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PÊNALTIS

1 / março / 2022

por Rubens Lemos


Sergio Javier Goycochea fez parte daquela seleção argentina de 1990, que, num lance espetacular de Maradona, pôs para correr a horrorosa equipe brasileira treinada pelo obtuso Sebastião Lazaroni. Dieguito driblou meio-time de amarelo e enfiou para Caniggia passar por Taffarel, tocando em seguida para o gol do 1×0 e da classificação.

Goycochea foi um goleiro mediano. Sua saída de meta podia ser classificada de temerária. Dentro da trave, vacilava em lances fáceis de defesa. Mas nos pênaltis, tornou-se o terror dos atacantes internacionais.

Somente na tal Copa de 1990, defendeu três cobranças, uma contra a Iugoslávia e duas na histórica semifinal contra a Itália, a dona da casa que se preparou para erguer a taça e acabou em terceiro lugar.

Galã na aparência, Goycochea participou de um programa da Rede Globo, despeitadíssima pela queda do bisonho time de Lazaroni, que tinha três zagueiros, dois volantes e nenhum criativo no meio-campo.

A Globo, comandada por Galvão Bueno, esplendor da chatice, queria saber os truques do Tapa Penales, epíteto característico da passionalidade portenha. A bancada platinada cercando um homem de riso irônico e absolutamente tranquilo.

Veio a pergunta:

– Como você treina e qual a sua estratégia para ser tão competente para pegar pênaltis?

Goycochea riu alto, para surpresa dos jornalistas e apresentadores e desconcertou todos eles:

– Eu não treino cobrança de pênaltis e minha tática é uma só. Fico parado no meio do gol, não me mexo de jeito nenhum e só pego os que são mal cobrados, não escolho canto nem vou por intuição em bola nenhuma.

Os teóricos da Globo ficaram impressionados. O modus operandi do argentino, simples e eficiente, derrubara batedores consagrados em todas as competições que disputou.

Até o meia Boiadeiro, ex-Vasco e Cruzeiro, cairia na cilada na Copa América de 1993, batendo no centro da baliza. Não era Goycochea que buscava a bola, mas o contrário, ela a procurava depois de maltratada pelo cobrador. Artista de televisão, protagonista da novela Por Amarte Así e ator de teatro, Goycochea foi um caso raro.

Taffarel, o melhor goleiro do Brasil em todos os tempos, ganhou jogos importantes em disputa de pênaltis, o maior deles, a final da Copa de 1994 que nos garantiu o tetracampeonato contra a Itália, caindo para barrar o chute do atacante Daniele Massaro e impondo sua figura glacial diante de Franco Baresi e Roberto Baggio, ambos chutando para fora. Em 1998, Taffarel brilhou pegando os tiros de Cocu e Ronald de Boer.

Goleiro perfeito, Taffarel superava Goycochea em qualquer fundamento e a arte de frustrar batedores vinha de sua frieza e irretocável colocação. Olhava no olho do batedor e o transformava em presa.

O pênalti, dizia uma máxima boleira, é tão importante que deve ser cobrado pelo presidente do clube. Hoje, no Brasil, o cartola, seja ele gorducho, passado na idade e até perneta, bem poderia assumir a responsabilidade diante da incompetência ridícula dos seus jogadores.

Bater pênalti é competência, nada de psicologia. Quem sabe, bate e bate convicto e bonito. Um pênalti saído dos pés de Roberto Dinamite e Geovani do Vasco, Bebeto (Flamengo e Vasco), Marcelinho Carioca, Ronaldinho Gaúcho e Djalminha do Palmeiras assumia ares de obra de arte pela classe, malícia e humilhação do goleiro.

A recente decisão da Supercopa entre Atlético Mineiro e Flamengo, num domingo à tarde monótono e cinzento, virou programa de humor. Nada menos que 24 cobranças e nove erros. Grotescos, todos os chutes para fora ou defesas dos goleiros que, aliás, também bateram mal.

Pênalti decisivo é para quem tem colhão. Romário em 1994 não treinou um disparo sequer e fez o dele. Márcio Santos acertou tudo nos treinos para falhar quando não podia.

Gabigol, o dito galáctico do Flamengo, correu da raia, escapuliu pelas veredas do gramado e não cobrou na série decisiva contra o Galo. Gabigol tem pose de craque e qualidade nota 6,5. Goycochea, imóvel, pegaria cada cobrança dele. Taffarel, espalmaria de costas.

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