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China

NATURALIZAÇÃO OU ESCULHAMBAÇÃO?

por Israel Cayo Campos


Para o futebol, esse negócio de naturalização virou uma esculhambação! 

Daqui a pouco teremos Brasil Verde Amarelo x Brasil naturalizado chinês. 

A FIFA tem que impor uma regra nisso. Mas se omite!

Pelo menos se até os seus avós nasceram em um país, faz sentido! Agora, só porque o cara passou cinco anos em uma determinada nação já pode ser chamado a defendê-la? Aí perdeu a lógica! 

Perde-se também o total sentido do duelo entre países. Afinal, algumas seleções só tem os torcedores como nascidos naquele solo? 

Acabem logo com a Copa do Mundo. Que sentido há em uma competições entre nações se as seleções são transnacionais?

Tem jogador que nem o idioma do país sabe, mas joga pela Seleção. Duvido que Elkeson e Ricardo Goulart falem chinês fluente… Pera lá…

Aí o pessoal vai falar da França em 2018. Que ganhou com muitos africanos.

Primeiro que a França não é exemplo de nada em questões sociais! Vide o que anda fazendo com seus imigrantes!

Segundo que todos os 23 jogadores que ganharam a Copa do Mundo ou nasceram ou tem pais ou avós que lá viveram. O que faz sentido! Há uma raíz que liga determinado jogador ao território. Ligação essa que não custou um contrato caro das federações com seus jogadores naturalizados!

Se pensarmos dessa forma Pelé não poderia jogar pelo Brasil, mas por algum país de matriz africana, por exemplo. O que discuto não é poder se naturalizar. Mas que tal situação tenha um sentido, que não seja o financeiro! 

O que não dá é um cara que joga 3, 4 ou 5 anos num país, mesmo sem ter nem um tataravô nascido lá, defender as cores de um povo que não é o dele! Até porque nas primeiras férias 99.9% desses naturalizados vão a suas terras matrizes! 

Ou alguém acha que o maranhense Elkeson tem raízes chinesas? Isso é transformar as seleções nacionais em clubes, que contratam quem “lhes dão” na telha! Tudo isso virou um grande balcão de negócios! 

Que façamos seleções continentais então! Pois as multinacionais já disputam torneios e jogos eliminatórios a todo tempo! 

Do jeito que o futebol brasileiro anda mal das pernas, vamos ter um campeão nascido no Brasil antes que o próprio Brasil seja campeão do mundo novamente! 

Como ocorreu nos anos 1930, com o ex-corintiano Anfilogino Guarisi, o “Filó”, campeão do mundo com a Itália em 1934. 24 anos antes do Brasil conquistar seu primeiro título mundial em 1958! 

Naquele período, o jogador podia defender até três países em jogos oficiais, como o caso de Di Stéfano! Ou seja, o cara se naturalizava por ser muito bom de bola!

Hoje, o “cara” e seus empresários percebem que a concorrência em uma posição é muito alta e aí procuram naturalizar seus atletas em outros países que possuem carências nesse mesmo espaço do campo. Claro, por uma boa verba! Ou seja. Inverteu o papel. O cara é ruim de bola para sua seleção e aí se naturaliza! 

Virou um comércio que faz não existir o menor sentido a existência de jogos entre países. Pois o senso de nacionalidade já não existe mais!

FIQUE DE OLHOS BEM ABERTOS: SEU TIME PODE SER COMPRADO EM BREVE PELOS CHINESES. COMO SERIA PRA VOCÊ?

por Cesar Oliveira


Torcedores de Inter e Milan protestaram contra o horário do clássico

Torcedor troca de mulher, mas não troca de time. Hei de torcer até morrer. Você nunca caminhará sozinho. Até a pé nós iremos. Eu teria um desgosto profundo se… meu time fosse vendido, principalmente para um investidor estrangeiro, sem nenhuma relação com a história do futebol brasileiro.

Como se sabe, isso acaba de acontecer na Itália, com Internazionale e Milan, ambos da charmosa cidade de Milão, realizando o primeiro “clássico chinês” da história do futebol da Bota. A entrega é tanta que o “derby” da semana passada foi realizado em horário que se acomodava ao fuso horário. Meio-dia e meia na Itália, 19h30 na China, bem no horário nobre.

Depois de uma negociação arrastada e de atraso no pagamento das parcelas, o Milan do complicadíssimo Silvio Berlusconi foi oficialmente adquirido na quinta-feira, 13 de abril, pelos chineses. Compra sacramentada pelo grupo Rossoneri Sport Investment Lux, liderado pelos investidores chineses David Han Li e Yonghong Li (este, já proclamado o novo presidente do clube).

E, desde junho do ano passado, a Internazionale é comandada pelo Suning Commerce Group (dono da equipe do Jiangsu Suning e dos passes de Ramires, Alex Teixeira e Jô); o manda-chuva é o indonésio Erick Thohir, que também tem participação no clube.


Há tempos, os times ingleses vinham sondando o mercado oriental, trazendo jogadores de olhinhos puxados para seus times, e olho grande no gigantesco potencial do mercado chinês. Afinal, quem não quer uma torcida com algumas centenas de milhões de torcedores, vendendo camisas e mais camisas do outro lado do mundo?

Não sei o que pensam disso os torcedores dos clubes brasileiros, todos pendurados em dívidas monstruosas, impagáveis e, também, que não pretendem pagar?

Como você se sentiria?

O FUTEBOL COMEÇOU NA CHINA

Segundo registros milenares, por volta de 3000 a.C, militares chineses praticavam um treinamento chamado “tsu-chu”, que tem enormes similaridades com o nosso bom e (não tão velho) futebol. O velho e violento esporte bretão teria sido inspirado nessas práticas?

Conta-se que, durante a dinastia do imperador Huang-ti (conhecido como “o Imperador Amarelo”, que teria reinado entre 2697 a.C. e 2597 a.C.), após as guerras, equipes eram formadas para chutar a cabeça dos soldados inimigos.

Eram dois times de oito jogadores. E o objetivo era passar a cabeça, de pé em pé, sem deixar cair no chão, tentando fazê-la atravessar por dentro de duas estacas fincadas no campo (seriam os ancestrais das “balizas”?), ligadas por um fio de seda.

Com o tempo, as cabeças foram substituídas por esferas de couro, revestidas com cabelo (seriam escalpos?). Essa prática era chamada “tsu-chu”, que em chinês, significa “bola recheada” (tsu), “feita de couro” (chu).

AMARELO E INTELIGENTE

O Imperador Amarelo não era um qualquer. Tido como muito inteligente, é considerado como o ancestral de todos os chineses da principal etnia da China – a etnia Han. Ele introduziu o Calendário Chinês e importantes elementos da cultura chinesa, tais como o Taoísmo, a Astrologia, a Medicina Chinesa e o Feng Shui.

Veja mais sobre o “Tsu Chu” no YouTube:

FIFA RECONHECE ORIGENS

No dia 4 de fevereiro de 2004, a Fifa reconheceu que “os chineses, e não os ingleses, inventaram o futebol”. Segundo o então secretário-geral da entidade, o francês Jerome Champagne (dirigente da entidade entre 1999 e 2010), “os historiadores do futebol concluíram que uma forma rudimentar do esporte teria surgido na China. Os ingleses apenas criaram as regras que se tornaram a base do futebol moderno”.

Nem imagino o que pensam disso os velhinhos da Board…


O chamado “cuju” seria o primeiro embrião do futebol. E a cidade de Linzi, capital do antigo Reino Qi, o lugar original do futebol. Em Chinês Antigo, “cu” (sem gracinhas, por favor, isso aqui é História…) significa “dar pontapé”, e “ju” significa bola. É provável, por questões linguísticas que não nos é dado entender facilmente, eis que a Língua Chinesa tem milhares de meandros; então, quem sabe “tsu-chu” e “cuju” podem se referir ao mesmo jogo?

Historiadores asseguram que, por volta de 300 a.C., o “cuju” já era um jogo muito popular na cidade de Linzi, que atualmente integra a província de Shandong, no leste da China.

No século primeiro, na Dinastia Han, haveria sólidos regulamentos sobre o “cuju”. Até a Dinastia Tang, a técnica de produzir a bola foi sendo aprimorada. Usavam-se oito peles de vaca para formar a superfície; e, para encher a bola, bexigas de animais (ao invés de crinas de cavalo ou cabelos). Esta seria, então, a primeira vez que surgiu a bola com preenchimento de ar no mundo.

Na Dinastia Song, os bons jogadores de “cuju” eram respeitados e assediados por admiradores e até podiam alcançar uma alta posição social e política. Eram as celebridades do esporte, sem as facilidades de comunicação que temos hoje, em que qualquer zémané vira um sucesso de mídia.

O historiador Bai Yunxiang, da Academia da Ciência Social da China, afirma:

“Nossos ascendentes inventaram o ‘cuju’, uma antiga forma de futebol e elaboraram seus regulamentos, o que deu uma base para o desenvolvimento do futebol moderno. E esta é mais uma contribuição da China antiga para a civilização humana. Acredito que o esclarecimento da origem do futebol favorece o desenvolvimento deste esporte na China”.

A opinião de Bai Yunxiang conseguiu consenso junto aos responsáveis pelo esporte na China. Segundo Yuan Daren, diretor do Departamento do Estudo Histórico da Administração Estatal de Esportes da China, “a descoberta é um sucesso, e foi conseguido por parceria de especialistas de estudos históricos esportivos e da Arqueologia. Queremos aproveitar esta oportunidade para impulsionar o desenvolvimento do futebol da China”.

UM MARCO POLO ÀS AVESSAS


Rowan Simons

O inglês Rowan Simons, um lateral-esquerdo das peladas das tardes de domingo, veio ao Brasil, a passeio, bem na época da Copa de 1986 e andou pelo nosso País atrás de futebol.

Tal como aconteceu com os pioneiros do futebol no Brasil (Charles Miller, em SP; Thomas Donohoe, no Rio de Janeiro) – e seguindo orientação de amigos –, Simons trouxe várias bolas para o Brasil. Segundo seus amigos aconselharam “uma bola de futebol abre portas no Brasil”. Ele percebeu isso por ter conseguido contornar situações de ameaça com a proposta de uma “pelada”, simplesmente apresentando uma bola. O mesmo se deu na Argentina; imaginem, um inglês por lá, as feridas da Guerra das Malvinas ainda sangrando…

A experiência vivida aqui – que levou Simons desde a Transamazônica até o Cone Sul –, o incentivou a buscar novas experiências pelo mundo. Como seria na China? – imaginou. E se preparou para isso, estudando chinês intensivamente durante um ano, na Universidade de Leeds, quando voltou à Inglaterra.

Chegando à China, em 1987, e aproveitando a amizade de antigos colegas da universidade inglesa, procurou – mas não conseguiu –, encontrar um clube amador de futebol no qual pudesse jogar. E, pior, descobriu que todos os encontros que envolvessem dez ou mais pessoas tinham que ser submetidos à aprovação das autoridades governamentais. Mesmo com a falta de interesse dos chineses pelo jogo, Rowan conseguiu organizar pequenos campeonatos e atrair a atenção da nação para o futebol.

UM INGLÊS VIVENDO NA CHINA

Ele viveu na China por 20 anos e virou uma celebridade. Ensinou futebol como um esporte que, praticado de maneira amadora, traria benefícios sociais e de saúde. Não foi fácil, naquela época em que juntar pessoas, mesmo que para a prática esportiva, era visto com maus olhos.

Como parte do seu projeto, fundou o China Club Football FC, clube de futebol amador de estilo inglês para expatriados e, depois, principalmente moradores. Tem mais de quatro mil membros, tornando-se um dos maiores clubes de futebol amador em Pequim. Veja o site do clube: (http://www.clubfootball.com.cn/).

TRAVES DE BAMBU RESUME EXPERIÊNCIA


Como fruto dessa odisseia, Rowan Simons escreveu um livro: “Traves de Bambu (Bamboo Goalposts) – como a China aprendeu a amar o futebol”, tradução de Carlos e Anna Duarte para a Editora Record (2008). O subtítulo do livro, em inglês, explica melhor as intenções e objetivos do autor: “A busca de um homem para ensinar a República Popular da China a amar o futebol”.

A edição chinesa de “Traves de Bambu” foi publicada inicialmente como uma série do “Titan Weekly”, o maior jornal esportivo da China, em fevereiro de 2008, e depois editado lá pela SEEC, em março de 2008. O livro mereceu uma versão em francês: “Des Bambous dans la surface de réparation – l’historie vrai de l’Anglais qui a fait jouer au football um milliard de Chinois”, uma edição da Editions Intervalle (2012).

Na obra, autobiográfica, Rowan narra sua longa jornada, por mais de 20 anos, para ensinar os chineses a amar o futebol, inspirada na iniciativa individual dos pioneiros do futebol amador, que levaram o esporte aos confins do mundo no século passado. O desafio era contar a história do futebol num país sem chuteiras. E ele o fez de modo bem-humorado. A narrativa é divertidíssima e cheia de informações interessantes sobre o país.

Fluente na língua, durante muitos anos Rowan tentou explicar na televisão chinesa, como apresentador, o que o futebol significava. Virou celebridade e referência da garotada que queria começar a jogar bola.

“Traves de Bambu” é a descrição de uma odisséia pessoal inspirada pelos pioneiros altruístas do futebol amador, que levaram o futebol pelo mundo nos séculos passados, mas, por algum motivo, esqueceu a China.

UMA CELEBRIDADE NA CHINA


Simons vive na China, é apresentador na Beijing TV, tem sua própria empresa de mídia – The Susijn Agency – e dirige o “Guinness World Records” na China. Mas é mais conhecido por sua carreira como comentarista de futebol na TV de Pequim e como defensor da reforma do futebol.

Ele concedeu uma esclarecedora entrevista à jornalista Liu Zheng, do South China Morning Post, falando da sua extraordinária de ensinar Inglês nas escolas durante a prática do futebol.

ENTREVISTA

Como você se interessou pelo futebol?

Minha família é fã de esportes. Meu pai ama o rúgbi, minha mãe era membro de um clube de tênis. Ainda joga competições aos setenta anos de idade. Eu era o capitão da equipe da minha escola e capitão da equipe do meu clube de 10 a 13 anos, na cidade de Guildford, em Surrey, ao sul de Londres. O meu primeiro clube foi o Ockham FC. Mas nunca joguei futebol profissionalmente.

Como começou sua aventura na China?

Eu vim para a China em 1987, como estudante. Estudei Chinês na Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim. Gostei muito do meu tempo e antevi uma enorme oportunidade para desenvolver minhas coisas na China.

Naquela época, nada acontecera na sociedade de consumo. Qualquer coisa que eu fazia impressionava o povo chinês, qualificadas como “idéias incríveis”. Mas era apenas porque eu vim de um país mais avançado no esporte.

Consegui um emprego na TV Central da China e decidi ficar. Trabalhei originalmente como professor de Inglês para os locutores do canal. Mais tarde, nos anos 1990, virei comentarista de futebol na televisão de Pequim.

Um inglês comentando sobre o futebol chinês?

Sim, para a Premier League e da FA Cup. Era comentarista convidado. O programa tinha dois anfitriões e um comentarista convidado chinês também. Eu comentava a partir de uma perspectiva de fãs de futebol Inglês sobre a história dos clubes, as rivalidades entre as equipes, os contextos culturais e um pouco de humor.

Na TV britânica, você não precisaria disso, porque todo mundo já sabe que o Manchester United foi fundado por trabalhadores de ferrovias, mas o público chinês precisa desse tipo de experiência.

Foi muito difícil no começo porque a linguagem era lenta para traduzir. Mas depois foi divertido.

Como foi fundado o seu clube de futebol?

Adoro futebol e queria jogar futebol. Mas descobri que não havia futebol na China. Não havia clubes, ligas locais, equipes amadoras, futebol nas escolas. Não encontrei qualquer dessas coisas que são normais na Inglaterra.

Nos anos 1980, o futebol inglês já era muito conhecido em Pequim e as grandes cidades; e o futebol europeu era muito popular na TV. Mas ninguém jogava futebol. Apenas assistiam, como um entretenimento na TV. Era muito estranho para mim.

Então, eu tentei organizar uma equipe para estrangeiros, para começar a jogar. primeiro, como amador. Houve um rápido crescimento de negócios e o patrocínio de futebol no país – mas os habitantes locais ainda não jogavam.

Então, finalmente, em 1997, decidi que o futebol de base poderia ser um bom negócio; e que o futebol poderia ser um negócio na China, como em toda parte do mundo.

Por que é diferente administrar um clube de futebol na China?

Foi muito difícil fazer acontecer porque, naquela época, o esporte era uma atividade controlada pelo governo. Todas as associações são órgãos governamentais.

Demorou muito tempo para obter permissão. Passamos quase um ano tentando explicar que não queríamos nos tornar um clube de futebol profissional, como o Beijing Guoan, e que nós só queríamos organizar o futebol amador, o futebol de base. Essa era uma ideia muito diferente para eles.

Obtivemos nossa licença em 2001 e começamos o negócio de futebol de base. Não houve financiamento externo. Foi autofinanciamento. Mas nós ficaríamos gratos por algum apoio de patrocínio.

Como você transformou um clube do passatempo de expatriados em um negócio comercial?

Foi possível fazer quando obtivemos nossa licença em 2001. Já estávamos contratando árbitros, jogando uma liga de forma livre. Assim que formamos a empresa, tudo isso mudou. O futebol infantil começou em 2004.

O pensamento por trás disso é simples. Ao olhar para os investimentos dos estrangeiros no nosso clube, vimos muitos professores de Inglês, que alguns deles também tinham qualificação para serem treinadores de futebol.

Aí, pensei: e se nós trouxermos o ensino de Inglês junto com a prática e ensino de futebol? Aprender inglês enquanto joga futebol poderia ser uma boa idéia. Pedimos a essas pessoas para trabalharem conosco e ensinar Inglês através do futebol. Foi assim que começou.

Aprender Inglês jogando futebol motivava os pais da classe média chinesa?

Sim, nosso primeiro cliente foi a Escola Internacional de Pequim. Fornecemos classes de futebol de alto padrão para seus alunos. Então, começamos a construir alianças com outras escolas internacionais, que ficaram felizes em trabalhar conosco. Daí, começamos a ir às escolas chinesas, que era mais complicado.

Conseguimos finalmente atingir a nova geração de pais chineses, que são bem educados, que desejam mais para o seu filho, querendo que seus filhos sejam felizes e tenham uma educação equilibrada.

Aprender inglês enquanto jogava futebol era um ponto de venda muito importante para convencer as mães a deixarem os filhos ir jogar.

As pessoas gostam da nossa equipe. São quatorze treinadores europeus qualificados. No começo, só tínhamos crianças estrangeiras. Agora, 70% das crianças são chineses.

Qual foi o maior desafio?

Desde nosso primeiro ano, em 2001, levamos doze anos até atingir o equilibro financeiro. Doze anos de lutas muito grandes. Sem a paixão muito profunda das pessoas envolvidas, não teria sido possível.

O ano de 2008 foi o pior ano para o nosso negócio em nossa história por causa dos Jogos Olímpicos, que quase matou esportes de base em Pequim.

Durante todo o verão, houve proibição de atividades por conta dos Jogos Olímpicos. Todas as nossas atividades foram proibidas durante todo o verão olímpico. Foi um desastre. Muitos pequenos clubes esportivos não sobreviveram. Conseguimos sobreviver, porque já estávamos com certo porte; então, tivemos algum impulso. E focamos nosso negócio no período da primavera e do outono. Mas foi muito difícil.

As autoridades chinesas do futebol o consideravam como um desafio ao sistema?

Não temos problema com o Governo. Eles não nos criam qualquer problema, nem interferem com o que fazemos, o que é bastante incrível para mim. Mas também mostram o quão longe o Governo estava de até mesmo entender o que o futebol deve ser, e que eles realmente não precisavam se preocupar com o que estávamos fazendo.

Sou o presidente do maior clube de futebol de Pequim. Temos jogadores jogando todos os fins de semana em Pequim, em 30 locais, por toda a cidade. Mas eu não tenho participação na Associação de Futebol de Pequim, e eu não vejo como contribuir com a AFP em nossa cidade.

Isso é pelo fato de você ser estrangeiro?

Historicamente, a AFP era uma organização governamental, então não havia espaço para um estranho, seja você estrangeiro ou chinês.

Agora, o Conselho de Estado emitiu o Plano de Reforma do Desporto. Foi um dia muito, muito feliz para mim.

Diz muito claramente que a FPA tem que mudar e se abrir. Que o Governo deve se retirar do controle, e a FAP deve ser dirigida pelas partes interessadas de futebol, especialistas e, muito especificamente, fala de “especialistas internacionais”.

O plano foi publicado em 2014, há dois anos. A mudança realmente está acontecendo?

Não vi nenhuma mudança prática. O plano de reforma é um plano maravilhoso, um plano de longo prazo que a China precisa. O presidente Xi Jinping colocou a reforma da FPA no topo de sua agenda, mas também é a coisa mais difícil.

O que foi parar a reforma? Por que a reforma é tão difícil?

Quando eu vi o discurso do presidente sobre a reforma do futebol, achei que ele estava perguntando à China uma questão muito maior; se a China, como uma grande sociedade, poderia realmente organizar corretamente algo tão simples quanto o futebol. Se não conseguimos organizar o futebol adequadamente, como podemos pensar sobre a nossa sociedade civil?

O grande problema na China que os esportes abordam, diretamente, é a corrupção. O jogo justo é o cerne dos esportes. É o problema da China?

São princípios e moral, como o respeito mútuo, o respeito pela verdade, o respeito pelo fair-play, o respeito pela meritocracia. Estas são as coisas que está faltando na China e que os esportes poderiam trazer.

O que mais na sociedade ou cultura chinesa você considera relevante para o desenvolvimento do futebol?

Vejo surgir uma classe média ávida pelo tipo de experiência e qualidade de vida que vem nos clubes, nos grupos sociais e nas sociedades. Essa é também a base do futebol de base.

Pode o seu modelo de clube ser copiado para grandes cidades como Xangai, onde a classe média se desenvolveu? Você já tem esse plano?

Sim. Cada cidade deve ter sua rede. Mas a capacidade de treinar é um grande problema.

Começaremos a nos mudar para cidades diferentes. Mas a verdade é que, depois de todo esse tempo, o mercado de Pequim ainda tem muito espaço para o crescimento. Há um longo caminho a percorrer.

Quando você se considerará bem sucedido com seu clube de futebol da China?

Um termo recentemente popular é “empreendimento social”. Nós precisamos nos encaixar neste segmento.

Gostaríamos de ganhar dinheiro e merecemos, e é possível porque pode ser em qualquer mercado desenvolvido com uma classe média que busca qualidade de vida e paga por experiências de qualidade. Mas também produzimos impacto na sociedade. Estamos construindo comunidades e amizades.

Outra coisa que vi na China foi a estratificação da sociedade, pouca mobilidade entre os níveis sociais. É possível para o motorista do táxi se encontrar com o CEO de uma grande corporação na sociedade chinesa? Achamos que o esporte oferece um campo justo e equitativo.

O produto secundário do nosso plano é ter muitas crianças felizes. Não sei se vai sair daqui um jogador para a seleção nacional da China; mas este não é o nosso objetivo. Mas se você quer uma equipe nacional e usar o atual sistema soviético, meu caminho vai funcionar mais rápido.

PROPOSTA IRRECUSÁVEL

por André Mendonça


“Quando eu fui para a China passei a ganhar mais que o Zico, que tinha o maior salário do Brasil”. Com passagens pelas divisões de base do Flamengo e pela equipe profissional do Vasco, José Carlos Muniz Pereira, o Zé Carlos, foi um dos primeiros brasileiros a se aventurar no futebol chinês, especificamente em Hong Kong, na época em que a região ainda era uma colônia inglesa. A transferência para o continente asiático, aliás, é motivo de orgulho para o meio-campo que jogou suas primeiras peladas nas ruas do Catumbi, bairro do Rio de Janeiro.

Filho de dono de time amador na Baixada Fluminense, Zé Carlos nasceu respirando futebol. Desde cedo, já estava na beira dos campos e passou a freqüentar o Maracanã aos sete anos de idade para acompanhar o Flamengo, seu time de coração, apesar do carinho pelo Vasco, clube em que se profissionalizou.

Aos 12, começou a disputar campeonatos na categoria “dente de leite”, defendendo a Associação Atlética Souza Cruz, time da fábrica de cigarros, com muita tradição nas categorias de base. Devido ao talento e ao porte físico semelhante, Zé Carlos passou a ser chamado de “Pelézinho”, pelo narrador Carlos Lima.

– Esses campeonatos eram transmitidos pela extinta TV Tupi! Era muito bacana! Uma oportunidade única para os jogadores que estavam surgindo.


De acordo com o ex-jogador, foi na infância que ele viveu o momento mais mágico da carreira. Como ocorria em todos os Dias das Crianças, em 1970, o Maracanã organizou um campeonato da categoria “dente de leite”, com todas as equipes do Rio. Zé Carlos arrebentou e ajudou a equipe da Souza Cruz a conquistar o título do torneio em um dos maiores palcos do futebol mundial!

– Fiz muitos golaços, conquistei títulos, mas naquele dia eu vivi um sonho! O Brasil tinha acabado de ser tricampeão mundial. Ao pisar naquele gramado, me senti um Pelé, um Jairzinho… Nesse dia comecei a acreditar que poderia virar um jogador profissional!

O bom desempenho na competição chamou a atenção do Flamengo e o menino passou a treinar na Gávea, ao lado de craques como Adílio e Tita. Morando em Belford Roxo, Zé Carlos perdia muito tempo se deslocando até o treino. Além disso, o craque explicou que ainda estava no primeiro ano da categoria em que jogava, de 12 a 14 anos. Sendo assim, teria que esquentar o banco por um bom tempo até as primeiras oportunidades surgirem.

A ansiedade para entrar em campo e mostrar serviço diante das câmeras, no entanto, interrompeu a curta passagem do jogador pelo rubro-negro. Saiu do Flamengo e se transferiu para o maior rival, o Vasco, onde se profissionalizou em 1980.

– Me arrependo disso até hoje! Se tivesse algum assessor para me orientar, teria ficado no Flamengo e teria muitas chances de fazer parte daquele grupo que foi campeão mundial dez anos depois! – lamenta Zé Carlos.

Do que o craque não se arrepende é da transferência para o futebol chinês. Em 1982, aos 24 anos, cheio de gás, o jogador fazia parte do timaço do Vasco. No meio-campo, a concorrência era desleal: Pintinho, Paulo Cezar Caju e Jorge Mendonça. Apesar da qualidade no passe e da visão diferenciada, Zé Carlos tinha poucas chances no meio dessas feras e, por isso, não pensou duas vezes quando recebeu a proposta do Tung Sing.


De braços cruzados, Zé Carlos posa ao lado dos companheiros chineses

– Os companheiros perguntavam se eu era maluco, mas eu passei a ganhar em um dia o que eu ganhava no mês inteiro. Não tinha como recusar aquela oferta.

Por pouco, no entanto, o craque não colocou tudo a perder. Quando saiu do escritório após a reunião, o craque, ainda atordoado com a proposta dos chineses, quase foi atropelado por um carro. Passado o susto, Zé Carlos arrumou as malas e partiu para o continente asiático.

Quando desembarcou, uma multidão de jornalistas o esperava na sala VIP do aeroporto de Hong Kong e centenas de máquinas fotográficas eram apontadas para o novo reforço do futebol chinês. Uma recepção de gala, que nem nos sonhos Zé Carlos imaginava.

– Aquilo me surpreendeu e me deixou emocionado! Eu não sabia que era tão importante assim. Na verdade, o futebol brasileiro que estava em alta no mundo todo! É uma história de superação, mostrou que o futebol me colocou no caminho certo!

A adaptação no novo país, obviamente, não foi das mais tranqüilas. Contudo, poderia ser ainda pior se a região não fosse colônia inglesa. Em campo, Zé Carlos sofreu com o estilo de jogo, muito mais veloz que o dos brasileiros, mas logo se adaptou, se tornando ainda mais completo na explorada parte tática. Além das habilidades adquiridas no esporte, o ex-jogador garante que a viagem foi uma baita experiência cultural, contribuindo para a sua formação pessoal.


A transferência para o futebol chinês teve grande repercussão

Depois de um ano na China, Zé Carlos passou mais cinco em Portugal. Defendeu o Sporting Clube Farense e o União de Coimbra, antes de retornar ao Brasil, aos 30 anos, uma idade considerada avançada para o futebol dos anos 80. Mesmo assim, o experiente meia ainda teve passagens por Sampaio Corrêa, Goytacaz e São Cristóvão, antes de penduras as chuteiras e apostar na vida de treinador.


Atualmente, Zé Carlos trabalha como diretor de futebol do Duque de Caxias

aA carreira de técnico não foi das mais longas, comandou o Queimados, o Heliópolis e o Rio Branco, de Vitória. Depois disso, se tornou um dos primeiros gerentes de futebol do Brasil. Como diretor, tinha como grande trunfo aproveitar jogadores de qualidade que não tinham muitas chances nas concorridas equipes do Rio de Janeiro.

Hoje em dia, Zé Carlos trabalha como diretor de futebol do Duque de Caxias, mas acabou de assumir o cargo de treinador provisório, devido à saída do técnico Cássio. Como a equipe não está disputando nenhuma competição no momento, cabe ao diretor a missão de preparar os jogadores nesse intervalo.

MADE IN CHINA

por André Mendonça


Danilo foi o artilheiro da última edição da Liga

De uns tempos para cá, jogar no futebol chinês virou moda. Diego Tardelli, Renato Augusto, Alexandre Pato, Ramires e Jô foram alguns dos brasileiros que se transferiram recentemente para o continente asiático, atraídos pelos salários generosos. Muito antes desses jogadores, no entanto, um carioca já fazia história na China com a bola nos pés. Desde 2010 no continente asiático, Danilo Moura, de 31 anos, já levantou quatro taças e foi artilheiro em quatro edições. Nesta temporada, também lidera a lista dos goleadores. O sucesso, contudo, não veio por acaso.

Assim como muitas crianças, Danilo sempre teve o sonho de ser um jogador profissional. Nascido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, o craque desde cedo impressionava pela habilidade e agilidade. Por isso, com cinco anos, já fazia parte do time de futsal da comunidade e logo passou a treinar no São Cristóvão, a convite de Bruno, seu primeiro técnico. Não demorou muito para o talento novamente ser reconhecido e, aos seis, integrava a equipe do Flamengo, onde ficou até aos 17 anos, sempre no futsal. Quando se interessou pelo futebol de campo, contudo, teve uma frustração:

– Eu gostava mesmo do futsal. Todo ano me chamavam para fazer teste no campo, mas eu não ia. Quando tinha uns 16 anos e me interessei já era tarde. Os meus colegas estavam em um nível muito acima do meu.


Durante as férias o craque costuma jogar peladas na Rocinha, onde foi criado

Dedicado, Danilo não deixou que o problema lhe abatesse e se transferiu para o salão do Vasco, onde jogou apenas um semestre. A passagem pelo clube foi interrompida por conta de uma boa oferta do Desportivo de Boticas, de Portugal. Chegou quando a equipe estava na terceira divisão e, com muitos gols, ajudou o clube a chegar à elite do futsal português. Ainda em Portugal, teve a oportunidade de atuar por Belenenses e Operário, sempre na ala-direita.

Depois de cinco anos e muita bola na rede na Europa, em 2011 surgiu o convite de um empresário para jogar no futebol chinês, no Shenzhen Nanling. O idioma, a distância e a cultura exótica não o desanimaram: partiu para em Shenzhen, cidade no sul da China, província de Guangdong.

Apesar da companhia dos compatriotas, Danilo revelou que encontrou bastante dificuldade no primeiro ano, principalmente  na hora das refeições. O brasileiro, aliás, contou uma divertida história que aconteceu no primeiro jantar ao lado dos companheiros de time. Brincalhões, os chineses não perderam a oportunidade de colocar uma pilha:

– Já passei cada sufoco! No primeiro jantar deu aquele choque. Só veio comida estranha. Era um frango cru, todo fatiado e só a cabecinha dele te olhando. Foi assustador! Os chineses falaram que se eu comesse aquilo faria três gols. Tá doido! – lembra, às gargalhadas.

Mas as dificuldades de adaptação também se refletiam dentro de quadra. Além do jogo ser muito mais corrido do que estavam acostumados, Danilo e os outros brasileiros, sem nenhum domínio da língua chinesa, sofriam para entender as orientações do treinador e para se comunicar com os companheiros. O técnico, então, encontrou uma criativa solução para esse problema, e foi brilhante! Os recém contratados escolheriam o nome de um jogador brasileiro para cada companheiro de equipe. Dessa forma, o Shenzhen Nanling passou a ter “Ronaldo”, “Romário”, “Lúcio”, entre outros craques. E não é que deu certo?

– A comunicação era impossível! Não dava para entender nada! E até pronunciar o nome de um chinês para alertar alguma coisa dentro de quadra, já tinha sido gol dos caras. Era bola nas costas direto! A solução foi perfeita!


A amizade com Nonato vai além das quatro linhas

A difícil adaptação poderia ser ainda pior se não fosse “Nonato”, o chinês gente boa que se interessou pela cultura brasileira e se prontificou a aprender a língua para ajudar os novos amigos. “Nonato”, na verdade, era para ser o “Ronaldo” da equipe, mas a variação linguística acabou transformando o apelido do jogador. Segundo Danilo, a comunicação entre eles mistura todas as línguas e muitos gestos, mas isso não é problema.

A amizade com Nonato se desenvolveu de tal forma, que nas férias do ano passado, a convite de Danilo, o chinês veio visitar o Brasil. Além de ter ficado na casa do craque brasileiro, na Rocinha, o chinês, que compartilhou tudo na rede social, curtiu o samba carioca, jogou futevôlei na praia e ainda foi ao Maracanã ver o Flamengo. A parceria logo se refletiu nas atuações dentro de quadra e quem agradeceu foi a torcida do Shenzhen. Em uma temporada, Danilo bateu o recorde de gols da liga, balançando a rede por incríveis 118 vezes.

– Preciso fazer meus golzinhos para o contrato ser renovado, né! – brincou.

Ainda que sua fase seja brilhante, o ala lamentou as constantes mudanças na regra do futsal na China. Antigamente, sua equipe contava com mais brasileiros, mas, no ano passado, a federação estipulou que só poderia um jogador estrangeiro por time, o que acaba sendo um estímulo para os chineses praticarem o esporte. Apesar de ainda não ser uma modalidade muito conhecida no país, Danilo afirma que o futsal vem sendo praticado cada vez mais pelos chineses e, dependendo da região, os ginásios já ficam cheios e a torcida apoia. Contudo, ao mesmo tempo em que serve como estímulo, a nova regra fez o nível técnico cair.

– No Brasil a bola chega redondinha. Na China o passe chega quadrado e tem que se virar pra consertar.

Mesmo totalmente adaptado ao país em que joga, Danilo revelou que em um futuro bem próximo pretende retornar às quadras do Brasil. Com 31 anos, diversos títulos e muitos gols, o craque afirmou que ainda tem sonhos a serem realizados.

– Todo mundo deseja jogar com o Falcão. Eu saí muito cedo do Brasil e poucos me conhecem. Jogar uma Liga aqui no Brasil seria um sonho e também um ótimo desafio para mim. Seria a oportunidade de mostrar meu trabalho no país em que nasci.

Nas férias, o craque não abandona as raízes e pega o primeiro voo para o Brasil para curtir as peladas, os sambas e as resenhas com os amigos no Complexo Esportivo da Rocinha, onde é bastante conhecido. 

Enquanto não realizar o sonho de voltar definitivamente para o Brasil, os chineses vão continuar vibrando com os dribles do artilheiro.


Jogadores do Shenzhen posam para a foto após a conquista do título