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DURA E REPREENSÃO DE GARRINCHA EM PARINTINS

28 / maio / 2021

por Antonio Carlos Meninéa


Figura 1 Mané com camisa do Amazonas e bem acompanhado. Acervo José Brilhante

Figura 1 Mané com camisa do Amazonas e bem acompanhado. Acervo José Brilhante

Motivado pela matéria do Museu da Pelada, sobre Maria Cecília, filha de Garrincha, resolvi contar essa história da qual o “Anjo das Pernas Tortas” foi ator principal. Trata-se de uma curiosa história que consta no livro “Futebol Parintinense – do sucesso ao fracasso”, do jornalista José Brilhante.

Em 1973, mesmo aposentado e meio fora de forma, mas defendendo um troco, o “Anjo das Pernas Tortas” aceitou um convite para jogar na cidade de Parintins, Estado do Amazonas. Jogo entre os maiores rivais da cidade, Amazonas e Sul América. Um tempo em cada time. 

A atmosfera na cidade era festiva, euforia total. E não podia ser diferente, pois veriam Garrincha em carne e osso, bem diferente de vê-lo nos cinemas, jornais ou revistas. 

Uma multidão se acotovelava no cais do porto para receber o bicampeão mundial, monstro sagrado do Botafogo, Estrela Solitária. Ao chegar foi literalmente carregado no colo até o hotel. Um frenesi, catarse total nunca visto na cidade de Parintins.


Figura 2 Fabi em círculo e Garrincha agachado terceiro esquerda para direita - (acervo José Brilhante)

Figura 2 Fabi em círculo e Garrincha agachado terceiro esquerda para direita – (acervo José Brilhante)

Confesso, no entanto, que até eu estaria nesse transe se lá estivesse. Pois Garrincha não era humano, e sim, um ser espacial que todos queriam tocar, abraçar, fotografar, pegar autógrafo. Queriam ver se ele era de verdade.

Na tarde de sábado, 2 de junho de 1973, uma lenda, um Deus, adentra o estádio Tupy Catanhede. Gente saindo pelo ladrão, lembrando um pouco o saudoso Maracanã em dia de clássico, quando ficávamos espremidos entre um torcedor e outro, sem poder ir ao banheiro. Dessa festa histórica e mítica, dois fatos pitorescos ocorreram durante a partida e se eternizaram para sempre.

O primeiro foi nos 45 iniciais, quando Mané atuou pelo Amazonas. Francisco Batista, mais conhecido como “Fabi”, contava com apenas 16 anos de idade no dia desse jogo, e atuava pelo Amazonas, time que Garrincha jogou na primeira etapa.


Figura 3 Fabi nos dias atuais (acervo José Brilhante)

Figura 3 Fabi nos dias atuais (acervo José Brilhante)

Fabi relatou que levou uma dura, um esporro do Garrincha, devido ao fato dele tocar toda bola que recebia para o Mané.

–  Vem cá garoto! Ta querendo me queimar, é? Porque parece que você só está vendo eu em campo, só toca a bola pra mim!

–  Não quero te queimar. Estou fazendo isso, porque essa multidão que está na arquibancada veio ver o senhor fazer seus dribles – respondeu Fabi, um tanto quanto nervoso, pois, estava pertinho de um ídolo mundial. 

Após a bronca, o jovem ficou feliz da vida, pois apesar da dura que levou, ficou frente a frente com um dos maiores craques do futebol mundial, coisa que jamais sonhou que aconteceria em sua vida.

O outro ocorrido se deu no segundo tempo, e Mané já estava pelo Sul América. Nilo Gama, craque desse time, participou de algumas jogadas com Mané. Quando o “Anjo das Pernas Torntas” tocava de calcanhar, Nilo Gama, rapidamente jogava por cima de seu marcador indo concluir a jogada lá na frente. Foi quando Garrincha se aproximou e perguntou:


Figura 4 Time Sul América - (acervo José Brilhante)

Figura 4 Time Sul América – (acervo José Brilhante)

– Baixinho, onde você aprendeu essa jogada?

– Meu treinador foi no Rio de janeiro e viu a tua jogada com Djalma Santos e me ensinou.


Figura 5 Nilo Gama dias atuais (acervo José Brilhante)

Figura 5 Nilo Gama dias atuais (acervo José Brilhante)

–  Olha, teve só um lateral que fazia essa jogada que é o Djalma. 

A conversa encerrou, Nilo Gama, nunca soube se aquilo foi uma espécie de elogio ou repreensão, mas também se sentiu honrado por esse episódio.  

Enquanto permaneceu na cidade de Parintins, Garrincha foi homenageado e frequentou muitas festinhas se refrescando à beira do Rio.

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