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Dudu

DUDU E OS FANTASMAS

por Rubens Lemos


Dudu morria de medo de fantasma. Ainda não morri e morro de medo de alma penada. Na infância, em Arraial do Cabo (RJ), Dudu passava em disparada pelo cemitério da praia até chegar tremendo na casa dos pais. Dudu era volante do Vasco e não temia o assombro chamado Zico nas tardes de Maracanã. Dudu marcava Zico com técnica e lealdade. Ganhou e perdeu, sem apelar para pancadas.

Aos 19 anos, Dudu tornou-se titular no Vasco, vice-campeão brasileiro de 1979, perdendo a decisão (as duas partidas), para um Internacional imbatível, com Batista, Falcão, Jair e Mário Sérgio, quarteto em solo, armando o jogo. Aquele Inter invicto e invencível, desmoralizou quem lhe apareceu.

O Vasco, de estandarte Roberto Dinamite, trocava o experiente Zé Mário pelo garoto com biótipo de jogador de basquete e condução de bola de destruidor que sabia jogar. Seu passe era correto, medido, usava o corpanzil para chegar de trás e disparar canhões preparados por Dinamite.

Fazendo negócios a granel, o Vasco armou festa para receber um dos mais sofisticados camisas 5 da história do Maracanã: Carlos Alberto Pintinho, seleção brasileira e formado nas bases do Fluminense.

Pintinho era uma indecência maravilhosa. Conduzia a bola de cabeça erguida, passava sem errar um milímetro, driblava e parecia flutuar na grama do ex-maior do mundo.

Pintinho ficou um ano em São Januário. Dudu, discreto e preciso nos toques, o pôs na reserva e, em seguida, forçou a venda de Pintinho para o Sevilha da Espanha. Dudu fazia dupla com Serginho, emérito marcador, que o liberava para tocar a bola no andar de navio em águas calmas.

Pesado, na contradição com a agilidade, Dudu conseguiu o primeiro título de sua vida em 1980. Capitão da seleção brasileira de Novos em Toulon (França). O time revelaria várias celebridades: Marola (Santos); Edson Boaro (Ponte Preta), Luiz Cláudio (Botafogo) , Mozer (Flamengo) e João Luís (Vasco); Dudu (Vasco), Mário e Cristóvão (Fluminense); Robertinho (Fluminense), Baltazar (Grêmio) e João Paulo (Santos). Técnico: Nelsinho Rosa.

Exceto o zagueiro Luiz Cláudio, do Botafogo, todos vestiram a camisa canarinho principal. Dois foram a Copas do Mundo: Edson em 1986 e Mozer em 1990. Dudu chamou a atenção de Telê Santana, que viu a final contra a França (Brasil 2×1) e foi seduzido pelo futebol progressivo do gigante. Dudu voltou à França no ano seguinte na célebre excursão do Brasil que venceu Inglaterra pela primeira vez em Wembley (1×0), a França (3×1) e a Alemanha Ocidental (2×1).

O titular era Toninho Cerezo e Dudu disputava a reserva com o falecido Rocha, do Botafogo (RJ) e Vítor, do Flamengo (RJ) se revezando em novas convocações para a reserva. Dudu adorava cerveja. Adorava demais e Telê Santana, um conservador mineiro, riscou o nome dele do seu caderno.

No Vasco, engordava, atrasava nos treinos, exibia no rosto fechado o semblante do declínio. O que não o impediu de brilhar em 1982 no supercampeonato do Vasco sobre o América e o Flamengo, vencidos, ambos, por 1×0. Um dos melhores em campo nas duas partidas, permaneceu titular até 1983.

Gordo, chegou a ser emprestado ao Cruzeiro (MG) e devolvido após a pesagem. A balança tilintou. Humilhante. Dudu deixou o futebol alegre e passou a rastejar em campo. Magoado com o Vasco, seguiu para Portugal, jogando no Belenenses, mediano time.

Desceu a ladeira do sucesso e virou nômade desconhecido. Seu último clube foi a Portuguesa da Ilha do Governador, pequeno entre os cariocas, nos idos de 1992. Dudu emagrecia de forma devastadora até descobrir um câncer, que o matou terça-feira em sua terra. Seu aspecto magérrimo causava piedade.

Aos 60 anos, Dudu foi embora após prestar um serviço impagável ao futebol-arte. Passou seu cetro a um dos melhores jogadores da criatividade exuberante: Geovani, seu substituto gênio e o primeiro a homenageá-lo na despedida. Um gesto nobre de um príncipe a um homem amargurado e vencido pelos fantasmas de si próprio.

DUDU E O TÚNEL DO TEMPO

por Sergio Pugliese


No carro, indo para Arraial do Cabo, parecia aquele menino de 14 anos que não via a hora de entrar no Maracanã ou em São Januário. Era impressionante, mas mesmo indo aos estádios semanalmente, a prazerosa sensação não cessava. Acho que isso é o que chamam de magia. O campo gigante, o gramado verdinho, a tal aglomeração, que hoje virou sinônimo de palavrão, os bandeirões, as organizadas e eles, os ídolos, nossos super-heróis. Eu sempre ficava com olhar fixo no túnel à espera da entrada dos artistas do espetáculo. O primeiro que eu procurava era Dinamite, meu maior ídolo no futebol, e, em seguida, buscava Dudu. Não era difícil avistá- lo, afinal ele era grandalhão. Volta e meia eram publicadas matérias criticando seus quilinhos a mais. E eu lá estava preocupado com isso! O cara jogava uma barbaridade! Roubava a bola do adversário, avançava com um vigor de touro faminto e disparava um míssil certeiro de fora da área. A torcida delirava! “Esse gordinho joga demais!”, era uma frase recorrente nas arquibancadas. Mas Dudu não era um ídolo improvável, Dudu jogava muita bola e em uma entrevista à Placar, que tenho guardadinha aqui comigo, Zico alertava seus companheiros: “Preocupem-se em marcar Dudu”. Chegou a ser cotado para a Copa de 82. Mas logo saiu do Vasco, foi para Portugal e nunca mais ouvi falar. Claro que ao longo do tempo busquei outros ídolos na saída do túnel, mas Dudu ficou guardado em um cantinho da memória afetiva. Jamais esquecerei o dia em que falando sobre velhos ídolos com um motorista de táxi ele disse…”o Dudu sei que anda muito doente e trabalha na Prefeitura de Arraial do Cabo”. Foi impactante. Dudu, doente? Aquele gigante? Impossível! Não falei nada, mas a maquininha do tempo instalada em nosso cérebro foi rebobinando, rebobinando e voltei à arquibancada, um menino e seu ídolo indestrutível. Pouco tempo depois, Marcelo Cortez, parceiro do Museu da Pelada, nos deu o caminho das pedras para encontrarmos um Dudu debilitado, trêmulo, mas com um humor ácido, saboroso. Que resenha! Na companhia do próprio Marcelo e de Da Silva, campeão da Libertadores pelo Olimpia, do Paraguai, rimos e acariciamos nossas almas com doces recordações. Não bebemos porque seu fígado já havia pedido arrego há tempos, mas pude abraçá-lo e agradecê-lo por aqueles momentos sublimes nos estádios. Que felicidade ter chegado a tempo, nem sempre dá. Ontem, Dudu pendurou as chuteiras, saiu de campo e entrou no túnel, o mesmo túnel que eu, ansioso, esperava que surgisse, gigante, imbatível, iluminado.