suspeita de erro médico. O Conselho Regional de Medicina (Cremerj) até abriu uma sindicância interna para investigar o caso. Mas os médicos Wilson Junqueira e Célio Cotecchia foram absolvidos.

Chorou o país a perda de um de seus maiores talentos. Geraldo, o assoviador. Geraldo, o mineirinho de Barão de Cocais. O parceiro perfeito do Galinho de Quintino