DEFENSORES DA COLINA DO ALTO DA VISTA ALEGRE: O VELHO JOGADOR

por Mauricio Marzano

O texto "Adeus às Armas", publicado na coluna "A Pelada como ela é" em março de 2012 no O Globo, em que Chiquinho do Galo Branco era personagem de destaque, ganha agora uma sequência emocionada. Maurício Marzano nos informou sobre o falecimento de seu tio em 12/6/15 e enviou esse texto em sua homenagem.

Era meu tio. O mais novo entre oito irmãos e o único que ainda vivia. Já passara dos oitenta e as vicissitudes da idade já lhe pesavam sobre o corpo e a saúde, mas não sobre a mente, sempre lúcida e dotada de uma inteligência afiada e um senso crítico incomum.

Mal havia iniciado o ano de 1928 e as comadres já diziam para a minha avó que o bebê nasceria lá pelo final do mês de fevereiro. Talvez não esperasse o Carnaval, diziam umas. Talvez nascesse na Quaresma, replicavam outras. Se fosse homem, dizia ela, seria Francisco igual ao pai. Melhor, Francisco José idêntico ao pai. Este desejo de ter um filho chamado Francisco vinha desde sempre. Por uma circunstância ou outra, não conseguia realizar aquela vontade. Ou porque um filho nasceu no dia de um santo importante. Ou porque um fato maior a obrigou a escolher outro nome.  E os filhos mais velhos vieram a se chamar Benedito, Cosme, Sebastião e Antônio. E nenhum era Francisco. Como Francisco de Assis, o santo, ou como Francisco José, o pai, conhecido nas redondezas como o Chico do Jota de Itaverava.

Carnaval passou, chegou a Quaresma e, exatamente na primeira quarta-feira depois das Cinzas, Francisco José veio ao mundo enquanto a folhinha de Mariana dependurada na parede da Casa Grande do Prado em Lafaiete, ou melhor, Queluz de Minas indicava o dia 29 de fevereiro. O inusitado da data causou uma mal explicada angústia em Chico do Jota, mas minha avó, mulher de uma fé inquebrantável em Deus, via aquela coincidência como um bom augúrio, um sinal da Divina Providência sobre o menino Chiquinho, como veio a ser conhecido para se diferenciar do outro Francisco, o pai Chico do Jota .

A angústia de Chico do Jota provou ter fundamento. Meu avô era um homem de ação e acreditava na força e no valor do trabalho. Ele via o trabalho com o fervor de um calvinista, se calvinistas houvesse no interior das Minas Gerais. E os frutos do seu trabalho já apareciam e lhe mostravam um rumo seguro e promissor para o futuro. Mas a fatalidade o atingiu antes dos quarenta anos, interrompendo sua luta e seus sonhos. Uma reles infecção, um tempo sem antibióticos e uma medicina empírica com médicos semi-curandeiros se juntaram e conspiraram para tirar-lhe a vida em poucos dias. Mal seu corpo baixou à terra, minha avó compreendeu que era dela a missão de criar os oito filhos, o maior com treze anos e o menor com dois meses, e que só contaria com o seu trabalho e esforço próprio para esta tarefa quase inimaginável. Não que não houvesse recebido apoio dos familiares, todos lá do distante distrito de Itaverava, todos homens do campo, acostumados à dura faina de cuidar do gado e da terra para produzir o pão nosso de cada dia. Mas a ideia de todos eles era levar os meninos para as fazendas para se instruírem na lida bruta de tratar a terra. Minha avó, com a firmeza bíblica da mulher forte, recusou: “Eu não quero que meus filhos vivam para candiar boi dos outros”. E minha avó, viúva de um empresário bem sucedido, viu-se, da noite para o dia, transformada em costureira, profissão que abraçou com o mesmo fervor, crendo firmemente na força e no valor do trabalho.

Os próximos dez anos seriam de luta incansável. As meninas ajudavam nos afazeres domésticos e os meninos, à medida que cresciam, começavam a trabalhar. Um foi ser caixeiro num armazém. Outro foi ser chauffeur. Um terceiro fez concurso para a Central do Brasil. Chiquinho só viria a compreender as dificuldades daqueles anos já na idade da razão, quando o esforço conjunto já começava a atingir os resultados esperados. Mas carregou por toda a vida a sina e a tristeza de não ter conhecido, de fato, o outro Francisco, o Chico do Jota, seu pai.

Festa de aniversário do Guarany

Festa de aniversário do Guarany

Queluz na época era uma típica cidade mineira que orbitava entre algumas instituições. A principal era a Igreja de São Sebastião. Não falei Igreja Católica, prestem atenção, falei Igreja de São Sebastião. Isto porque não havia lá maior autoridade eclesiástica e nem mais devoto seguidor dos ensinamentos de Jesus Cristo do que o Padre Antônio, o seu pároco. Nem Suas Santidades, Pio IX e depois Pio XII, em suas cátedras na distante Roma, foram mais respeitados, amados ou, eventualmente, temidos do que o querido cura.  Outra instituição era a Estrada de Ferro Central do Brasil, inaugurada no Século XIX, por ninguém menos que Sua Majestade Imperial D. Pedro II. Todos queriam ser ferroviários e todos lutavam por um lugar ao sol, ou melhor, um lugar ao lado dos trilhos. A terceira instituição, talvez, exagerando um pouco, em igualdade com as outras duas, era o Guarany Sport Club. Isto mesmo, um time de futebol, aquele estranhíssimo esporte trazido pelos igualmente estranhos ingleses da ferrovia no princípio do Século XX e que, por um destes mistérios imponderáveis e insondáveis da natureza, foi aceito pela comunidade local com direito a todos aqueles nomes exóticos: back, half, foul, corner, penalty, referee...

E o Guarany, time dos ferroviários da Central do Brasil, era o time de toda a família. Dos irmãos, é claro. Mas também das irmãs e da mãe, como fora o time de um de seus fundadores no distante 7 de setembro de 1910, o pai Chico do Jota. E eram todos torcedores, jogadores, dirigentes do time do coração. Criança ainda, Chiquinho se candidatou a uma vaga no infantil. Era fácil conseguir a vaga. Os irmãos mandavam no clube. Um era secretário, outro era jogador, outro era isto, outro era aquilo. Embora haja desmentidos inflamados dos primos, os outros quatro irmãos mais velhos eram ruins de bola. Se não chegavam a ser pernas-de-pau, estavam bem perto. O dirigente de plantão, quando via um dos irmãos furando uma bola ou deixando passar um atacante adversário, ia com muito tato e convidava o perna-de-pau a virar cartola. Começava dando-lhe uma representação qualquer. Podia ser uma cerimônia na prefeitura, podia ser um casamento, um enterro, qualquer coisa. Depois era eleito segundo secretário ou segundo tesoureiro e, para alívio de todos torcedores, este irmão deixava o gramado, pendurava as chuteiras e passava a usar uma reluzente cartola. Quando deixaram Chiquinho entrar no infantil, pensava-se que ele seguiria o caminho dos irmãos, todos grandalhões fortes e meio - ou muito - grossos. Mas Chiquinho tinha um amor pela bola e sabia tratá-la bem. Estava muito distante dos irmãos. Era um craque. Alçou-se às divisões superiores e chegou à equipe principal ainda quase adolescente.

É importante ressaltar que estas atividades esportivas eram todas amadorísticas e que isto tudo era feito mantendo-se o trabalho regular para o sustento do dia-a-dia. Chiquinho não podia ser jogador de futebol em tempo integral. Tinha que ganhar o pão de cada dia, como na sentença bíblica, com o suor do rosto. Ganho o pão, o suor remanescente molharia com um esforço adicional a camisa tricolor do Guarany no Alto da Vista Alegre, poético nome do campo e, depois, do estádio do nosso time amado por todos. Entre uma partida e outra, um campeonato e outro, uma grande vitória e uma triste derrota, Chiquinho trabalhou na mineração de ferro da Siderúrgica Nacional quando de sua implantação na Segunda Guerra, foi motorista da mineração de manganês da subsidiária local da US Steel – que, por uma destas ironias da vida, dava o nome e patrocinava o Meridional,  o grande, o maior adversário do Guarany –   e foi comerciante, sendo proprietário e gerente do famoso e inolvidável Bar Galo Branco que, ao longo dos anos, dia após dia, era o foro especializado, era a arena, e algumas vezes até o ringue,  para as mais acaloradas discussões sobre futebol, entre churrasquinhos no espeto, sanduíches de “bauru” e cervejas, muitas cervejas,  entrecortadas sempre por algumas – ou muitas – palavras de calão, naturalmente impublicáveis.  O trânsito não era intenso naqueles anos, mas a multidão que lá comparecia ao anoitecer ocupava grande parte da Rua Marechal Floriano quase fechando a travessia da Central do Brasil, obrigando um outro carro desavisado a abrir caminho cuidadosamente entre os grupos em discussão.

A carreira de Chiquinho no Guarany foi brilhante. Infantil, juvenil, equipe principal, equipe de veteranos.  Já veterano, com a calvície acentuada, herança direta dos Costa Carvalho, família de Vó Miquita, e marca indelével dos tios e primos, jogava ao lado de sobrinhos. Mesmo assim, nunca aceitou a cartola, por mais honorífica que fosse. No dia em que alguém lhe pediu para representar o Guarany em uma solenidade, ele, irônico, respondeu: “Represento sempre o Guarany. Mas só dentro das quatrolinhas.”

Finalmente, chegou a hora de pendurar as chuteiras. Já era um senhor maduro e sabia que a hora de sair tinha chegado. Mas não abandonou o esporte. Jogava suas peladas em timinhos amadores. Iniciou-se no vôlei, futsal, basquete, etc. Era o técnico que parecia entender tudo de futebol. Era o comentarista com opiniões duras e firmes. Uma vez, num time de sobrinhos, ele decidiu entrar. Foi uma decisão unilateral.  Comunicou à irmã, mãe dos líderes do time, que queria ser parte da equipe e pronto. O sobrinho técnico anuiu – como contrariar a mãe e magoar o tio bom de bola? -  mudou seus esquemas estratégicos e sugeriu, cuidadosamente, que o Tio Chiquinho ficasse no banco para ser substituído segundo planos táticos deste primo-professor. Ele na mosca: “Não fico no banco. Começo jogando. Se cansar vou embora.” E citando Nelson Rodrigues finalizou: “Craque e mulher bonita não tem idade. Júlio César nunca quis saber a idade de Cleópatra e nem Salomão a idade da Rainha de Sabá”.  Em outra ocasião, o técnico era ele e barrou dois sobrinhos ruinzinhos de bola, com a desculpa que eram muito jovens. Os meninos reclamaram: “Mas, tio, o Feola convocou o Pelé com 17 anos”. Resposta fulminante: “Eu não sou o Feola. E vocês não são o Pelé”. Não preciso dizer que os dois primos ruins de bola não abandonaram o futebol, é claro, mas aceitaram de bom grado a cartola honorária e acabaram ambos assentando-se na diretoria do Guarany, tendo ambos, posteriormente, presidido em grandes momentos o clube do coração da família..

Chiquinho e o goleiro Véio Sarará

Chiquinho e o goleiro Véio Sarará

Chiquinho, com seu amor ao esporte, adquiriu um notável conhecimento de futebol. Sabia tudo e tinha uma opinião forte sobre tudo, muitas vezes, ou na maioria das vezes, uma opinião heterodoxa: “Em 50, o Campeão do Mundo tinha nome, sobrenome e endereço conhecido, Obdúlio Varela. Os outros dez foram meros coadjuvantes para tirar a foto da vitória”, ou então, “Pelé é bom, mas em certos jogos ele se parece mais com o Pão Velho, jogador lá de Gagé”, e sobre um goleiro que ele admirava pouco, “Se tivessem levado um goleiro, um goleiro qualquer, por exemplo, o Véio Sarará da Cachoeira, o Brasil teria sido campeão.”

Para ser justo com Chiquinho, estas opiniões heterodoxas não eram exclusividade dele. Meu pai, Zé Cosme, irmão dele, levou um sobrinho, o Tonho da Lica, para treinar no Cruzeiro de BH. Voltou decepcionado: “Tonho jogou muito mal. Parecia o Gerson no meio do campo”. Um primo não entendeu: “Que Gerson, padrinho?”. A resposta: “o Gerson da seleção.” Meu pai comparava o sobrinho que tinha jogado “mal” ao tricampeão Gerson, o canhotinha de ouro. Vá lá entender estes Nascimentos...

O tempo passou. O Brasil deixou de ser o país do futebol. Não havia mais Gersons e nem Pelés, por pior que pudesse ser o conceito que faziam deles os irmãos de opiniões heterodoxas e axiomáticas. O Guarany, pouco a pouco, foi sendo abandonado. Os dois sobrinhos, aqueles mesmos meninos que tinham sido barrados pelo técnico Chiquinho e que tinham presidido o time até pouco tempo antes, ambos médicos conceituados em Lafaiete, partiram precocemente para a eternidade, deixando órfãos, além de seus filhos, parentes, amigos e pacientes,  o Guarany Sport Club, clube que julgavam, erroneamente, imortal...

No centenário do clube, em 2010, Chiquinho, convidado de honra, chegou a ir ao Alto da Vista Alegre. Por fora dava para ver que o tempo corroía as estruturas do estádio que, de relance, parecia uma ruína de tempos pretéritos. Recusou-se, definitivamente, a entrar. Não disse, mas nós subtendemos que ele não queria ver o Guarany agonizando. Não queria ver o Guarany morrer aos poucos de inanição.

Veio o golpe final para Chiquinho. Um grupo de financistas, negocistas, arrivistas, oportunistas e outros istas conseguiu tomar de assalto a direção do clube, àquela altura a deriva, e, com isto, controlar seu patrimônio para poder demolir, antes do Natal de 2013, o estádio do time fundado pelo pai Chico do Jota, presidido pelo irmão Zé Cosme e pelos sobrinhos Altair e Dimas e em cujo gramado brilhou a sua estrela de craque, a estrela de Chiquinho do Nascimento. Por que isto? Perguntavam todos. Ora, porque é hoje uma área nobre. Pode ser um supermercado, pode ser um shopping, pode ser isto, pode ser aquilo, pode ser aquilo outro. Pode ser o que for, mas jamais será de novo o campo do Guarany Sport Club. Jamais voltarão a se ouvir os aplausos e vaias imortais. Jamais voltará a se ouvir a torcida em coro aos gritos contra o juiz, os bandeirinhas e os atacantes adversários. Um silêncio sepulcral se abateu para sempre no Alto da Vista Alegre, que visivelmente perdera a alegria de sua vista.

Chiquinho sabia que a história do futebol brasileiro tinha começado com milhares de Guaranys espalhados, como se dizia antigamente, do Oiapoque ao Chuí. De suas várzeas e campos de terra, nasciam os craques. Chiquinho intuiu também que a destruição do Guarany de Lafaiete e de milhares de outros Guaranys espalhados por aí era também a destruição do futebol brasileiro. Por isto ficou silente. Silente e triste. “Brasil, dizia ele, não será campeão. Quem ganha jogo é amador. Profissional ganha dinheiro”. Frase de efeito? Talvez. Ou quem sabe um pressentimento? Nunca saberemos.

Copa do Mundo de 2014. A saúde fortemente abalada, mas a lucidez ainda presente. Um neto aproxima-se de seu leito. “Vô, a Copa começa o mês que vem. No Brasil!” O velho jogador esboça um sorriso, faltam-lhe forças. “Vô, quem vai ser o Campeão do Mundo?”. Faz um esforço e diz com voz baixa mas audível:“Alemanha”.

No dia 11 de junho, Chiquinho despede-se de uma longa e fecunda existência, fecha os olhos e muda-se para as etéreas plagas onde, segundo Castro Alves, vivem os heróis do Novo Mundo. Não esperou a abertura da Copa no dia seguinte, quando o Brasil, contrariando talvez seus prognósticos, derrotou a Croácia por 3 x 1. Escutei o jogo no rádio do carro, voltando de seu sepultamento em Lafaiete e pensando em suas expectativas: Alemanha, campeã do mundo.

Hoje ao rememorar aqueles fatos, acho que Deus foi generoso com Tio Chiquinho, poupando-lhe o dia 8 de julho de 2014 e os 7 x 1 no Mineirão, estádio tantas vezes frequentado por ele. A sua profecia, infelizmente, se cumpria. E de forma dramática. Mas ele não estava mais aqui para presenciá-la. E, neste dia, o silêncio sepulcral reinante no Alto da Vista Alegre parecia mais intenso do que nunca... Não era só o Guarany que morria, era o futebol brasileiro.