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30 ANOS DE UMA COPA INJUSTIÇADA

1 / julho / 2020

por Mário Moreira


Nestes dias em que comemoramos o cinquentenário do tricampeonato mundial no México, na melhor Copa do Mundo da história, gostaria aqui de propor o resgate daquela que o senso comum aponta como a pior de todas as Copas – a de menor média de gols, paradigma do futebol de resultados, verdadeiro Patinho Feio da competição: Itália-90.

Mas, já sabemos, toda unanimidade é burra. Vítima da uma injustiça histórica, o Mundial italiano teve, sim, muitos momentos de ótimo futebol, drama, grandes surpresas e uma penca de partidas de antologia. O patinho, afinal, não é tão feio quanto o pintam.

A começar pela campeã. Não hesito em dizer que, na história da Copa Fifa – os 12 Mundiais realizados a partir de 1974, ano em que comecei a acompanhar futebol -, a Alemanha Ocidental de 1990 foi a equipe que melhor jogou, entre as que levantaram a taça. A seleção treinada pelo Kaiser Franz Beckenbauer era muito forte técnica e coletivamente, cheia de grandes jogadores e capaz de ser competitiva e dar show ao mesmo tempo. No papel, a mítica Alemanha de 74 era até melhor: Maier, Vogts, Breitner, Overath, Gerd Müller, além do próprio Kaiser… Mas os alemães jogaram em 90 mais do que em 74, quando saíram vaiados nos três primeiros jogos e só começaram a evoluir na metade da competição, até a indiscutível vitória final sobre o Carrossel Holandês. E nunca é demais lembrar: futebol se joga no campo, não no papel.

A verdade é que Matthäus, Brehme, Klinsmann e companhia deram espetáculo, e de alta qualidade, nos campos da Itália. Não por coincidência, a Alemanha pleiteou, como cabeça-de-chave, ficar no Grupo C para mandar seus jogos em Milão, onde o já citado trio desfilava sua categoria pela Internazionale, campeã italiana um ano antes. Pois foi ali, no estádio San Siro, nas três partidas da primeira fase e ainda nas oitavas e nas quartas-de-final, que os alemães jogaram de longe o melhor futebol do torneio, com exibições mais do que convincentes e que os levariam à semifinal em Turim e à finalíssima em Roma.

Como sempre, havia quatro ou cinco favoritos ao título. A Itália, pela tradição, pelo elenco e sobretudo por atuar em casa, talvez fosse a maior. Além da Alemanha, o Brasil – que vinha de conquistar a Copa América no ano anterior – e a Holanda de Gullit, Rijkaard e Van Basten, campeã europeia em 88, completavam o quarteto principal. A Argentina, então campeã mundial, mas com Diego Maradona fora de forma, corria por fora.

Das cinco, só a Alemanha justificou plenamente as previsões, com a Itália num distante segundo plano. À medida que o torneio avançava, poucos duvidavam que as duas fariam o confronto final. Mas os italianos, que tinham uma equipe forte, mas nem tanto, trataram de atirar por terra as previsões ao perderem nos pênaltis a semifinal para os argentinos.

A Alemanha, por sua vez, tratou de mostrar serviço. Logo de cara, goleou por 4 a 1 a boa seleção iugoslava, com uma atuação de gala do meia e capitão Lothar Matthäus, autor de dois golaços da entrada da área – o segundo, após uma arrancada irresistível desde o próprio campo. Estreia exuberante. O jogo seguinte, contra um rival fraco, serviu para confirmar a impressão inicial: 5 a 1 sobre os Emirados Árabes. Matthäus fez outro de fora da área.

Os alemães sofreram um tropeço no terceiro jogo, quando, já quase classificados, empataram em 1 a 1 com a Colômbia. Mas quem viu sabe que foi uma baita partida. Os colombianos precisavam do empate para se classificar e endureceram as coisas, à base de muita habilidade. Os gols saíram no final do segundo tempo: o rápido e driblador ponta Littbarski para a Alemanha aos 43 minutos, Rincón para a Colômbia nos acréscimos. Os alemães passaram em primeiro no grupo, já com pinta de grandes favoritos.


O confronto seguinte, contra a Holanda, ainda no San Siro, foi talvez o melhor jogo da Copa. Além da rivalidade histórica, a partida continha um antagonismo particular: os três maiores craques holandeses (Gullit, Van Basten e Rijkaard) atuavam pelo Milan, rival da Inter. Seria quase um clássico local. Seria também um repeteco da semifinal da Eurocopa de 88, quando a Holanda venceu por 2 a 1, de virada. Mais promissor, impossível. E a partida confirmou todas as expectativas. Os holandeses, vindos de três empates na primeira fase, finalmente decidiram mostrar o que sabiam, embora Gullit tivesse problemas físicos. A expulsão, na metade do primeiro tempo, de Rijkaard e do ótimo atacante alemão Völler acirrou ainda mais a tensão. A Alemanha, sempre mais perigosa, se impôs no segundo tempo, com belos gols do atacante Klinsmann e do lateral-esquerdo Brehme, contra um de Koeman, de pênalti, no final. Mais uma exibição de gala de Matthäus e outra grande vitória, que colocou os alemães definitivamente na rota do título.

No jogo seguinte, contra a Tcheco-Eslováquia pelas quartas-de-final, mais uma ótima exibição e uma classificação tranquila: 1 a 0, gol de Matthäus, de pênalti. Os alemães dominaram amplamente o jogo, criaram várias oportunidades e não foram ameaçados.

Enquanto a Alemanha nadava de braçada, os demais favoritos penavam. O Brasil, após três vitórias magras sobre Suécia, Costa Rica e Escócia na primeira fase, parou na Argentina em sua melhor exibição na Copa, com amplo domínio sobre os hermanos e várias chances perdidas, incluindo três que bateram na trave. Mas futebol é bola na rede, e Maradona impôs seu talento driblando três brasileiros e deixando Caniggia livre para fazer o gol da vitória. Outro confronto dramático. O Brasil deixava a Copa nas oitavas, sua pior campanha desde 66, sepultando temporariamente a Era Dunga, preconizada pelo técnico Sebastião Lazaroni.


Já os argentinos, após uma primeira fase sofrível – e uma derrota traumática  para Camarões no jogo de abertura da Copa -, ganharam novo alento com a vitória e acabaram passando depois às semifinais ao bater a Iugoslávia nos pênaltis. Aos trancos e barrancos, a Argentina chegava a mais uma semifinal.

Dos favoritos iniciais, restava a Itália. Com três vitórias sem brilho (e uma mãozinha da arbitragem) na primeira fase, a Azzurra teve dificuldades nas oitavas e nas quartas, contra Uruguai e Irlanda. Mas a tradicional força defensiva e os gols do desajeitado centroavante Totò Schillacci levaram a equipe adiante para uma histórica semifinal com a Argentina.

Faltava o adversário da Alemanha, papel que caberia à Inglaterra. Os ingleses se imporiam em duas disputas sensacionais até o confronto com os alemães. Depois de uma primeira fase insossa, com dois empates e uma vitória, a Inglaterra encarou nas oitavas a boa seleção belga. A partida, emocionante, foi dominada pela Bélgica, que mandou duas bolas na trave – uma delas num chute espetacular do talentoso meia Scifo. O 0 a 0 levou o jogo para uma prorrogação dramática. No último lance, o ótimo e irascível meia inglês Gascoigne levantou a bola na área e o atacante Platt acertou um voleio no ângulo, decidindo a parada.

O adversário seguinte da Inglaterra seria a surpreendente seleção de Camarões, primeiro país africano a chegar às quartas-de-final de um Mundial. Após a vitória inicial contra a Argentina, os camaroneses derrotaram a Romênia com dois gols do veterano centroavante Roger Milla, que entrava sempre no segundo tempo, e se classificaram em primeiro lugar no grupo. Nas oitavas, eliminaram a Colômbia com mais dois de Milla, o segundo deles após roubar a bola do excêntrico goleiro René Higuita, que tentara driblá-lo na intermediária.


Não sem razão, Inglaterra x Camarões costuma ser o jogo mais lembrado daquela Copa. Partida épica, para ficar no chavão. Um confronto entre a tradição e a zebra, entre o futebol pragmático e previsível dos ingleses e o jogo de ginga e habilidade dos camaroneses. Platt abriu o placar no primeiro tempo, mas Camarões se agigantou no segundo e produziu os 45 minutos mais empolgantes do torneio. Com um vasto repertório de dribles, tabelas e muita disposição, os Leões Indomáveis empataram num pênalti sofrido por Milla e viraram com Ekeké, ao receber passe de Milla (sempre ele) e tocar por cobertura na saída do goleiro Shilton. Já no final do jogo, o sempre perigoso atacante inglês Gary Lineker, artiheiro da Copa anterior, empatou de pênalti. Mais uma prorrogação, novo gol de pênalti de Lineker, e a Inglaterra chegava à sua primeira semifinal desde o título de 1966. Já Camarões deixava a Copa como a grande surpresa do Mundial e a seleção de futebol mais alegre da competição.

O último grande drama do torneio se daria na semifinal entre Itália e Argentina. Não bastasse o peso das duas camisas, a partida ocorreria no estádio San Paolo, casa do Napoli, que acabara de faturar seu segundo scudetto sob a liderança de Maradona. O gênio argentino tratou de aproveitar o fato para instigar o dissenso entre os torcedores locais, que se dividiram entre a paixão clubística e o amor às cores nacionais. Ele apelou inclusive ao sentimento de desprezo de que são vítimas os italianos do sul pobre e agrário por parte dos italianos do norte rico e industrializado.

É difícil saber se isso pesou, mas a seleção italiana, que até então só havia jogado em Roma, claramente tremeu. Embora Schillaci tenha feito 1 a 0 aos 17 minutos, a Itália parecia nervosa. A Argentina cozinhou a partida e começou a se impor na base da manha e da experiência. Na metade do segundo tempo, Caniggia igualou o placar de cabeça, numa saída em falso do goleiro Zenga, até então invicto na Copa. O empate enervou ainda mais os italianos e inflou os argentinos. O confronto ficou dramático. A Argentina, mesmo inferior, conseguiu levar o jogo para a prorrogação. O duelo acabou sendo definido nos pênaltis, e aí brilhou a estrela do goleiro Goycochea, que começara o torneio na reserva e entrara no segundo jogo, após o titular, Pumpido, fraturar a perna. Ele defendeu duas cobranças e colocou os argentinos na segunda final consecutiva contra a Alemanha.

A outra semifinal foi até uma boa partida, mas os alemães, menos inspirados que nos outros jogos, só conseguiram eliminar os ingleses nos pênaltis. No tempo normal, Brehme, de falta, e Lineker fizeram os gols. A Alemanha estava em mais uma final, a terceira seguida.


Alguém poderá dizer que a decisão da Copa de 90, no dia 8 de julho, foi a mais sem graça da história dos Mundiais, e eu estarei fortemente inclinado a concordar. Porque só uma equipe jogou – ou melhor, tentou. Os alemães tomaram a iniciativa e correram atrás da vitória o tempo todo, mas tiveram uma atuação pouco inspirada e enfrentaram dificuldade para criar chances de gol. Os argentinos nem ameaçaram – sua única finalização foi numa falta no primeiro tempo, que Maradona cobrou por cima do travessão, sem perigo. A Copa terminou decidida num pênalti duvidoso aos 40 minutos do segundo tempo, convertido pelo excelente Brehme – um dos raros jogadores realmente ambidestros que vi jogar, capaz de bater faltas com o pé esquerdo e pênaltis com o direito.

A Alemanha chegava ao tricampeonato em viés de baixa, é verdade. Mas o brilho mostrado nas cinco primeiras atuações não deixa dúvida de que se tratava de uma grande campeã. A taça acabou em excelentes mãos.

À Itália coube o consolo do terceiro lugar e do artilheiro do torneio, Schillaci, com seis gols. O atacante ganhou também a Bola de Ouro, numa evidente patriotada dos jornalistas italianos, maioria na cobertura da competição. Matthäus, o verdadeiro melhor da Copa (pouco à frente de Brehme), levou a de Prata, e Maradona, a de Bronze.

Se uma Copa do Mundo se limitasse à primeira fase, eu talvez concordasse que o Mundial de 90 foi o mais fraco de todos. Mas a fase de mata-mata registrou confrontos tão intensos e de tão boa qualidade que só alguém insensível às emoções do esporte pode menosprezá-lo. Quem não concorda, que (re)veja as partidas citadas. Com certeza, terá uma bela surpresa.

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