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Eduardo Lamas

MARACANÃ, MAIS UM DESRESPEITO SEM TAMANHO

por Eduardo Lamas


Capa do Jornal dos Sports em 17 de junho de 1950

Não bastasse ser destruído por dentro, ter sua alma arrancada no início da década passada, o Maracanã passa por nova tortura. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou nesta semana em regime de urgência (o que por si só já é um completo descalabro, como se não vivêssemos problemas muito maiores no país, em especial no mais que maltratado Rio de Janeiro) a troca do nome do estádio de Mario Filho, que permaneceria com seu nome ligado ao complexo inteiro, pelo de Pelé. Não que Pelé, o personagem criado para e por Edson Arantes do Nascimento que se tornou o maior jogador de futebol de todos os tempos não mereça homenagens e não tenha qualquer ligação com o Maracanã, muito pelo contrário. Porém, é um completo desrespeito com Mario Filho, o Criador de Multidões, como bem o apelidou seu irmão Nelson Rodrigues.

Para quem não sabe, Mario Filho foi o maior defensor da construção do estádio para a disputa da Copa do Mundo de 1950, incluindo uma campanha no Jornal dos Sports, que dirigia à época e onde tive o privilégio muitos anos depois de trabalhar em quatro oportunidades (1990/91, 94, 97 e 2002/03). Um povo que desconhece e, pior, desrespeita a própria História está fadado a definhar. É o que temos visto nas últimas muitas décadas no Rio, em particular, no Brasil, em geral. Infelizmente.

Minha ligação com o antigo Maracanã já é bem conhecida por quem acompanha este blog (é só ver algumas postagens lá embaixo). E aquele lugar que em determinado momento de minha vida cheguei a dizer que era a minha segunda casa (com certo exagero, admito) inevitavelmente acabou se tornando um personagem fundamental em vários dos Contos da Bola, livro que estou relançando pela Cartola Editora. Mas o que está nas páginas que você certamente terá em mãos (seja em papel ou em algum dispositivo eletrônico) é o maior e mais emblemático estádio do mundo, não a arena ou ginásio gigante em que se transformou a partir dos anos 10 deste século.

É muito triste saber de mais esta marretada no Maracanã. Parodiando o título de um livro de Jorge Amado, é a morte e a morte do Maracanã. Antes, destroçaram sua alma, concretamente. Agora, simbolicamente.

SEM ALMA

por Eduardo Lamas


Um time sem alma merece um estádio sem vida, em silêncio. A arena Maracanã é a cara do atual Flamengo: minúsculos, caricaturas estilizadas do que um dia foram.

O cabelo sem um fio fora do lugar aos 48 do segundo tempo mostra bem o que Diego fez em campo. E dos não formados no clube, o que mais entendia o que é vestir a camisa do Flamengo quis ir embora, mesmo sendo titular absoluto, ganhando bem, em dia, e com ótimas condições materiais de trabalho. Alguém perguntou ao Everton por quê? Dificilmente ele seria sincero agora. Talvez um dia ele diga.

Pior é ver que alguns daqueles que conhecem o Flamengo desde garotinhos parecem contagiados pelo estilo blasé adotado na gestão que só dá bandeira e cheirinhos: realmente é um time de perfumaria. É só ouvir as declarações de Juan.


Paquetá andou se achando Deus da bola no Carioquinha, que era para o milionário time ganhar com os pés nas costas. Porém pegou pela frente equipes bem modestas, mas com alma, sangue nos olhos e respeitando suas camisas, Fluminense e Botafogo.

O meu receio é que, nesta Era do Cinismo e dos Extremistas, quem venha ache que pra ter um time com alma seja preciso destruir o que de fato foi bem feito nesta gestão.

Flamengo, o teu futuro é duvidoso, eu vejo grana, eu vejo dor.