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O CISNE DE UTRECHT

29 / setembro / 2020

por Marcos Vinicius Cabral


Amigos de infância, Marco e Jopie eram inseparáveis.

Viviam na província de Utrecht e costumavam patinar nos rios congelados da circunvizinha Maarssen, pequena cidade com pouco mais de 40 mil habitantes, situada na parte baixa da Holanda.

Numa tarde, ao não percebe um buraco no gelo da espessa neve, Jopie caiu para desespero do amigo Marco, que tentou salvá-lo.

Foi em vão.

O amigo morreria congelado e afogado minutos depois, enquanto Marco se aprisionaria por um bom tempo nas lembranças daquele dia.

O tempo passou e o futebol ia sendo apresentado aos poucos ao menino de seis anos de idade pela família van Basten em doses homeopáticas, afim de cicatrizar a ferida aberta pelo infortúnio ocorrido meses antes.

Perdas e danos seriam tão normais em sua vida como (des) amarrar os cadarços das chuteiras.

Passou então a ser incentivado por sua mãe Leny a acompanhar Joop, que além de bom marido e excelente pai, era um zagueiro respeitável nos campos amadores de futebol da cidade holandesa.

Assim o menino não se fez de rogado e mesmo enlutado pela perda do amigo Jopie, seguiu os conselhos de sua genitora.

Não queria – apesar de boa estatura – ser como o velho pai e com seu talento natural, virou o paradoxo do que fora milimetricamente planejado: em vez de defender, ele queria atacar.

Na verdade, na verdade, vos digo: fazer gols mexia com o menino.

Aos sete anos, de mãos dadas com o pai, entrou nos portões do UVV, pequena equipe amadora de Utrecht, cidade onde nascera, e nos treinamentos, encantou a todos pela habilidade.

Por ser mais alto que a maioria dos meninos de sua idade, era impossível não notá-lo: Marco chamava a atenção.

Contudo, dores infernais incomodavam seus tornozelos e numa consulta despretenciosa com o ortopedista do clube, Drº Rein Strikwerda (1930-2006), foi constatado que era necessário parar de jogar ou viver pelos próximos anos confinado numa cadeira de rodas.

Palavras duras demais para uma criança que tinha uma (talentosa) carreira pela frente.


Pai e filho não lhe deram ouvidos e Strikwerda – que ganhou projeção internacional ao descrever a lesão no menisco que muitos atletas sofriam para tratá-la – lavou as mãos.

Ali, na antessala do consultório do médico, Marco van Basten e o pai Joop, se abraçaram, e decidiam que aquele ciclo de três anos havia chegado ao fim.

Foram para o Elinkwijk, outro modesto clube amador e aos dez anos, continuava a ser o mesmo garoto de sempre: habilidoso, goleador, bom driblador e acima de tudo frio, muito frio nas finalizações das jogadas que resultavam na maioria delas, em gols.

Mas o futebol ainda não era o que fazia seus olhos brilharem, o que ocorreria cinco anos mais tarde, quando aos quinze, recém-saído da infância e recém-chegado à adolescência, se apaixonou verdadeiramente pelo esporte e passou a desenhar como passatempo.

Desenhando – não era craque como o cartunista argentino Guillermo Mordillo (1933-2019) – e poucas não foram às vezes que Joop e Leny, ficavam observando o pequeno Marco, sentado no chão e riscando em folhas Moulin du Roy, escudos, uniformes, jogadas, assistências, gols, e tudo que mencionassem dois de seus maiores ídolos: o francês Didier Six e o compatriota Johan Cruyff (1947-2016).

O tempo passava e cada vez mais retraído, os acontecimentos iam arrefecendo seus sentimentos até ser visto por Aad de Mos, então técnico do Ajax, que percebeu no garoto de dezessete anos, um craque na acepção da palavra.

Era 3 de abril de 1981.

Um ano depois, na primeira partida como profissional, em 1982, contra o NEC, foi inesquecível para os ‘Filhos dos Deuses’, que em frenesi, viram seu primeiro gol com a camisa do Ajax, após ter entrado em campo substituindo Johan Cruyff, que prestes a pendurar as chuteiras, dava seus últimos suspiros na carreira, voltando ao time que o consagrou.

Consagração que o atacante de 1,88m com incrível poder de conclusão, alcançaria muito em breve, para ser mais exato em 1983, na estreia na seleção holandesa (e no mesmo ano, na presença no Mundial sub-20).

Cirúrgico em definir jogadas como pouco se viu no futebol, dois anos depois, foi eleito o melhor jogador do ano na Holanda, e em seguida, a Chuteira de Ouro europeia, na temporada 1985/86 parariam em suas mãos, após usar os pés para marcar 37 gols em 26 jogos disputados.


Tudo ia bem, até sua mãe Leny van Basten, sofrer um AVC e em seguida, catorze dias depois, um infarto, no qual fez com que o marido Joop, então incentivador presente da carreira do filho, tivesse que assisti-lá até sua morte.

Sozinho e sem a figura paterna por perto, teve que deixar a casa dos pais, indo viver com Liesbeth van Capelleveen, então namorada, e há vinte e um ano esposa e mãe de seus três filhos.

No fim do mesmo ano, lesionaria pela primeira vez o tornozelo direito, tamanha a vontade que os adversários no Campeonato Holandês chegavam para marcá-lo.

“Se você não jogar e vencer, eu destruo você”, ouviu certa vez do treinador Cruijff – o ídolo que era desenhado por ele quando criança – enquanto fazia tratamento no Departamento Médico, semanas antes da decisão da Recopa contra o Lokomotive Leipzig, no Estádio Olímpico de Atenas, na Grécia.

Levando ou não a sério as palavras do técnico e maior jogador do futebol holandês, van Basten usou a cabeça para lembrar da ameaça quando fazia tratamento para recuperar da lesão no tornozelo direito e com ela marcou aos 21 minutos do primeiro tempo, o único gol da partida, garantindo o título.

Em 172 jogos pelo Gigante de Amsterdã, estufou 152 vezes as redes adversárias e chamou a atenção de Silvio Berlusconi, do Milan, do calcio, o ‘Eldorado’ da bola.

Contratado, em sua primeira temporada, foi comandado pelo então ‘novato’ Arrigo Sacchi e contava com Baresi, Maldini, além dos holandeses Gullit e Rijkaard.

Apesar de conquistar o scudetto com o Milan, o camisa 9 sofreu um bocado com as lesões e participou de apenas 19 jogos, marcando ínfimos oito gols.

A desconfiança, porém, foi deixada de lado logo ao final daquela temporada, quando o matador foi o grande craque da Eurocopa de 1988, disputada na Alemanha Ocidental.

Artilheiro com cinco gols e melhor jogador da competição, van Basten foi essencial para o título holandês, único conquistado pelos holandeses até hoje, marcando inclusive um dos gols mais bonitos da história do futebol na final diante da União Soviética, do lendário Rinat Dasayev.

Ajudou o Milan a conquistar o bicampeonato da Copa dos Campeões em 1988/89 e 1989/90, sobre o Steaua Bucareste e Benfica, e com 32 gols marcados na temporada (19 na Série A e 9 na Copa dos Campeões), se tornou artilheiro no Campeonato Italiano, desbancando o Napoli de Alemão, Careca e Maradona.

Enquanto a equipe do Milan recebia o apelido de L’Invincibile, pela conquista dos dois troféus, ‘San Marco’ chegava ao nível de reconhecimento fora da Holanda inimaginável: era vencedor da Bola de Ouro, da revista France Football, por duas vezes consecutivas.

Obsessivo, continuava mortal e cada vez mais artiheiro – como nos 4 gols marcados contra o Napoli, em pleno San Paolo, e outros 4 contra o IFK Gotemburgo, na já renomeada Liga dos Campeões – o ‘Cisne Holandês’ atravessava excelente fase, a ponto de ser eleito novamente melhor jogador do mundo em 1992 – desta vez pela Fifa e também pela France Football, fato alcançado apenas pelo holandês Cruyff em 1971, 1973 e 1974 e pelo francês Michel Platini em 1983,1984 e 1985 àquela altura.

Mas se o segundo maior jogador do futebol holandês vivia grande fase, na semana em que recebia o prêmio em Kongresshaus em Zurique, na Suiça, o destino lhe sorriria de forma sarcástica, ao sofrer entrada em seu tornozelo direito, quando o Milan enfrentava o Ancona, em 13 de dezembro de 1992, pelo Italiano.

Nunca mais seria o mesmo.

Operado em 21 de dezembro de 1992, pelo Dr. René Marti (1939-2018), teve retirado pedaços da cartilagem e de ossos do tornozelo, e a partir dali, recebeu um prognóstico pessimista: não poderia mais jogar futebol.

No primeiro semestre de 1993, o ‘Gazela’ esteve em apenas três jogos, incluindo atuação apagada na final da Liga dos Campeões e meses depois, passaria pelas mãos do médico belga Marc Martens, em mais uma operação.

Não havia mais o que fazer e a carreira de um dos jogadores mais brilhantes do século XX, chegava ao fim.

Fãs inconformados não aceitavam aquilo naturalmente e o desespero era tanto, que um deles, torcedor do Milan, numa atitude intempestiva, se ofereceu para doar a própria cartilagem de seu tornozelo ao craque, numa cirurgia impossível. 

“Eu não melhorei. Só de ficar em pé o tornozelo já dói, só com uma partidinha de tênis. E não sei se os doutores sempre me ajudaram, já que de 1992 para frente a situação só piorou”, disse recentemente, lamentando não ter jogado a Copa do Mundo de 1994, após o fiasco na de 1990.


Em 18 de agosto de 1995, sem poder sequer fazer um jogo de despedida, Marco van Basten se despediu do futebol aos 32 anos.

O Estádio San Siro, com mais 70 mil pessoas, viu o fim de uma carreira curta, mas simplesmente extraordinária.

As dores físicas com que conviveu durante os treze anos como jogador profissional, só passariam em 1996, quando fixou os ossos do tornozelo com parafusos numa operação.

Mas as emocionais, como a perda do amigo Jopie, as palavras duras do Drº Strikwerda, a perda da mãe Leny em 1985 e, recentemente, do pai Joop em 2014, até hoje ressoam na memória perpassando pelos pés, até os 1,88m de altura da cabeça, onde até hoje carrega com si toda sua brilhante, mas trágica trajetória esportiva, de quem foi um dos maiores atacantes de todos os tempos.

Em 2004, quando defendia o Juventus, Ibrahimovic, aos 23 anos, recebeu um conselho do treinador Fabio Capello: buscar inspiração nos gols de Marco van Basten.

“Estávamos no Juventus e ele um dia me mostrou um vídeo dos melhores gols de van Basten e disse: “Você precisa fazer que nem ele”. Eu era jovem e aprendi muito com esse antológico jogador. Daquele dia em diante, eu comecei a marcar como os grandes”, afirmou o sueco à época.

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