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Bobô

OXE, MESTRE, BOBÔ É O REI DO ARERÊ!

por André Felipe de Lima


“Quem não amou a elegância sutil de Bobô?” O refrão da música “Reconvexo”, composta por Caetano Veloso e interpretada por Maria Bethânia, diz tudo.

Como frisa o jornalista Bob Fernandes – no livro “Bora Bahêeea! A história do Bahia contada por quem a viveu”, da Coleção Camisa 13 (DBA, 2003), há quem afirme peremptoriamente que a personagem da famosa letra não é Bobô e sim Bubu, outrora dono de um botequim em Salvador onde Caetano teria ouvido pela primeira vez a música de João Gilberto e se encantado com a Bossa Nova.

Mas quem ousaria dizer que a letra não fala de Bobô? Que torcedor do Bahia acharia o contrário? Talvez nem Caetano mexesse nesse vespeiro para contrariar milhões de torcedores do amado Tricolor. A música fala do craque… e ponto final! Fala do maior jogador que o Bahia já teve em todas as suas fileiras. Fala de Bobô. Fala de Raimundo Nonato Tavares da Silva, seu nome de batismo, recebido no dia 28 de novembro de 1962, quando veio ao mundo na baianíssima Senhor do Bonfim.

O incomum apelido partiu da irmã caçula Rita, que não conseguia chamá-lo de Raimundinho, como faziam os outros seis irmãos. O que ninguém imaginaria, porém, é que aquele menino seria o mais badalado baiano do final dos anos de 1980. Mais até que Jorge Amado, João Ubaldo, o próprio Caetano ou Antônio Carlos Magalhães. Na Bahia daquela virada de década só se falava de Bobô.

Bobô que, ainda garoto, começou no futebol de salão, em 1980, no intermunicipal da cidade natal. No ano seguinte, a Associação Desportiva Catuense o descobriu. Fez sucesso e fez do clube do interior um dos melhores do campeonato local. Mas isso se restringia à boa terra. Fora da Bahia, Bobô ainda era um mero desconhecido.

Em 1982, durante a transmissão radiofônica de um jogo da Catuense contra o América carioca, no Maracanã, em jogo válido pela Taça de Prata (segunda divisão nacional), o repórter e comentarista Washington Rodrigues, então na “Rádio Globo”, não conteve a gargalhada: “O time baiano tem até Bobó”, debochou o radialista, fazendo alusão ao prato típico baiano.

Bobô é filho de Florisvaldo Tavares da Silva, o “seu” Flori, e Antonieta, a “dona Tieta”, como a chamavam em Senhor do Bonfim. O médico Pedro Amorim, grande ponta-direita do passado e ídolo do Fluminense no começo dos anos de 1940, foi grande amigo do pai de Bobô e um dos primeiros incentivadores do rapaz ainda nos tempos em que começou a despontar na Catuense, ainda bastante franzino. Fisicamente tão fraco que outro apelido pegou mais que Bobô: “Tinquim”, nome de um pássaro muito frágil comum no norte baiano.

“Ele era bem fraquinho”, recordou João Corrêa, que descobriu Bobô em uma quadra de futebol de salão em frente à sua casa, em Senhor do Bonfim. Já em 1980, olheiros de vários clubes queriam levá-lo. Por pouco o Vitória, time para o qual Bobô torcia desde pequeno (por influência de “seu” Flori), levou a melhor; mas um amigo da família acabou desviando-o para a Catuense.

Em dois meses, Bobô já estava no time principal. Quando começou a se firmar no time titular, rompeu os ligamentos do joelho direito. Foi operado em Salvador e intrigou os médicos com um impertinente inchaço no pé-direito que o incomodava todas as manhãs. Jamais os médicos conseguiram explicar o misterioso inchaço e um desesperado Bobô quase largou o futebol. Foi demovido da desastrada ideia e tocando a carreira até que em 1984, a Catuense trouxe como treinador o renomado Aymoré Moreira. Sucesso absoluto do time, Bobô não cabia apenas na pequena Senhor do Bonfim.

Quatro anos após o deboche de Washington Rodrigues, exatamente em janeiro de 1986, o Bahia pagou 1100 cruzeiros pelo passe de Bobô. Um valor muito criticado pela torcida da época. Junto com ele seguiram para o Tricolor os laterais Zanata e Alcir. E logo no primeiro ano, o craque mostrou a que veio. Formou excepcional dupla com Claudio Adão (juntos marcaram mais de 40 gols na temporada) e foi campeão estadual em 1986.

No ano seguinte, o do bi, João Saldanha empolgou-se com o futebol esbanjado por Bobô: “Um bolão. Trata-se de um cara em condição de ganhar prêmios em qualquer partida.”

E a bola de Bobô não parou de crescer, mesmo com uma grave lesão no menisco, em 1987, que o afastou sete meses do futebol. Quase foi negociado com o Cruzeiro, mas manteve-se no Bahia e comandou o time no tri em 1988. Chegara, portanto, ao olimpo baiano ao conduzir o time ao inédito título da nova versão do Campeonato Brasileiro. O segundo em escala nacional do Bahia, que já havia destronado o Santos de Pelé, na final da Taça Brasil de 1959.

Um dos heróis da conquista do título brasileiro de 88, Bobô marcou nove gols na competição. Dos 27 jogos do Bahia, foram 13 vitórias e 11 empates. O tricolor despachou o Fluminense na semifinal e, na final, mandou às favas o Internacional de Porto Alegre, na casa dos gaúchos, em um empate sem gols com o estádio Beira-Rio para lá de lotado. Deu pra ti, Colorado!

“O bom disso tudo foi a chegada ao estádio: fizeram uma macumba e puseram na porta do nosso vestiário. Macumba de gaúcho. Era um boi, cara! Um boi com farinha (…). Puta merda, era um pedaço enorme de boi!. Não era um frango, um bodinho, como é aqui. Na porta do nosso vestiário, com velas acesas e tudo mais. Aqui (no primeiro jogo da final, em Salvador), tinham feito no vestiário deles, e os caras ficaram assustados”, disse Bobô ao repórter Bob Fernandes.

Apesar da notoriedade, o craque não teve tantas oportunidades para se firmar na Seleção Brasileira. Quando se esperava uma convocação, era esquecido. Apenas Sebastião Lazaroni lembrou-se dele, logo após o título brasileiro; mas foram poucas vezes.

Deixou o Bahia em 1989 e seguiu para o Morumbi. Na transação, o São Paulo pagou um milhão de dólares por Bobô e cedeu os passes do centroavante Marcelo e do zagueiro Wágner Basílio.

Apesar do desempenho distante do que rendeu no Bahia, foi campeão paulista de 1989. No São Paulo, jogou 63 vezes, venceu 27, empatou 23 e marcou apenas 11 gols. Um ano após o título paulista, foi emprestado ao Flamengo. Um fiasco! Ficou à disposição do São Paulo em 1991, que preferiu trocá-lo pelo ponta-esquerda Rinaldo, do Fluminense. Nas Laranjeiras realizou alguns bons jogos ao lado do atacante Ézio. Em 1993, regressou a São Paulo para defender o Corinthians. Não deu certo. Foi para o Internacional, de quem foi algoz em 1988, e voltou para a Catuense em abril de 1995, após permanecer quase um ano inteiro sem jogar futebol.

Encerrou a carreira em 1997 no clube que o projetou no cenário nacional: o Bahia, com o qual marcou 81 gols e onde figura no 16º. lugar no ranking de artilheiros do clube.

Dos gramados para as cabines de transmissões esportivas de rádio e TV nos estádios. De craque, Bobô transformou-se em comentarista de jogos de futebol. Não durou muito tempo. Resolveu que a carreira de treinador lhe cairia como uma luva.


Vem tentando, mas sem resultados extraordinários. Chegou a dirigir o próprio Bahia, que não consegue abandonar de forma alguma. Sua responsabilidade no clube era a de acompanhar e organizar as divisões de base do clube. Afinal, um grande time de futebol que se preze tem de fazer “Bobôs” todos os anos.

Em 2007, o jogador viveu, contudo, uma das piores fases de sua vida. Conclusão do inquérito da Polícia Civil sobre a queda da arquibancada da Fonte Nova, em novembro daquele ano, que causou a morte de sete pessoas, indiciou quatro autoridades esportivas por homicídio doloso (quando se tem intenção de matar), com pena que poderia chegar a dez anos de detenção. Entre essas autoridades, estava Bobô que, à época da tragédia, era diretor-geral da Superintendência de Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), órgão responsável pela manutenção da Fonte Nova.

O Ministério Público Estadual pediu o afastamento das diretorias da Sudesb e do Esporte Clube Bahia. Para o MP, a instituição e o clube eram responsáveis diretos pela tragédia. No caso da Sudesb, por manter o estádio sem condições de funcionamento; no do Bahia, por omissão em aceitar jogar no estádio e não elaborar um plano de segurança para a ocasião. O MP também considerou a Polícia Militar, a Federação Baiana de Futebol e a Confederação Brasileira de Futebol culpadas pela tragédia.

O alívio para Bobô viria no dia 18 de agosto de 2009, com o juiz-substituto da 10ª Vara Criminal de Salvador, José Reginaldo, absolvendo-o e permitindo que se mantivesse no cargo de diretor-geral da Sudesb.

Um ano depois da absolvição em primeira instância, exatamente no dia 15 de julho, a desembargadora Aidil Conceição, da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça da Bahia, reconheceu a decisão do juiz José Reginaldo e entendeu que o ídolo do Tricolor baiano não poderia ser responsabilizado pelas sete mortes ocorridas no episódio que ficou conhecido como “a tragédia da Fonte Nova”.

Ao longo da carreira, Bobô marcou 258 gols, e isso não se apaga da memória dos torcedores. Mesmo com o triste episódio do estádio marcado na lembrança de muitos baianos, não somente a Justiça, mas a imensa torcida baiana o absolveu.

A trajetória de Bobô é gloriosa. E, indiscutivelmente, o maior ídolo do Bahia em toda a linda história do clube. Em qualquer rua de Salvador um cidadão da boa terra e responderá: “Oxe, mestre, Bobô é o rei do arerê!”.