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André Luís Oliveira

O BRINQUEDO MÁGICO

por André Luís Oliveira


“Naquela  mesa  ele  sentava  sempre e me contava contente o que fez de manhã”. Sérgio Bittencourt.

Aquela foi uma festa especial, eu estava completando seis anos, a casa repleta de pessoas queridas: tios, avós e amigos do colégio. Brigadeiros e balas de coco eram coadjuvantes compondo a mesa revestida por uma toalha com estampas psicodélicas, onde pontuava soberano um bolo retangular, coberto por uma camada gelatinosa verde que fazia as vezes do gramado. O marshmellow demarcava o meio de campo, pequenas e grandes áreas, linhas laterais e de fundo. Sobre o bolo, dois times de futebol de botão, perfilados como se estivessem prontos para o início da partida, completavam as cenas típicas dos domingos brasileiros às 16h, quando ouvia o bordão do saudoso locutor Fiori Giliote “Abrem-se as cortinas, começa o espetáculo…”.

Na manhã seguinte à festa do meu aniversário, em meio a embrulhos coloridos e brinquedos, vi meus pais chegando com as mãos para trás. Minha mãe se antecipou, abraçando-me e presenteando-me tendenciosamente com uniforme do Comercial, um dos times da nossa Ribeirão Preto, que também fazia bater mais forte o coração do meu avô Oliveiro.

Enquanto vestia o uniforme alvinegro, meu pai aproximou-se entregando o seu presente: uma bola, a minha primeira bola de capotão! O mundo parou, os outros brinquedos e presentes tornaram-se irrelevantes. Esse momento ainda está registrado em minha memória afetiva; a bola e sua cor, seu cheiro forte de couro, a textura de suas costuras, a luz entrando pelo vitrô da sala e eu, menino com a bola na mão, e um brilho sem igual nos olhos. Ali começava uma paixão que temperou e deu um sabor especial a relações familiares e de amizade que me são muito caras.

Meu pai e eu jogávamos no quintal de casa, na praia, no clube e nos finais de semana, ia me ver jogar com os amigos no campinho de nossa rua. Aos domingos, eu e meu avô Oliveiro fazíamos uma longa caminhada até o campo do Comercial que geralmente perdia os jogos, mas mesmo assim nos divertíamos muito, sobretudo indo e voltando do estádio, jogando conversa fora, falando dos craques do passado, de Leônidas a Pelé. Ao me deixar em casa, eu o beijava na testa enquanto ele, com seus olhos miúdos, despedia-se dizendo: “É, meu neto, você ainda vai balançar as redes do Maracanã.” E eu me deitava feliz imaginando-me a fazer jogadas geniais.

O gosto pelo futebol ajudou-me a fazer amigos apesar de introvertido, alavancou a minha auto-estima, me fez sonhar nas brincadeiras e jogos de faz-de-conta, sonhos não como os de hoje, de fazer fortuna, mas sim o desejo de fazer um gol bonito e correr para a torcida. O que nos emocionava era o jogo e sua ludicidade, as bandeiras e suas cores.

Quando garoto era apaixonado pelo Rio de Janeiro, suas praias e times. Encantavam-me as cores dos uniformes e os hinos dos clubes cariocas, todos eles compostos por Lamartine Babo. Tive a sorte de alimentar essa paixão, pois a minha madrinha Maria Helena, irmã da minha mãe, morou lá naqueles tempos em que a violência não estampava os jornais com sangue. Em uma daquelas férias passadas no Rio, eu devia ter uns dez anos, saí do apartamento localizado na rua Joaquim Nabuco, Copacabana, andei algumas quadras, atravessei a avenida Atlântica, sentei no calçadão e fiquei observando um grupo de garotos da minha idade jogando na praia, torcendo para que eles me chamassem, o que não aconteceu de início. Mesmo assim, hipnotizado pela bola e pelo mar ao fundo, fiquei ali uma eternidade até ouvir uma voz com o peculiar sotaque carioca me chamando: “Ei paulista, chega mais, vamos jogar!”. Logo topei, os times estavam sendo formados e cada garoto escolhia um jogador para representar. Naquele tempo os jogadores não trocavam de time com a frequência que acontece hoje, e tão pouco iam para o exterior em transações milionárias. O flamenguista nem titubeou dizendo “Eu sou Zico”, o vascaíno retrucou “Que Zico, que nada eu vou ser o Dinamite” e, até o botafoguense, há tempo sem comemorar o título, orgulhava-se de sua estrela solitária “Eu sou o Mendonça”.


Então me perguntaram: “E você paulista, quem você vai ser?” – lembrando-me dos domingos com meu avô no campo do Comercial, respondi de bate-pronto: “Eu vou ser o Ziquita!” Os garotos cariocas, espantados, olharam-me como se eu fosse um ET e perguntaram em uníssono: “Ziquita, mas que Ziquita é esse?” – e eu, meio sem graça, respondi: “É o artilheiro do Comercial de Ribeirão Preto”.

Chegando em Ribeirão contei essa história para meu avô que, com um sorriso maroto me falou: “André, meu neto, o Comercial não foi feito para as revistas das capitais, o Ziquita não aparece nos gols do Fantástico. Comercial é paixão de matuto, forte como um segredo bem guardado.”

Foi a paixão pela bola que fez com que eu desenvolvesse o hábito de ler num momento em que eu ainda não havia descoberto os livros. Toda semana eu gastava parte da minha mesada nas bancas comprando a revista Placar, publicação da editora Abril especializada em futebol e contemplava em suas páginas coloridas todos os campeonatos estaduais, desde o charmoso campeonato carioca, ou folclórico campeonato baiano, ou mesmo o pouco falado(aqui no sudeste) campeonato potiguar.

A bola rola, a fila anda,  “tempo is fugity”, no ventre da minha esposa, meu filho dá os seus primeiros chutes. Me vejo criança, sonhando em balançar as redes do Maracanã, segurando a bola de capotão, sentindo o seu cheiro forte de couro e a textura de suas costuras, com a luz entrando pelo vitrô da sala. Beijo a testa de meu avô Oliveiro, olho para os seus olhos miúdos e digo: “Obrigado, meu avô querido, por ter me contado as suas histórias, elas me ensinaram a contar as minhas.”