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Bruno Sentone

O DIA EM QUE MARADONA E PLATINI JOGARAM NO MESMO TIME

por Bruno Sentone


Platini e Maradona lado a lado em raro registro vestindo o mesmo uniforme.

Não é nenhuma novidade que Maradona e Platini já jogaram juntos. Porém, sempre como rivais, cada qual vestindo uma camisa diferente. Mas você sabia que os craques também já atuaram pela mesma equipe?

O ano era 1987. A Argentina era a atual seleção campeã do mundo (1986) – de uma Copa marcada pela partida contra a Inglaterra e, principalmente, por “la mano de Dios”. O ótimo desempenho de Diego Maradona na competição o fez ser eleito como melhor jogador daquele ano*. Na Itália, o Napoli vivia seu auge até então. O clube conquistou seu primeiro campeonato italiano da série A e, poucos dias depois, venceu a copa da Itália. Todas dúvidas e/ou críticas que ainda podiam haver acerca do Maradona – ao menos, dentro de campo – deixaram de existir.

Enquanto isso, na Juventus, Michel Platini encerrava sua carreira, ainda em alta, com apenas 32 anos. Apesar da idade, aparentemente, precoce para pendurar as chuteiras, o francês já era o melhor jogador do mundo por três anos consecutivos (1983, 84 e 85) e ostentava uma coleção invejável de títulos e mais prêmios individuais.


Platini e Maradona já tinham se enfrentado outras vezes antes. Era um confronto parecido com o de Cristiano Ronaldo x Lionel Messi. No entanto, da década de 80, quando Juventus x Napoli era o grande jogo da Europa.

Não muito distante dali, a Football League (resumidamente, como o sistema de futebol inglês era chamado até 1992) estava prestes a completar 100 anos de existência (1988). E, para comemorar seu centenário, a entidade anunciou uma série de eventos, que começaram a ser realizados ainda em 1987. A celebração, de modo geral, foi um verdadeiro fiasco. Não foi bem planejada, nem cativou o público, tanto que, logo, caiu no esquecimento, como se nunca tivesse acontecido. Porém, um evento em específico foi, relativamente, um sucesso, se comparado aos demais.

No dia 08 de Agosto de 1987, o Wembley atraiu mais de 60 mil torcedores para presenciar uma partida excepcional, intitulada “Football League XI x Resto do Mundo XI”. Ou seja, entre os melhores jogadores atuando na Inglaterra e – como o próprio nome sugere – do restante do futebol mundial. A quantidade de espectadores só não foi ainda maior pois o jogo também foi televisionado.

O técnico da seleção inglesa daquela época, Sir Bobby Robson, ficou encarregado de convocar quem jogaria pelo Football League XI e – pelo lado do Resto do Mundo XI – a responsabilidade ficou por conta do, então, treinador do Barcelona, Terence Venables.

Ao contrário do que se vê hoje em dia, o campeonato inglês da década de 80 não possuía tantos atletas estrangeiros. O elenco formado por Bobby serve de exemplo: continha apenas um único jogador que não era britânico ou irlandês.

A tarefa foi um pouco mais complicada para Terry. Afinal, suas opções de jogadores para organizar uma equipe com somente 11 estrelas eram inúmeras, abrangiam os seis continentes, e nem todos aceitavam o convite do técnico e do órgão inglês. Van Basten e Ruud Gullit foram alguns dos nomes que se recusaram a participar da atração.

Apesar disso, o evento contou com o recém-aposentado Michel Platini – que faria sua primeira e única partida no estádio de Wembley – e com Diego Maradona, convencido a comparecer após receber, antecipadamente, 100 mil libras por sua presença.

Dessa forma, as escalações de ambos técnicos ficaram assim:

Football League XI – Peter Shilton, Kenny Sansom, Richard Gough, Paul McGrath, Bryan Robson, Chris Waddle, Neil Webb, Peter Beardsley, Liam Brady, Clive Allen e John McClelland;


Convidado de honra, Pelé conversa com Platini, enquanto Maradona escuta atentamente.

Resto do Mundo XI – Rinat Dasayev, Glenn Hysén, Thomas Berthold, Salvatore Bagni, Julio Alberto Moreno, Diego Maradona, Celso Gavião (brasileiro | Porto-PT), Paulo Futre, Josimar Higino Pereira (brasileiro | Botafogo-BR), Gary Lineker e Michel Platini.

Antes da bola, finalmente, rolar, outro episódio – não menos emblemático – marcou a cerimônia de abertura: o convidado de honra Pelé participou da entrada das duas equipes e cumprimentou cada jogador individualmente. Ao fim, deixou o campo por um corredor formado pelos maiores craques mundiais do momento, sob os aplausos de todos presentes naquela tarde cinzenta em Wembley.

Apesar da atmosfera bastante descontraída, havia uma enorme preocupação girando em torno de como Maradona seria recebido em Londres. A organização do evento solicitou, previamente, aos torcedores que respeitassem o argentino, com receio de que o pior pudesse acontecer. E não ocorreu. Mas o pedido também pareceu ter sido ignorado. Desde que pisou no gramado, Maradona foi vaiado em cada participação, fosse sendo apresentado ou mesmo tocando na bola. Independentemente disto, Diego começou o jogo, nitidamente, indisposto. No entanto, não demorou muito para que, logo, mostrasse porque já era considerado o melhor do mundo.

Platini, por sua vez, foi ovacionado assim que entrou em campo e aproveitou cada minuto da partida, desde o apito inicial. Era sua única exibição em Wembley, então, o francês fez questão de se divertir e encantou a todos com sua alegria nos pés.

Enquanto o Resto do Mundo XI levava a partida na esportiva, como o amistoso que, de fato, era, a Football League XI jogava – com o apoio da torcida – para ganhar. Esta condição deu a vitória ao time anfitrião por 3×0. Confira os gols:

*em 1986 e 87, Maradona foi eleito – pela revista francesa Onze Mondial – como melhor jogador do mundo, ganhando, assim, o Onze d’Or (Onze de Ouro). Até 1995, a Bola de Ouro ainda era restrita exclusivamente aos atletas europeus e o prêmio da FIFA seria criado somente mais tarde, em 1991.

CHRISTINE VALETTE E A REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA FORMAÇÃO DAS ULTRAS

por Bruno Sentone


Pouco antes de “Marielle, presente” ecoar pelo mundo afora, outra mulher, figura emblemática de um movimento de resistência, deixou este plano para viver na memória.

Pouco antes de “Marielle, presente” ecoar pelo mundo afora, outra mulher, figura emblemática de um movimento de resistência, deixou este plano para viver na memória.


Christine cede entrevista à imprensa.

Ao contrário de Marielle Franco, Christine não foi assassinada. Tampouco sua morte em decorrência de um câncer foi mundialmente noticiada. Por estes fatores e, até mesmo, por ter falecido no Natal (de 2015), quando as notícias costumam ser mais agradáveis, Christine Valette, talvez, possa não ser um nome tão conhecido, quem dirá popular, quanto deveria. Isto porque Christine foi porta-voz e uma das principais líderes da primeira ultra do Olympique de Marselha, chamada Commando Ultra ’84. Porém, sua morte comoveu, inclusive, torcidas rivais, como do Bordeaux – dentre tantos outros clubes europeus -, pelas quais era muito respeitada e admirada.

Agora, você deve estar se perguntando: “tá, mas o que há de mais em tudo isso?”. E eu respondo com outro questionamento: quantas mulheres que você conhece e que são líderes de alguma torcida organizada? Christine esteve à frente da ultra desde 1984, ano de sua fundação. Se, hoje, o futebol, como um todo, ainda é um ambiente majoritariamente masculino, imagine, então, na década de 80.


Christine (sentada sobre a mesa) comandava uma ultra formada por mulheres, homens e crianças.

Atualmente, o estádio do OM, Vélodrome, recebe um notável público feminino para acompanhar os jogos do Olympique. Com certeza, isto também deve-se, e muito, à figura de Christine. Todavia, pode haver outros motivos: ao longo dos seus pouco mais de 35 anos de existência, o CU ’84 adotou um caráter antifascista, antirracista e, de certa forma, feminista (bem representado por Christine); e mais uma razão importante e que, sem dúvida, incentiva o apoio massivo das mulheres nas arquibancadas do Stade Vélodrome é a dedicação do clube para com o time feminino do OM. Em termos de estrutura, desde sua recriação em 2011, a equipe segue em constante evolução. A exemplo do rival Lyon – um caso de sucesso no futebol feminino dos últimos anos -, o Olympique tenta oferecer às mulheres as mesmas condições de trabalho dos homens. A paridade salarial, no entanto, continua sendo um tabu (não exclusivo do OM, mas, sim, global).

Normalmente, os ultras são anônimos, seus nomes raramente são divulgados e poucos são aqueles que possuem algum status especial ou papel, de fato, relevante dentro do clube. Não foi este o caso de Christine Valette, que faleceu aos 43 anos, ou seja, influente no Olympique desde criança, quando ainda só tinha apenas 12 anos de idade. Até hoje, quase 5 anos após sua morte, seu nome segue sendo lembrado e homenageado em cada partida do OM e também por torcidas aliadas, como do Sampdoria.


Torcida do Sampdoria apoia Christine na sua batalha contra o câncer: “CHRISTINE, VOCÊ É UMA GRANDE MULHER! LUTE COMO UMA ULTRA!” e “FORÇA, CHRISTINE, A JAMAICA NOS ESPERA!” foram alguns dos recados

Assim como Christine participou do início do movimento ultra na França, igualmente, colaborou para que o mesmo se fortalecesse na Itália. O Commando Ultra ’84 esteve presente em Gênova, no dia 4 de Janeiro de 1987, para assistir Sampdoria x Roma e conferir de perto a Ultras Tito Cucchiaroni, cuja Europa inteira estava comentando na época. Tratava-se da precursora do movimento ultra no país italiano. Ali, logo, formou-se uma grande e duradoura amizade.



Mais tarde, uma segunda organizada do Sampdoria, chamada Rude Boys, foi convidada a unir-se às duas e, a partir de então, o CU ’84 passou a viajar para Gênova, praticamente, todo final de semana, a fim de encontrar-se com as ultras amigas. As três eram associadas aos dois clubes e frequentavam ambas arquibancadas, carregando consigo suas respectivas faixas e bandeiras.

Portanto, hoje em dia, o Commando Ultra ’84 orgulha-se em dizer que conhece tudo a respeito das torcidas italianas. Afinal, não somente viu tudo acontecer com seus próprios olhos, como ainda envolveu-se diretamente, contribuindo para com a troca de experiências e, principalmente, com seu apoio diligente.


Christine Valette foi a principal responsável pelo êxito da aliança entre o CU ’84 e a Ultras Tito. Ao mesmo tempo em que a ultra francesa aprendeu muito com seus companheiros italianos – com, pelo menos, 15 anos a mais de existência (1969) -, Christine conseguiu aplicar sua ideologia igualitária em mais uma torcida. Não à toa, algum tempo depois, o Rude Boys acrescentou & Girls 1987 ao seu nome.

Desde jovem, Christine entregou-se de corpo e alma àquilo que acreditava ser correto. Foram cerca de 30 anos de comprometimento e dedicação com os menos (ou nada) favorecidos, brigando por justiça, ainda que fosse uma pacifista, famosa por sua calma e serenidade. Seus esforços ultrapassavam o universo da bola e Christine também ajudava desabrigados da melhor forma que podia. Após ficar sabendo da sua doença, isto não a impediu de manter suas atividades, com a mesma vontade e bondade de sempre.


Mesmo que o Commando Ultra ’84 recorde, em cada jogo do Olympique de Marselha, que Christine continua presente, seja com homenagens, cantando e/ou vibrando por ela, ainda é pouco. Não digo por parte dos adeptos do OM, mas, sim, sobre o reconhecimento de Valette. Nossa sociedade está habituada em reproduzir que “futebol não é lugar de mulher”. E, neste ambiente hostil, uma menina de 12 anos de idade conquistou seu espaço e provou, para dois países tradicionalmente conservadores, justamente o contrário. O legado de Christine não pode limitar-se à França e Itália; deve ser enaltecido para além do continente europeu.