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Arnaldo Cezar Coelho

ONDE A REGRA NÃO ERA TÃO CLARA ASSIM

por Zé Roberto Padilha


No começo era, durante o Natal dos César e Coelho, como nas regras oficiais das residências dos meninos brasileiros: ganhavam de presente uma bola, um short, um meião ou uma chuteira. Porém, os pais foram notando que seu menino retornava triste das peladas. Não conseguia driblar, tabelar com os companheiros e, muito menos, fazer um gol. Se os amigos voltavam com as camisas suadas e enlameadas, a do seu filho, que mal lhe passavam a bola, ainda dava para jogar a pelada do dia seguinte. As partidas de futebol, como ele era sempre o ultimo a ser escolhido, já não lhe davam alegrias. Até que um dia durante o par ou impar, no limite dos 22 presentes a serem escolhidos, quando ia ser citado por ultimo e fechar a conta, eis que surge uma Kombi freando ao lado do campo. E quem o escolheria sentenciou ali o seu destino: “Eu quero o…..que está chegando na Kombi!”. Mal sabia se era bom ou ruim de bola. Nas duas hipóteses, certamente deveria seria melhor que o Arnaldinho…

Sendo assim, as regras não ficaram por lá mais tão claras assim. E o menino Arnaldo Cezar Coelho acabou ganhou um apito de presente no natal seguinte. Se não tinha habilidade com a bola nos pés, seu equilíbrio e senso de justiça, revelados desde que nasceu, o credenciaram a ser um juiz. Não precisava mais sujar a roupa na lama, apenas sua genitora, em alguns lances mais polêmicos, sairia de lá enlameada. Antes preterido, passou a ser o primeiro a ser escolhido, cobiçado pelo bairro e pela sua qualidade, convidado a fazer um curso de arbitragem. E seguir uma carreira diferente de todos os seus amigos.


Tão diferente que quando acertam tudo durante os 90 minutos, na difícil interpretação da velocidade cada vez maior dos lances, ninguém vê. Estão lá para isto, sentencia o Galvão. Não há replays que o exaltem nem o árbitro de vídeo a parar o jogo e elevar suas virtudes. Mas quando erram são taxados de sopradores de apito, ladrões pelas arquibancadas, caseiros pelos comentaristas e o eco da Rádio Globo ainda vive a soar por suas cabeças no vozeirão de Mário Vianna. Com dois enes. “Errrrooooouuuuuuu!!!!!!”

Ontem, ficamos sabendo que Arnaldo Cezar Coelho, um desses heróis que se prestaram a mediar nossas fortes emoções, julgados que são com poucas razões, está se despedindo da equipe de comentarista da Rede Globo. Tão bonita foi sua carreira, que não bastou ter apitado a partida mais valiosa do mundo, uma decisão da Copa do Mundo, quis também deixar como legado um novo mercado de trabalho para seus companheiros de profissão. Hoje, comentarista de arbitragem já dá emprego no futebol graças ao seu exemplo e desempenho. Fez como Raul Carlesso, o precursor dos treinadores de goleiros, que antes eram treinados juntos com os que não utilizavam as mãos. Um avanço. Outra inovação.


Enfim, depois de Arnaldo Cézar Coelho, apito com grife da Adidas, da Nike e da Puma, passou a ser, no país do futebol, um novo e cobiçado presente de Natal.

Obs. A primeira parte do texto foi de absoluta ficção, visando apenas exaltar a não ficção que se impôs quando o apito soou e colocou ordem na intenção do autor.

O PELÉ DA ARBITRAGEM

por Marcos Vinicius Cabral


– Eu também gostaria de fazer um agradecimento à TV Globo. Já apitei final de Copa do Mundo e desde então exerço a profissão de comentarista. É muito tempo e gostaria de um descanso porque é um trabalho muito desgastante! – disse um emocionado Arnaldo Cézar Coelho ao fim da transmissão no Estádio Lujniki, na Rússia, onde a França venceu a Croácia por 4 a 2 e conquistou seu segundo título mundial.

Filho mais velho de dona Sarah Sabat Coelho – funcionária dos Correios – e de seu Oswaldo Amazonas Cézar Coelho – um médico renomado da cidade -, nascia Arnaldo David Cezar Coelho, no Rio de Janeiro, naquele 15 de janeiro de 1943. 

Ainda muito jovem, aos 17 anos, começou a exibir seu talento nas praias cariocas e já cursando Educação Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – apesar do talento natural para ser economista e controlado nos gastos, segundo amigos mais próximos – se tornou árbitro da Liga de Futebol de Praia no começo da década de 60.

– Jogo em praia é muito difícil. É preciso ser xerife, exercer autoridade, e claro, saber nadar. Era para o mar que eu corria sempre que o pau comia! – brinca Arnaldo.

Assim foi por cinco anos – dando braçadas à lá Michael Phelps no mar de Copacabana após correr à lá Usain Bolt dos mais exaltados por alguma falta mal marcada ou pênalti não assinalado – o tempo que levou para se profissionalizar, para três anos depois fazer parte dos quadros da FIFA, em 1968.

Se no meio futebolístico alguns jovens e talentosos jogadores em começo de carreira se espelham em algum ídolo e fazem de tudo para sê-lo, na arbitragem não seria diferente: sim, Armando Marques (1930-2014), foi sua grande inspiração.

Porém, temperamental e polêmico, quase uma antítese do conciliador que era Arnaldo, a lenda da arbitragem (falecido em 2014), fez sucesso na TV, como jurado de programas de auditório.


Assim como seu pupilo, estreou casualmente na Rede Globo em 1989, após ser convidado pelo diretor de jornalismo Armando Nogueira (1927-2010), para falar no Jornal Nacional, sobre os lances polêmicos do jogo entre Brasil e Chile, no Maracanã, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1990, na Itália.

Na ocasião, uma torcedora brasileira chamada Rosenery Mello, lançou um rojão no gramado, provocando a suspensão da partida após o goleiro chileno Rojas sair ensanguentado para o vestiário e o Chile se recusar a voltar a campo.

“Me cortei com uma gilete e a farsa foi descoberta. Foi um corte à minha dignidade”, afirmou o dono da camisa 1 do Chile à época de seu banimento no futebol – só em 2001, a FIFA o perdoaria -, que passou por graves problemas de saúde e recentemente fez um transplante de fígado em decorrência de uma hepatite C.

Já a “fogueteira do Maracanã” – que foi capa da edição 172, da Playboy de novembro de 1989 – acabou morrendo em 2011 de aneurisma cerebral, aos 45 anos. 

Mas se o seu ingresso à TV foi obra do acaso, não podemos dizer o mesmo do dia 10 de junho de 1978, na cidade de Mar del Plata, no Estádio José María Minella, quando a França venceu a Hungria por 3 a 1, na Copa do Mundo, em solo argentino.


Enfim, o apito talentoso do maior árbitro do país, era soprado pela primeira vez no torneio mais importante do planeta: Arnaldo Cézar Coelho, aos 35 anos, começava a escrever seu nome na história!

Porém, se naquela 11ª edição de uma Copa do Mundo, o Brasil fosse considerado o “Campeão Moral” da competição – Cláudio Coutinho, então treinador do Brasil, se considerava assim após os 6 a 0 da Argentina sobre o Peru – as eliminatórias se tornariam importantes para Arnaldo, que conheceria seu amigo inseparável Galvão Bueno, este, narrador da TV Bandeirantes.

– Galvão é um dos jornalistas mais profissionais que existem, capaz de transformar uma luta simples em um grande acontecimento e nos impressionar com tamanha emoção, elogia o parceiro de longa data.

Contudo, o ápice da carreira veio exatamente na Copa seguinte, a de 1982, em solo espanhol, quando todos acreditavam no Brasil de Telê Santana e ninguém – inclusive Arnaldo – imaginaria que a eliminação pudesse acontecer.

Mas aconteceu e a Seleção Brasileira que encantou o mundo, perdeu por 3 a 2 para a Itália, na “Tragédia do Sarriá”, que o Google mostra em toda pesquisa, belos registros fotográficos nos lances da partida daquele que foi, sem dúvida alguma, um dos maiores times brasileiros de todas as Copas.

Portanto, se centenas de milhares de torcedores brasileiros existentes naquele ano de 1982 – para ser mais exato, 127 milhões, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – sentiram o golpe, Arnaldo não teve tempo para isso, pois era escolhido para apitar a final do mundial na Espanha.   

Sua atuação na vitória da Itália sobre a Alemanha por 3 a 1, foi tão discreta (árbitro bom é o que não aparece, como Arnaldo costuma dizer nas transmissões), que só foi notada na hora do apito final quando entrou no meio de dois italianos, pegou a bola do jogo e com as duas mãos – repetindo os gestos de Bellini em 58, Mauro em 62 e Carlos Alberto Torres em 70 – ergueu a bola como se fosse uma taça.


– Eu queria dar a bola para o garoto (filho do rei da Espanha, Juan Carlos) mas o Havelange não deixou, se justifica, para em seguida dizer que a bola está em sua casa.

Mas não é de estranhar que o árbitro que mais apitou jogos nacionais – 26.190 minutos de jogo ou 291 partidas do Campeonato Brasileiro -, 360 minutos de jogo ou quatro partidas de Copas do Mundo – 1978 e 1982 – e nas outras três partidas como assistente, não tenha tido realmente a intenção de presentear o pobre menino fã de futebol.

Mesmo com tanto sucesso no país pentacampeão do mundo, Arnaldo não dependia apenas da atividade de árbitro, que jamais foi regulamentada no Brasil.

No entanto, conseguiu turbinar seus negócios, e depois de ser um simples operador autônomo na distribuidora de valores Multiplic, trabalhou duro e fundou em 1985, a Liquidez, que se tornou uma das maiores corretoras do país, vendida em 2009 para o grupo inglês BGC Partners, algo em torno de R$ 500 milhões, segundo informações veiculadas e também, a TV Rio Sul, afiliada da Globo na cidade de Resende (RJ), que cobre toda a região Sul Fluminense e o Vale do Paraíba. 


Pioneiro na profissão de comentarista de arbitragem, Arnaldo, que começou carregando malas com as câmeras na Copa da Alemanha em 1974, para Carlos Niemeyer (1920- 1999), responsável pelo Canal 100, sai de cena em definitivo da TV no fim do ano, quando termina seu contrato com a Rede Globo.

E já deixa em nós uma saudade imensa de quem se acostumou a ouvir “A Regra é Clara”, nas tardes de domingo ou nas quartas-feiras à noite, deste que foi o Pelé da Arbitragem!

HOMEM AO MAR

por Sergio Pugliese


(Foto: Reprodução)

Após nadar mil metros numa velocidade infinitamente superior aos recordes mundiais do americano Michael Phelps, Arnaldo buscou ar e apenas com os olhinhos para fora d´água conferiu se o mar estava para peixe. Sinal verde, partiu para a segunda etapa da prova: sair correndo e chegar são e salvo em casa, na Rua Inhangá, em Copacabana. Fim de semana sim e o outro também a cena era comum nos clássicos de futebol de praia entre Lá Vai Bola, Radar, Copaleme e Ouro Preto, do saudoso Raphael de Almeida Magalhães.

– Antes de aprender a apitar, aprendi a nadar – divertiu-se o árbitro Arnaldo Cezar Coelho durante jantar com a equipe do A Pelada Como Ela É. 

Nesse tempo a regra ainda não era clara e sequer havia uma Liga de Árbitros representando a categoria na praia. Arnaldo viveu a época de ouro do futebol de areia, acompanhou sua evolução e o surgimento de vários craques, como Haroldo, do Lá Vai Bola, contratado pelo Santos, de Pelé. Muitos técnicos eram porteiros, como Tião, do Dínamo, Tião, do Juventus, e Jaime Pafúncio, do Maravilha. Até o famoso árbitro Armando Marques, que usava o pseudônimo de Rui, era dono de um time, o Lagoa, de Ipanema. A rivalidade era tanta que muitos jogos não terminavam. Policiais não eram vistos e a torcida transbordava o paredão, apelido da calçada que, antes de tantos aterros, ficava acima do nível da areia. Um dia, o folclórico Matarazzo anulou gol legítimo após batida de escanteio. Terminara o jogo com a bola no ar num lance idêntico ao de Zico na Copa da Suécia, em 78. O pau comeu, mas Matarazzo, Deus sabe como, conseguiu escapar por entre as pernas dos jogadores, no melhor estilo futebol americano. De casa, ligou para os técnicos de Radar e Copaleme e deu o resultado. 

– O couro comia e era impensável uma menina namorar alguém de outra turma – recordou, enquanto apreciava o vinho italiano Sassoalloro, um de seus preferidos. 


(Foto: Reprodução)

Arnaldo cresceu vendo os árbitros fugindo e sendo xingados. Sua mãe ficava de queixo caído com as barbaridades descritas sobre ela nas súmulas. Mas ele foi aprendendo a se defender e uma das soluções era apitar próximo ao mar. Quando a chapa esquentava, mergulhava, nadava da Rua Figueiredo Magalhães até a Praça do Lido e desaparecia. Mas foi graças a esse estágio, esse laboratório infernal, que Arnaldo aprendeu a controlar os nervos, amenizar situações críticas com paciência e jogo de cintura. Foi nos buracos da areia e sol escaldante que adquiriu um preparo físico invejável e cultivou tornozelos resistentes. Quase não se contundia e voava nos gramados. Acompanhava os lances de perto e por apitar sem bandeirinhas durante muitos anos tinha excelente visão periférica. Não tem dúvida que os embates nas praias contribuíram para levá-lo a duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas. 

– Vivi grandes momentos de minha vida na areia. Ela foi minha escola – atestou. 

Ao todo foram onze Copas do Mundo. Oito pela Rede Globo, onde é comentarista há 27 anos, levado por Armando Nogueira, duas apitando e bandeirando, 78 e 82, e uma, em 74, como carregador de malas de Carlinhos Niemeyer, criador do Canal 100. As emoções foram infinitas e talvez não tivessem sido tantas se passasse nos testes para meio campo que fez em todos os clubes cariocas. Era apenas um jogador esforçado. Foi bem melhor correr lado a lado dos maiores jogadores do mundo, vê-los por um ângulo diferente. Nunca esqueceu de sua estreia no Maracanã, em 66. Muitas emoções! Antes de falar como foi degustou mais um gole de vinho, saboreou a lembrança por alguns segundos. Como o tempo passa! A bola era laranja. De um lado Altair pelo Flu e do outro, Evaristo pelo Fla. Não era preciso falar mais nada. 

– E a final na Copa do Mundo? – quis saber Reyes de Sá Viana do Castelo, bandeirinha nas horas vagas e camisa 13 do A Pelada Como Ela É. 

A resposta não veio, só um prolongado silêncio, como se a maquininha do túnel do tempo pedisse para ficar ali, paradinha, enquadrada naquele dia. Então, nós respondemos por ele. 


(Foto: Reprodução)

Quando foi escalado para a final da Copa do Mundo, em 82, Arnaldo sentiu próximo o dia da glória. Ele era o Brasil na final! Ao entrar em campo para fazer o reconhecimento olhou para os lados e não viu o mar, seu antigo refúgio. Sorriu e emocionou-se ao lembrar-se dos tempos de menino quando assistia os jogos sentado no paredão, entre as ruas Ronald de Carvalho e Duvivier. Até que sua hora chegou. Um árbitro faltou e alguns torcedores sabendo de sua paixão pelo apito o incentivaram a substituí-lo. Nas aulas de Educação Física, do Colégio Mallet Soares, os professores Renato Brito Cunha, Juarez e Claudio já haviam percebido seu talento. Na praia, o bicho pegava, mas nesse dia Arnaldo fechou os olhos, respirou fundo e se apresentou aos capitães. Tinha 16 anos. O jogo foi bem mais complicado do que a final entre Itália e Alemanha. Nessa partida, só o alemão chato Ulrich Stielike catimbou. Na areia, o cercaram algumas vezes. A pressão foi forte, mas o moleque era duro na queda. E nos dois jogos mais importantes de sua vida, Arnaldo enfrentou os mesmos fantasmas, o medo de errar e de cometer injustiças. Mas tanto em Copacabana, carregado de sonhos, quanto no monumental estádio espanhol Santiago Bernabeu, em busca da definitiva consagração, homem e menino saíram vencedores.

 

Texto publicado originalmente na coluna A Pelada Como Ela É, do Jornal O Globo, no dia 26 de março de 2011.