COMO O MUSEU DA PELADA SALVOU A MINHA PAIXÃO PELO FUTEBOL

por Luis Filipe Chateaubriand 

c100.jpg

Desde os oito anos, acompanho futebol. São 40 anos dedicados a este esporte tão fascinante, que nos faz sonhar, nos dá êxtase, alimenta nossa essência infantil.

Minha paixão pelo gênero esportivo era incontestável. Quantos jogos escutei com o ouvido no rádio. Quantos jogos vi na televisão. Quantos jogos vi nos estádios. Quantas resenhas acompanhei. Quantos jornais li.

Já com os meus 25 anos, fiz um trabalho na disciplina Métodos do Pensamento – do Mestrado em Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas –, sobre o tema. Cada aluno escolhia o seu tema, e debatíamos sobre os temas escolhidos nas aulas.

Meu trabalho foi o de melhor nota na disciplina. Meus colegas de Mestrado me aplaudiam, me incentivavam, diziam que eu tinha que trabalhar com isso.

Eu acreditei...

Desde então, lá no longínquo ano de 1995, alimentei a perspectiva de atuar profissionalmente com o futebol – ou na escrita, ou na gestão.

Em 1999, época da Lei Pelé, eu, já professor universitário, juntei-me a dois amigos e criamos uma empresa de consultoria em Gestão Esportiva. E, um pouco antes, já tinha começado a escrever sobre alguns assuntos do futebol, especialmente os ligados à gestão, especialmente os relacionados ao calendário do futebol brasileiro.

mp.jpg

Seguiram-se diversos livros, artigos, ensaios, palestras, entrevistas. Mas ser um profissional do futebol, no sentido de exercer uma atividade remunerada ligada ao assunto, não consegui.

Foram muitas e muitas horas de investimento, paixão, tesão, trabalho, trabalho, muito trabalho, tentando viabilizar oportunidades. Sem êxito.

Eu havia fracassado.

Em abril de 2017, depois que ministrei uma palestra sobre o calendário do futebol brasileiro para oito pessoas, quando havia a expectativa de serem centenas delas, a minha frustração explodiu... resolvi me afastar do futebol!

Havia decidido: não assistia mais futebol, não comentava mais futebol, não me informava mais sobre futebol, não escrevia mais sobre futebol, não lia mais sobre futebol.

Futebol era algo riscado de minha vida!

E, para o espanto de muitos amigos e conhecidos, foi o que fiz, disciplinadamente. Leitura sobre política, história, economia. Nada de futebol. Escritas e estudos sobre administração e ciências sociais. Nada de futebol. Debates acalorados sobre música, sociedade, costumes, outros esportes. E nada de futebol!

Passaram-se cerca de oito meses sem futebol em minha vida, e apareceu a síndrome de abstinência.

Pensei em um jogador chamado Leandro, ex lateral do Flamengo e da Seleção Brasileira, cracaço de bola.

lea.gif

Fiz uma busca pelo nome "Leandro Flamengo" no Google.

Uma das opções que apareceu para mim foi "Leandro o Papa da Lateral", uma entrevista de vídeo com o "Peixe Frito" em um sítio de internet chamado Museu da Pelada.

Fiquei bastante curioso, não me contive, fui assistir a entrevista. A síndrome de abstinência de oito meses chegava ao fim!

Fiquei extasiado com o que assisti. Estórias curiosas, engraçadas, interessantes, um clima de alto astral e de muitas risadas entre o entrevistado e o entrevistador (que depois, fiquei sabendo, chamava-se Sérgio Pugliese, editor do Museu da Pelada).

Depois de assistir à entrevista, comecei a procurar "Museu da Pelada" no Google. E encontrei mais entrevistas interessantes, mais escritos excelentes, mais ações solidárias, mais engajamento com a comunidade do futebol, mais risadas bem humoradas do Sérgio Pugliese, e mais, mais e mais... futebol em sua essência!

Daí, não resisti: voltei para o futebol, minha grande paixão, de braços abertos!

WhatsApp Image 2018-07-09 at 18.37.58.jpeg

Apesar de não ter conseguido, até a presente data, atuar de forma remunerada como um profissional do futebol, estou reconciliado com este. Afinal, o futebol me deu e me dá muito. Me dá tesão. Me dá sentimentos em sua plenitude. Me dá exemplos. Me dá emoções. Me dá raciocínios. Me dá vida!

E é assim que o Museu da Pelada age em nossas vidas: nos faz reconciliar com a nossa própria essência. A vida sem futebol seria insuportável!

Ave, Museu da Pelada, por nos fazer reconciliar com o futebol nosso de cada dia!

 

Luis Filipe Chateaubriand acompanha o futebol há 40 anos e é autor da obra "O Calendário dos 256 Principais Clubes do Futebol Brasileiro". Email:luisfilipechateaubriand@gmail.com.