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O HERÓI IMAGINÁRIO

23 / junho / 2020

:::::::: por Paulo Cezar Caju ::::::::


(Foto: Marcelo Tabach)

Vi Pelé jogar, Garrincha, Cruyff, Maradona e é fácil se fascinar por esses personagens quando somos testemunhas de suas obras-primas. Ninguém te contou, você viu, jogou contra ou a favor, ou assistiu pela tevê ou da arquibancada. Mas o que me encanta de verdade é quando os ídolos são construídos em nossos imaginários baseados em relatos e leituras.  Evaristo de Macedo, o aniversariante de ontem, foi um desses.

Nunca vi Evaristo jogar, mas as histórias sobre ele eram fantásticas. Marinho, meu pai, sempre falava com amigos sobre seus feitos e de quando iniciou a carreira no Madureira. Sob o comando do paraguaio Fleitas Solich, o Flamengo foi tricampeão carioca, 53/54/55, e o nome de Evaristo era o mais comentado nas rodas: “Imaginem esse homem junto de Pelé”. Evaristo fez 103 gols em 190 jogos pelo Flamengo. É gol pra chuchu!!! Realmente seria mágico ver Pelé e Evaristo juntos, mas o Barcelona desfez esse sonho e o contratou.

Na seleção, não jogou muitas vezes e mesmo assim ostenta um recorde: é o único jogador a marcar cinco gols com a camisa da seleção brasileira, em 1957, Brasil 9 x 0 Colômbia. Ver Evaristo e o Rei juntos, na Copa de 58, seria mágico, mas o clube espanhol não o liberou. Também pudera, Evaristo fez chover na Espanha! Conseguiu ser ídolo de Barcelona e Real Madrid, rivais históricos. Pelo Barça, ganhou dois espanhóis e duas Copas da UEFA e está entre os três maiores artilheiros do Barcelona. Pelo Real, três espanhóis seguidos, 63/64/65.

Mas o destino é imprevisível e sabem em quais circunstâncias vi, pela primeira vez, meu “herói imaginário”? Aos 17 anos, em minha estreia como profissional, pelo Botafogo, no Maracanã, contra o América, decisão da Taça Guanabara, de 67. Meu técnico, Zagallo, o do América, Evaristo. Resultado final: Botafogo 3×2, três gols meus. E como imaginar que Zagallo me convocaria para a Copa de 70 e seríamos tricampeões mundiais? A partir desse jogo comecei a acompanhar a carreira de Evaristo como técnico. Por pouco, muito foi pouco, não foi o treinador da seleção brasileira, na Copa de 86. A imprensa paulista batia de frente com ele. Pelo que me lembro, exigiam a convocação de Sócrates e ele resistia. Entrou Telê. Quem garante que Evaristo não seria campeão? Nessa mesma Copa, Evaristo treinou a seleção do Iraque.

Mas foi campeão brasileiro pelo Bahia, em 88, e pelo Grêmio, na Copa do Brasil, em 97. É considerado o maior técnico da história do Santa Cruz, rodou o Brasil, o mundo, papou títulos por onde passou e é um dos grandes contadores de histórias do futebol. Em uma delas barrou Cláudio Adão, no Bahia, que ficou na bronca e prometeu forra. Tempo depois, em Ipanema, Evaristo olha para frente e vê Claudio Adão vindo em sua direção. Mudou de calçada rápido, afinal encarar Cláudio Adão não seria bom negócio, mas tudo terminou em boas gargalhadas.

Uma das grandes felicidades que o futebol me proporcionou foi a de conhecer pessoalmente um  “ herói imaginário” da minha infância, Evaristo de Macedo, uma lenda em carne, osso e um coração gigante. Mudando o assunto, assisti ao jogo do Real Madrid ontem e fui obrigado a ouvir o comentarista falando de “leitura de jogo”. Até quando? Futebol não se lê, se joga!

TAGS: PC Caju

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