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CONVOCAÇÃO

19 / setembro / 2022

por Rubens Lemos

Parávamos todos, o país suspendia seus debates sobre inflação e liberdade amordaçada, porque a seleção brasileira servia como lenitivo para as dores nacionais. Um jogo do Brasil unia extremos ideológicos e inquietava a massa alucinada por futebol.

Perdi, pelos meus parcos dois anos e meio de idade, a euforia em Natal pela presença de Marinho Chagas na primeira lista de Zagallo para os preparativos à Copa de 1974. No dia 10 de março do ano anterior, natalenses saíram de casa para soltar foguetões, esquecendo a audiência da novela Cavalo de Aço da Rede Globo, estrelada pelo casal Tarcísio Meira e Glória Menezes.

Na sede da antiga Confederação Brasileira de desportos(CDB), Zagallo anunciou Marinho Chagas como lateral-esquerdo reserva do tricampeão mundial Marco Antônio. Marinho Chagas participou de uma longa excursão para a África e Europa, escrete sendo usado de moeda eleitoral na campanha de João Havelange à presidência da Fifa.

A 07 de abril de 1974, diante de 80.552 pagantes no Ex-Maracanã, o gigante do povo humilde das gerais, Marinho Chagas tomou a camisa titular fazendo uma partida impecável e marcando o gol da vitória sobre a Tchecoslováquia. Daí, para o posto de melhor do mundo na posição escolhido após a Copa da Alemanha, ele um dos poucos a escapar do fiasco do covarde time de Zagallo.

Quatro anos depois, em 1978, assisti, de fato, minha primeira Copa do Mundo estarrecido: o técnico Cláudio Coutinho barrou Marinho Chagas, o impecável Falcão e o debochado Paulo Cezar Caju alegando indisciplina. Eram rebeldes geniais. Quase cortou o meu ídolo Roberto Dinamite, que salvaria a seleção da degola logo na primeira fase.

Expectativa também para a chamada de Telê Santana em 1982. Aquele timaço poderia ter sido muito melhor, caso o ranzinza da arte houvesse levado Leão ou Raul para o gol, Adílio para o meio-campo, Reinaldo para centroavante junto com o convocado, mas esquecido Roberto Dinamite e o vesgo genial Mário Sérgio Pontes de Paiva. Perdemos também por soberba para uma Itália de time competente e pragmático.

Telê Santana fez uma convocação medíocre em 1986, cheia de veteranos sem condição física e técnica e de medíocres da estirpe de Casagrande, Alemão, Edivaldo e do razoável Valdo que viajou apenas para passear. Deixou no Brasil: Pita do São Paulo, Andrade do Flamengo, Geovani do Vasco, sacaneou Renato Gaúcho e desprezou Bebeto.

Pior foi em 1990 com Lazaroni. Foram cinco zagueiros na lista, dois volantes e nenhum meia criativo. O que havia foi trucidado: Geovani do Vasco. O ponta-esquerda João Paulo do Guarani também jogava o fino. Esse papo de Neto injustiçado é balela. Neto não tinha bola para seleção e começou a atuar bem em 1990 no segundo semestre.

Em 1994, Parreira tetracampeão não quis Rivaldo. Em 1998, Zagallo inventou um lateral-direito ridículo, Zé Carlos, que tomou um baile diante da Holanda. Insistiu com o ciscador Denílson. Foi injusto com Romário, cortando-o. E deixou vendo tudo pela TV, dois canhotos estupendos: Alex do Palmeiras e Djalminha, ex-Palmeiras e La Coruña(Espanha).

A cada lista, desde sempre, há reações negativas. Até no tricampeonato de 1970, há remanescentes sem entender, até hoje, porque Ademir da Guia do Palmeiras e Dirceu Lopes do Cruzeiro passaram longe, enquanto Dario, o Dadá Maravilha, imposto pelo general-presidente Garrastazu Médici e o zagueiro Baldochi, ostentam a faixa mundial.

Vem aí a seleção de Tite. Não me aquece o coração saber quem vai, quem fica. A relação para os dois últimos amistosos trouxe Thiago Silva, o xerife que chora. Esse deveria ter ficado em 2014. O tal Fred é nocivo à bola. Everton Ribeiro não dispõe de categoria para a camisa amarela. Menos mal que Gabigol, o insuportável, passou batido.

Gosto de quem sabe jogar. Gosto de Bruno Guimarães no meio-campo, de Antony. Gosto do jovem Rodrygo. Gosto demais de Vinicius Júnior, habilidoso e insinuante, jogador de drible (meu requisito fundamental).

Vinicius joga demais, só não pode seguir a estrada da antipatia de Neymar, também na lista, felizmente sem o carnaval de sempre. Quem sabe, despido de máscara, Neymar possa, finalmente, jogar uma Copa do Mundo na prática.

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