BOLEIRÊS

por Marcelo Vieira

O universo surgiu quando eram decorridos 40 minutos do primeiro tempo do Fla-Flu que deu origem à série. Essa teoria cosmológica é de Nelson Rodrigues, mas não há notícia de que Stephen Hawking tenha discordado dela. Outra fonte insuspeita, o Gênesis, conta que nesse comecinho a palavra – que era Deus em pessoa – pairava na superfície do abismo, como chamavam a geral daqueles tempos bíblicos.  

Os 40 do primeiro tempo, porém, não demoraram a chegar para que o futebol desse origem ao universo, e o verbo se tornasse carne, ou melhor, gíria. “Frangueiro!”. Era a primeira vez que o grito ressoava pelas arquibancadas, terrestres ou celestes, mas o goleiro que acabara de sofrer o tento não teve dúvidas: o negócio era com ele. Os deuses do futebol se compadeceram da solidão do goleiro e criaram não somente um, mas dois companheiros: o perna de pau e o banheira. Estava formada a Santíssima Trindade dos campos de pelada.   

Porteira aberta, as gírias futebolísticas não demoraram a virar uma boiada – ou goleada. São João Saldanha, um dos patriarcas do Pentateuco futebolístico, batizou o pedaço da grande área onde as disputas entre centroavantes, zagueiros e goleiro são tão duras que a grama não cresce de “zona do agrião”, no caso, o único vegetal capaz de prosperar naquele cenário. 

Se outro profeta do esporte, Charles Muller, responsável pelo êxodo do futebol para o Brasil, tinha a malandragem de tocar na bola com um chute dado com o lado de fora do pé, enquanto a perna permanecia dobrada para trás, não havia dúvidas: trata-se de uma autêntica “Charleira”, que, anos mais tarde, virou só “chaleira”, para facilitar.

A origem das palavras que formaram aos poucos o mais universal de nossos idiomas, o boleirês, nem sempre era tão épica. Detalhes mais comezinhos como itens de vestuário também tinham vez. Por exemplo, o chapéu que os ricaços que praticavam o futebol nos seus princípios usavam deu origem a termo que designa os dirigentes do esporte: “cartola”. 

Da pecuária, veio o “corneta”, aquele torcedor ou dirigente que tenta influenciar a escalação do time, inspirado pelo boi-corneta, aquele membro do rebanho que, pelo mugido, consegue reunir outros bovinos em torno de si. O turfe colaborou com o “crack”, termo aplicado aos melhores cavalos de um páreo, que logo virou sinônimo dos melhores jogadores.

O campo das relações internacionais, por sua vez, aproximou o futebol da política. Um tanto volúvel em suas alianças, Carlos Emanuel III, rei da Sardenha, trocava as cores da casaca dependendo de quem fosse o aliado da vez: França ou Espanha.

E por aí vai, “tomar um chocolate”, “dar um tapa na bola”, “armar um sururu”, “fazer um gol de placa”... Novas gírias e jargões continuam surgindo todos os dias para provar que o futebol é um jogo tão falado quanto jogado. 

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