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Almir Pernambuquinho

CRAQUES TRÁGICOS

por Rubens Lemos


O futebol seria imperfeito sem o passional de componente. A paixão emana das arquibancadas e explode no campo e nos gestos de volúpia inconsequente dos jogadores desenhados pela tragédia sobreposta ao talento. O pecado nem tanto assim da ira e a fúria sem limites como a capacidade do drible e do gol. Edmundo foi a continuação de Almir Pernambuquinho.

Quando pesquisava para o livro “Danilo Menezes, o Último Maestro”, em 2000, descobri uma história que revela o cangaço e a lei sertaneja da justiça pelas mãos impregnadas em Almir. Ele estava no Flamengo em 1966. Seu irmão, Adilson, formava a linha atacante do Vasco ao lado de Nado, Célio e Tião. Adilson levara umas pancadas do imenso Denílson, o Rei Zulu, num jogo perdido para o Fluminense. Apanhara e não revidara. Adilson estava em sua beliche em São Januário e Almir invadiu a concentração, transtornado. Partiu para o irmão e aplicou-lhe uma
surra: “Pra você aprender a ser homem e não apanhar na rua, como nosso pai sempre ensinou em Recife. E quem encostar para me impedir apanha também”. Estava presente o hercúleo miolo de zaga cuzmaltino, formado por Brito e Fontana, que batiam até no vento mas nem se mexeram.


Almir Pernambuquinho, naquele 1966, provocou a maior briga da história do Maracanã. O Flamengo perdia do Bangu por 3×0 e dava adeus ao título carioca. Almir jurou que os campeões não dariam a volta olímpica e provocou o atacante Ladeira. O pau cantou, ele bateu em muitos, apanhou e cumpriu sua promessa.

Três anos antes, Almir substituiu Pelé com a 10 do Santos. Na finalíssima do Mundial Interclubes contra o Milan no Maracanã. Resolveu provocar Amarildo, estrela do time Rossonero e que havia tomado a sua vaga na Copa de 1962. Entrou com crueldade no tornozelo do Possesso, também conhecido pela coragem. Amarildo levou a pancada e não reagiu. “Seu covarde, vou bater na sua cara, traidor do Brasil!”.

Desta vez a experiência do volante Zito conteve Almir, porque se fosse expulso, o Santos provavelmente,  não comemoraria o Campeonato Mundial. Almir foi barrado da Taça do Atlântico de 1960. Seria titular da seleção brasileira. Proibido pelos organizadores de participar da competição por ser considerado um jogador “anti-social”.

Ele e o uruguaio Martinez que haviam trocado sopapos num jogo do Sul-Americano de 1959 que virou praça de guerra. Já em 1958 Almir, então no Vasco, teria vaga na reserva de Pelé. Perdeu o lugar para o ótimo e equilibrado Dida, do Flamengo.

Almir não tinha valentia de fanfarra. Seu temperamento suicida o levou a contar detalhes do submundo do futebol à Revista Placar em 1973. Almir admitiu jogar dopado, denunciou resultados manipulados, colegas venais. Antes de concluída a série de reportagens, uma bala disparada pelo português Artur Garcia atingiu seu crânio.

Almir morreu aos 35 anos, corpo estendido na grande área do Bar Rio-Jerez em Copacabana. Almir quebrou seu script e resolveu defender artistas gays provocados pelo português na barra- pesadíssima da Galeria Alasca. Regra contrariada, Almir foi defender o Grupo Dzi-Croquetes. Uma bala e não levantou mais.


Edmundo foi um atacante sensacional. Impetuoso, driblador, goleador. Nunca jogou bem pela seleção brasileira. Fracassou na Copa de 1998. Edmundo foi dispensado do Botafogo ainda juvenil. Costumava exibir-se nu para meninas de um colégio próximo à concentração. O Vasco descobriu seu talento e na primeira partida, uma preliminar no Maracanã, vingou-se fintando meio time do ex-clube e fazendo um gol que o público aplaudiu de pé.

Imediatamente integrado aos profissionais, arrancou felino à fama. Do Vasco ao Palmeiras, o Verdão quebrou o jejum de 17 anos sem títulos sob o comando explosivo do Animal, batizado à perfeição pelo narrador Osmar Santos.

No Palmeiras, Edmundo agrediu um cinegrafista e foi preso no Equador. Agentes diplomáticos foram acionados para soltá-lo do hotel que foi seu cárcere. Saiu para o Flamengo, onde a notoriedade saltou do gramado para as páginas policiais, com o acidente de automóvel com mortes em 1995.


Edmundo passou por Santos, Corinthians, Cruzeiro, novamente Palmeiras, Figueirense, brilhou mesmo no Vasco, sua casa e seu casulo. Pelo Vasco, chamou de “Paraíba” o juiz cearense Dacildo Mourão, quando foi anulado pelo América em Natal no Brasileirão de  1997, seu clímax.

Edmundo e Almir Pernambuquinho formam um só personagem de habilidade e ebulição incessantes. Edmundo e Almir Pernambuquinho provam que o futebol também escreve, por linhas de desgraça, epílogos  de homens de pés encantados.

ALMIR PERNAMBUQUINHO

por André Felipe de Lima


Poucos jogadores da história do futebol brasileiro renderam tantas crônicas quanto Almir Moraes de Albuquerque, ou simplesmente “Almir Pernambuquinho”. Heleno de Freitas [ex-Botafogo e Vasco] talvez rivalize com ele em polêmicas dentro e fora dos gramados, mas Almir teve um percurso incomum a ponto de promover um cisma na crônica esportiva. De um lado, como fã de sua alma digna de uma tragédia grega, Nelson Rodrigues o definia como “o divino delinquente”. Armando Nogueira, outro expoente do jornalismo, não media o verbo em relação ao ex-centroavante do Sport, Vasco e Santos. “Almir”, escreveu Nogueira, “era um caso de polícia”. O cronista chegou ao extremo de exigir em sua coluna de imprensa a prisão ou internação do atleta.

Almir era assim… Deus e o diabo encarnados em um só homem.

Restava aos adversários que se preparassem antes de enfrentá-lo, pois lá estava um guerreiro enfurecido a espera deles. Pobres daqueles que o marcavam com pontapés. O troco não saía barato. E os cartolas não ficaram fora da lista de desafetos do Pernambuquinho. Calotes e safadezas eram respondidos com furiosos desabafos.

Impulsivo. Agressivo. Era “pau puro”, como o próprio dizia. No Flamengo, a torcida o apelidou de “Almir-Raça”. Não era para menos. Um Almir tal e qual a um anjo pornográfico, como escreveu Nelson Rodrigues, seu “advogado” mais eloquente, em edição da Manchete Esportiva de 7 de março de 1959, na qual definia Almir como o “Pelé branco”: “Em tudo que se diz sobre Almir, já é difícil discriminar o que é verdade e o que é folclore. Por exemplo: — contam que Almir xinga os adversários. Então pergunto: — será o primeiro? Não me parece. O futebol jamais foi mudo, jamais exigiu do craque um silêncio de Sarcófago. Direi mais, se me permitem: — o futebol é o mais falado e o mais pornográfico dos esportes. Durante os noventa minutos, tanto os craques em campo como o torcedor nas arquibancadas rugem os palavrões mais resplandecentes do idioma. Dir-se-ia que tanto o público como o craque têm, no berro pornográfico, um estímulo vital, precioso e irresistível. E se o meu personagem xinga os adversários, não faz outra coisa senão insistir num hábito que data dos nautas camonianos.”

Ódio, amor, paixão, respeito, revolta, indiferença, companheirismo e por aí vai. Tudo da alma humana cabia quando fosse Almir a pauta. Uns o desejavam, outros o repeliam.

Prestes a chegar ao Flamengo, muitos não o queriam, mas o diretor Flávio Soares de Moura, confiando piamente na “alma” de Almir, arriscou sua própria reputação: “Eu comprei você e seu barulho, Almir. Por tudo o que você fizer vão botar a culpa em mim. Mas eu topo a parada”. Flávio, que se tornou grande amigo de Almir, nunca se arrependeu, nem mesmo após a pancadaria na final do Campeonato Carioca de 1966, contra o Bangu.

Mas houve outro jogo contra o Alvirrubro suburbano, realizado no dia 30 de outubro de 1966, em que a virilidade de Almir escoou de forma positiva. Para o gol adversário, com tudo o que tinha de direito. Inclusive lama, suor e lágrimas.

O público presente nem era tão grande. Mas os 34 mil que estiveram no Maracanã presenciaram aquele que talvez tenha sido o gol mais incrível da história do estádio. E foi de Almir, como o próprio descreveu: “Esse gol foi o mais espetacular que fiz em toda a minha carreira e mereceu até a capa dupla de um jornal francês, o ‘France Football’; foi um gol que fiz arrastando a cara na lama, me arranhando todo, num dia chuvoso no Maracanã […] A coisa começou com a cobrança de uma falta pelo nosso lateral direito, Murilo, na altura da intermediária do Bangu, quando o jogo estava 1 a 1 e devia faltar uns dez minutos para acabar. Não me lembro se quem cabeceou primeiro foi Silva ou se fui eu mesmo, mas o fato é que, após o lançamento, um de nós dois cabeceou e o goleiro Ubirajara rebateu. Acho que fui eu mesmo, porque sei que estava caído quando via bola a mais ou menos meio metro de distância e o goleiro Ubirajara, também caído, a se esticar todo para tentar agarrá-la. […] ‘ Tenho que alcançar essa bola de qualquer maneira, nem que me estraçalhe todo aqui’, pensei. […] À proporção que eu sentia a mão de Ubirajara mais perto, crescia a minha determinação. O chão se tornava mais áspero, rompia a minha carne; mas eu não podia desistir, tinha que alcançar a bola, tinha de ser mais eu. […] Com os olhos empapados de lama, a pele toda cortada pelo atrito com a terra, nem pude ver a bola ir para as redes […] a torcida do Flamengo rugiu no estádio com o grito de gol, meus companheiros de time caíram sobre mim a me abraçar e me beijar. […] Até hoje Ubirajara jura que eu só levei vantagem sobre ele porque teria tocado a bola com a mão e não com a cabeça. É desculpa de mau perdedor […] Se tivesse feito com a mão e o juiz tivesse validado o gol, eu confessaria francamente, até mesmo para gozar o Bira. Mas não houve nada disso do que ele alega: fiz aquele gol com a cabeça e o coração.”

Chovia muito naquele dia e o cronômetro já marcava 40 minutos do segundo tempo, quando Almir atirou-se de peixinho na pequena área e cabeceou com força. Caído no chão, arrastava o rosto no gramado enlameado, empurrando a bola para dentro do gol. “Almir não queria saber se o zagueiro Mario Tito, que estava chegando, iria chutar sua cabeça, com bola e tudo — só o gol lhe interessava. A foto desse gol foi parar na capa do jornal France Football”, escreveu Ruy Castro.

Almir não temperou os gramados apenas com brigas, foi, sobretudo, um vencedor. Por onde passou, conquistou títulos. Com o Vasco, um Carioca e o Rio-São Paulo, ambos em 58, pelo Santos, o bi da Taça Brasil [1963 e 64], o Paulista de 64, a Taça Libertadores da América e o Mundial Interclubes, ambos em 63.

Almir nunca se incomodou com o que publicavam ou falavam dele fora dos campos de futebol. Tinha uma contumaz dificuldade em ser comandado. Peitou técnicos “gente-boa”, como Armando Renganeschi, de quem gostava muito, e “casca-grossa”, como Yustrich. Travou diálogos nosense, alguns deles publicados pela revista Placar e em sua auto-biografia:

“— Você está bebendo, Almir? Não acha que isso pode te prejudicar no jogo de amanhã?

“Eu percebi que ele tinha chegado como amigo, fui franco:

— Olha, seu Renga, uma cervejinha me faz muito bem. Eu sinto que vou render mais quando posso tomar minha cervejinha à vontade, sem precisar esconder nada.”

Restou a Renganeschi achar graça da conversa e dar um tapinha nas costas de Almir. Já com Yustrich, um “alemão” que também gostava de bate-boca, Almir não deixou barato e sua personalidade forte intimidou o treinador.

“Nesta época eu já morava em Copacabana [na rua Leopoldo Miguez], com Belini [o dono do apartamento], Delém, Écio, Orlando. Durante a preleção, Yustrich se dirigiu a cada um dos jogadores, ora dando conselhos, ora ditando normas de comportamento. Quando chegou a minha vez, ele engrossou:

— Olha, Almir, você escolhe ou o Vasco ou Copacabana.

“Eu já estava invocado com aquela história de ele nos ter proibido de comer e beber, respondi na bucha, sem vacilar:


— Olha, seu Yustrich, já escolhi desde agora. O Vasco pra mim não existe, eu escolhi Copacabana”.

Ele era assim, duro na queda. Dizem, na malandragem carioca [a “das antigas”], que gente assim “canta pra subir” mais cedo. A velha máxima popular foi infalível para Almir, ou há melhor definição que o título da reportagem de O Estado de S.Paulo “Um tiro no bar, e Almir não briga mais”?

Morreu assassinado poucos anos após deixar os gramados, em uma briga no bar Rio-Jerez, na Galeria Alaska, em Copacabana, na madrugada do dia 6 de fevereiro de 1973, após um bate-boca [o definitivo] com o português Artur Garcia Soares. O tiro atingiu a cabeça de Pernambuquinho.

Hoje, igualmente ao contemporâneo Garrincha, o irascível craque faria anos. Faria 80 anos.

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A MAIS COMPLETA REPORTAGEM SOBRE ALMIR/ APRESENTAÇÃO HELVÍDIO MATTOS
PARTE 1/ https://www.youtube.com/watch?v=1nQL_71mC00
PARTE 2/ https://www.youtube.com/watch?v=sb6ijpJ4g9g
PARTE 3/ https://www.youtube.com/watch?v=qaQNC7eXaVo
PARTE 4/ https://www.youtube.com/watch?v=TaDlTOYh0-o
PARTE 5/ https://www.youtube.com/watch?v=cBz47DRKqmo

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A biografia completa do Almir Pernambuquinho consta do I volume (a Letra “A”) de “Ídolos – Dicionário dos craques do futebol brasileiro, de 1900 aos nossos dias”, com lançamento em dezembro. A enciclopédia, que consiste em 18 volumes, está sob a edição do querido Cesar Oliveira.

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Ignoram Almir

por Lucio Branco


Almir Pernambuquinho e Pelé

Almir Pernambuquinho e Pelé

O Brasil segue firme na tradição de recolher as suas melhores biografias ao quarto dos fundos e expor as piores sobre a mesa da sala. Se não as piores, aquelas que são reinventadas em nome de conveniências econômicas, políticas, ideológicas etc dominantes. A História é um livro escrito por quem tem mais tinta.

Nossas autoridades militares estão aí para ilustrar o tema. Seja batizando ruas, palácios e quartéis, ou manchando livros escolares, lá estão elas projetadas na memória coletiva da nação, montadas a cavalo, espadas em riste, comandando genocídios e outros hábitos do métier. Haver tantas estátuas ostentando a mesma pose heroica pelas cidades desmente o ditado de que “a praça é do povo”. A desmilitarização dos espaços públicos da nossa geografia urbana é bem mais que uma proposta de maquiagem terminológica, é uma urgência. Cumprir com isso seria um grande adianto em termos de justiça histórica.

Não se trata de uma tendência exclusivamente brasileira, é claro, mas essa vocação para louvar escroques (fardados ou não) poderia ser apontada como um traço adquirido muito nativo. Nosso “processo civilizatório” é tão opressivo que arraigou o exercício do mando como um dado que parece ter se integrado perfeitamente à “natureza” da nossa organização social. Ordem, disciplina e hierarquia, na sua inclinação mais verticalizada, estão sempre na ordem do dia por aqui. Alguma surpresa? Na contabilidade dos séculos, ainda somos mais colônia do que país independente. A tradicional relação entre muito poucos opressores e tantos outros oprimidos nos impôs o hábito de ver a vida por um ângulo deturpado. Talvez não seja exagero considerar que a história do Brasil é, em grande medida, a história do seu autoritarismo.

O conceito de “melhor” e “pior” da frase de abertura vai além do quesito moral. Refiro-me também ao aspecto dramático das biografias impostas e abraçadas pelo senso comum. Quanto à moral, só é aconselhável peneirar bem para ver quem sobra desde que Cabral aportou nas areias da Coroa Vermelha. Desde lá, os grupos indígenas sobreviventes tentaram indicar o caminho de como resistir a todas as invasões que vieram em sequência. Infelizmente, não houve muito sucesso ao longo desse processo interminável: aquela celebrada a todo 22 de abril dos últimos 515 anos foi só a primeira.

Esta introdução é necessária porque o personagem que intitula a crônica é de uma dimensão ainda não alcançada pelo seu próprio país de origem. Daí o seu relativo ostracismo. Nele, ao contrário do que se consagrou, as virtudes não eram poucas. A principal talvez seja a bravura, em geral, tão suspeitamente atribuída às tais estátuas e seus feitos bélicos. Estamos falando de Almir Morais Albuquerque, o Pernambuquinho, surgido no cenário nacional em 1957.

Não é novidade que o imaginário da nossa elite projeta nos anos JK a memória de um país que viveu o seu apogeu. A versão histórica oficial sustenta que uma onda de otimismo varria o país a partir do Rio de Janeiro nos seus últimos anos como capital da República. Epicentro de movimentos como a bossa nova e o cinema novo, a Guanabara contribuiria também para a idealização do período ao concentrar parte considerável da geração de jogadores mais brilhantes que o futebol brasileiro já conheceu. Não foi à toa que fomos campeões mundiais pela primeira vez, na Suécia, em 1958. (Está para ser melhor problematizado o atribuído “pacto democrático” que teria gerado tanto entusiasmo na rememoração daquela época, afinal, a sua ventilação é bem mais suposta que real: Nelson Rodrigues, por exemplo, tinha que apelar formalmente para não ter suas peças interditadas sob o governo que apoiava.)

Como uma nota destoante da era de ouro do futebol nacional (não pela sua qualidade técnica), temos a figura ambígua, sempre matizada de luz e sombra de Almir, o hábil ponta de lança que migrou do juvenil do Sport diretamente para o profissional do Vasco da Gama aos 19 anos. Com o seu repertório genial de dribles e arrancadas, ele também recorria a um outro, no qual não faltavam violência (física ou verbal), catimba, doping etc. Apenas ele? Essas práticas, apesar do maior controle atual, ainda são recorrentes. Almir foi um dos precursores (e, de longe, o mais contundente) na denúncia da venalidade da cartolagem, das confederações e da grande imprensa esportiva. O que sucedia no campo tinha origem, em alto grau, fora dele. É uma regra desde sempre no profissionalismo. A diferença é que ele interiorizava essa faceta mais sombria do seu meio numa entrega suicida que mais nenhum outro jogador ousou, antes ou depois. A ponto de converter isso no seu estilo de jogo. Cheio de nuances, o Pernambuquinho. Muito mais complexo que o estigma que lhe pregaram no nome.

Sobre ele há, impresso, Eu e o futebol, biografia originalmente publicada em capítulos pela Revista Placar do final de 1972 até o início de 1973. É o relato em primeira pessoa transcrito pelos jornalistas Fausto Neto e Mauricio Azedo que acabaram se vendo obrigados antes da hora a incluir, subitamente e quase em primeira mão, o seu ponto final: – não havia sido encerrada a publicação quando ele foi assassinado numa briga de bar em Copacabana. O motivo? A se confiar no testemunho de elevado teor etílico de Mario Prata, ocasionalmente presente à cena do crime, o ex-jogador tentava defender alguns membros do grupo Dzi Croquetes de uma agressão homofóbica. Essa versão casa com o que sempre esperavam dele os mais próximos: a valentia de Almir era motivada pela defesa daqueles que julgava em desvantagem, conhecidos ou não. Muito frequentemente, era provocado a promover o seu particular senso de justiça metendo a mão em oponentes sem avaliar estatura ou quantidade numérica. Um anti-herói trágico em estado permanente de catarse, digamos assim.

“Eu fui um marginal do futebol”, a confissão que abre as suas memórias, tem implicações que escapam ao moralismo de plantão da nossa crônica esportiva. Sua figura rompe com o lirismo vazio da mesma lógica cultural que insiste em reduzir a infinita humanidade de Garrincha a uma caricatura de bobo da corte.

A questão que me motivou a escrever estas linhas é a seguinte…

Almir é quase que totalmente ausente das telas de cinema. Causa angústia que uma persona tão imensa não tenha sido objeto da devida atenção da Sétima Arte. O fundamental Passe livre, de Oswaldo Caldeira, poderia ser citado por abordar, ao longo de alguns minutos, a trajetória do jogador. Mas aí já não vale tanto, afinal, o documentário, lançado em 1974, é sobre o craque Afonsinho, quando ainda atuava profissionalmente e lutava contra os dirigentes que procuravam sabotá-lo por ser ele dono do próprio passe. Almir comparece ali encarnando uma outra linhagem de jogador rebelde que também veio a enfrentar dificuldades na carreira. E, claro, o fato de ter morrido durante as filmagens acabou colaborado como o pretexto (que diria, necessário) para a sua aparição em cena.

A confirmar que o audiovisual não o ignorou completamente, houve um desses “Casos Especiais” no início dos 1980 sobre um personagem inspirado nele que não deu em muita coisa além de um processo movido pela família do jogador por uso indevido da sua imagem – mesmo que por sugestão – contra a emissora de TV que o exibiu. Quem assistiu garante que a associação era direta demais na caracterização do protagonista e na reconstituição dos episódios da sua vida.

De resto – se isso conta –, há um roteiro incompleto sobre ele escrito a quatro mãos por mim e meu irmão (que também assina o argumento). Incompleto porque a falta de horizonte acabou tomando conta da paisagem. As perspectivas nulas de uma produção mínima que viabilizasse o projeto comprometeram o nosso ânimo. Mas um dia o retomamos.

Por um tempo imaginei que uma coprodução anglo-brasileira poderia dar vida à cinebiografia do Pernambuquinho com um suposto atestado de maior conhecimento de causa. A Inglaterra, berço do não de graça intitulado “violento esporte bretão”, conta com uma torcida que cultiva abertamente o apreço pela violência campal. Não é exagero, é só uma questão cultural. Certa vez, num pub em Los Angeles, um amigo brasileiro pôde testemunhar as reações da colônia britânica local diante da transmissão de um jogo da Copa de 1998. Os gols que deram a vitória ao escrete da Rainha renderam bem menos brados e brindes que uma solada, em pleno ar, num rosto adversário. Mas tive que reavaliar a ideia. Se, entre nós, a desmemória é a constante, a dos europeus é, de um modo geral, o menosprezo pelo Terceiro Mundo. O mercado cinematográfico internacional reflete isso claramente. Mesmo com relação a uma potência como o futebol brasileiro que, apesar do 7 x 1, ainda é, pelo critério da contagem de títulos mundiais e de craques, mais “desenvolvido” que o das seleções do Velho Mundo. Quem o diz é a isenta perspectiva histórica, não eu.

Touro indomável, obra-prima de Martin Scorcese, narra a ascensão e a queda de Jake LaMotta, peso médio colecionador de títulos e problemas pessoais. Ao longo da vida profissional e particular, Almir também conheceu ascensões e quedas. E não foram poucas. Entrar e sair delas era a sua rotina. Sem ufanismo, considero que o craque brasileiro é, do ponto de vista dramático, e mesmo da ação esportiva, de maior apelo e interesse que o campeão norte-americano dos ringues. Almir transcende o realismo rasteiro com que costumam ser abordadas os maiores nomes do nosso futebol. Tanto pelo senso comum como pela nossa tradição cinebiográfica dentro do tema.

Entre tantos lances em campo protagonizados por seu destemor, há um que resume tudo. E é puro cinema…


O pênalti cavado por Almir e convertido por Dalmo é um momento ainda não reproduzido à altura pela verve humana

O pênalti cavado por Almir e convertido por Dalmo é um momento ainda não reproduzido à altura pela verve humana

Quem nunca jogou, mas pelo menos já assistiu a uma partida, conclui fácil que um dos chutes mais violentos é aquele cuja maior frequência é na “zona do agrião”, como cunhou Saldanha. Onde, sem pudor, o defensor desfere o bico para despachar a bola para o mais longe possível, afastando o perigo. Pelo Santos, trajando a mítica camisa 10 de um Pelé sem condições de jogo, Almir não hesitou em pôr à prova a sua integridade física, ou mesmo a própria vida, num gesto que foi o mais sublime holocausto. Algo impensável num jogador profissional. Em nome da vitória a qualquer custo na decisão que valeria o bicampeonato mundial interclubes contra o Milan, em 1963, ele decidiu interceptar, com a própria cabeça, o percurso percorrido entre a chuteira do zagueiro Maldini e a bola para garantir que a taça fosse em definitivo para a Vila Belmiro. Foi assim que um Maracanã lotado testemunhou a maior conquista do clube paulista em sua fase áurea. O pênalti cavado por Almir e convertido por Dalmo é um momento ainda não reproduzido à altura pela verve humana – apesar do flagrante fotográfico que ilustra este texto ser brilhante e bem mais eloquente do que qualquer frase dele. Mas não falo só de estética, o que já seria muito. Falo mesmo da impossibilidade de um gesto similar a esse se repetir em campo. É uma questão de verve também, não só de bravura.

Almir, o Pernambuquinho, é da estirpe dos que souberam como resistir ao referido “processo civilizatório” inaugurado pelo navegador comandante e a sua lusa gangue. O seu senso de sacrifício, sem pretensões messiânicas ou exemplares, nunca poderia ter sido negligenciado. Proponho uma campanha de reabilitação do seu nome, da sua imagem e da sua memória. Poderíamos lançá-la em conjunto com aquela outra, a da desmilitarização dos espaços públicos do país. Mil vezes mais o anti-heroísmo de Almir que o heroísmo de vitrine de um Duque de Caxias. Dar valor a quem tem valor de verdade é uma iniciativa igualmente valorosa.

Fica aqui a sugestão.

PS: O youtube retirou do ar o vídeo do primeiro tempo, na íntegra, da primeira partida decisiva entre Santos X Milan. Mas este aí já dá uma ideia do que o Almir fez naquelas duas noites de 1963. Os trompaços que ele aplica em Amarildo com menos de um minuto de jogo para vingar Pelé também pertencem ao Mito. (No vídeo, a saída de bola é aos 04:35.) Repito: Almir fez da vida real puro cinema.