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Alexandre Sá

EU, MAJOR E A BOLA

por Alexandre Sá


“JANTA ELE!!”.

Na pelada, final de semana, algumas vezes descalço, outras calçado com o tênis ou com o Ki-Chute velho, que não ia mais à escola ou aos passeios.

Uma rua no bairro carioca de Higienopólis, com uma molecada pra lá de esperta.

Na parte mais baixa da rua, sim, era uma descida, o pau comia.

Quem atacasse subindo que corresse mais.

Eu sempre tive mais força física que habilidade, fato que sempre me fez ter certas reservas contra baixinhos habilidosos.

Na pelada, jogavam juntos filhos, pais e irmãos mais velhos. Sendo que as duas últimas faixas etárias nunca aliviavam a primeira.

Pelo contrário.

Na equação força x habilidade eu tinha que lançar mão da primeira, que me era mais acessível.

E a pelada na rua muitas vezes nos levava ao famigerado “time contra”.

Um amistoso contra as ruas vizinhas, que de amistoso só tinha o nome.

E a peleja se desenrolava no campo de terra da rua Além Paraíba.

Sangue, areia e glória.

A nobre tarefa de guarnecer a defesa, logicamente, era designada ao moleque mais alto.

E nestas ocasiões, quando o ataque adversário rondava perigosamente a nossa área, eu ouvia o conselho:

“JANTA ELE!!!”

Devo confessar que muitas vezes me empolgava e me lembrava da frase de São Moisés:

“Zagueiro que se preza não ganha o Belford Duarte.”

O célebre e valoroso conselho do “JANTA ELE!!!” era dado pelo Major, figura conhecida no bairro e meio que pai emprestado da molecada.

Mineiro que se mudou para o Rio de Janeiro no início dos anos 60, se habituou a ir ao Velho Maraca para ver Garrincha jogar, acompanhado de Nilton Santos, Didi, Zagallo, Quarentinha…

Acabou se tornando botafoguense honorário, afinal a camisa era igual e também era fácil se apaixonar por aquele time

Sendo assim, não podia ser diferente, e seu filho mais velho é botafoguense nato.

Bom de bola, igual ao pai.

O filho mais novo, com certeza, não herdou esse talento, mas, por caminho natural e coação, se tornou um alvinegro apaixonado.

Cresci com o Major me contando as histórias de Heleno de Freitas, Garrincha, Didi, Zagallo, Nilton Santos, Amarildo, Manga, Gérson, Jairzinho, PC Caju, Marinho e tantos outros craques lendários.

E nas peladas, além de ouvir o “JANTA ELE!!”, aprendi a cair e levantar, a superar a dor dos ferimentos, a não chorar (pelo menos tentar), e a dividir com os amigos as alegrias e tristezas da bola e da vida.

Este amor pelo futebol uniu aquela molecada e me uniu ao Major.

Já marmanjo, era de lei o futebol pela TV nas noites de quarta-feira.

Do qual eu sinto falta hoje em dia.

Quem me dera sentar de novo naquele sofá, ao lado do Major, e assistir um Botafogo x Bonsucesso.

Hoje eu conto aos meus filhos (alvinegros, lógico) as mesmas histórias e ensino as mesmas lições.

E espero o dia, depois dos meus moleques estarem criados, em que vai ter pelada no Céu.

E eu vou ouvir de novo o conselho:

“JANTA ELE!!!”

Saudades do Major.

Saudades do meu pai.