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Evangelista

DRIBLES E PALMAS DO EVANGELISTA… GOL DO FEITIÇO

por André Felipe de Lima 


Foi como guarda aduaneiro que Evangelista ganhou a vida. O futebol amador de sua época não rendeu dividendos para o futuro

Drible para lá, drible para cá, e lá vai o Evangelista rumo ao gol. Pelo que se lê sobre o ponta-esquerda João Evangelista dos Santos, um dos maiores ídolos do Santos F.C. antes da Era Pelé, percebe-se que o jogador era mesmo carne de pescoço. Pará-lo não devia ser fácil para nenhum médio direito ou beque central da remotíssima década de 1920. Um gesto peculiar ajudou a torná-lo uma legenda do futebol paulista naquela época: antes de cruzar a bola na área, batia palmas. Era o já conhecido sinal para que a pelota chegasse precisa na cabeça do centroavante Feitiço ou nos pés do cracaço Araken Patusca. O gol do Santos era a maior das verdades da terra naquele instante sublime de festa da torcidaalvinegra. 

Evangelista — o “Buda”, como também erachamado — nunca conseguiu explicar os motivos que o induziram a bater palmas antes dos cruzamentos na área. Dizia apenas que a estranha mania começara ainda nos campos de peladas de Santos. O não menos mítico goleiro Tuffy tentava convencer o ponta a parar com o gesto porque supostamente desconcentrava os atacantes. Que nada. Evangelista não só permaneceu com o incomum hábito como se manteve absoluto na ponta-esquerda do Santos até o fim da carreira.

De 1925 a 1931, período em que jogou somente pelo alvinegro praiano, Evangelista, que nasceu em Mocambo, Sergipe, no dia 28 de dezembro de 1902, construiu uma carreira extraordinária, porém sem conquistar um título expressivo. Deveria ter sido o de campeão paulista de 1927, quando o Santos encarou o Palestra Itália [hoje Palmeiras] em uma das finais mais polêmicas da história da principal competição bandeirante.

Ao lado de Siriri, Camarão, Feitiço e ArakenPatusca, o ponta formou aquela que para muitos foi a linha de ataque mais poderosa da Era do amadorismo do futebol paulista. Talvez mais potente até que a do poderoso Paulistano, do fora de série Friedenreich. Juntos, os cinco craques — além de Hugo, com quem Evangelista disputava a posição — marcaram incríveis 100 gols em apenas 16 jogos — incrível média de 6,25 gols por partida, até hoje insuperável — naquela memorável campanha de 1927, mas o Santosperdeu a decisão para o Palestra pelo placar de 3 a 2, um dos mais questionados até hoje por historiadores e pesquisadores do futebol.

Como informa em uma de suas crônicas o emérito jornalista e, claro!, santista Adriano de Vaney, Evangelista teria começado a carreira nos juvenis da Portuguesa Santista, a “Briosa”, mas atuando pelo quadro B, em 1923. O titular da ponta no time principal da Portuguesa chamava-se Arnaldo, que acabou machucando-se. Foi a chance que o jovem Evangelista esperava. Entrou no time principal e deu verdadeiros shows de bola até 1925, quando seguiu para o Santos levado pelo goleiro santista Alzemiro Ballio, que se tornaria árbitro de futebol e com quem estudara no Externato Santa Cruz, fundado em 1908 e que ficava na rua Senador Feijó, 217, em Santos.Outra fonte, no caso Celso Jatene, autor do livro A história do Santos Futebol Clube (2012), afirma, no entanto, que o começo da carreira de Evangelista foi no Docas F.C.


No América, Evangelista destacou-se na excursão do clube carioca à Argentina em 1929. Além dele, ostros craques santistas foram emprestados ao alvirrubro, como Camarão, Feitiço e Siriri

Independentemente das duas fontes sobre a origem do craque, a informação inequívoca é queEvangelista rumou para o Santos, onde realizou testes e impressionou, de cara, Urbano Caldeira, então presidente do clube, que não teve dúvidas em lançá-lo imediatamente no time principal. Em 15 dias, Evangelista era o titular da ponta canhota do time principal, onde estreou no dia 22 de março de 1925, contra a Associação Atlética das Palmeiras, que saiu de campo derrotada pelo acachapante placar de 5 a 0, com dois gols do arisco ponteiro estreante.

Evangelista disputou o jogo inaugural do estádio de São Januário, contra o Vasco, o dono da casa, no dia 21 de abril de 1927. Um evento tão marcante para a época que contou inclusive com a presença do presidente da República, Washington Luís. No final, deu Santos, 5 a 3, sem a menor chance para o time carioca na contenda, e o primeiro gol do estádio aconteceu aos 20 minutos do primeiro tempo. O iluminado Evangelista foi, claro, o autor dele.

Se o ano de 1927 não foi de títulos, embora aquele timaço do Santos merecesse ao menos uma taça, o ano seguinte foi auspicioso para o Evangelista, que ganhou um dos prêmios da Loteria Federal de Natal. O dinheiro veio em boa hora para o craque, que não ganhava nada com o futebol. Vivia apenas do salário de guarda aduaneiro.

Defendendo o Santos, Evangelista assinalou 54gols em 125 jogos. Foi algumas vezes titular da seleção paulista. Quando abandonou de vez a carreira, dedicou-se integralmente à família e à religião. Evangelista era diácono da Igreja Batista. Teve quatro filhos — João, Miria, Regina e Eli, os dois últimos ainda vivos — com Esmeralda Rocha dos Santos, com quem se casou em 1929 e permaneceu ao lado durante mais de 50 anos, e vários netos e bisnetos. Seu último jogo pelo Santos foi no dia 5 de novembro de 1931. O Alvinegro praiano perdeu de 4 a 0 para o Hespanha F.C., na Vila Belmiro.


A bordo do S.S.Arlanza, o time do Santos. Na foto, em pé, estão o goleiro Athié, Aristides, Feitiço, Evangelista e Araken Patusca; agachado está Osvaldo; sentados estão Camarão (com a criança no colo) Amorim, Julio, Alfredo e Siriri

Além do Santos, Evangelista vestiu a camisa do América do Rio de Janeiro. Ele, Siriri, Camarão e Feitiço foram emprestados ao clube carioca para uma excursão à Argentina, entre fevereiro e março de 1929. O América levou uma tunda da 6a 1 da seleção argentina, empatou em 1 a 1 com o Estudiantes de La Plata, goleou de 5 a 1 o Ferrocarril Oeste e empatou em 1 a 1 com um combinado portenho.  O time brasileiro atravessou o Prata e seguiu para Montevidéu, no Uruguai, onde empatou em 1 a 1 com o Peñarol; regressou a Buenos Aires e novamente perdeu para a seleção argentina, agora pelo placar de 2 a 0. Porém a façanha mais emblemática foi mesmo com a camisa santista, na Vila Belmiro, no dia 30 de julho de 1930, mesmo dia em que Uruguai e Argentina decidiam, em Montevidéu, a primeira edição de uma Copa do Mundo. A façanha santista foi uma inapelável goleada de 6 a 1 na seleção francesa. Feitiço marcou quatro gols e Mário Seixas dois. A equipe responsável pelo massacre formou com Athié, Aristides e Meira; Osvaldo, Roberto e Alfredo; Omar, Camarão, Feitiço, Mario Seixas e Evangelista. O técnico era Ramon Platero. Os franceses entraram em campo com Thepot, Mattler (Capelle) e Andoire; Laurent, Delmer e Chantrel; Liberati, Pinel, Maschinot, Delfour e Villaplane. O treinador eraRaoul Caudron.

Daquele time do Santos que massacrou os franceses pelo menos dois jogadores eram cotados para integrar a seleção brasileira que participou da Copa realizada no Uruguai: Feitiço e próprio Evangelista eram um dos craques de São Paulo que imprensa alardeava. Mas a crise política entre paulistas e cariocas culminou no boicote dos clubes de São Paulo à seleção.


Este timaço dos 100 gols merecia o título paulista. Da esquerda para a direita: Tuffy, Feitiço, Hugo, David Pimenta, Bilu, Alfredo, Júlio, Araken Patusca, Evangelista, Omar e Camarão

Evangelista teve, contudo, uma oportunidade de enfrentar os campeões do mundo. No dia 23 de abril de 1931, na Vila Belmiro, em jogo amistoso, o Santos enfrentou o temido Bella Vista, do Uruguai, cujo time contava com sete jogadores que ergueram a taça Jules Rimet no ano anterior. Eram eles José Nasazzi, o grande capitão da Copa, Ballestero, Mascheroni, Andrade, Dorado, Iriarte e Castro, além de Borja, que esteve em campo na disputa da medalha de ouro do futebol nos Jogos Olímpicos de 1928 conquistada pela Celeste. Com gols de Camarão e Natinho, o Santos derrotou de 2 a 1 a base uruguaia. Doradodescontou para o Bella Vista.

Evangelista não marcou gol naquele jogo, mas é possível imaginar o misto de alegria pela vitória com a frustação por não ter ido à Copa. O futebol a partir dali era passado para ele. O ex-craquepermaneceu acompanhando cada passo do seu querido Santos, mas a prioridade era a família, esempre ao lado da companheira Esmeralda.

Sabiamente, Evangelista defendia a importância dos ponteiros para qualquer esquema tático, algo que hoje, quase 100 anos após a época dourada daquele estupendo time do Santos, um ou outro técnico mais sagaz explora em seus times. Mas longe de qualquer unanimidade.


No América, Evangelista destacou-se na excursão do clube carioca à Argentina em 1929. Além dele, ostros craques santistas foram emprestados ao alvirrubro, como Camarão, Feitiço e Siriri

“O futebol de hoje exige rapidez, mas parece que ninguém entende isso. Notem quantas vezes apenas um toque a mais na bola destrói a jogada”. Evangelista disse isso em 1980, bem antes, portanto, da explosão física e da velocidade que começaram a determinar os esquemas táticos a partir de 1980, com a figura dos pontasdesaparecendo gradativamente das escalações. A escassez de gols era o que mais preocupava o Evangelista. Mas às 19h do dia 13 de janeiro de 1985, na cidade de Santos, um ACV o levava embora. 

Evangelista foi um dos mais importantes jogadores do Santos antes do surgimento da geração de craques geniais que moldou a Era Pelé. Não ergueu tantos troféus como Pepe, inegavelmente o mais emblemático ponta-esquerda da história do clube e segundo maior artilheiro santista depois do Pelé, mas não há duvida caso Pepe não existisse: o melhor ponta canhoto do Santos em todos os tempos seria o cidadão João Evangelista dos Santos, o craque que batia palmas para Feitiço ser artilheiro.


Evangelista defendeu a seleção paulista em várias ocasiões nos anos de 1920. Na foto, ele está ao lado do companheiro de Santos, o avante Feitiço. Também na imagem aparecem outros craques que defenderam o alvinegro praiano: o goleiro Tuffy e o meia atacanteCamarão