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Brasil

SOLIDÃO DE UM PAÍS

por Rubens Lemos


O brasileiro virou povo parvo, atordoado, boquiaberto, desnorteado. O brasileiro comum, o brasileiro que perdeu a esperança-mor de combustível espiritual.

O brasileiro bom, simples, generoso, esse está em silêncio, esmagado pelo ódio dividido entre lulistas e bolsonaristas, gente que nada sabe de política e vomita recalque em redes sociais. Do Twitter, por exemplo, eu, um brasileiro que me considero convencional, me afastei faz tempo.

Para o brasileiro amorfo, nada faz diferença. Ou tanta diferença faz que ele desistiu nem cedo nem tarde demais. Entregou-se de cansaço. Quando ele liga a televisão para assistir à CPI da Covid, assiste ao espetáculo de dois senadores do naipe de Omar Aziz e Renan Calheiros.

CPI que não convoca governadores que pagaram por equipamentos vitais nunca entregues. O filho de Renan é governador. Procure no Google o que tem de corrupção sobre os dois da comissão. O brasileiro exausto vai acreditar? Não vai.

O país perdeu a natural alegria, a sua temperatura quente e a capacidade de reagir às injustiças. Não se chama mais ninguém de demagogo, mas de filho da puta e nem de incompetente, mas de corno. Esse é o Brasil de hoje alimentado pela dicotomia perversa instalada nas eleições de 2018 e que se repetirá no próximo ano.

Ou alguém acha que quem defende Delubio Soares, Palloci e Lula está preocupado em recuperar o país que sua turma mesmo arrasou e não apenas em retomar o poder?

A passividade brasileira assiste a um presidente que minimizou uma desgraçada pandemia e se atola a cada declaração furiosa. Aí, o brasileiro lulista insulta e o brasileiro bolsonarista responde agredindo. O brasileiro essencial, se cala. Para não ser agredido.

Um país com mais de meio milhões de mortos é um continente dimensional em catalepsia. Ou morto de alma. Olhando como o obtuso personagem de Nelson Rodrigues, apenas atravessando a rua sem dizer nada e arrancando comentários: “Lá vai Flodorval, o homem que foge de todo mal”.

Então, é preciso nivelar o Brasil à meio-pau moral com a seleção de Tite derrotada pela Argentina. Nenhuma surpresa. Para um time que tem Renan Loide, Danilo, Thiago Silva entregando ouro(deveria trabalhar em filmes de trens pagadores), Fred, Roberto Firmino, rapazes cheios de grana e futebol sacana.

O Brasil que perdeu para a Argentina é o Brasil gozado todos os dias pelos jornais internacionais que passo à vista pela internet. Um país ridicularizado.

O Brasil perdeu a Copa América e, sabe, o brasileiro preocupado com suas contas não perdeu o sono de sábado para o domingo nem chegou ao trabalho na segunda alimentando resenhas específicas sobre o jogo. Porque a seleção de Tite não merece do jeito que Tite não merece ser treinador da seleção.

Criaram caso porque alguém famoso ou famosa vestiu a camisa da Argentina antes da decisão e disse que torceria pelos Hermanos. A patriotada ridícula caiu em campo. Se Neymar tem jogado com a ira com que reclamou da torcida pelo adversário, a seleção não teria perdido.

E, se alguém pode chamar de sorte, Messi não jogou nada. Mas eles tem Di Maria e o ótimo De Paul, esse vai brilhar em Copa do Mundo. Nós somos caricaturas. Somos a solidão de um país.

O JOGO DO PENETRA

por Pedro Barcelos


Capitão Zenon com a flâmula em homenagem aos 70 anos da CBF. Foto: Bob Thomas

A história do Brasil e Inglaterra de 1984

Há exatos 36 anos, o Maracanã estava em festa. O Brasil vivia um de seus períodos históricos mais conturbados, com a emenda Dante de Oliveira rejeitada na câmara dos deputados, representando o fim das esperanças de todos que estavam nas ruas pedindo o voto direto. Mas no Maracanã era diferente, era dia de festa. Festa que durou até as 17h14. 

O amistoso entre Brasil e Inglaterra de 10 de junho de 1984, com valor de ingresso referente a duas latas de óleos (na época) foi marcado por três comemorações. Primeira, a CBF comemorava os 70 anos de criação da FBS (Federação Brasileira de Sports), primeira instituição nacional criada para organizar todos os campeonatos esportivos no país. Pouco depois, a FBS passou a se chamar CBD (Confederação Brasileira de Desportos), para participar do primeiro Campeonato Sul-Americano, organizado na Argentina, e em 1979, finalmente, a CBD alterou seu nome e estatuto para respeitar as exigências da FIFA, tornando-se assim a CBF. 


Mauro (62), Carlos Alberto Torres (70) e Bellini (58) trazem a taça de volta para casa. Foto: David Canon

Outra comemoração era a volta da Taça Jules Rimet ao Rio de Janeiro, após o roubo na sede da CBF em 19 de dezembro do ano anterior. A réplica, encomendada pela Eastman Kodak Co., com autorização da FIFA, já havia passado por Brasília, para uma solenidade com o ditador Figueiredo, e em São Paulo, para a reabertura do Estádio do Pacaembu. Nesta última ocasião citada, Bellini, Mauro e Carlos Alberto Torres se encontraram com Paulo Machado de Carvalho, chefe das delegações das seleções de 1958 e 1962, e que após a reforma do estádio mais carismático da capital paulista, também passaria a dar seu nome ao mesmo. Na cerimônia carioca, apenas os três capitães estavam presentes.

A última novidade seria a estreia de Edu Coimbra como treinador da seleção brasileira. Após excelente passagem pelo Vasco da Gama (com o vice-campeonato brasileiro, perdendo a final para o Fluminense), ele começava sua curta passagem à frente do time. A equipe convocada não pôde contar com os jogadores de clubes estrangeiros. Falcão, Cerezo e Zico estavam na Itália. Sócrates, capitão brasileiro na última Copa, participava no mesmo dia do seu jogo de despedida pelo Corinthians, em Kingston (Jamaica), contra a seleção local. 2 a 1 para os caribenhos, com gol de desconto do Doutor.

Quem herdara a braçadeira e sua camisa 8 foi o companheiro de equipe, Zenon. No mais, a equipe brasileira era basicamente composta de jogadores de clubes cariocas. No gol: Roberto Costa (Vasco); na defesa: Leandro (Flamengo), Mozer (Flamengo), Ricardo Gomes (Fluminense) e Júnior (Flamengo); Meio de campo: Pires (Vasco), Assis (Fluminense) e Zenon (Corinthians); e ataque: Renato Gaúcho (Grêmio), Tato (Fluminense) e Roberto Dinamite (Vasco).


Seleção escalada por Edu para amistoso contra Inglaterra em 1984, no Maracanã. Foto: Bob Thomas

O time inglês era apenas um coadjuvante para aquela celebração. Como tudo no Brasil, a história fica ao relento dos pesquisadores, e as consequências dos nossos atos no presente viram livros de histórias vendidas em sebos empoeirados no futuro. Caso os dirigentes da CBF de 84 soubessem da partida histórica entre Brasil e Inglaterra em 1956, jamais teriam chamados os bretões para aquela festa. Sir Stanley Matthews, aos 41 anos, acabou com Nilton Santos, com 20, e consagrou uma das derrotas mais vexaminosas da seleção brasileira até então. 

Porém, o “otimismo” de nossos dirigentes quase sempre se confunde com arrogância. Naquele 10 de junho de 1984, até os melhores amigos da seleção vaiaram ao término do jogo. Márcio Guedes, comentarista do Globo Esporte na época, disse que aquela havia sido “a pior exibição de que se tem notícia no Maracanã, em termos de Seleção”.

A Folha de São Paulo destacou a “total falta de entrosamento entre os jogadores e da ausência de um esquema definido”, sendo surpreendidos por um 4-2-4 (“tática que caiu em desuso no futebol brasileiro”, segundo o veículo). Sandro Moreyra, em sua coluna “Bola Dividida”, n’O Globo, seguiu a semana inteira justificando os erros do Edu, tentando advogar por uma causa que não cabia ao mesmo.


Barnes avança sob cobertura de Zenon. Foto: David Canon

O problema daquela derrota não foi o Edu ou o abismo que o futebol brasileiro apresentava nos últimos anos. O problema daquela derrota não estava apenas nos 11 jogadores de amarelo e azul em campo, nem de qualquer problema político-eleitoral brasileiro. Naquele 10 de junho de 1984, o mistério do futebol aconteceu. Nenhuma de todas as possibilidades esperadas seriam capazes de prever a graça do futebol: o penetra. Ninguém organiza uma festa como aquela esperando que um não-convidado assopre as velas. 

O penetra: John Barnes, o jamaicano. Seus 20 anos de idade não resumiam toda a sua inconsequência. Jogador do Watford, não queria ver o adversário atacar sem revidar. Até os 11 minutos do primeiro tempo, só o Brasil atacou. Não abriu o placar porque Assis furou uma bola impressionante na marca do pênalti e porque Renato Gaúcho resolveu driblar o goleiro inglês. Vendo aquilo, Barnes deve ter entendido que o antigo Maracanã não servia apenas ao futebol, mas a todos os espetáculos que ali aparecessem.


Barnes comemora seu golaço aos 44 minutos do primeiro tempo. Foto: Bob Thomas

Não tardou muito, na primeira bola limpa que teve deixou Leandro (o latifundiário daquelas terras) com a bunda estatelada no gramado. E na segunda jogada, aos 44 minutos, um lance que os torcedores jamais deveriam ter esquecido: matou a redonda nos peitos, correu 35 jardas, driblou seis adversários e só não entrou com bola e tudo porque teve humildade. Sem dúvida, um dos gols mais bonitos da história do Maracanã (RIP 1950-2010). 

Não bastando ter acabado com toda a linha de defesa no primeiro tempo, ainda deu assistência para o gol de Hateley no segundo, forçando a substituição de Leandro por Vladimir (passando Júnior para a lateral direita), dois minutos depois. Sem dúvida, uma atuação digna de Mago dos Driblings, apelido do Sir Stanley Matthews. 

Conclusão do jogo para o Brasil: a população brasileira pouco se importou com uma réplica da Jules Rimet, a CBF chegaria ao seu centenário com pouquíssimos créditos (à exceção do uso de seus uniformes em manifestações reacionárias), Edu só duraria como técnico durante o período que fora contratado (três jogos), Roberto Dinamite se despediria da seleção na partida seguinte e aquelas duas latas de óleo nunca mais valeriam tanto.

Conclusão de jogo para a Inglaterra: Barnes continuaria sendo cobrado por atuações similares e, por mais que tentasse, os ingleses jamais aceitariam um jogador de país colonizado como protagonista de sua seleção. Sua cor da pele, que até hoje gera insultos entre os jornais galeses, nunca passou desapercebido, trazendo à tona o racismo estrutural tão dito atualmente. 


Barnes e Hateley com o troféu de 70 anos da CFB. Foto: Bob Thomas

Na Copa de 86, por exemplo, ainda como um dos maiores craques da seleção inglesa, amargurou o banco de reservas até os 30 do segundo tempo contra a Argentina, de Maradona. Já perdendo de 2 a 0, pouco poderia fazer. Mas, como qualquer bom penetra, fez. Um jogo rodeado pelas críticas à Guerra das Malvinas, poderia também ter sido lembrado como o jogo do penetra, não fosse o preconceito. Com apenas 9 minutos em campo, Barnes fez mais uma de suas jogadas surpreendentes, dando assistência para Lineker descontar o placar. Os 10 jogadores ingleses em campo foram eliminados, mas não Barnes. 

Décadas depois, a Inglaterra voltaria a enfrentar o Brasil na reabertura do estádio carioca para a Copa do Mundo. Em 2013, o “The Guardian”, principal jornal inglês, foi categórico sobre aquela partida de 1984: “O Carnaval pertence à Barnes”. É, pode ser. Carnaval fora de época, como qualquer penetra gosta.

ESPECIAL 70 ANOS DA COPA DE 1950 – EM MONTEVIDÉU, CARA A CARA COM OS FANTASMAS

por Marco Antonio Rocha


A ideia veio como um chute seco, que passa rente à trave antes de morrer no fundo do gol. Eu estava no 328, ônibus que liga a Ilha do Governador ao Centro, quando vi de longe o Maracanã. O gigante já havia passado por plásticas mal-sucedidas e perdido boa parte da velha forma, mas ainda guardava sua essência intocada. Como quase sempre fazia, por minutos recordei vitórias que ali comemorei, derrotas que ali me fizeram chorar… Mas naquele dia foi diferente: devia ser fevereiro ou março de 2000 e me dei conta de que em poucos meses seriam evocados os 50 anos da Copa do Mundo, do malfadado Maracanazo. O ponto que me deixaria perto do Lance! chegou logo e desci, com uma pressa maior que a habitual. Já na redação, liguei o computador e comecei a pesquisar quais uruguaios que fizeram nossos pais e avós chorarem ainda estavam vivos.

Depois de algumas ligações para jornais do Uruguai, tinha em mãos o mapa que me levaria a um tesouro: eram números de telefone de quatro heróis que viviam em Montevidéu. Na mesma semana a ideia foi comprada por Álvaro Oliveira Filho, então editor-chefe do Lance!, que retrucou com apenas uma recomendação: não poderia ser uma viagem cara, era preciso economizar na quantidade de diárias. A pequenina capital uruguaia seria uma aliada e tanto. No dia seguinte, liguei para o quarteto, a começar por Schiaffino, elegante meia-armador que abriu caminho para a virada que gelou o Maracanã. E, assim, a agenda de entrevistas foi sendo preenchida com o apoiador Pérez, o goleiro Máspoli… Faltava, porém, fechar essa pequena grande seleção com o maior de todos: Ghiggia, sete letras capazes de fazer tremer alguém que, entre todas as Copas, tem como lembrança mais antiga a de 1982! O telefone toca uma, duas, três, quatro vezes. Quando achava que não atenderia, uma voz grave paralisou meu corpo. Expliquei num espanhol gaguejante que desejava encontrá-lo; ele me disse que morava na rua tal, em frente ao McDonald´s. Sua pronúncia e meu nervosismo fizeram com que as letras da lanchonete se tornassem uma só. Pedi que falasse de novo. E de novo, de novo. Enfim deduzi o que se tratava e desliguei. Definitivamente, aquele contato, como o de 50 anos atrás, não havia terminado bem…  

Nesta altura o jornalista Pedro Paulo Malta Santos e o fotógrafo Nelson Almeida já haviam entrado na aventura – o primeiro para produzir o material digital; o segundo para fotografar todos (e tudo). Desembarcamos no finalzinho de uma tarde de sábado, de olho no relógio para o bate-papo marcado com Schiaffino. Antes, porém, precisávamos comprar uma camisa da seleção. De táxi, peregrinamos por lojas de rua e shoppings. Absolutamente nenhuma tinha. A associação uruguaia havia rompido o contrato com a antiga fornecedora sem que tivesse fechado com uma nova. A hora ficava cada vez mais apertada até que, na última tentativa, enfim conseguimos a Celeste! E lá fomos nós para a orla de Montevidéu encontrar nosso personagem. 


De suéter vinho e calça comprida, o elegante ex-meia-armador que acumulara títulos por Peñarol, Milan e Roma nos aguardava na porta de casa. Com sorriso largo, recebeu-nos com a simplicidade de um gênio. Durante a entrevista, fez questão de tirar de um armário recuerdos e regalos de 1950: uma bandeja imitando o calçadão de Copacabana, registros e mais registros fotográficos em momentos de folga no Brasil. As memórias guardadas na cabeça, porém, por vezes se perdiam no tempo e nas falas. Mas recorreu a uma precisão extrema para desqualificar não apenas seu gol, mas o de Ghiggia. Com a camisa devidamente autografada, fomos enfim para o hotel.

No domingo pela manhã, chegar à casa de Pérez não foi fácil. Uma feira livre bloqueava a rua de árvores enormes e casas de muros baixos. Não fossem os vendedores anunciando seus produtos em espanhol, poderíamos imaginar que estávamos no subúrbio carioca. Em um canto da sala, evidências da época de jogador: um quadro seu com a camisa do Nacional; um pequeno boneco de louça, em referência ao tempo em que desfilava uma técnica refinada pelos gramados; e a réplica da Jules Rimet. Aquele altar, porém, colocado estrategicamente de frente para a porta de entrada, era mais um monumento à amargura do que à Copa de 1950. Entre a tristeza que causou aos amigos brasileiros e a falta de reconhecimento dos dirigentes do Uruguai, Pérez deixava claro que não guardava boas lembranças do dia em que, em sua visão, brasileiros e uruguaios saíram derrotados. Antes da despedida, fomos brindados com doses de uísque caubói — não é todos os dias em que se bebe com um campeão do mundo!


A conversa com o craque, ídolo tardio do Nacional, dificultou a digestão do almoço de domingo, por melhor que seja a carne uruguaia. Ainda mais quando a sobremesa é uma entrevista com… Ghiggia. “Osso duro de roer!”, muitos diziam quando comentávamos sobre nossos planos. “Ele cobra para dar entrevistas. E caro!”, avisavam outros. Foi preciso pagar para ver, ficar frente a frente com uma fera que, do seu modo milongueiro, mostrou-se um doce. Quando chegamos ao endereço anotado, vi o tal McDonald´s e abri um sorriso. Era ali, em um sobrado acanhado e escuro, que vivia um Rei de Copas. Subimos por uma escada estreita, rente à parede sem pintura. A poucos degraus do fim, ele surgiu: cabelos milimetricamente alinhados para trás, bigode fino como o dos vilões da Disney e camisa preta de mangas compridas e gola rolê. Com 1,69m, visto de baixo, parecia mais alto; olhos nos olhos, parecia um gigante.

Já acomodados em torno de uma pequena mesa, achamos por bem puxar papo com assuntos triviais. Comentamos algo sobre sua coleção de fitas-cassetes de músicos brasileiros, cuidadosamente arrumada sobre a lareira: “Me encanta Gal Costa”, disse, como se quisesse deixar seus visitantes à vontade. Imaginamos que fosse a senha para falar do Brasil, do Mundial. A interrupção veio acompanhada de reticências, as mais demoradas de nossas vidas: “Pero yo cobro…”. As pernas tremeram, era como se estivéssemos diante de Ghiggia no Maracanazo de 50 anos antes. Um silêncio ensurdecedor tomou conta da casa nos segundos seguintes. E só foi quebrado pelo próprio craque: “Mas vou falar de graça com vocês, que saíram do Brasil só para recordar essa história. Aqui a imprensa parece não saber o que represento”. Após uma longa entrevista, saímos de lá com a sensação de termos virado, à moda uruguaia, um jogo improvável. Um jogo em que vilões e heróis se confundem. Tudo é divino e maravilhoso.


Da apreensão ao encantamento, começamos a segunda-feira sabendo que nada poderia dar errado naquela viagem. E tivemos certeza quando chegamos à casa de Máspoli, um simpático velhinho de 82 anos. Com visão muito particular sobre aquele 16 de julho, o goleiro campeão de 1950 nos surpreendeu ao dizer que o Brasil, pelo vexame que a derrota em casa provocaria, sentira o peso do gol de empate. E mais: que a seleção brasileira havia sido devidamente analisada antes da grande final — ao lado do capitão Obdulio Varela, Tejera e Gambetta, Máspoli era uma das vozes mais ativas junto ao técnico Juan López. 

Estávamos bem perto do mítico Estádio Centenário que, por feliz coincidência, abrigava o museu dedicado às glórias uruguaias. A sorte, definitivamente, estava ao nosso lado. Ou pelo menos parecia estar… Procura daqui, procura dali e eis que, enfim, encontramos a entrada. Provavelmente passamos por ela mais de uma vez, já que estava escondida por um… caminhão de mudança! Caixas e mais caixas saíam de lá. “Vamos levar tudo para a associação, ficará guardado antes da exposição no shopping central”, explicou um dos funcionários. Gol do Uruguai, o Maracanã se cala, lágrimas ameaçam escorrer com aquele gol já nos acréscimos da nossa viagem. “O diretor virá em breve, ele pode falar com vocês”, disse outro homem, a caminho do veículo. E de fato logo chegou, mostrando surpresa pelo nosso interesse: “Vocês estão aqui para fazer uma reportagem sobre a Copa que nós ganhamos de vocês!? Venham comigo, há muitas coisas ainda lá dentro”. 

O que vimos dentro daquele museu improvisado embaixo da arquibancada era uma espécie de arca perdida, o Santo Graal dos deuses de chuteiras: a réplica da taça; a camisa celeste usada por Obdulio, com o 5 em vermelho às costas; a bola que enganou Barbosa e condenou um dos maiores goleiros brasileiros do Brasil à sua prisão perpétua… Já fora das redomas, cada objeto passou pelas nossas mãos para serem fotografados por Nelson Almeida. Minutos antes, achávamos que não chegaríamos nem perto daquele tesouro; naquele momento, tínhamos a História entre os dedos. A vida é mesmo tão imprevisível quanto o futebol. As poucas horas em Montevidéu tiveram o valor de anos, décadas, uma vida inteira. A bordo do 328, passei outras tantas vezes pelo Maracanã, mas jamais olhei para o velho estádio da mesma forma.  

O DIA QUE JAMAIS ACABARÁ

por Marco Antonio Rocha


A final da Copa América começou muito, muito antes lá em casa — mais ou menos com uma semana de antecedência, quando meu filho foi convidado para entrar em campo com as seleções de Brasil e Peru. Foi a partir daí que os dias para ele se arrastaram, as noites ficaram mais longas (às vezes em claro).

Mateus tem 9 anos e carrega no olhar o brilho infantil da imaginação. Futebol para ele é tema recorrente, seja nos desenhos que cria, seja nas pouco prováveis escalações de videogame, seja nas idas a São Januário. Mas essa decisão passou a pontuar sua rotina como nenhuma outra partida: no café da manhã se questionava se entraria com Coutinho, na ida para a escola se perguntava se estaria ao lado de Cebolinha, antes de dormir pensava como seria cantar o hino perto de Gabriel Jesus.

No dia da final, estávamos ele, eu e minha mulher às 11h em ponto no portão 3 do Maraca. Era preciso chegar cedo para ensaiar a entrada no gramado, o posicionamento, a saída… Cresci indo ao velho Maracanã e jamais meu coração ficou tão disparado quanto naquela manhã de 7 de julho. De alguma forma me via nele, de todas as formas me realizava nele. Sua emoção era minha, era nossa.

Mariana e eu almoçamos perto do estádio enquanto ele descobria que, a poucos quilômetros de casa, havia uma Disney de sonhos muito mais inimagináveis do que a americana. Lá pelas 15h segui para o plantão no jornal, minha mulher partiu para o Maraca. A esta altura Teteu e outras crianças já sabiam o que deveriam fazer, tinham feito fotos com a mascote e trocado ideia com… Cafu! “Poxa, você jogou muita bola, hein? Ergueu a taça da Copa do Mundo!”, elogiou o moleque que nasceu sete anos depois daquele gesto. Naqueles segundos com um craque, ele também era 100% Jardim Irene.

Às 16h50, a TV no trabalho mostra as duas seleções perfiladas no corredor que leva ao campo. Tento espichar a cabeça entre um jogador e outro para encontrá-lo. Passa Alisson, vem Guerrero, seguido por Arthur e Cueva. Por ser alto para a idade, a organização deixou Teteu para o fim, ao lado do peruano Advíncula — que tem nome de algum osso pouco conhecido no corpo humano mas que, desde então, ganhou significado especial. Começa o hino do Peru e o moleque, grande que só, quase esconde o Cueva. Aparece em primeiríssimo plano, sério, concentrado, mas não o bastante para evitar uma indefectível olhadinha de rabo de olho no telão. CR7 ficaria orgulhoso, não mais do que eu…


A bola rola e sigo trabalhando de ouvido ligado no andamento da decisão. O empate peruano me assusta, mas logo Jesus tranquiliza o coração de pai. Já no segundo tempo, Mari me manda uma mensagem: “Amor, não vamos cedo para casa, não. Estamos sentados perto da mãe do Coutinho. Teteu foi conversar com ela e em poucos minutos havia conquistado a família inteira. Ela disse para ele não ir embora, porque depois do jogo vai apresentá-lo ao filho”. Não acreditei, temi que algum problema no meio do caminho jogasse o final (ainda mais) feliz para escanteio.  

Bem depois da entrega da taça, meu telefone toca. Era Teteu, aos prantos: “Pai, eu falei com o Coutinho, conversei com ele, ele fez uma foto comigo. Eu tô muito, muito feliz”, disse, entre soluços e sorrisos. Na foto com o ídolo, as lágrimas deixaram o olhar infantil com brilho ainda maior. O menino chorou copiosamente no fim de um dia que jamais acabará.

MEU SARRIAZO PARTICULAR

por Rodrigo Octavio Souza


O dia 5 de julho de 1982 foi o primeiro em que me lembro de ter visto os meus pais chorando. Do alto dos meus cinco anos incompletos, sabia apenas que tinha a ver com a Copa do Mundo e com o “Canarinho”. Algo estranho para quem tinha se acostumado a viver em meio à euforia nos 20 dias anteriores.

A chuva de papel picado caía das janelas e inundava as ruas de Icaraí, onde eu morava, à medida que o genial escrete (ainda se usava essa palavra) do igualmente genial Telê Santana enchia as redes dos rivais de gols. E haja trabalho para os garis, afinal, foram 15 em cinco jogos.

Mas, de repente, o colorido das paredes pintadas e dos bandeirões pendurados de um lado ao outro da rua virou cinzas. A alegria e os gritos de gol transformaram-se em um nó na garganta. No máximo, em um pranto sentido e sofrido.

Sofremos pelos pés de um atacante que ficará mais de um ano suspenso, acusado de envolvimento com manipulação de resultados no “calcio”. Pela primeira vez na minha vida, ouvi a palavra “carrasco”. Palavra cujo sentido, descobri depois, é empregado em contextos muito piores. Mas que se aplicava perfeitamente ao que aconteceu naquele verão mediterrâneo.
Havia, e há, coisas piores no mundo. O próprio Brasil vivia o início da “década perdida”, nos estertores de um regime falido e atolado na hiperinflação e na dívida externa. Mas sob a ótica particular do futebol, que tudo vê com uma lente de aumento, o que se passou no Sarriá foi, sim, uma tragédia.


Como tal, ainda dói quando se remexe, em especial, nas efemérides como essa dos 37 anos da fatídica partida contra os italianos. Mas, contraditoriamente, tanto tempo depois da dramática peleja, posso dizer que o que aquele time me deixou mesmo é um enorme sentimento de orgulho e gratidão por ter me acendido a fagulha da paixão por esse esporte, tão divino quanto diabólico.

Para além do resultado, aquela equipe legou ao mundo o ideal do “jogo bonito”, que volta e meia é emulado por equipes como o histórico Barcelona de Guardiola do começo desta década. Aliás, sempre que pode, o treinador faz questão de falar do impacto que aquela seleção teve sobre o então menino catalão de 10 anos, na gênese do esquadrão blaugrana de Messi e no seu próprio conceito do jogo.
Quase tudo já foi dito ou escrito sobre aquela partida, mas o fato é que a Itália jogou melhor. Tirou os espaços, anulou nossos pontos fortes, fez o jogo perfeito.
Aliás, ninguém jogou mais bola do que a Azzurra na primeira quinzena de julho de 1982. Não tinham a magia brasileira, mas eram organizados e, sobretudo, excelentes tecnicamente. Só obediência tática não seria capaz de deter Zico, Sócrates e companhia.

Não ter ganho aquele Mundial deixa o coração dolorido, claro. Poucas não foram as vezes que, num exercício de imaginação, “vi” o Doutor erguer o caneco depois de botarmos na roda a ótima, mas exausta, Alemanha (olha ela aí!) de Rummenigge, Briegel e Magath. Jamais saberemos o que aconteceria com o futebol mundial caso o Brasil conquistasse a Copa. Nada garante que, ainda assim, não seria trilhado o caminho da cautela defensiva, que resultou no pífio Mundial de 90, coincidentemente disputado na Velha Bota. 

A única certeza que eu tenho é que nunca mais vi meus pais chorando por causa de futebol desde aquele dia 5 de julho de 1982.