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O DIVINO ADEMIR DA GUIA: O CAMISA DEZ GENIAL QUE BROTOU EM BANGU

4 / abril / 2020

por André Felipe de Lima


Quando Ademir da Guia começou no Bangu, ele era reserva de um jogador chamado Valter. Por enxergarem semelhanças com o pai Domingos da Guia, o escalaram como zagueiro. Mas o que Ademir fazia de melhor era armar jogadas na meia cancha.  Jogou pelo infantil do Bangu em 1957 e conquistou o terceiro lugar do campeonato estadual da categoria. No ano seguinte, o vice-campeonato estadual. Seus primeiros treinadores, Moacir Bueno e Elba de Pádua Lima, o Tim, foram essenciais para moldar o craque. “Tive muita ajuda e orientação do Moacir Bueno. Ele tinha jogado com meu pai no Bangu e foi meu primeiro treinador. Depois, no juvenil, o treinador era o Elba de Pádua Lima, o Tim. Também com ele tive um aprendizado muito grande, muito rico. Ele me ensinou muita coisa.” 

No início de 1959, Domingos da Guia decidiu levar o filho para jogar em São Paulo. Pretendia um teste para o menino no Corinthians, mas o desembarcar na capital paulista, mudou de ideia e o levou para o Santos. Ademir fez o teste e foi aprovado, mas por divergências salariais, Domingos optou retornar ao Rio com o jovem e decidir se aceitaria os nove mil cruzeiros oferecidos a Ademir. O prazo expiraria no carnaval, mas antes disso, da Guia, o pai, recebeu uma proposta para treinar o infantil do Bangu e Ademir, para integrar-se ao juvenil. O salário dos dois correspondia quase a metade do que o Santos desembolsaria para ter Ademir.

Foi em 1959 — e no Bangu mesmo — que começou a ser desenhada a brilhante carreira do último remanescente da dinastia “Da Guia”. Com Ademir a frente do Bangu, os grandes clubes ficaram a ver navios. O time da zona oeste se sagraria campeão carioca de juvenis. Como prêmio pelo extraordinário feito, a diretoria integrou quatro juvenis ao time de profissionais que embarcou, em junho de 1960, para os Estados Unidos, onde o Bangu surpreenderia times como Sampdoria, Sporting de Lisboa, Rapid Viena e Estrela Vermelha, de Belgrado, sagrando-se campeão do I Torneio de Nova Iorque. Além de Ademir, viajaram Helinho, Durval — aquele mesmo, o amigo das primeiras peladas — e Zé Maria.

“Fomos para o Galeão, Super Constellation, aquele aviãozão (sic) grandão. Andamos (sic) 24 horas de avião para chegar à Nova York, aí a gente dormia, acordava, não chegava nunca [risos], o avião estava parado lá, o pessoal: ‘Ademir, pode abrir a janelinha!’ [risos] e eu ficava quietinho ali. Aí chegamos em Nova York, aquela cidade lá espetacular, a gente treinava no campo de, acho que era polo, porque não tinha campo de futebol, fizeram uma adaptação. E lá tinha o Sampdoria, tinha o Sporting, tinha time da Escócia, da Suécia, tinha vários times, e a gente não sabia falar também, a gente aprendia algumas palavrinhas, How much, Coca-Cola a gente pedia toda hora [risos]. Mas foi uma coisa sensacional, nós ficamos um mês em Nova York, na rua 42, toda hora a gente estava na rua 42, e foi uma coisa, assim, sensacional, porque a gente sair de Bangu, parar em Nova York, ver toda uma cidade espetacular, nem Gávea, nem Flamengo, nem Botafogo eu conhecia [risos]. A gente ia lá jogar contra o Fluminense, nas Laranjeiras, jogamos contra o Flamengo, na Gávea, contra o Vasco, lá em São Januário, mas não tinha assim, não conhecia direito o Rio. Ai se vê lá em Nova York, sendo campeão, e eu fui escolhido o melhor jogador do torneio, aí, na hora lá, me deram um envelope cheio de dólares, eu guardei, pensei comigo: ‘Deve ter bastante dólar!’ [risos]. Quando cheguei lá no quarto do hotel e tal, ‘o melhor jogador do torneio’, aí, quando eu fui abrir, eu vi que tinha um dólar só [risos]. Eu fiquei decepcionado, podiam ser dois mil dólares, estava pronto para comprar um monte de coisas. Mas aí fomos campeões, pegamos um jato, nove horas estávamos descendo no Galeão […] A gente levou 24 horas de Super Constellation para chegar lá, e a gente já começou a perceber que ser campeão era importante.” 

O filho do ex-zagueiro Domingos da Guia entrou no time titular profissional do Bangu e lá ficou até o Palmeiras entrar em sua vida.


Um ano antes de chegar a São Paulo, o futebol de Ademir da Guia era motivo de reportagens na imprensa paulista que especulavam a possibilidade de o jovem craque do Bangu jogar ao lado do também jovem Pelé. Sendo filho de quem é o intenso holofote era mais que natural. Domingos da Guia apostava no sucesso do rapaz: “O pai não tem queixas do que ganhou com o futebol. Entretanto o filho tem tudo para brilhar e ganhar muito. Ganhar para viver, quando deixar o futebol. Tem futebol para isso. Cumpre a risca as determinações de seu técnico, bem como os conselhos dados pelo pai. Não poderia ser melhor. É um legítimo herdeiro do futebol praticado pela família.”

Ademir de Menezes, amigo dos Da Guia, também previa o sucesso do menino: “Grande futebol tem o garoto. Posso assegurar que será um dos integrantes da seleção brasileira nos jogos do Campeonato Mundial de 62. Sabe dominar com facilidade o meia da cancha. Entrega a bola com máxima perfeição. Em suma, é um jogador extraordinário. Está de parabéns o futebol brasileiro, contando com outro valor positivo. Se ouvir bem os conselhos do papai, não tenho a menos dúvida, irá longe. Seu técnico, meu amigo Tim, saberá elevar mais o seu futebol.” 

O ingresso de Ademir no Palmeiras teve um responsável. Um, definitivamente não. Eram dois. O primeiro foi o então técnico do Guarani Armando Renganeschi. Ao vê-lo jogar pelo Bangu em uma partida contra o time de Campinas, não titubeou. Sugeriu aos dirigentes do Guarani que contratassem Ademir. Pedido recusado, o garoto permaneceria no Bangu e somente em 1961 uma nova investida de Renganeschi para ter Ademir seria bem-sucedida. O felizardo? O Palmeiras, onde o ex-técnico do Guarani passou a dar as cartas no futebol. O presidente do clube alviverde, Delfino Facchina, e o diretor de futebol, Arnaldo Tirone, acataram a “ordem” do técnico e pagaram três milhões e oitocentos mil cruzeiros ao Bangu para ter o russinho no Palestra. Quantia considerada na época muito abaixo do que realmente valia Ademir.

Amanhã, você saberá como Ademir da Guia foi recebido pelo Palmeiras. Uma das jornadas mais belas de um jogador de futebol com o clube que o fez gigante. Até lá.

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