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CARVALHO LEITE OU O ‘GAROTO’ QUE PRECISA REENCONTRAR O ‘VELHO’

27 / maio / 2021

por André Felipe de Lima

No dia 26 de maio de 1912 nasceu Carvalho Leite, o maior ídolo do Botafogo antes do surgimento de Heleno, Garrincha e Nilton Santos. Hoje, muitos jovens ignoram a importância histórica deste grande jogador de um passado longínquo. Mas sempre há tempo para conhecermos um pouco mais sobre nossos ídolos. Com vocês, Carvalho Leite!

por André Felipe de Lima


No calçadão de Copacabana, um senhor caminha sob um sol abrasador. Nada o incomoda. Gosta da imensa luz clareando a manhã dos cariocas. Nenhuma nuvem no céu. Sente-se revigorado. A imagem daquela gente jovem e aparentemente feliz faz-lhe bem. Outrora [e bote outrora nisso!], cariocas o idolatravam. Mas aqueles ali, diante do velho, eram jovens e felizes, que corriam de um lado para o outro, infatigavelmente. Interessar-lhes-ia o passado? Decerto, não. Sequer imaginariam, caso parassem ao menos para uma água de coco e uma conversa fiada, de que o ancião um dia brilhou mais que aquele sol torrando meninas e meninos. Pelo menos para os botafoguenses, imagine-se assim.

Tempos de correria, de pressa que impede a memória. Outros tempos. Indecifráveis tempos.

O senhor já estava acostumado com o desdém dos jovens, ou “invisibilidade social”, como definem os sociólogos de plantão hoje em dia. Decidiu seguir a maré juvenil e também correr, ou melhor, andar mais célere. Mas, ao se deparar com um grupo de crianças rolando uma bola na areia, não se conteve e decidiu espiá-lo. Sim. Espiar as crianças, mas, sobretudo, a bola com que brincavam. Um dos meninos chutou-a, e ela parou diante dos pés do velho. Pés que guardam uma das páginas mais bonitas da história do futebol carioca. Da história do Botafogo. Páginas que, talvez, somente aquele velho poderia descrever ao menino da praia. Mas o menino da praia pegou a bola e apenas agradeceu. Um rápido e quase ininteligível “obrigado, tio”. Nada mais que isso. E o velho, intimidado com a espontânea velocidade do garoto, apenas balbuciou um pausado “de nada, filho…” e perdeu a oportunidade de transferir àquele menino a sua história. Os gols e os títulos de… Carvalho Leite. A vida do maior ídolo botafoguense antes do surgimento de um Heleno de Freitas, de um Garrincha ou de um Nilton Santos.


Bem que a crônica poderia ser verídica. Afinal, Carvalho Leite morou muitos anos em Copacabana, inclusive nos últimos de sua longeva vida. Mas não seria fantasioso escrever este texto para apontar a importância de que a memória do ex-centroavante, tão mitológico quanto Heleno de Freitas, Garrincha ou Nilton Santos, precisa ser narrada à jovem guarda alvinegra. Afinal, em nossas vidas, é fundamental que o “garoto” sempre reencontre o “velho”.

Carvalho Leite, infelizmente, não está mais aqui. Morreu no dia 19 de maio de 2004, aos 92 anos. Desde 1995 vivia sem sua querida Lígia Costa de Carvalho Leite, que partiu antes dele. O grande centroavante botafoguense foi o último membro da equipe brasileira da Copa de 1930 a morrer. Em seu enterro, no cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, alguns familiares e poucas coroas de flores. Alguma enviada pela Confederação Brasileira de Futebol [CBF]? Não.

Carlos Antônio Dobbert de Carvalho Leite, seu nome de batismo, era tão importante para o Botafogo que, até aparecer Quarentinha quase trinta anos depois, manteve-se como o maior artilheiro da história alvinegra ao assinalar 275 gols, em 325 jogos. Dos 18 títulos cariocas conquistados pelo Botafogo, até 2006, cinco contaram com os gols de Carvalho Leite. Gols decisivos que construíram um Glorioso tetracampeão do campeonato carioca, em 1932, 33, 34 e 35. Um período em que dividia o carinho da torcida com Martim Silveira, Nilo Murtinho Braga e Benedicto Menezes. Mas Carvalho era especial. Raça incomparável. Ídolo maior. Se existia alma para o Botafogo, essa era Carvalho Leite. E quem disse que Heleno de Freitas foi o primeiro galã alvinegro? Anos antes de o gênio genioso encantar os gramados e as boates do Rio, a imprensa chamava o aristocrata Carvalho Leite de “o goleador elegantíssimo”, sobretudo por conta do affair com a ex-miss botafoguense e do Brasil, em 1939, Vânia Pinto, considerada a primeira modelo brasileira.


Aristocrata, sim, porque o bravo goleador nasceu em Petrópolis, terra do imperador, no dia 26 de maio de 1912 (outras fontes assinalam, porém, o dia 26 de junho), em uma família com muitas posses. Se o petropolitano encantou miss, encantaria até mesmo outro aristocrata, neste caso, o príncipe de Gales e futuro rei da Inglaterra, Eduardo VIII, que, ao assistir um jogo em sua homenagem, no Rio, deslumbrou-se com os cinco gols que Carvalho Leite marcou na vitória de seis a um dos cariocas contra os paulistas, no dia 6 de abril de 1931, no estádio das Laranjeiras.

Para Carvalho Leite, o futebol começou, contudo, não no Botafogo, mas sim na Liga Amadora do interior. Defendia o Metropolitano, de Petrópolis, quando, em 1929, levaram-no para o Botafogo. Ainda rapaz, foi um dos grandes goleadores do campeonato carioca do ano seguinte, com 14 gols, e ajudou ao Botafogo na conquista do certame, sendo o jogador que mais atuou [20 vezes] durante a campanha vitoriosa. Jogava tanta bola que o apelidaram de a “Maravilha da Serra”, em alusão à cidade serrana na qual iniciou a carreira.

O pai do jovem atacante mantinha um sanatório em Petrópolis, mas largou tudo para priorizar a divulgação da carreira do filho.


Não seria leviano apontar que o pai do então jovem craque foi uma espécie de precursor do assessor de imprensa de jogador de futebol. Ora, o Carvalho pai, invariavelmente, convocava a imprensa para coletivas e coquetéis em General Severiano. O jornalista Mario Filho testemunhou alguns deles: “Os jornalistas chegavam, o velho Carvalho Leite, de jaquetão preto, colete branco, calça fantasia, o pince-nez pendurado numa fita preta, que lhe envolvia o colarinho branco como uma comenda, levava-os para o bar, nem sombra de cocktail”.

O Carvalho pai sequer avisava ao Paulo Azeredo, cartola mor do Alvinegro, que, pego sempre de surpresa pelo inusitado evento, mandava buscar bebida no bar fora do clube para recepcionar os cronistas.

O Carvalho pai era figurinha fácil nas redações. Fazia pressão para que os jornais dessem destaque para Carlinhos. Esforço sempre muito bem recompensado. No dia seguinte ao lobby do seu Carvalho, as manchetes estampavam o centroavante, que, verdade seja dita, marcava gols em profusão e, por isso, merecia mesmo letras garrafais em primeiras páginas dos periódicos. Prova disso foi um jogo contra o Olaria, no dia 31 de julho de 1932, pelo Campeonato Carioca, realizado na rua General Severiano e que terminou sete a zero para o Alvinegro. Naquela tarde, Carvalho Leite marcou cinco vezes.

Foi um fenômeno, um jogador com um faro de gol impressionante. Um artilheiro nato, que respirava gol a todo o momento. Nenhum outro o superou nas artilharias dos campeonatos cariocas de 1936 [16 gols, pelo campeonato da Federação Metropolitana de Desportos], de 1938 [novamente 16] e de 1939 [22].

A dedicação — marca incondicional de seu caráter — fez com que se esmerasse em sua segunda carreira, a de médico pneumologista, na qual ingressou depois de, prematuramente, parar de jogar aos 29 anos por causa de uma lesão no joelho sofrida num jogo contra o Bonsucesso, em maio de 1941. Na medicina, atuou no clube por 50 anos. Dava cloreto de sódio aos jogadores para evitar a perda de água pelo organismo. Era correto e avesso a qualquer pirotecnia médica com os jogadores, ou seja, fazer os jogadores do Botafogo ingerir as detestáveis “bolinha”, nem pensar.


Chegou a treinar o Botafogo em algumas oportunidades. Em 1942, substituiu Ademar Pimenta; em 1950, assumiu o lugar de Paes Barreto. Permaneceu até 1951, quando deu lugar a Newton Cardoso, mas retornou no mesmo ano, ficando até 1952, quando foi substituído por Sílvio Pirillo [ex-craque do Internacional, do Flamengo e do Botafogo].

Na seleção brasileira, tinha apenas 18 anos, quando Ademar Pimenta o escalou no time titular que disputaria a Copa do Mundo de 1930, no Uruguai, barrando o badalado craque do Santos, Araken Patusca. Na Copa seguinte, na Itália, em 1934, novamente Carvalho Leite marcou presença. Ao longo de sua trajetória no escrete, disputou 15 jogos e marcou 25 gols. Um desempenho digno de um dos melhores atacantes que o futebol brasileiro já produziu. Um ídolo alvinegro inesquecível. Lendário. Somente Carvalho Leite e Nilton Santos foram os únicos a defenderem somente o Botafogo em toda a carreira profissional.

O “velho” e glorioso Carvalho Leite… que jovem e não menos glorioso botafoguense o esqueceria, afinal?

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1 Comentário

  1. Cláudio André Salum Faria

    Que bela história!

    Responder

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